A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 19 (18 na Vulgata e na Ave-Maria): Cæli enarrant, os céus publicam a glória de Deus
Cæli enarrant gloriam Dei
O salmo 19 das Bíblias modernas é o salmo 18 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o *Cæli enarrant gloriam Dei*: «Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos». Num só canto, Deus fala pela criação e pela sua Lei. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, a sua leitura pelos Apóstolos e pelos Padres, o uso na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 18 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 17.
1 In finem. Psalmus David.
1 Para o fim, Salmo de Davi.
2 Cæli enarrant gloriam Dei, et opera manuum ejus annuntiat firmamentum.
2 Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
3 Dies diei eructat verbum, et nox nocti indicat scientiam.
3 Um dia diz uma palavra a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
4 Non sunt loquelæ, neque sermones, quorum non audiantur voces eorum.
4 Não há linguagem, nem fala, por quem não sejam entendidas as suas vozes.
5 In omnem terram exivit sonus eorum, et in fines orbis terræ verba eorum.
5 O seu som se estendeu por tôda a terra: E as suas palavras até as extremidades do mundo.
6 In sole posuit tabernaculum suum ; et ipse tamquam sponsus procedens de thalamo suo. Exsultavit ut gigas ad currendam viam ;
6 No sol pôs o seu tabernáculo: E êle como espôso que sai do seu tálamo: Deu saltos como gigante para correr o caminho,
7 a summo cælo egressio ejus. Et occursus ejus usque ad summum ejus ; nec est qui se abscondat a calore ejus.
7 a sua saída é desde uma extremidade do céu: E corre até à outra extremidade dêle: E não há quem se esconda do seu calor.
8 Lex Domini immaculata, convertens animas ; testimonium Domini fidele, sapientiam præstans parvulis.
8 A lei do Senhor que é imaculada converte as almas: O testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos pequeninos.
9 Justitiæ Domini rectæ, lætificantes corda ; præceptum Domini lucidum, illuminans oculos.
9 As justiças do Senhor são retas, que alegram os corações: O preceito do Senhor é claro, que esclarece os olhos.
10 Timor Domini sanctus, permanens in sæculum sæculi ; judicia Domini vera, justificata in semetipsa,
10 O temor do Senhor é santo, que permanece por séculos de séculos: Os juízos do Senhor são verdadeiros, cheios de justiça em si mesmos.
11 desiderabilia super aurum et lapidem pretiosum multum, et dulciora super mel et favum.
11 Êles são mais para desejar do que o muito ouro e as muitas pedras preciosas: E são mais doces do que o mel e o favo.
12 Etenim servus tuus custodit ea ; in custodiendis illis retributio multa.
12 Pelo que o teu servo os guarda, e em os guardar há grande recompensa.
13 Delicta quis intelligit ? ab occultis meis munda me ;
13 Quem é que conhece os seus delitos? purifica-me dos que me são ocultos:
14 et ab alienis parce servo tuo. Si mei non fuerint dominati, tunc immaculatus ero, et emundabor a delicto maximo.
14 E perdoa ao teu servo os alheios. Se êles se não senhorearem de mim, então serei eu imaculado: E serei purificado do delito máximo.
15 Et erunt ut complaceant eloquia oris mei, et meditatio cordis mei in conspectu tuo semper. Domine, adjutor meus, et redemptor meus.
15 Então as palavras de minha bôca te serão agradáveis: E a meditação do meu coração será sempre na tua presença. Senhor, favorecedor meu, e Redentor meu.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 19 ou salmo 18?
Este salmo tem dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico o chamam de salmo 19; a Vulgata, a Setenta, os livros litúrgicos e a Bíblia Ave-Maria o contam como salmo 18, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto: em latim, Cæli enarrant gloriam Dei. A tabela das correspondências está na página dos Salmos.
O salmo 19 da Vulgata e da Ave-Maria é outro, o Exaudiat te Dominus, a oração pelo rei no dia da batalha, que nas Bíblias modernas é o 20: está na página do salmo 20 (19 na Vulgata).
Versículo 1 ou 2? Muita gente procura “salmo 19, 1”, “Os céus declaram a glória de Deus”. Em Figueiredo, como na Vulgata e no hebraico, o versículo 1 é o título, «Para o fim, Salmo de Davi», e «Os céus publicam a glória de Deus» é o versículo 2. As Bíblias que não numeram o título fazem dele o versículo 1, e todos os números seguintes ficam um atrás: o “salmo 19, 14” dessas Bíblias é aqui o versículo 15.
O que significa o salmo 19? Explicação
O salmo tem duas partes que parecem distantes e são um só louvor: Deus fala na criação, e Deus fala na sua Lei. A mesma luz ilumina o céu e o coração.
Os céus que falam sem palavras (v. 2-5). «Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos» (v. 2). A narração nunca se interrompe: «Um dia diz uma palavra a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite» (v. 3). É uma pregação sem som, que todo povo entende: «Não há linguagem, nem fala, por quem não sejam entendidas as suas vozes» (v. 4). E chega a toda parte: «O seu som se estendeu por tôda a terra: E as suas palavras até as extremidades do mundo» (v. 5). A Igreja ensina, com o Concílio do Vaticano de 1870, que Deus pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão a partir das coisas criadas: o salmo o canta.
O sol como um esposo (v. 6-7). De todas as criaturas o salmista escolhe o sol: «No sol pôs o seu tabernáculo: E êle como espôso que sai do seu tálamo: Deu saltos como gigante para correr o caminho» (v. 6). Toda manhã o sol sai radiante como um noivo no dia do casamento e percorre o céu de uma ponta à outra, «E não há quem se esconda do seu calor» (v. 7). Para os povos vizinhos de Israel, o sol era um deus; aqui é apenas uma criatura que corre a serviço do seu Criador.
A Lei do Senhor (v. 8-12). O salmo passa então do céu à Lei, e o tom muda sem que a inspiração se quebre. «A lei do Senhor que é imaculada converte as almas: O testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos pequeninos» (v. 8). Seguem-se vários nomes da Lei, cada um com o seu fruto: «As justiças do Senhor são retas, que alegram os corações: O preceito do Senhor é claro, que esclarece os olhos» (v. 9). Os juízos de Deus «são mais para desejar do que o muito ouro e as muitas pedras preciosas: E são mais doces do que o mel e o favo» (v. 11). Como o sol, a Lei ilumina e aquece; como ao sol, nada lhe fica escondido.
Os pecados ocultos (v. 13-15). Diante dessa luz o salmista se descobre: «Quem é que conhece os seus delitos? purifica-me dos que me são ocultos» (v. 13). Ninguém conhece até o fundo as próprias faltas. O latim ab alienis parce servo tuo, «E perdoa ao teu servo os alheios» (v. 14), pede também ser preservado dos pecados alheios, aqueles em que se é arrastado. A oração final se tornou oração de toda a Igreja: «Então as palavras de minha bôca te serão agradáveis: E a meditação do meu coração será sempre na tua presença. Senhor, favorecedor meu, e Redentor meu» (v. 15).
Os Apóstolos e o Esposo: a leitura dos Padres
São Paulo deu a chave da leitura cristã. Na Epístola aos Romanos ele aplica o versículo 5 à pregação do Evangelho: «por tôda a terra saiu o som dêles, e até aos limites da redondeza da terra, as palavras dêles» (Romanos 10, 18). Os céus que publicam a glória de Deus tornam-se os Apóstolos, e Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, segue esse caminho.
O sol esposo recebeu uma leitura ainda mais bela. Os Padres viram nele Cristo, o Verbo que armou a sua tenda na carne e sai do seio virginal de Maria como o esposo do tálamo, para correr a sua carreira de gigante, do nascimento à Cruz e da Cruz ao céu. Santo Ambrósio pôs essa leitura num hino, o Veni, Redemptor gentium, em que Cristo sai e thalamo suo, “gigante de dupla substância” (geminæ gigas substantiæ), Deus e homem. Quanto ao «delito máximo» do versículo 14, Santo Agostinho o entende da soberba, raiz de todo pecado.
O salmo 19 na liturgia de 1962
A Prima de segunda-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 18 se canta na Prima de segunda-feira, dividido em duas partes: a primeira sobre a criação (versículos 2-7), a segunda sobre a Lei (versículos 8-15). Vem depois do salmo 24 (23 na Vulgata), Domini est terra, de onde sai a antífona: Innocens manibus et mundo corde ascendet in montem Domini. A semana se abre assim na hora em que o sol começa a carreira que o salmo descreve. Você pode rezar esta Hora no breviário.
O Natal e a Ascensão. Nas Matinas do Natal, é o segundo salmo do primeiro noturno, com a antífona Tamquam sponsus Dominus procedens de thalamo suo: o esposo que sai do tálamo é o Verbo que nasce. Nas Matinas da Ascensão a antífona é A summo cælo egressio ejus, et occursus ejus usque ad summum ejus, alleluja: o Senhor volta para de onde tinha saído. O salmo está também nas Matinas da Santíssima Trindade e das festas de Nossa Senhora.
Os Apóstolos. No Comum dos Apóstolos o salmo abre as Matinas, com a antífona In omnem terram exivit sonus eorum, o versículo de São Paulo. O mesmo versículo é o Gradual de várias festas de Apóstolos e Evangelistas, como São Barnabé (11 de junho) e São Lucas (18 de outubro).
No Missal. O versículo 2, Cæli enarrant gloriam Dei, é o verso do Intróito Rorate cæli do quarto domingo do Advento e da quarta-feira das Têmporas do Advento. No sábado das Têmporas do Advento, a Comunhão é Exsultavit ut gigas ad currendam viam. Na Quaresma, a terça-feira da terceira semana canta no Gradual, e a segunda-feira da quarta semana na Comunhão, Ab occultis meis munda me, Domine; o Ofertório do nono domingo depois de Pentecostes é Justitiæ Domini rectæ, lætificantes corda.
Para que serve o salmo 19?
Para louvar o Criador e amar a sua Lei, que é o uso que a Igreja faz dele toda segunda-feira de manhã. Não é uma fórmula com poder próprio: a sua eficácia é a de toda oração feita com fé, e o próprio salmo termina pedindo a Deus que purifique o coração de quem reza.
Como rezar o salmo 19
- De manhã, como a Igreja na Prima, olhando o céu e o sol que nasce: as orações da manhã começam pelo louvor do Criador.
- Diante da criação. Um céu estrelado, uma aurora, uma paisagem: o salmo transforma o encanto em adoração.
- Antes do exame de consciência. O versículo 13, «purifica-me dos que me são ocultos», pede luz para ver o que sozinho não se vê; une-se ao exame de consciência.
- Para amar a Lei de Deus. Os versículos 8 a 11 fazem dos Dez Mandamentos não um peso, mas uma luz mais doce que o mel.
- Antes de falar ou de pregar. O versículo 15 é uma oração simples para quem precisa tomar a palavra.
Termina-se com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
Qual é o texto do salmo 19, “Os céus declaram a glória de Deus”?
Em Figueiredo: «Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos». É o versículo 2, porque o versículo 1 é o título. O texto completo em português e em latim está nesta página.
Por que o salmo 19 também é chamado de salmo 18?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 19 das Bíblias modernas é o salmo 18 da Vulgata, o Cæli enarrant. O salmo 19 da Vulgata é o Exaudiat te Dominus, o 20 das Bíblias modernas.
Qual é o significado do salmo 19?
Que o mundo visível é uma linguagem pela qual Deus se dá a conhecer a todos, sem palavras mas sem interrupção, e que a sua Lei ilumina a alma como o sol ilumina a terra. São Paulo o aplica aos Apóstolos; os Padres veem no sol esposo o próprio Cristo.
Quem escreveu o salmo 19?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, Salmo de Davi». A tradição o recebe como obra do rei profeta, inspirada pelo Espírito Santo.
O que quer dizer “purifica-me dos pecados ocultos”?
É o pedido de quem sabe que não conhece todas as próprias faltas. O versículo 13 pede a Deus que purifique também o que escapa à consciência. A Igreja o canta na Quaresma: Ab occultis meis munda me, Domine.
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