A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 36 (35 na Vulgata e na Ave-Maria): Dixit injustus, em ti está a fonte da vida
O salmo 36 das Bíblias de numeração hebraica é o salmo 35 da Vulgata e da Ave-Maria, o *Dixit injustus*: o retrato do ímpio que tira Deus do seu olhar e, diante dele, a misericórdia de Deus que está «no céu», até o versículo célebre «Porque em ti está a fonte da vida: E no teu lume veremos o lume». Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica o salmo, a leitura dos Padres, o seu uso na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 35 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 34.
1 In finem. Servo Domini ipsi David.
1 Para o fim, do mesmo Davi, servo do Senhor.
2 Dixit injustus ut delinquat in semetipso : non est timor Dei ante oculos ejus.
2 Disse o injusto entre si mesmo, que êle delinqüiria: Não há temor de Deus ante seus olhos.
3 Quoniam dolose egit in conspectu ejus, ut inveniatur iniquitas ejus ad odium.
3 Porque êle obrou dolosamente na sua presença: De sorte que a sua iniqüidade o fêz objeto do ódio.
4 Verba oris ejus iniquitas, et dolus ; noluit intelligere ut bene ageret.
4 As palavras da sua bôca são iniqüidade e engano: Não quis instruir-se para fazer o bem.
5 Iniquitatem meditatus est in cubili suo ; astitit omni viæ non bonæ : malitiam autem non odivit.
5 Meditou a iniqüidade na sua cama: Deixou-se estar em todos os caminhos que não eram bons, e não aborreceu a malícia.
6 Domine, in cælo misericordia tua, et veritas tua usque ad nubes.
6 Senhor, a tua misericórdia está no céu e a tua verdade até às nuvens.
7 Justitia tua sicut montes Dei ; judicia tua abyssus multa. Homines et jumenta salvabis, Domine,
7 A tua justiça é como os montes de Deus: Os teus juízos são um abismo profundo. Tu, Senhor, salvarás os homens, e as bêstas:
8 quemadmodum multiplicasti misericordiam tuam, Deus. Filii autem hominum in tegmine alarum tuarum sperabunt.
8 Segundo tens multiplicado a tua misericórdia, ó Deus. Mas os filhos dos homens esperarão à sombra das tuas asas.
9 Inebriabuntur ab ubertate domus tuæ, et torrente voluptatis tuæ potabis eos :
9 Embriagar-se-ão da abundância da tua casa: E os farás beber na torrente das tuas delícias.
10 quoniam apud te est fons vitæ, et in lumine tuo videbimus lumen.
10 Porque em ti está a fonte da vida: E no teu lume veremos o lume.
11 Prætende misericordiam tuam scientibus te, et justitiam tuam his qui recto sunt corde.
11 Estende antes a tua misericórdia sôbre os que te conhecem, e a tua justiça sôbre aquêles que têm o coração reto.
12 Non veniat mihi pes superbiæ, et manus peccatoris non moveat me.
12 Não venha sôbre mim pé de soberba: E mão de pecador não me comova.
13 Ibi ceciderunt qui operantur iniquitatem ; expulsi sunt, nec potuerunt stare.
13 Ali caíram os que obram a iniqüidade: Foram empurrados, e não se puderam levantar.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 36 ou salmo 35?
É um só salmo com dois números. As Bíblias que seguem a numeração hebraica chamam-no salmo 36; a Vulgata, a Septuaginta, os livros litúrgicos e a Bíblia Ave-Maria contam-no como salmo 35, porque unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Nesta página, o título forma o versículo 1 e o texto começa no versículo 2, como na Vulgata. A tabela completa está na página dos Salmos.
Atenção a uma confusão frequente. Quem procura “salmo 36” num missal antigo, num comentário dos Padres ou na Bíblia Ave-Maria encontra o Noli æmulari, que exorta o justo a não invejar os maus: «Não queiras imitar aos malignos: Nem invejes aos que obram iniqüidade» (salmo 36 da Vulgata), o 37 das Bíblias modernas. E o salmo 35 das Bíblias de numeração hebraica é o Judica, Domine, nocentes me, salmo 34 da Vulgata (salmo 34).
O que significa o salmo 36? Explicação
O título diz: «Para o fim, do mesmo Davi, servo do Senhor» (v. 1). O salmo põe lado a lado dois mundos. De um lado, o homem que decidiu fazer o mal e já não olha para Deus (v. 2-5); do outro, a misericórdia de Deus, que enche o céu e a terra e dá de beber aos homens na fonte da vida (v. 6-11). Termina com uma súplica e uma visão da queda dos maus (v. 12-13).
O retrato do ímpio (v. 2-5)
«Disse o injusto entre si mesmo, que êle delinqüiria: Não há temor de Deus ante seus olhos» (v. 2). O pecado começa dentro, numa conversa consigo mesmo, e a sua raiz é a ausência do temor de Deus. São Paulo cita este versículo no seu retrato da humanidade sem Cristo: «Não há temor de Deus diante dos olhos dêles» (Romanos 3, 18).
O salmo segue o ímpio pelos degraus da sua queda: engana a si mesmo, as suas palavras são «iniqüidade e engano», ele «Não quis instruir-se para fazer o bem» (v. 4); e por fim: «Meditou a iniqüidade na sua cama: Deixou-se estar em todos os caminhos que não eram bons, e não aborreceu a malícia» (v. 5). O mal planejado à noite, no leito, é o oposto do justo que medita a lei de Deus dia e noite.
A misericórdia que enche o céu (v. 6-9)
O tom muda de repente: «Senhor, a tua misericórdia está no céu e a tua verdade até às nuvens» (v. 6). Diante da pequenez do ímpio, o salmista ergue os olhos para a grandeza de Deus: «A tua justiça é como os montes de Deus: Os teus juízos são um abismo profundo. Tu, Senhor, salvarás os homens, e as bêstas» (v. 7). A providência de Deus abraça toda a criação.
Os versículos seguintes passam da criação à intimidade. Os homens «esperarão à sombra das tuas asas» (v. 8), imagem que volta no salmo 17 (16 na Vulgata), «Debaixo da sombra das tuas asas defende-me». Depois, a imagem do banquete: «Embriagar-se-ão da abundância da tua casa: E os farás beber na torrente das tuas delícias» (v. 9). Os Padres viram aqui a alegria do Céu e, já na terra, os bens da Igreja e dos sacramentos.
A fonte da vida e a luz (v. 10)
«Porque em ti está a fonte da vida: E no teu lume veremos o lume» (v. 10). É o versículo mais conhecido do salmo. Ao pé da letra, diz que Deus é a origem de toda vida e que o homem só conhece de verdade quando iluminado por ele.
A súplica final (v. 11-13)
O salmista pede que essa misericórdia permaneça sobre os que conhecem a Deus: «Estende antes a tua misericórdia sôbre os que te conhecem, e a tua justiça sôbre aquêles que têm o coração reto» (v. 11); e que o orgulho não o derrube: «Não venha sôbre mim pé de soberba: E mão de pecador não me comova» (v. 12). O último versículo vê a queda dos maus como já acontecida: «Ali caíram os que obram a iniqüidade» (v. 13).
«No teu lume veremos o lume»: a leitura dos Padres
Os Padres leram o versículo 10 mais a fundo. O Filho é a luz que procede da luz, o que o Credo diz Lumen de Lumine, e São João escreve: «Nêle estava a vida, e a vida era a luz dos homens» (João 1, 4). São Gregório Nazianzeno, na quinta das suas Orações teológicas, lê aqui toda a Trindade: da luz que é o Pai recebemos a luz que é o Filho, na luz que é o Espírito Santo.
O versículo anuncia também a visão de Deus no Céu. Aqui na terra conhecemos por reflexos; lá veremos a Deus na sua própria luz. E a fonte da vida lembra a promessa de Cristo à samaritana: «Mas a água que eu lhe der virá a ser nêle uma fonte d'água, que salte para a vida eterna» (João 4, 14).
O contraste do salmo é uma lição de vida espiritual. O ímpio fecha os olhos para Deus e se perde na própria conversa interior; o justo levanta os olhos e encontra uma misericórdia maior do que os céus. Entre os dois não há meio-termo: ou o temor de Deus está diante dos olhos, ou não está.
O salmo 35 na liturgia de 1962
Laudes de quinta-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 35 é o terceiro salmo das Laudes de quinta-feira, nos dois esquemas: nas Laudes I, com a antífona Domine, in cælo misericordia tua (v. 6), e nas Laudes II dos tempos de penitência, com Multiplicasti, Deus, misericordiam tuam (v. 8). Na mesma Hora vem antes dele o salmo 90 (89 na Vulgata), a oração de Moisés. Por isso ele também se canta nas Laudes da Quinta-feira Santa, no Ofício de Trevas. Você pode rezar as Laudes no breviário.
Sagrado Coração. Nas Matinas da festa do Sagrado Coração de Jesus, o salmo é cantado no primeiro noturno com a antífona Apud te est fons vitæ; torrente voluptatis tuæ potabis nos, Domine. Nessa festa, a fonte da vida é o Coração de Cristo aberto na cruz. Veja a página sobre a consagração ao Sagrado Coração.
Como rezar o salmo 36
Quem procura “salmo 36 para que serve” encontra aqui a resposta da Igreja: ele serve para louvar a misericórdia de Deus e pedir a sua luz, como a Igreja faz toda quinta-feira de manhã. Não é uma fórmula de proteção que funcionaria sozinha; atribuir-lhe tal efeito é superstição, que o Catecismo (n. 2111) e o Catecismo Romano condenam ao explicar o primeiro mandamento.
- De manhã. É a sua hora litúrgica. O versículo 6 abre o dia sob a misericórdia de Deus; reza-se bem com as orações da manhã.
- No exame de consciência. Os versículos 2-5 são um espelho: onde, na minha vida, o temor de Deus deixou de estar diante dos meus olhos?
- Diante do Santíssimo. Os versículos 9 e 10 são uma oração eucarística pronta: a abundância da casa de Deus, a torrente das suas delícias, a fonte da vida.
- Na busca da verdade. «No teu lume veremos o lume» é uma jaculatória para quem estuda, procura ou discerne.
Conclui-se com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 36 também é chamado de salmo 35?
Porque a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O Dixit injustus, salmo 36 das Bíblias de numeração hebraica, é o salmo 35 da Vulgata.
Quem escreveu o salmo 36?
O título o atribui a Davi: «do mesmo Davi, servo do Senhor». A tradição o recebe como oração do rei, inspirada pelo Espírito Santo.
O que significa “em ti está a fonte da vida”?
Que Deus é a origem de toda vida, natural e sobrenatural. Na tradução de Figueiredo: «Porque em ti está a fonte da vida: E no teu lume veremos o lume». Os Padres viram aqui o Filho, luz da luz, e o anúncio da visão de Deus no Céu.
O que quer dizer “não há temor de Deus ante seus olhos”?
É a raiz do pecado segundo o salmo: o ímpio decidiu fazer o mal porque deixou de ter Deus diante dos olhos. São Paulo cita o versículo na Carta aos Romanos para descrever o homem sem a graça.
Quando a Igreja reza o salmo 36?
No Breviário Romano de 1962, nas Laudes de quinta-feira, e por isso também nas Laudes da Quinta-feira Santa. Volta nas Matinas do Sagrado Coração com a antífona Apud te est fons vitæ.
O salmo 36 é um salmo de proteção?
Fala da proteção de Deus, «à sombra das tuas asas», mas não é um amuleto. É uma oração de louvor à misericórdia de Deus e um pedido de perseverança contra o orgulho.
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