A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 140 (139 na Vulgata e na Ave-Maria): Eripe me, Domine, a oração contra o homem mau
O salmo 140 das Bíblias modernas é o salmo 139 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Eripe me, Domine*, «Livra-me, Senhor, do homem malvado». Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo parte por parte, a leitura dos Padres, o seu lugar nas Vésperas da sexta-feira e na Sexta-feira Santa, e o modo católico de rezá-lo.
Procura o salmo 139 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 138.
1 In finem. Psalmus David.
1 Para o fim, Salmo de Davi.
2 Eripe me, Domine, ab homine malo ; a viro iniquo eripe me.
2 Livra-me, Senhor, do homem malvado: Livra-me do homem perverso.
3 Qui cogitaverunt iniquitates in corde, tota die constituebant prælia.
3 Os que maquinaram iniqüidades no coração: Todo o dia dispunham combates.
4 Acuerunt linguas suas sicut serpentis ; venenum aspidum sub labiis eorum.
4 Aguçaram as suas línguas como a de serpente: Veneno de áspides têm debaixo de seus lábios.
5 Custodi me, Domine, de manu peccatoris, et ab hominibus iniquis eripe me. Qui cogitaverunt supplantare gressus meos :
5 Guarda-me, Senhor, da mão do pecador: E livra-me de homens iníquos. Os que cogitaram derribar os meus passos:
6 absconderunt superbi laqueum mihi. Et funes extenderunt in laqueum ; juxta iter, scandalum posuerunt mihi.
6 Êles soberbos me esconderam o laço: E estenderam cordas para me surpreender: Junto do meu caminho me puseram tropeço.
7 Dixi Domino : Deus meus es tu ; exaudi, Domine, vocem deprecationis meæ.
7 Eu disse ao Senhor: Tu és o meu Deus: Atende, Senhor, a voz da minha deprecação.
8 Domine, Domine, virtus salutis meæ, obumbrasti super caput meum in die belli.
8 Senhor, Senhor, que és a fortaleza da minha salvação: Tu puseste reparo sôbre a minha cabeça no dia da batalha:
9 Ne tradas me, Domine, a desiderio meo peccatori : cogitaverunt contra me ; ne derelinquas me, ne forte exaltentur.
9 Não me entregues, Senhor, contra o meu desejo ao pecador, êles maquinaram contra mim, não me desampares, para que não suceda ficarem exaltados:
10 Caput circuitus eorum : labor labiorum ipsorum operiet eos.
10 A cabeça daqueles que me cercam: O trabalho dos seus lábios os envolverá.
11 Cadent super eos carbones ; in ignem dejicies eos : in miseriis non subsistent.
11 Cairão sôbre êles carvões, ao fogo os arrojarás: Entre as misérias não subsistirão.
12 Vir linguosus non dirigetur in terra ; virum injustum mala capient in interitu.
12 O varão maldizente não prosperará na terra: Do varão injusto se apoderarão os males da morte.
13 Cognovi quia faciet Dominus judicium inopis, et vindictam pauperum.
13 Sei que o Senhor fará o juízo do desvalido: E que vingará aos pobres.
14 Verumtamen justi confitebuntur nomini tuo, et habitabunt recti cum vultu tuo.
14 Mas contudo os justos darão glória ao teu Nome: E os retos habitarão em a tua presença.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 140 ou salmo 139?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico, as mais comuns no Brasil, o chamam de salmo 140. A Vulgata latina, a Setenta grega, os livros litúrgicos e a Bíblia Ave-Maria o contam como salmo 139, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico; daí em diante a contagem latina fica quase sempre um número atrás. A tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo segue a Vulgata, e por isso o texto do “salmo 140 completo” está nesta página, sob o número 139.
Quem procura “salmo 139” encontra, então, dois textos diferentes:
- salmo 140 (hebraico) = salmo 139 (Vulgata e Ave-Maria): o Eripe me, a oração contra os maus, nesta página;
- salmo 139 (hebraico) = salmo 138 (Vulgata e Ave-Maria): o célebre Domine, probasti me, «Senhor, provaste-me, e conheceste-me», que no Breviário vem logo antes deste.
Em Figueiredo, como na Vulgata, o título ocupa o versículo 1 e a oração começa no versículo 2. A tabela completa das numerações está na página do livro dos Salmos.
O que significa o salmo 140? Explicação
O título é breve: «Para o fim, Salmo de Davi» (v. 1). A tradição sempre ouviu aqui a voz do rei perseguido, primeiro por Saul, depois pelos intrigantes da sua própria corte. O inimigo não é um exército, mas homens que falam e tramam: o salmo é antes de tudo uma oração contra os pecados da língua alheia.
O homem mau e a sua língua (v. 2-6)
O grito inicial dá o tom a todo o resto: «Livra-me, Senhor, do homem malvado: Livra-me do homem perverso» (v. 2). Esses homens não agem por impulso; preparam o mal: «Os que maquinaram iniqüidades no coração: Todo o dia dispunham combates» (v. 3).
A arma deles é a palavra: «Aguçaram as suas línguas como a de serpente: Veneno de áspides têm debaixo de seus lábios» (v. 4). São Paulo retoma quase ao pé da letra este versículo, junto com outros do Saltério, para descrever o homem longe de Deus, em Romanos 3: «Um veneno de áspides se encobre debaixo dos lábios dêles».
Seguem as imagens da caça. O salmista pede de novo: «Guarda-me, Senhor, da mão do pecador» (v. 5), porque «Êles soberbos me esconderam o laço: E estenderam cordas para me surpreender: Junto do meu caminho me puseram tropeço» (v. 6). A calúnia, a manobra, a palavra que faz tropeçar: o que o salmo descreve se encontra em todas as gerações, em todos os escritórios e em todas as famílias.
A confiança no dia da batalha (v. 7-9)
No meio do salmo o tom muda. Davi não responde com as armas dos seus inimigos; volta-se para Deus com um ato de fé: «Eu disse ao Senhor: Tu és o meu Deus: Atende, Senhor, a voz da minha deprecação» (v. 7).
O versículo seguinte é o mais belo do salmo: «Senhor, Senhor, que és a fortaleza da minha salvação: Tu puseste reparo sôbre a minha cabeça no dia da batalha» (v. 8). O latim diz obumbrasti super caput meum in die belli: cobriste com a tua sombra a minha cabeça, como o capacete que protege o soldado. Quem é atacado não está só: está coberto. O versículo 9 acrescenta um pedido cheio de humildade: «não me desampares, para que não suceda ficarem exaltados» (v. 9). O justo não teme só por si, mas que o triunfo do mal se torne motivo de orgulho e de escândalo.
O mal recai sobre quem o pratica (v. 10-12)
Os versículos 10 e 11 pedem que «O trabalho dos seus lábios os envolverá» (v. 10) e que «Cairão sôbre êles carvões» (v. 11). Ao leitor moderno estas palavras podem parecer duras. A tradição nunca as leu como um convite à vingança pessoal: o salmista entrega a sua causa a Deus e lhe deixa o juízo, renunciando a fazer justiça por si mesmo. As brasas lembram o fogo caído sobre Sodoma, isto é, a justiça de Deus contra o mal.
A sentença do versículo 12 dá a razão: «O varão maldizente não prosperará na terra: Do varão injusto se apoderarão os males da morte» (v. 12). O mal da palavra acaba voltando sobre quem o comete.
A certeza final (v. 13-14)
O salmo não termina no medo, mas numa certeza: «Sei que o Senhor fará o juízo do desvalido: E que vingará aos pobres» (v. 13). E numa promessa: «Mas contudo os justos darão glória ao teu Nome: E os retos habitarão em a tua presença» (v. 14). A libertação última não é só escapar dos maus, mas morar diante da face de Deus.
Os Padres e a leitura cristã
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, aplica aqui a sua regra constante: nos salmos fala o Cristo inteiro, Cabeça e Corpo. O perseguido é Cristo, entregue pelas palavras das falsas testemunhas, quando, conta São Mateus 26, «andavam buscando quem jurasse algum falso testemunho contra Jesus»; e é a Igreja, a quem o mundo arma laços até o fim dos tempos. O «homem malvado», no singular, designa menos um indivíduo do que toda a linhagem dos ímpios e, por trás deles, o inimigo de quem Jesus diz em São João 8: «êle era homicida desde o princípio». A libertação pedida é, portanto, antes de tudo a do Pai-Nosso: libera nos a malo, livrai-nos do mal.
A tradição tirou do versículo 4 também uma lição moral. Quem reza contra as línguas venenosas deve vigiar a sua. Não por acaso o salmo seguinte da Vulgata, o Domine, clamavi (141 no hebraico), pede: «Põe, Senhor, uma guarda à minha bôca».
O salmo 140 na liturgia de 1962
Nas Vésperas da sexta-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 139 da Vulgata se canta toda semana nas Vésperas da sexta-feira, com a antífona Ne derelinquas me, Domine, virtus salutis meæ, que junta palavras dos versículos 8 e 9. Precede-o o Domine, probasti me e segue-o o Domine, clamavi, a oração da tarde que sobe como o incenso. Na sexta-feira, dia da Paixão, o lamento do inocente entregue às línguas dos maus se torna o de Cristo diante dos seus juízes. Você pode rezar essa Hora no breviário do dia; a nossa página sobre as Vésperas explica a sua ordem.
Na Sexta-feira Santa. Na liturgia da Sexta-feira Santa restaurada em 1955 e conservada no Missal de 1962, depois da segunda leitura, a do cordeiro pascal no livro do Êxodo (capítulo 12), canta-se quase todo este salmo, dos versículos 2-10 e do 14: Eripe me, Domine, ab homine malo: a viro iniquo libera me. Logo depois se proclama a Paixão segundo São João. A Igreja põe assim nos lábios de Cristo, na hora do processo e da Cruz, a súplica de Davi contra os laços dos maus.
Na Semana Santa. Na terça-feira santa, o Ofertório da Missa retoma o versículo 5: Custodi me, Domine, de manu peccatoris: et ab hominibus iniquis eripe me. E nas Vésperas da quinta-feira santa, que o Breviário de 1962 manda dizer apenas a quem não assistiu à Missa vespertina in Cena Domini, o salmo tem a antífona própria Ab hominibus iniquis libera me, Domine.
Como rezar o salmo 140
Na calúnia. Quando uma palavra injusta nos atinge, este salmo dá nome à prova sem deixar que ela se torne ódio: pede proteção, não revanche. Pode ser dito inteiro, devagar, pondo diante de Deus a pessoa que feriu.
Para pedir proteção. O versículo 8, «Tu puseste reparo sôbre a minha cabeça no dia da batalha», se aprende de cor como uma jaculatória para os dias de conflito: no trabalho, em família, nas tentações. Ao lado do salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat, está entre as grandes orações de confiança do Saltério; veja também os salmos de proteção.
Na tarde de sexta-feira. Rezado como a Igreja o reza nas Vésperas, é o momento de entregar a Deus as feridas do dia e quem as causou.
Examinando a própria língua. Depois de rezar contra a maledicência alheia, pede-se a graça de não cometê-la. São Tiago o lembra, no capítulo 3: «Se algum não tropeça em qualquer palavra, êste é varão perfeito».
Muitos perguntam “para que serve o salmo 140” e se ele “afasta o mal”. Ele serve para o que a Igreja faz com ele: rezar com Cristo perseguido, às sextas-feiras e na Sexta-feira Santa, e entregar a Deus a própria causa. Um salmo não é uma fórmula que age por si mesma, nem um escudo que funciona pela repetição; atribuir esse poder a palavras recitadas é o que a Igreja chama de superstição. A força do salmo é a confiança de quem o reza. Termina-se, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 140 também é chamado de salmo 139?
Porque existem duas numerações do Saltério. As Bíblias feitas do hebraico o contam 140; a Vulgata, a liturgia latina, Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria o contam 139. É o mesmo salmo, o Eripe me, Domine. Nas Bíblias modernas, o salmo 139 é outro, o Domine, probasti me, que aqui é o 138.
Quem escreveu o salmo 140?
O título diz «Salmo de Davi», e a tradição o atribui ao rei perseguido. Os Padres ouvem nele, além de Davi, a voz de Cristo e da sua Igreja expostos às ciladas do mundo. O autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo.
O salmo 140 é uma oração contra os inimigos?
É uma oração para ser livrado dos maus, da sua língua e dos seus laços, não para fazer mal a alguém. O salmista entrega a sua causa ao único Juiz justo e renuncia a se vingar. A Igreja sempre o rezou assim, como um ato de confiança.
O que significa «Tu puseste reparo sôbre a minha cabeça no dia da batalha»?
É o versículo 8. Deus é comparado ao capacete que protege a cabeça do soldado no combate; o latim diz que Ele “cobriu com a sua sombra” a cabeça do salmista. O fiel reconhece que a sua segurança não vem da sua força nem da sua habilidade, mas de Deus, «fortaleza da minha salvação».
Quando a Igreja reza o salmo 140?
No Breviário de 1962, toda sexta-feira nas Vésperas, entre o Domine, probasti me e o Domine, clamavi. No Missal de 1962, é cantado na Sexta-feira Santa depois da leitura do Êxodo, e o seu versículo 5 forma o Ofertório da terça-feira santa.
Como terminar a oração do salmo 140?
Como a Igreja termina cada salmo do Ofício: com o Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo. Pode-se acrescentar o Pai-Nosso, cujo último pedido, “livrai-nos do mal”, resume todo o salmo.
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