A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 141 (140 na Vulgata e na Ave-Maria): Domine, clamavi, a oração que sobe como incenso
O salmo 141 das Bíblias modernas é o salmo 140 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o *Domine, clamavi ad te*: «Suba direita a minha oração como incenso na tua presença: Seja a elevação das minhas mãos sacrifício da tarde». É a oração da tarde por excelência, que o sacerdote repete ao incensar o altar na Missa solene. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado, a guarda da boca, o lugar do salmo nas Vésperas e na Missa de 1962, e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 140 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 139.
1 Psalmus David. Domine, clamavi ad te : exaudi me ; intende voci meæ, cum clamavero ad te.
1 Salmo de Davi. Senhor, a ti clamei, escuta-me: Atende à minha voz, quando clamar a ti.
2 Dirigatur oratio mea sicut incensum in conspectu tuo ; elevatio manuum mearum sacrificium vespertinum.
2 Suba direita a minha oração como incenso na tua presença: Seja a elevação das minhas mãos sacrifício da tarde.
3 Pone, Domine, custodiam ori meo, et ostium circumstantiæ labiis meis.
3 Põe, Senhor, uma guarda à minha bôca: E aos meus lábios uma porta que os feche.
4 Non declines cor meum in verba malitiæ, ad excusandas excusationes in peccatis ; cum hominibus operantibus iniquitatem, et non communicabo cum electis eorum.
4 Não torças o meu coração a palavras de malícia para buscar escusas nos pecados. Como fazem os homens que obram iniqüidade: E não terei parte nas coisas que êles estimam.
5 Corripiet me justus in misericordia, et increpabit me : oleum autem peccatoris non impinguet caput meum. Quoniam adhuc et oratio mea in beneplacitis eorum :
5 O justo me corrigirá, e me increpará com misericórdia: Mas o azeite do pecador não chegue a ungir a minha cabeça. Porque ainda até a minha oração será contra o que lhes apraz a êles:
6 absorpti sunt juncti petræ judices eorum. Audient verba mea, quoniam potuerunt.
6 Têm perecido os seus juízes lançados à pedra. Ouvirão que as minhas palavras foram eficazes:
7 Sicut crassitudo terræ erupta est super terram, dissipata sunt ossa nostra secus infernum.
7 Bem como grossa gleba se desfez sempre sôbre a terra. Assim têm sido espalhados os nossos ossos perto da sepultura:
8 Quia ad te, Domine, Domine, oculi mei ; in te speravi, non auferas animam meam.
8 Porque os meus olhos a ti, Senhor, ó Senhor, se levantaram: Em ti tenho esperado, não me tires a vida.
9 Custodi me a laqueo quem statuerunt mihi, et a scandalis operantium iniquitatem.
9 Guarda-me do laço, que têm preparado contra mim: E dos precipícios dos que obram iniqüidade.
10 Cadent in retiaculo ejus peccatores : singulariter sum ego, donec transeam.
10 Cairão na sua rêde os pecadores: Só estou eu até que seja o meu trânsito.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 141 ou salmo 140?
É o mesmo salmo com dois números. O 141 é o da numeração hebraica, seguida pelas Bíblias modernas; a Vulgata latina e a Setenta grega, com as quais a Igreja rezou no Missal e no Breviário, o contam como salmo 140, porque reúnem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. A Bíblia Ave-Maria e a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo seguem essa contagem. Em latim ele começa com Domine, clamavi ad te, exaudi me.
Quem procura “salmo 140” numa Bíblia moderna encontra outro texto: o Eripe me, Domine, «Livra-me, Senhor, do homem malvado», que na Vulgata e na Ave-Maria é o salmo 139 e que no Breviário vem logo antes deste. E o «salmo 141» da Ave-Maria é o Voce mea ad Dominum clamavi, salmo 142 das Bíblias modernas: salmo 142 (141 na Vulgata).
Em Figueiredo, o título «Salmo de Davi» está unido ao primeiro versículo; o versículo do incenso é o 2 em todas as Bíblias.
O que significa o salmo 141? Explicação
É uma oração de Davi ao entardecer, num tempo de provação. Resume-se em dois pedidos: que Deus acolha a oração como um sacrifício, e que guarde quem reza do mal, o dos outros e o próprio.
A oração como incenso (v. 1-2)
Depois do grito de apelo, «Senhor, a ti clamei, escuta-me: Atende à minha voz, quando clamar a ti» (v. 1), o versículo 2 dá ao salmo o seu caráter: «Suba direita a minha oração como incenso na tua presença: Seja a elevação das minhas mãos sacrifício da tarde» (v. 2).
No Templo de Jerusalém oferecia-se todas as tardes o incenso, junto com o sacrifício vespertino. O salmista, talvez longe do santuário, oferece o que tem: a sua voz e as suas mãos erguidas. A oração se torna o seu sacrifício. Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, lê esse sacrifício da tarde em Cristo, que se ofereceu na cruz ao declinar do dia, no fim dos tempos; e o incenso que sobe é a oração do seu Corpo, a Igreja. O Apocalipse mostra a mesma imagem: «E subiu o fumo dos perfumes das orações dos Santos da mão do Anjo diante de Deus» (Apocalipse 8,4).
Uma guarda à minha boca (v. 3-5)
O segundo pedido surpreende: antes de ser protegido dos outros, o salmista pede para ser protegido de si mesmo. «Põe, Senhor, uma guarda à minha bôca: E aos meus lábios uma porta que os feche» (v. 3). Pede ainda: «Não torças o meu coração a palavras de malícia para buscar escusas nos pecados» (v. 4). A desculpa é o modo mais sutil de pecar com a palavra: não nega a culpa, justifica-a. O latim diz ad excusandas excusationes in peccatis, e a Igreja faz o sacerdote repetir essas palavras cada vez que incensa o altar.
O versículo 5 faz da correção fraterna uma graça: «O justo me corrigirá, e me increpará com misericórdia: Mas o azeite do pecador não chegue a ungir a minha cabeça» (v. 5). Melhor a repreensão de um justo que a lisonja do pecador: o óleo perfumado derramado na cabeça era sinal de honra, e o elogio de quem aprova o mal é um unguento que corrompe.
Os olhos voltados para Deus (v. 6-10)
Os versículos 6 e 7 são obscuros em todas as versões, antigas e modernas; neles se entrevê a queda dos juízes iníquos, «lançados à pedra», e ossos espalhados «perto da sepultura» (v. 7). A conclusão, porém, é clara: «Porque os meus olhos a ti, Senhor, ó Senhor, se levantaram: Em ti tenho esperado, não me tires a vida» (v. 8). Quem reza pede para ser guardado «do laço, que têm preparado contra mim» (v. 9) e aceita a solidão do justo: «Só estou eu até que seja o meu trânsito» (v. 10). A última palavra é uma passagem, o transeam latino: a vida como uma Páscoa, até a tarde definitiva.
O salmo da tarde em todas as Igrejas
Pelo seu versículo 2, este salmo se tornou desde a antiguidade a oração vespertina por excelência. As liturgias do Oriente o cantam todas as tardes no começo das Vésperas, enquanto se incensa a igreja; e também no rito romano ele pertence, como se verá, ao Ofício da tarde. Quando o sol se põe e se acendem as lâmpadas, a Igreja oferece a Deus o dia que passou como um sacrifício, à maneira do Templo que oferecia o incenso.
O salmo 141 na liturgia de 1962
Nas Vésperas da sexta-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 140 da Vulgata se canta nas Vésperas da sexta-feira, com a antífona Domine, clamavi ad te, exaudi me. Vem depois do Eripe me (139 na Vulgata) e antes do Voce mea ad Dominum clamavi (141 na Vulgata), a oração de Davi na caverna. Na sexta-feira à tarde, dia da Paixão, o «sacrifício da tarde» é o da cruz. Você pode rezar essa Hora no breviário; a página sobre as Vésperas apresenta a sua estrutura.
O versículo das Vésperas. O versículo 2 ressoa também nas Vésperas do domingo e dos dias de semana, como versículo depois do hino: V. Dirigatur, Domine, oratio mea. R. Sicut incensum in conspectu tuo. Fora dos tempos próprios, a Igreja repete assim toda tarde ao menos esta palavra do salmo.
Na Quinta-feira Santa. Nas Vésperas da Quinta-feira Santa, que o Breviário de 1962 manda rezar a quem não participou da Missa vespertina in Cena Domini, o salmo tem a antífona própria Custodi me a laqueo, quem statuerunt mihi, et a scandalis operantium iniquitatem, do versículo 9.
Na incensação do altar. Na Missa solene celebrada com incenso, no ofertório, o sacerdote, depois de incensar as oferendas, incensa o altar recitando os versículos 2 a 4: Dirigatur, Domine, oratio mea, sicut incensum, in conspectu tuo: elevatio manuum mearum sacrificium vespertinum. Pone, Domine, custodiam ori meo, et ostium circumstantiæ labiis meis: ut non declinet cor meum in verba malitiæ, ad excusandas excusationes in peccatis. A fumaça que sobe do altar torna visível o versículo do salmo. A página sobre a Missa tridentina descreve o seu desenrolar.
Nos graduais. O versículo 2 forma ainda o gradual Dirigatur oratio mea do décimo nono domingo depois de Pentecostes e da terça-feira da primeira semana da Quaresma, e um dos graduais do sábado das Têmporas da Quaresma.
Como rezar o salmo 141
- À tarde e à noite. É a sua hora própria. Pode-se abrir as orações da noite com o versículo 2, de mãos postas ou erguidas, oferecendo a Deus o dia que terminou: o trabalho, os cansaços, e também as faltas de que se pede perdão.
- Contra os pecados da língua. O versículo 3, «Põe, Senhor, uma guarda à minha bôca», se diz de manhã, antes de uma conversa difícil ou de uma reunião. O versículo 4 ajuda a desmascarar as desculpas que damos a nós mesmos.
- Para acolher uma correção. O versículo 5 ensina a receber uma repreensão justa como uma misericórdia, e a desconfiar dos elogios que bajulam.
- Na Missa solene. Quem assiste à Missa solene pode unir-se em silêncio às palavras do sacerdote durante a incensação, fazendo subir a própria oração com o incenso.
Pode-se rezá-lo com o salmo 134 (133 na Vulgata), Ecce nunc benedicite, salmo das Completas do domingo, e com o salmo 63 (62 na Vulgata), Deus, Deus meus, em que o fiel diz: «E invocando o teu nome levantarei as minhas mãos». Conclui-se com o Glória ao Pai.
Para que serve o salmo 141?
Para oferecer a Deus a oração da tarde e pedir a guarda da própria língua. A Igreja o canta toda sexta-feira nas Vésperas e o põe nos lábios do sacerdote em cada Missa solene. Não é uma fórmula de efeito automático: o incenso só sobe se o coração sobe com ele.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 141 se chama também salmo 140?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia latina, pela Bíblia Ave-Maria e por Figueiredo, reúnem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 141 das Bíblias modernas, Domine, clamavi, é portanto o salmo 140 da Vulgata. Nas Bíblias modernas, o salmo 140 é o Eripe me, Domine.
O que significa “Suba direita a minha oração como incenso”?
É o versículo 2. O salmista pede que a sua oração suba a Deus como o perfume do incenso oferecido todas as tardes no Templo, e que as suas mãos erguidas valham como o sacrifício da tarde. Para os Padres, esse sacrifício é Cristo na cruz.
O que quer dizer “uma guarda à minha boca”?
É o versículo 3: o pedido de ser guardado dos pecados da língua, a maledicência, a mentira, a palavra amarga, e das desculpas com que se justifica o mal. É uma das orações mais práticas do Saltério.
Por que o sacerdote reza o salmo 141 na Missa?
Porque o versículo do incenso acompanha o gesto da incensação. Na Missa solene do Missal de 1962, no ofertório, o sacerdote incensa o altar dizendo os versículos 2 a 4, do Dirigatur até ad excusandas excusationes in peccatis.
Quem escreveu o salmo 141?
O título diz «Salmo de Davi», e a tradição o atribui ao rei Davi, talvez no tempo em que estava longe do santuário. O autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo.
Quando se reza o salmo 141?
No Breviário de 1962, toda sexta-feira nas Vésperas; o seu versículo 2 volta como versículo das Vésperas do domingo e dos dias de semana, e em toda Missa solene na incensação do altar. Na oração pessoal, é a oração da tarde por excelência.
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