A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 5: Verba mea auribus percipe, a oração da manhã
Verba mea auribus percipe
O salmo 5, *Verba mea auribus percipe*, é a oração da manhã do justo: ao raiar do dia, Davi se coloca diante de Deus, entrega-lhe a jornada no meio de inimigos mentirosos e pede para ser guiado na sua justiça. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo parte por parte, o seu lugar nas Laudes e no Ofício dos Defuntos, e a maneira de rezá-lo.
1 In finem, pro ea quæ hæreditatem consequitur. Psalmus David.
1 Para o fim, por aquela que consegue a herança, Salmo de Davi.
2 Verba mea auribus percipe, Domine ; intellige clamorem meum.
2 Senhor, dá ouvidos às minhas palavras, escuta o meu clamor.
3 Intende voci orationis meæ, rex meus et Deus meus.
3 Atende à voz da minha súplica, rei meu e Deus meu.
4 Quoniam ad te orabo, Domine : mane exaudies vocem meam.
4 Porque a ti orarei: De manhã, Senhor, ouvirás a minha voz.
5 Mane astabo tibi, et videbo quoniam non Deus volens iniquitatem tu es.
5 Ao despontar do dia me coloco na tua presença e te verei: Porque tu, Deus, não queres a iniqüidade.
6 Neque habitabit juxta te malignus, neque permanebunt injusti ante oculos tuos.
6 Não habitará ao pé de ti o maligno: Nem os injustos permanecerão diante de teus olhos.
7 Odisti omnes qui operantur iniquitatem ; perdes omnes qui loquuntur mendacium. Virum sanguinum et dolosum abominabitur Dominus.
7 Aborreces a todos os que obram a iniqüidade: Perderás a todos os que proferem a mentira. O Senhor abominará o varão sangüinário e doloso:
8 Ego autem in multitudine misericordiæ tuæ introibo in domum tuam ; adorabo ad templum sanctum tuum in timore tuo.
8 Eu porém, confiado na multidão da tua misericórdia, entrarei na tua casa, e cheio de temor teu te adorarei no teu santo templo.
9 Domine, deduc me in justitia tua : propter inimicos meos dirige in conspectu tuo viam meam.
9 Senhor, guia-me na tua justiça: Dirige diante de teus olhos o meu caminho, por causa de meus inimigos.
10 Quoniam non est in ore eorum veritas ; cor eorum vanum est.
10 Porque na bôca dêles não há verdade: O seu coração é vão.
11 Sepulchrum patens est guttur eorum ; linguis suis dolose agebant : judica illos, Deus. Decidant a cogitationibus suis ; secundum multitudinem impietatum eorum expelle eos, quoniam irritaverunt te, Domine.
11 A sua garganta é um sepulcro aberto, com as suas línguas urdiram enganos, tu, Deus, os julga. Caiam de seus pensamentos, lança-os segundo a multidão das suas impiedades, porque te irritaram, Senhor.
12 Et lætentur omnes qui sperant in te ; in æternum exsultabunt, et habitabis in eis. Et gloriabuntur in te omnes qui diligunt nomen tuum,
12 E alegrem-se todos aquêles que esperam em ti: exultarão eternamente: E tu habitarás nêles, E em ti se gloriarão todos os que amam o teu nome,
13 quoniam tu benedices justo. Domine, ut scuto bonæ voluntatis tuæ coronasti nos.
13 porque tu abençoarás o justo. Senhor, de tua boa vontade nos coroaste, como com escudo.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 5: o número é o mesmo na Vulgata?
Sim. O salmo 5 tem o mesmo número nas Bíblias traduzidas do hebraico, na Vulgata, na Bíblia Ave-Maria e na tradução de Figueiredo: as duas numerações só se separam a partir do salmo 9, que a Vulgata conserva inteiro e o hebraico divide em dois. A tabela completa está na página dos Salmos.
Os versículos, porém, podem ficar defasados. Figueiredo, como a Vulgata, conta o título como versículo 1; muitas Bíblias em português não o numeram, e ficam um número atrás. O «De manhã, Senhor, ouvirás a minha voz» é aqui o versículo 4; em outras edições, o versículo 3.
O que significa o salmo 5? Explicação
O salmo 5 é a oração de um homem que vai enfrentar um dia difícil. Ele se apresenta a Deus antes de qualquer outra coisa, lembra que Deus não pactua com o mal, pede para ser guiado, descreve sem indulgência os adversários e termina na alegria de quem espera em Deus. O tom é ao mesmo tempo grave e luminoso: o de um justo que sabe onde buscar a sua força.
O título: «por aquela que consegue a herança»
O título da Vulgata é enigmático: «Para o fim, por aquela que consegue a herança, Salmo de Davi» (v. 1). O hebraico traz uma indicação musical, que muitos entendem de instrumentos de sopro; os Setenta leram de outro modo, e os Padres comentaram o texto que tinham. Santo Agostinho reconhece em «aquela que consegue a herança» a Igreja, que recebe de Deus em herança a vida eterna e a quem o próprio Deus se dá em herança. Todo o salmo se torna então a voz da Igreja que reza na manhã deste mundo, à espera do dia sem ocaso.
Versículos 2-4: «De manhã»
A oração começa com três apelos: «Senhor, dá ouvidos às minhas palavras, escuta o meu clamor» (v. 2); «Atende à voz da minha súplica, rei meu e Deus meu» (v. 3). Há as palavras, que se pronunciam; há o clamor, que sobe mais fundo que as palavras; e há a voz da súplica, que leva as duas coisas. Deus é chamado rei e Deus: aquele que reina e aquele que se adora.
Vem então a palavra que dá ao salmo a sua hora: «Porque a ti orarei: De manhã, Senhor, ouvirás a minha voz» (v. 4). O latim diz mane exaudies vocem meam. A primeira palavra do dia pertence a Deus. O próprio Nosso Senhor, conta São Marcos, «levantando-se muito de madrugada, saiu, e foi a um lugar deserto, e fazia ali oração» (Marcos 1,35).
Versículos 5-7: um Deus que não quer a iniquidade
«Ao despontar do dia me coloco na tua presença e te verei: Porque tu, Deus, não queres a iniqüidade» (v. 5). Colocar-se diante de Deus, astabo tibi, é a atitude do servo que espera as ordens do seu senhor e a do sacerdote no altar. E o que o justo vê, na luz da aurora, é a santidade de Deus. O mal não pode morar junto dele: «Não habitará ao pé de ti o maligno: Nem os injustos permanecerão diante de teus olhos» (v. 6).
O versículo 7 nomeia as figuras do mal: quem pratica a iniquidade, quem prefere a mentira, e por fim «o varão sangüinário e doloso» (v. 7). A violência e o engano andam juntos; o salmo voltará ao engano, que é o pecado da língua.
Versículos 8-9: entrar na casa de Deus
O contraste é proposital: «Eu porém, confiado na multidão da tua misericórdia, entrarei na tua casa, e cheio de temor teu te adorarei no teu santo templo» (v. 8). O justo não entra no templo pelos seus méritos, mas pela misericórdia. A sua confiança não é a segurança de quem está contente consigo; é a de um pobre que sabe de onde vem a graça. O versículo lembra o salmo 43 (42 na Vulgata), Judica me, que o sacerdote reza ao pé do altar no começo da Missa tradicional: «E entrarei ao Altar de Deus: O Deus que alegra a minha mocidade».
Vem depois o pedido central do salmo, a única coisa que o justo pede para o seu dia: «Senhor, guia-me na tua justiça: Dirige diante de teus olhos o meu caminho, por causa de meus inimigos» (v. 9). Ele não pede que os inimigos desapareçam, mas que o seu caminho fique reto no meio deles.
Versículos 10-11: o sepulcro aberto
O retrato dos adversários é terrível: «Porque na bôca dêles não há verdade: O seu coração é vão» (v. 10); «A sua garganta é um sepulcro aberto, com as suas línguas urdiram enganos» (v. 11). A boca do mentiroso é comparada a um túmulo escancarado, que exala morte e engole quem nela confia.
São Paulo retoma o versículo na Carta aos Romanos, entre os textos que mostram que todos os homens, judeus e pagãos, estão debaixo do pecado: «A garganta dêles é um sepulcro aberto, com as suas línguas fabricavam enganos» (Romanos 3,13).
A continuação do versículo 11, «tu, Deus, os julga», pertence às palavras duras do Saltério. Os Padres não as entendem como vingança pessoal: é a sentença da justiça divina sobre a mentira, que o justo faz sua. Santo Agostinho lê aí uma profecia, mais que uma maldição. E o primeiro castigo anunciado é que os maus «caiam de seus pensamentos»: o mal se desfaz por si.
Versículos 12-13: a alegria de quem espera
O salmo termina numa ampla bênção: «E alegrem-se todos aquêles que esperam em ti: exultarão eternamente: E tu habitarás nêles» (v. 12). No começo, o justo pedia para entrar na casa de Deus; no fim, é Deus que vem morar nos que o amam. E a última imagem envolve todo o dia que começa: «porque tu abençoarás o justo. Senhor, de tua boa vontade nos coroaste, como com escudo» (v. 13). O latim diz ut scuto bonae voluntatis tuae coronasti nos: a benevolência de Deus nos rodeia como uma coroa e nos protege como um escudo.
Os Padres e a oração da manhã
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, detém-se no versículo 5, Mane astabo tibi, et videbo. Vê nele a passagem da noite para o dia: a noite é o tempo em que a alma estava longe de Deus; a manhã, aquele em que ela se coloca diante dele e começa a ver. Enquanto dura este mundo, vemos só pela fé; mas a aurora anuncia o pleno dia em que a Igreja verá Deus face a face.
A tradição cristã fez deste salmo um mestre da oração matinal. Outros salmos retomam o mesmo impulso, como o salmo 63 (62 na Vulgata), Deus, Deus meus, que a Igreja canta nas Laudes de domingo: «Ó Deus, ó meu Deus, em ti estou vigilante desde o raiar da luz»; ou o salmo 3, a oração do despertar de Davi no meio dos inimigos.
O salmo 5 na liturgia de 1962
Nas Laudes de segunda-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério de São Pio X, o salmo 5 é cantado nas Laudes de segunda-feira, o ofício da aurora, tanto no esquema comum quanto no dos tempos de penitência. No primeiro, a antífona é Intende voci orationis meae, Rex meus et Deus meus; no segundo, Deduc me in justitia tua, Domine. Antes da reforma de 1911 ele já pertencia às Laudes de segunda-feira, com a antífona Intellige clamorem meum, Domine. A Igreja abre assim a semana de trabalho apresentando-se, desde a manhã de segunda, diante do seu Rei e do seu Deus. O Ofício do dia está no breviário; sobre as Horas canônicas, veja o nosso guia da Liturgia das Horas.
No Ofício dos Defuntos. O salmo tem um segundo lugar, mais grave. Nas Matinas dos Defuntos, ele abre o primeiro noturno, com a antífona tirada do versículo 9: Dirige, Domine, Deus meus, in conspectu tuo viam meam. Seguem-no o salmo 6 e o salmo 7. A Igreja pede para a alma do falecido o que Davi pedia para o seu dia: que o seu caminho seja reto diante de Deus.
No Missal. O Missal de 1962 recorre ao salmo 5 sobretudo na Quaresma:
- o Intróito do sábado da terceira semana da Quaresma é Verba mea auribus percipe, Domine (v. 2-3);
- a antífona da Comunhão da quarta-feira das Têmporas da Quaresma é Intellige clamorem meum (v. 2-4);
- o Ofertório da sexta-feira da terceira semana da Quaresma é Intende voci orationis meae, Rex meus et Deus meus (v. 3-4);
- os versículos 12-13, Gloriabuntur in te omnes qui diligunt nomen tuum, dão o versículo do Intróito de Santo Inácio de Loyola (31 de julho) e o Ofertório dos Santos João e Paulo, mártires (26 de junho).
Como rezar o salmo 5
- De manhã, antes de qualquer ocupação. É a sua hora própria. Rezá-lo ao acordar é dar a Deus as primícias do dia, como ensina a tradição das orações da manhã.
- Antes de um dia difícil. Uma reunião, um conflito, uma prova: basta o versículo 9, «Senhor, guia-me na tua justiça».
- Ao entrar na igreja. O versículo 8 prepara para a Missa ou para uma visita ao Santíssimo: na casa de Deus só se entra pela sua misericórdia.
- Contra a mentira. Quem sofre uma calúnia entrega a Deus a sua causa; quem luta contra os próprios pecados da língua mede a gravidade deles pela imagem do sepulcro aberto.
- Por um falecido. Com a antífona Dirige, reza-se o salmo por uma alma que termina o seu caminho, como na oração pelos mortos.
Termina-se com o Glória ao Pai. E com calma, uma vez por todas: o salmo 5 não é uma fórmula que proteja por si mesma contra inveja, inimigos ou “olho gordo”. Usá-lo assim seria superstição, contrária ao primeiro mandamento (Catecismo, n. 2111). A sua força é a da oração confiante: aprender a entregar a própria causa a Deus e a não responder à mentira com a mentira.
Perguntas Frequentes
O salmo 5 da Bíblia é o mesmo salmo 5 da Vulgata?
Sim. O número é o mesmo em todas as Bíblias, porque as numerações só se separam a partir do salmo 9. Pode mudar o número de um versículo, conforme a Bíblia conte ou não o título como versículo 1.
Qual é o melhor horário para rezar o salmo 5?
A manhã. O versículo 4, «De manhã, Senhor, ouvirás a minha voz», e o versículo 5, «Ao despontar do dia me coloco na tua presença», dão-lhe a sua hora. A Igreja o canta nas Laudes de segunda-feira, e muitos fiéis o rezam ao acordar.
O salmo 5 é um salmo de proteção?
É sobretudo uma oração de confiança para o começo do dia, que termina com a imagem de Deus que nos cerca «como com escudo» (v. 13). Protege como protege toda oração: unindo a Deus quem reza. Não é um amuleto.
Quem escreveu o salmo 5?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, por aquela que consegue a herança, Salmo de Davi». Santo Agostinho reconhece na que «consegue a herança» a Igreja, que recebe por herança a vida eterna. Como toda a Escritura, tem por autor principal o Espírito Santo.
Qual é o significado do salmo 5?
É a oração de um justo que começa o dia diante de Deus, no meio de inimigos mentirosos. Afirma a santidade de Deus, que não tolera a iniquidade, pede um caminho reto e se abandona à misericórdia, que o envolve como um escudo.
Como terminar a reza do salmo 5?
Como todo salmo rezado na Igreja, com o Gloria Patri: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. Quando se reza pelos falecidos, como no Ofício dos Defuntos, diz-se no lugar dele o Requiem aeternam: “Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno”.
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