A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 119 (118 na Vulgata e na Ave-Maria): Beati immaculati, o grande salmo da lei de Deus
Beati immaculati
O salmo 119 das Bíblias modernas, salmo 118 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, é o mais longo do Saltério: cento e setenta e seis versículos em vinte e duas estrofes alfabéticas, todos em louvor da palavra de Deus. O seu versículo mais amado é o 105: «Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos». Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica a estrutura, o significado estrofe por estrofe, quem o escreveu, a leitura dos Padres, o lugar do salmo nas Horas menores do domingo e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 118 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 117.
1 Alleluja. Aleph. Beati immaculati in via, qui ambulant in lege Domini.
1 Aleluia. Aleph. Bem-aventurados os que se conservam sem mácula no caminho: Os que andam na lei do Senhor.
2 Beati qui scrutantur testimonia ejus ; in toto corde exquirunt eum.
2 Bem-aventurados os que consideram os seus testemunhos: Os que de todo o coração o buscam.
3 Non enim qui operantur iniquitatem in viis ejus ambulaverunt.
3 Porque os que praticam iniqüidade, não andam nos caminhos dêle.
4 Tu mandasti mandata tua custodiri nimis.
4 Tu ordenaste que os teus mandamentos fôssem guardados à risca.
5 Utinam dirigantur viæ meæ ad custodiendas justificationes tuas.
5 Oxalá que os meus caminhos sejam dirigidos ao cumprimento das tuas justificações.
6 Tunc non confundar, cum perspexero in omnibus mandatis tuis.
6 Então não serei confundido, quando me empregar atento na observância de todos os teus mandamentos.
7 Confitebor tibi in directione cordis, in eo quod didici judicia justitiæ tuæ.
7 Eu te louvarei com retidão de coração: Porque tenho aprendido os juízos da tua justiça.
8 Justificationes tuas custodiam ; non me derelinquas usquequaque.
8 Guardarei as tuas justificações: Não me desampares jamais.
9 Beth. In quo corrigit adolescentior viam suam ? in custodiendo sermones tuos.
9 Beth. De que modo emenda o mancebo o seu caminho? Guardando as tuas palavras.
10 In toto corde meo exquisivi te ; ne repellas me a mandatis tuis.
10 De todo o meu coração te busquei: Não me deixes sair dos teus mandamentos.
11 In corde meo abscondi eloquia tua, ut non peccem tibi.
11 No meu coração escondi as tuas palavras: Para não pecar contra ti.
12 Benedictus es, Domine ; doce me justificationes tuas.
12 Bendito és, Senhor: Ensina-me as tuas justificações.
13 In labiis meis pronuntiavi omnia judicia oris tui.
13 Com os meus lábios pronunciei todos os juízos da tua bôca.
14 In via testimoniorum tuorum delectatus sum, sicut in omnibus divitiis.
14 Eu me deleitei no caminho de teus testemunhos, como em tôdas as riquezas.
15 In mandatis tuis exercebor, et considerabo vias tuas.
15 Nos teus mandamentos me exercitarei: E considerarei os teus caminhos.
16 In justificationibus tuis meditabor : non obliviscar sermones tuos.
16 Nas tuas justificações meditarei: Não me esquecerei das tuas palavras.
17 Ghimel. Retribue servo tuo, vivifica me, et custodiam sermones tuos.
17 Ghimel. Concede esta graça ao teu servo, dá-me vida: E eu guardarei as tuas palavras.
18 Revela oculos meos, et considerabo mirabilia de lege tua.
18 Tira o véu dos meus olhos: E eu considerarei as maravilhas da tua lei.
19 Incola ego sum in terra : non abscondas a me mandata tua.
19 Eu sou peregrino na terra: Não escondas de mim os teus mandamentos.
20 Concupivit anima mea desiderare justificationes tuas in omni tempore.
20 A minha alma desejou ansiosa em todo o tempo as tuas justificações.
21 Increpasti superbos ; maledicti qui declinant a mandatis tuis.
21 Increpaste os soberbos: Malditos os que se apartam dos teus mandamentos.
22 Aufer a me opprobrium et contemptum, quia testimonia tua exquisivi.
22 Livra-me do opróbrio, e desprêzo: Porque busquei cuidadoso os teus mandamentos.
23 Etenim sederunt principes, et adversum me loquebantur ; servus autem tuus exercebatur in justificationibus tuis.
23 Pôsto que se sentaram os príncipes, e falavam contra mim: O teu servo todavia se exercitava nas tuas justificações.
24 Nam et testimonia tua meditatio mea est, et consilium meum justificationes tuæ.
24 Porque tanto os teus testemunhos são a minha meditação: Como as tuas justificações são o meu conselho.
25 Daleth. Adhæsit pavimento anima mea : vivifica me secundum verbum tuum.
25 Daleth. A minha alma estêve pegada com o chão, dá-me vida, segundo a tua palavra.
26 Vias meas enuntiavi, et exaudisti me ; doce me justificationes tuas.
26 Eu te expus os meus caminhos, e tu me atendeste: Ensina-me as tuas justificações.
27 Viam justificationum tuarum instrue me, et exercebor in mirabilibus tuis.
27 Instrui-me no caminho das tuas justificações: E exercitar-me-ei nas tuas maravilhas.
28 Dormitavit anima mea præ tædio : confirma me in verbis tuis.
28 A minha alma adormeceu de tédio: Fortifica-me com as tuas palavras.
29 Viam iniquitatis amove a me, et de lege tua miserere mei.
29 Aparta de mim o caminho da iniqüidade: E tem misericórdia de mim segundo a tua lei.
30 Viam veritatis elegi ; judicia tua non sum oblitus.
30 Eu escolhi o caminho da verdade: Não me esqueci dos teus juízos.
31 Adhæsi testimoniis tuis, Domine ; noli me confundere.
31 Eu, Senhor, me tenho apoiado nos teus testemunhos: Não me queiras confundir.
32 Viam mandatorum tuorum cucurri, cum dilatasti cor meum.
32 Corri pelo caminho dos teus mandamentos, quando dilataste o meu coração.
33 He. Legem pone mihi, Domine, viam justificationum tuarum, et exquiram eam semper.
33 He. Impõe-me por lei, Senhor, o caminho das tuas justificações: E buscá-lo-ei sempre.
34 Da mihi intellectum, et scrutabor legem tuam, et custodiam illam in toto corde meo.
34 Dá-me inteligência, e estudarei na tua lei: E a guardarei de todo o meu coração.
35 Deduc me in semitam mandatorum tuorum, quia ipsam volui.
35 Guia-me pela vereda dos teus mandamentos: Porque essa mesma desejei.
36 Inclina cor meum in testimonia tua, et non in avaritiam.
36 Inclina o meu coração para os teus testemunhos: E não para a avareza.
37 Averte oculos meos, ne videant vanitatem ; in via tua vivifica me.
37 Aparta os meus olhos para que não vejam a vaidade: No teu caminho dá-me a vida.
38 Statue servo tuo eloquium tuum in timore tuo.
38 Faze firme ao teu servo a tua palavra mediante o teu temor.
39 Amputa opprobrium meum quod suspicatus sum, quia judicia tua jucunda.
39 Aparta de mim o opróbrio, que eu temi: Porque os teus juízos são agradáveis.
40 Ecce concupivi mandata tua : in æquitate tua vivifica me.
40 Tu vês que eu desejei muito os teus mandamentos: Faze que eu viva na tua justiça.
41 Vau. Et veniat super me misericordia tua, Domine ; salutare tuum secundum eloquium tuum.
41 Vau. E venha sôbre mim a tua misericórdia, Senhor: A tua salvação segundo a tua palavra.
42 Et respondebo exprobrantibus mihi verbum, quia speravi in sermonibus tuis.
42 E darei em resposta aos que me insultam: Que pus a minha esperança nas tuas palavras.
43 Et ne auferas de ore meo verbum veritatis usquequaque, quia in judiciis tuis supersperavi.
43 E não tires jamais da minha bôca a palavra de verdade: Porque nos teus juízos tenho esperado muito.
44 Et custodiam legem tuam semper, in sæculum et in sæculum sæculi.
44 E guardarei sempre a tua lei: Por séculos e por séculos de séculos.
45 Et ambulabam in latitudine, quia mandata tua exquisivi.
45 Caminhava ao largo: Porque busquei cuidadosamente os teus mandamentos.
46 Et loquebar in testimoniis tuis in conspectu regum, et non confundebar.
46 E falava dos teus testemunhos diante dos reis: E não me envergonhava.
47 Et meditabar in mandatis tuis, quæ dilexi.
47 E meditava nos teus mandamentos, que amei.
48 Et levavi manus meas ad mandata tua, quæ dilexi, et exercebar in justificationibus tuis.
48 E levantei as minhas mãos aos teus mandamentos, que amei: E me exercitava nas tuas justificações.
49 Zain. Memor esto verbi tui servo tuo, in quo mihi spem dedisti.
49 Zain. Lembra-te da tua palavra a favor do teu servo, na qual me tens feito esperar.
50 Hæc me consolata est in humilitate mea, quia eloquium tuum vivificavit me.
50 Isto me consolou no meu abatimento: Porque a tua palavra me deu vida.
51 Superbi inique agebant usquequaque ; a lege autem tua non declinavi.
51 Os soberbos obravam sem cessar inìqüamente: Mas eu não me apartei da tua lei.
52 Memor fui judiciorum tuorum a sæculo, Domine, et consolatus sum.
52 Eu me lembrei dos juízos que exerceste em todos os séculos, Senhor: E me consolei.
53 Defectio tenuit me, pro peccatoribus derelinquentibus legem tuam.
53 E desfaleci, vendo aos pecadores que deixavam a tua lei.
54 Cantabiles mihi erant justificationes tuæ in loco peregrinationis meæ.
54 As tuas justificações eram dignas de ser cantadas por mim, no lugar da minha peregrinação.
55 Memor fui nocte nominis tui, Domine, et custodivi legem tuam.
55 Lembrei-me do teu Nome, Senhor, durante a noite: E guardei a tua lei.
56 Hæc facta est mihi, quia justificationes tuas exquisivi.
56 Isto me veio: Porque busquei cuidadoso as tuas justificações.
57 Heth. Portio mea, Domine, dixi custodire legem tuam.
57 Heth. Eu disse, Senhor, a minha pertença é guardar a tua lei.
58 Deprecatus sum faciem tuam in toto corde meo ; miserere mei secundum eloquium tuum.
58 Roguei na tua presença de todo o meu coração: Compadece-te de mim segundo a tua palavra.
59 Cogitavi vias meas, et converti pedes meos in testimonia tua.
59 Considerei os meus caminhos: E voltei os meus pés para os teus testemunhos.
60 Paratus sum, et non sum turbatus, ut custodiam mandata tua.
60 Pronto estou, e em nada me tenho perturbado: Para guardar os teus mandamentos.
61 Funes peccatorum circumplexi sunt me, et legem tuam non sum oblitus.
61 Laços de pecadores me cingiram por tôdas as partes: E eu me não esqueci da tua lei.
62 Media nocte surgebam ad confitendum tibi, super judicia justificationis tuæ.
62 À meia-noite me levantava para te louvar, sôbre os juízos da tua justificação.
63 Particeps ego sum omnium timentium te, et custodientium mandata tua.
63 Eu sou participante de todos os que te temem: E dos que guardam os teus mandamentos.
64 Misericordia tua, Domine, plena est terra ; justificationes tuas doce me.
64 A terra está cheia, Senhor, da tua misericórdia: Ensina-me as tuas justificações.
65 Teth. Bonitatem fecisti cum servo tuo, Domine, secundum verbum tuum.
65 Teth. De bondade tens usado com o teu servo, Senhor, segundo a tua palavra.
66 Bonitatem, et disciplinam, et scientiam doce me, quia mandatis tuis credidi.
66 Ensina-me bondade, e doutrina, e ciência: Porque dei crédito aos teus mandamentos.
67 Priusquam humiliarer ego deliqui : propterea eloquium tuum custodivi.
67 Antes de ser humilhado eu delinqüi: Por isso guardei a tua palavra.
68 Bonus es tu, et in bonitate tua doce me justificationes tuas.
68 Tu és bom: E segundo tua bondade ensina-me as tuas justificações.
69 Multiplicata est super me iniquitas superborum ; ego autem in toto corde meo scrutabor mandata tua.
69 A iniqüidade dos soberbos se multiplicou sôbre mim: Mas eu de todo o meu coração estudarei os teus mandamentos.
70 Coagulatum est sicut lac cor eorum ; ego vero legem tuam meditatus sum.
70 O coração dêles se coalhou como leite: Porém eu me pus a meditar na tua lei.
71 Bonum mihi quia humiliasti me, ut discam justificationes tuas.
71 Para mim foi-me bom que tu me humilhasses: Para eu aprender as tuas justificações.
72 Bonum mihi lex oris tui, super millia auri et argenti.
72 Para mim foi melhor a lei que saiu da tua bôca, do que milhões de ouro e de prata.
73 Jod. Manus tuæ fecerunt me, et plasmaverunt me : da mihi intellectum, et discam mandata tua.
73 Jod. As tuas mãos me fizeram, e me formaram: Dá-me inteligência, e eu aprenderei os teus mandamentos.
74 Qui timent te videbunt me et lætabuntur, quia in verba tua supersperavi.
74 Os que te temem me verão, e se alegrarão: Porque pus tôda a minha esperança nas tuas palavras.
75 Cognovi, Domine, quia æquitas judicia tua, et in veritate tua humiliasti me.
75 Tenho conhecido, Senhor, que os teus juízos são de eqüidade: E na tua verdade me humilhaste.
76 Fiat misericordia tua ut consoletur me, secundum eloquium tuum servo tuo.
76 Seja a tua misericórdia para consolar-me, segundo a palavra que deste a teu servo.
77 Veniant mihi miserationes tuæ, et vivam, quia lex tua meditatio mea est.
77 Venham a mim as tuas misericórdias, e viverei: Porque a tua lei é a minha meditação.
78 Confundantur superbi, quia injuste iniquitatem fecerunt in me ; ego autem exercebor in mandatis tuis.
78 Sejam confundidos os soberbos, pois injustamente maquinaram males contra mim: Mas eu nos teus mandamentos me exercitarei.
79 Convertantur mihi timentes te, et qui noverunt testimonia tua.
79 Voltem-se para mim os que te temem: E os que conhecem os teus testemunhos.
80 Fiat cor meum immaculatum in justificationibus tuis, ut non confundar.
80 Seja imaculado o meu coração na prática das tuas justificações, para que eu não seja confundido.
81 Caph. Defecit in salutare tuum anima mea, et in verbum tuum supersperavi.
81 Caph. Desfaleceu a minha alma pela tua salvação: E na tua palavra tenho pôsto tôda a minha esperança.
82 Defecerunt oculi mei in eloquium tuum, dicentes : Quando consolaberis me ?
82 Os meus olhos se enfraqueceram de atentos à tua palavra, dizendo: Quando me consolarás?
83 Quia factus sum sicut uter in pruina ; justificationes tuas non sum oblitus.
83 Porque eu me tornei como ôdre exposto à geada: Mas não me esqueci das tuas justificações.
84 Quot sunt dies servi tui ? quando facies de persequentibus me judicium ?
84 Quantos são os dias de teu servo? Quando farás juízo dos que me perseguem?
85 Narraverunt mihi iniqui fabulationes, sed non ut lex tua.
85 Contaram-me os ímpios coisas frívolas: Mas não como tua lei.
86 Omnia mandata tua veritas : inique persecuti sunt me, adjuva me.
86 Todos os teus mandamentos são verdade: Injustamente me têm perseguido, dá-me socorro.
87 Paulominus consummaverunt me in terra ; ego autem non dereliqui mandata tua.
87 Por pouco não deram cabo de mim na terra: Mas eu não abandonei os teus mandamentos.
88 Secundum misericordiam tuam vivifica me, et custodiam testimonia oris tui.
88 Segundo a tua misericórdia vivifica-me: E eu guardarei os testemunhos da tua bôca.
89 Lamed. In æternum, Domine, verbum tuum permanet in cælo.
89 Lamed. Senhor, para sempre no céu permanece a tua palavra.
90 In generationem et generationem veritas tua ; fundasti terram, et permanet.
90 Por geração e geração subsiste a tua verdade: Tu fundaste a terra, e ela permanece.
91 Ordinatione tua perseverat dies, quoniam omnia serviunt tibi.
91 Por tua ordem persevera o dia: Porque tôdas as coisas te servem.
92 Nisi quod lex tua meditatio mea est, tunc forte periissem in humilitate mea.
92 Se a tua lei não houvera sido a minha meditação: Então decerto houvera eu perecido na minha aflição.
93 In æternum non obliviscar justificationes tuas, quia in ipsis vivificasti me.
93 Nunca jamais me esquecerei das tuas justificações: Porque nelas me vivificaste.
94 Tuus sum ego ; salvum me fac : quoniam justificationes tuas exquisivi.
94 Eu sou teu, salva-me: Porque as tuas justificações busquei ansioso.
95 Me exspectaverunt peccatores ut perderent me ; testimonia tua intellexi.
95 Os pecadores me esperaram para me perder: Os teus testemunhos tenho entendido.
96 Omnis consummationis vidi finem, latum mandatum tuum nimis.
96 Tenho visto o fim de tôda a coisa acabada: O teu mandamento é largo sem medida.
97 Mem. Quomodo dilexi legem tuam, Domine ! tota die meditatio mea est.
97 Mem. De que modo tenho eu, Senhor, amado a tua lei? ela é a minha meditação todo o dia.
98 Super inimicos meos prudentem me fecisti mandato tuo, quia in æternum mihi est.
98 Mais que os meus inimigos me fizeste prudente no teu mandamento: Porque o tenho perpètuamente diante de meus olhos.
99 Super omnes docentes me intellexi, quia testimonia tua meditatio mea est.
99 Mais que todos os que me ensinavam tenho entendido: Porque os teus testemunhos são a minha meditação.
100 Super senes intellexi, quia mandata tua quæsivi.
100 Mais que os anciãos entendi: Porque busquei os teus mandamentos.
101 Ab omni via mala prohibui pedes meos, ut custodiam verba tua.
101 De todo o mau caminho retirei os meus pés: Para guardar as tuas palavras.
102 A judiciis tuis non declinavi, quia tu legem posuisti mihi.
102 De teus juízos não me tenho apartado: Porque tu me prescreveste uma lei.
103 Quam dulcia faucibus meis eloquia tua ! super mel ori meo.
103 Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais que o mel à minha bôca!
104 A mandatis tuis intellexi ; propterea odivi omnem viam iniquitatis.
104 Pelos teus mandamentos tenho adquirido inteligência: Por isso aborreço todo o caminho de iniqüidade.
105 Nun. Lucerna pedibus meis verbum tuum, et lumen semitis meis.
105 Nun. Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos.
106 Juravi et statui custodire judicia justitiæ tuæ.
106 Jurei, e determinei guardar os juízos da tua justiça.
107 Humiliatus sum usquequaque, Domine ; vivifica me secundum verbum tuum.
107 Tenho sido humilhado, Senhor, de todos os modos: Faze-me viver segundo a tua palavra.
108 Voluntaria oris mei beneplacita fac, Domine, et judicia tua doce me.
108 Faze, Senhor que te seja agradável a homenagem voluntária da minha bôca: E ensina-me os teus juízos.
109 Anima mea in manibus meis semper, et legem tuam non sum oblitus.
109 A minha alma está sempre nas minhas mãos: E não me esqueci da tua lei.
110 Posuerunt peccatores laqueum mihi, et de mandatis tuis non erravi.
110 Laço me têm armado os pecadores: E dos teus mandamentos não me apartei.
111 Hæreditate acquisivi testimonia tua in æternum, quia exsultatio cordis mei sunt.
111 Por herança tenho adquirido os teus testemunhos para sempre: Porque são a alegria do meu coração.
112 Inclinavi cor meum ad faciendas justificationes tuas in æternum, propter retributionem.
112 Inclinei o meu coração a praticar eternamente as tuas justificações, pela retribuição.
113 Samech. Iniquos odio habui, et legem tuam dilexi.
113 Samech. Tenho aborrecido aos iníquos: E tenho amado a tua lei.
114 Adjutor et susceptor meus es tu, et in verbum tuum supersperavi.
114 Tu és o meu favorecedor, e o meu amparador: E tenho pôsto tôda a minha esperança na tua palavra.
115 Declinate a me, maligni, et scrutabor mandata Dei mei.
115 Retirai-vos de mim, malignos: E eu estudarei os mandamentos do meu Deus.
116 Suscipe me secundum eloquium tuum, et vivam, et non confundas me ab exspectatione mea.
116 Ampara-me segundo a tua palavra e viverei; E não permitas que eu seja confundido no que espero.
117 Adjuva me, et salvus ero, et meditabor in justificationibus tuis semper.
117 Favorece-me, e serei salvo: E meditarei sempre nas tuas justificações.
118 Sprevisti omnes discedentes a judiciis tuis, quia injusta cogitatio eorum.
118 Desprezaste a todos os que se desviam dos teus juízos: Porque é injusto o seu pensamento.
119 Prævaricantes reputavi omnes peccatores terræ ; ideo dilexi testimonia tua.
119 Reputei por prevaricadores a todos os pecadores da terra: Por isso amei os teus testemunhos.
120 Confige timore tuo carnes meas ; a judiciis enim tuis timui.
120 Traspassa com o teu temor as minhas carnes: Porque tenho temido os teus juízos.
121 Ain. Feci judicium et justitiam : non tradas me calumniantibus me.
121 Ain. Tenho feito juízo e justiça: Não me entregues aos que me caluniam.
122 Suscipe servum tuum in bonum : non calumnientur me superbi.
122 Ampara o teu servo para o bem: Não me caluniem os soberbos.
123 Oculi mei defecerunt in salutare tuum, et in eloquium justitiæ tuæ.
123 Os meus olhos desfaleceram na expectação da tua salvação; E pela palavra da tua justiça.
124 Fac cum servo tuo secundum misericordiam tuam, et justificationes tuas doce me.
124 Obra com teu servo segundo a tua misericórdia: E ensina-me as tuas justificações.
125 Servus tuus sum ego : da mihi intellectum, ut sciam testimonia tua.
125 Eu sou teu servo: Dá-me inteligência, para que saiba os teus testemunhos.
126 Tempus faciendi, Domine : dissipaverunt legem tuam.
126 É tempo de assim o fazeres, Senhor: Êles dissiparam a tua lei.
127 Ideo dilexi mandata tua super aurum et topazion.
127 Por isso amei os teus mandamentos mais do que o ouro e o topázio.
128 Propterea ad omnia mandata tua dirigebar ; omnem viam iniquam odio habui.
128 Pelo que me tenho dirigido a todos os teus mandamentos: E aborreci todo o caminho mau.
129 Phe. Mirabilia testimonia tua : ideo scrutata est ea anima mea.
129 Phe. Maravilhosos são teus testemunhos: Por isso os tem investigado a minha alma.
130 Declaratio sermonum tuorum illuminat, et intellectum dat parvulis.
130 A exposição das tuas palavras alumia: E dá inteligência aos pequeninos.
131 Os meum aperui, et attraxi spiritum : quia mandata tua desiderabam.
131 Abri a minha bôca, e atraí o ar: Porque desejava os teus mandamentos.
132 Aspice in me, et miserere mei, secundum judicium diligentium nomen tuum.
132 Olha para mim, e compadece-te de mim, segundo o juízo que usas com os que amam o teu nome.
133 Gressus meos dirige secundum eloquium tuum, et non dominetur mei omnis injustitia.
133 Encaminha os meus passos segundo a tua palavra: E não me predomine iniqüidade alguma.
134 Redime me a calumniis hominum ut custodiam mandata tua.
134 Redime-me das injúrias dos homens: Para que guarde os teus mandamentos.
135 Faciem tuam illumina super servum tuum, et doce me justificationes tuas.
135 Faze que a luz do teu rosto reluza sôbre o teu servo: E ensina-me as tuas justificações.
136 Exitus aquarum deduxerunt oculi mei, quia non custodierunt legem tuam.
136 Rios de lágrimas derramaram os meus olhos: Porque não guardaram a tua lei.
137 Sade. Justus es, Domine, et rectum judicium tuum.
137 Sade. Tu és justo, Senhor: E é reto o teu juízo.
138 Mandasti justitiam testimonia tua, et veritatem tuam nimis.
138 Mandaste estreitamente observar os teus preceitos: Como a tua suma verdade.
139 Tabescere me fecit zelus meus, quia obliti sunt verba tua inimici mei.
139 O meu zêlo me tem feito entisicar: Porque os meus inimigos se esqueceram das tuas palavras.
140 Ignitum eloquium tuum vehementer, et servus tuus dilexit illud.
140 A tua palavra é ardente em grande maneira: E o teu servo a tem amado.
141 Adolescentulus sum ego et contemptus ; justificationes tuas non sum oblitus.
141 Eu sou mancebinho, e desprezível: Não estou esquecido das tuas justificações.
142 Justitia tua, justitia in æternum, et lex tua veritas.
142 A tua justiça é justiça eterna: E a tua lei é a mesma verdade.
143 Tribulatio et angustia invenerunt me ; mandata tua meditatio mea est.
143 A tribulação, e a angústia me surpreenderam: Os teus mandamentos são a minha meditação.
144 Æquitas testimonia tua in æternum : intellectum da mihi, et vivam.
144 Os teus testemunhos são cheios duma eterna eqüidade: Dá-me inteligência dêles, e viverei.
145 Coph. Clamavi in toto corde meo : exaudi me, Domine ; justificationes tuas requiram.
145 Coph. Clamei de todo o meu coração, ouve-me, Senhor, as tuas justificações buscarei.
146 Clamavi ad te ; salvum me fac : ut custodiam mandata tua.
146 Clamei a ti, salva-me: Para que guarde os teus mandamentos.
147 Præveni in maturitate, et clamavi : quia in verba tua supersperavi.
147 Eu me antecipei pela manhã, e clamei: Porque esperei firmemente nas tuas palavras.
148 Prævenerunt oculi mei ad te diluculo, ut meditarer eloquia tua.
148 Os meus olhos se adiantaram para ti de madrugada: Para meditar as tuas palavras.
149 Vocem meam audi secundum misericordiam tuam, Domine, et secundum judicium tuum vivifica me.
149 Ouve a minha voz segundo a tua misericórdia, Senhor: E dá-me vida segundo o teu juízo.
150 Appropinquaverunt persequentes me iniquitati : a lege autem tua longe facti sunt.
150 Os meus perseguidores se chegaram para a iniqüidade: E da tua lei se desviaram.
151 Prope es tu, Domine, et omnes viæ tuæ veritas.
151 Perto estás tu, Senhor: E todos os teus caminhos são verdade.
152 Initio cognovi de testimoniis tuis, quia in æternum fundasti ea.
152 Acêrca dos teus testemunhos desde o princípio tenho reconhecido: Que tu os estabeleceste para sempre.
153 Res. Vide humilitatem meam, et eripe me, quia legem tuam non sum oblitus.
153 Res. Olha para o meu abatimento, e livra-me: Porque não me tenho esquecido da tua lei.
154 Judica judicium meum, et redime me : propter eloquium tuum vivifica me.
154 Julga a minha causa, e liberta-me: Faze-me viver pela tua palavra.
155 Longe a peccatoribus salus, quia justificationes tuas non exquisierunt.
155 Longe está dos pecadores a salvação: Porque não têm buscado as tuas justificações.
156 Misericordiæ tuæ multæ, Domine ; secundum judicium tuum vivifica me.
156 Muitas são, Senhor, as tuas misericórdias: Dá-me vida, segundo o teu juízo.
157 Multi qui persequuntur me, et tribulant me ; a testimoniis tuis non declinavi.
157 Muitos são os que me perseguem, e me atribulam: Entretanto eu não me desviei dos teus testemunhos.
158 Vidi prævaricantes et tabescebam, quia eloquia tua non custodierunt.
158 Vi os prevaricadores, e me consumia: Porque êles não têm guardado as tuas palavras.
159 Vide quoniam mandata tua dilexi, Domine : in misericordia tua vivifica me.
159 Olha que tenho amado os teus mandamentos, Senhor: Dá-me vida pela tua misericórdia.
160 Principium verborum tuorum veritas ; in æternum omnia judicia justitiæ tuæ.
160 O princípio das tuas palavras é a verdade: Todos os juízos da tua justiça são eternos.
161 Sin. Principes persecuti sunt me gratis, et a verbis tuis formidavit cor meum.
161 Sin. Os príncipes me perseguiram sem causa: E o meu coração temeu as tuas palavras.
162 Lætabor ego super eloquia tua, sicut qui invenit spolia multa.
162 Eu me alegrarei sôbre as tuas palavras: Como quem acha muitos despojos.
163 Iniquitatem odio habui, et abominatus sum, legem autem tuam dilexi.
163 Tenho aborrecido e abominado a iniqüidade: tenho porém amado a tua lei.
164 Septies in die laudem dixi tibi, super judicia justitiæ tuæ.
164 Sete vêzes no dia te disse louvor, sôbre os juízos da tua justiça.
165 Pax multa diligentibus legem tuam, et non est illis scandalum.
165 Gozam muita paz os que amam a tua lei: E não há para êles tropêço.
166 Exspectabam salutare tuum, Domine, et mandata tua dilexi.
166 Esperava a tua salvação, Senhor: E amei os teus mandamentos.
167 Custodivit anima mea testimonia tua, et dilexit ea vehementer.
167 A minha alma guardou os teus testemunhos: E em grande maneira os amou.
168 Servavi mandata tua et testimonia tua, quia omnes viæ meæ in conspectu tuo.
168 Guardei os teus preceitos, e os teus testemunhos: Porque todos os meus caminhos estão expostos aos teus olhos.
169 Thau. Appropinquet deprecatio mea in conspectu tuo, Domine ; juxta eloquium tuum da mihi intellectum.
169 Thau. Cheguem, Senhor, os meus rogos à tua presença: Dá-me entendimento segundo a tua palavra.
170 Intret postulatio mea in conspectu tuo ; secundum eloquium tuum eripe me.
170 Entre a minha petição até ao teu acatamento: Livra-me segundo a tua palavra.
171 Eructabunt labia mea hymnum, cum docueris me justificationes tuas.
171 Sairão dos meus lábios com grande ímpeto hinos, quando me ensinares as tuas justificações.
172 Pronuntiabit lingua mea eloquium tuum, quia omnia mandata tua æquitas.
172 Anunciará a minha língua a tua palavra: Porque todos os teus mandamentos são eqüidade.
173 Fiat manus tua ut salvet me, quoniam mandata tua elegi.
173 Estende a tua mão para salvar-me: Porque elegi os teus mandamentos.
174 Concupivi salutare tuum, Domine, et lex tua meditatio mea est.
174 Tenho desejado, Senhor, a tua salvação: E a tua lei é a minha meditação.
175 Vivet anima mea, et laudabit te, et judicia tua adjuvabunt me.
175 Viverá a minha alma, e te louvará: E os teus juízos serão o meu apoio.
176 Erravi sicut ovis quæ periit : quære servum tuum, quia mandata tua non sum oblitus.
176 Andei errante, como ovelha, que se desgarrou: Busca o teu servo, porque não me esqueci dos teus mandamentos.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 119 ou salmo 118?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias modernas seguem a numeração hebraica e o chamam de salmo 119; a Vulgata, a Setenta, os livros da liturgia latina e a Bíblia Ave-Maria o contam como 118, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. A tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo segue a Vulgata e, com ela, o número 118. Os números dos versículos, porém, são idênticos: o versículo 105 das Bíblias modernas é o versículo 105 de Figueiredo.
A dupla numeração causa aqui uma confusão especial, porque três salmos vizinhos trocam de número:
- salmo 119 (hebraico) = salmo 118 (Vulgata e Ave-Maria): o Beati immaculati, o grande salmo da lei, nesta página;
- salmo 120 (hebraico) = salmo 119 (Vulgata e Ave-Maria): o Ad Dominum cum tribularer, «Quando me via atribulado clamei ao Senhor», o primeiro dos quinze cânticos graduais;
- salmo 118 (hebraico) = salmo 117 (Vulgata e Ave-Maria): o Confitemini Domino pascal, o da pedra rejeitada pelos construtores.
Quem procura “salmo 119 lâmpada para os meus pés” está, portanto, no lugar certo: o versículo é o 105 do salmo 118 da Vulgata.
Como é feito o salmo 119? Vinte e duas estrofes
O salmo é um acróstico alfabético de uma extensão única na Escritura. Tem vinte e duas estrofes, uma para cada letra do alfabeto hebraico, e cada estrofe tem oito versículos que, no hebraico, começam todos com a mesma letra. A forma se perde na tradução, mas a Vulgata e Figueiredo conservaram o nome da letra no início de cada estrofe: Aleph no versículo 1, Beth no versículo 9, Ghimel no versículo 17, e assim por diante até Thau no versículo 169. Oito vezes vinte e dois dá cento e setenta e seis: é o mais longo dos cento e cinquenta salmos e o capítulo mais longo de toda a Bíblia.
Quase todo versículo nomeia a lei de Deus, com uma série de palavras que se alternam: a lei, o caminho, os testemunhos, os mandamentos, os juízos, a palavra e as «justificações». Essa última palavra, que Figueiredo copia do latim justificationes, quer dizer aqui os estatutos, as normas justas estabelecidas por Deus. A repetição não é monotonia: é a própria meditação, que volta sempre ao mesmo objeto para saboreá-lo mais, como quem passa as contas de um terço.
O que significa o salmo 119? Explicação estrofe por estrofe
A «lei» do salmo não é um código frio. É a vontade de Deus revelada ao seu povo, a Torá, isto é, o ensinamento, e o salmista a ama como se ama uma pessoa. Ele não fala da lei: fala a Deus da sua lei, quase a cada versículo. O salmo é uma longa oração em que se entrelaçam o louvor, a súplica na perseguição e a promessa de fidelidade. Vamos percorrê-lo seguindo as quatro partes em que a Igreja o canta no domingo, de Prima a Noa.
Aleph a Daleth, versículos 1-32: a bem-aventurança do caminho (Prima)
O salmo se abre como o salmo 1, Beatus vir, com uma bem-aventurança: «Bem-aventurados os que se conservam sem mácula no caminho: Os que andam na lei do Senhor» (v. 1). A estrofe Beth faz a pergunta da juventude: «De que modo emenda o mancebo o seu caminho? Guardando as tuas palavras» (v. 9), e dá o segredo da perseverança: «No meu coração escondi as tuas palavras: Para não pecar contra ti» (v. 11). É a própria ordem do Deuteronômio: «E estas palavras, que eu hoje te intimo, estarão gravadas no teu coração» (Deuteronômio 6,6).
Com Ghimel, o salmista se descobre de passagem: «Eu sou peregrino na terra: Não escondas de mim os teus mandamentos» (v. 19), e pede a luz interior: «Tira o véu dos meus olhos: E eu considerarei as maravilhas da tua lei» (v. 18). A estrofe Daleth conhece o abatimento, «A minha alma estêve pegada com o chão» (v. 25), e o tédio, «A minha alma adormeceu de tédio» (v. 28), mas termina num impulso: «Corri pelo caminho dos teus mandamentos, quando dilataste o meu coração» (v. 32). São Bento retoma esse versículo no fim do prólogo da sua Regra: quem progride na vida de fé corre, com o coração dilatado, no caminho dos mandamentos.
He a Jod, versículos 33-80: a provação e a consolação (Terça)
A estrofe He é toda uma oração para ser guiado: «Guia-me pela vereda dos teus mandamentos» (v. 35), de onde vem a antífona de Terça. Nela está também a oração pela guarda dos olhos: «Aparta os meus olhos para que não vejam a vaidade: No teu caminho dá-me a vida» (v. 37), e a oração contra a cobiça: «Inclina o meu coração para os teus testemunhos: E não para a avareza» (v. 36). Com Vau vem a coragem do confessor da fé: «E falava dos teus testemunhos diante dos reis: E não me envergonhava» (v. 46).
Zain e Heth mostram o salmista consolado na humilhação, «Porque a tua palavra me deu vida» (v. 50), e fiel à oração da noite: «À meia-noite me levantava para te louvar, sôbre os juízos da tua justificação» (v. 62). Com Teth ele descobre o sentido do sofrimento: «Para mim foi-me bom que tu me humilhasses: Para eu aprender as tuas justificações» (v. 71), e o valor da lei: «Para mim foi melhor a lei que saiu da tua bôca, do que milhões de ouro e de prata» (v. 72). A estrofe Jod sobe até a origem: «As tuas mãos me fizeram, e me formaram: Dá-me inteligência, e eu aprenderei os teus mandamentos» (v. 73).
Caph a Ain, versículos 81-128: a palavra eterna e a tocha (Sexta)
Caph é a estrofe da espera: «Desfaleceu a minha alma pela tua salvação» (v. 81), e do odre ressecado pela geada, imagem do homem gasto pela provação: «Porque eu me tornei como ôdre exposto à geada» (v. 83). Lamed proclama a firmeza da palavra: «Senhor, para sempre no céu permanece a tua palavra» (v. 89), e contém o grito que dá a antífona de Sexta: «Eu sou teu, salva-me» (v. 94).
Mem é um grito de amor: «De que modo tenho eu, Senhor, amado a tua lei? ela é a minha meditação todo o dia» (v. 97); e saboreia a palavra como um alimento: «Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais que o mel à minha bôca!» (v. 103). Depois, no começo da estrofe Nun, vem o versículo mais amado do salmo, o 105, de que falamos logo abaixo. Samech e Ain fecham a Sexta com a luta contra os maus, «Favorece-me, e serei salvo» (v. 117), e com o grito da urgência: «É tempo de assim o fazeres, Senhor: Êles dissiparam a tua lei» (v. 126).
Phe a Thau, versículos 129-176: as lágrimas, a paz e a ovelha desgarrada (Noa)
Phe se abre com o espanto, «Maravilhosos são teus testemunhos» (v. 129), e ensina que a palavra se oferece aos simples: «A exposição das tuas palavras alumia: E dá inteligência aos pequeninos» (v. 130). Aqui está o versículo da antífona de Noa: «Faze que a luz do teu rosto reluza sôbre o teu servo» (v. 135). A mesma estrofe chora pelos que abandonam a Deus: «Rios de lágrimas derramaram os meus olhos: Porque não guardaram a tua lei» (v. 136).
Sade confessa a justiça de Deus, «Tu és justo, Senhor: E é reto o teu juízo» (v. 137); Coph é a oração de quem se levanta antes da aurora: «Eu me antecipei pela manhã, e clamei» (v. 147). Com Res e Sin, o salmista diz a alegria de quem achou um tesouro, «Como quem acha muitos despojos» (v. 162), e depois dois versículos que marcaram a vida da Igreja: «Sete vêzes no dia te disse louvor, sôbre os juízos da tua justiça» (v. 164), e «Gozam muita paz os que amam a tua lei» (v. 165).
O salmo não termina num triunfo, mas numa confissão. O último versículo da estrofe Thau diz: «Andei errante, como ovelha, que se desgarrou: Busca o teu servo, porque não me esqueci dos teus mandamentos» (v. 176). Depois de cento e setenta e cinco versículos de amor à lei, o salmista se reconhece pecador e se entrega ao pastor. Cristo responderá a essa oração com a parábola da ovelha perdida, que o pastor vai buscar «até que a ache» (Lucas 15,4).
Salmo 119, 105: «Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra»
O versículo mais procurado do salmo é o primeiro da estrofe Nun: «Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos» (v. 105). Em latim: Lucerna pedibus meis verbum tuum, et lumen semitis meis. As Bíblias modernas dizem “lâmpada para os meus pés”. A imagem é a do viajante que anda de noite com uma pequena lanterna: a luz não ilumina o caminho inteiro de uma vez, ilumina o passo seguinte, e isso basta para avançar. Assim a palavra de Deus não responde de antemão a todas as perguntas da vida: dá a luz suficiente para fazer hoje a sua vontade.
O versículo seguinte tira a consequência: «Jurei, e determinei guardar os juízos da tua justiça» (v. 106). A luz recebida pede um passo decidido. Por isso o versículo 105 é uma bela jaculatória para toda escolha, e uma oração para dizer antes de abrir a Escritura.
Outros versículos procurados: 9, 37 e 71
- Versículo 9: «De que modo emenda o mancebo o seu caminho? Guardando as tuas palavras». A pergunta de todo jovem que quer viver com pureza, e a resposta: não a força de vontade sozinha, mas a palavra guardada no coração.
- Versículo 37: «Aparta os meus olhos para que não vejam a vaidade». Uma oração pela guarda dos olhos, preciosa num tempo de telas e imagens.
- Versículo 71: «Para mim foi-me bom que tu me humilhasses». O salmista não agradece a humilhação em si, mas o que ela lhe ensinou: a provação o levou a conhecer melhor a vontade de Deus.
Quem escreveu o salmo 119?
O salmo não traz título nem nome de autor: começa simplesmente com «Aleluia». A tradição o atribuiu muitas vezes a Davi, como a maior parte do Saltério, mas essa atribuição é incerta, e a Igreja nunca a definiu. O que se pode dizer com segurança é que o autor era um homem de oração, perseguido por poderosos («os príncipes me perseguiram sem causa», v. 161), que encontrava na lei de Deus a sua alegria. O autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo, que aqui faz cantar o amor da sua própria palavra. Sobre os autores do Saltério em geral, veja quem escreveu os salmos.
Os Padres e a leitura cristã
Os Padres comentaram este salmo com uma predileção especial. Santo Ambrósio, bispo de Milão, dedicou-lhe um comentário inteiro, a Expositio in psalmum CXVIII, em vinte e dois sermões, um para cada letra: é uma das suas obras mais belas sobre a vida espiritual (veja a página sobre Santo Ambrósio). Santo Agostinho, que o comentou por último nas Enarrationes in Psalmos, confessa no prólogo que adiou muito tempo a explicação, não porque o salmo fosse obscuro, mas porque, quanto mais claro parecia, mais profundo se mostrava; comentou-o depois em trinta e dois sermões.
Para os Padres, a lei amada pelo salmo conduz a Cristo, Verbo de Deus e cumprimento da lei. Amar a lei é amar a vontade do Pai, que Cristo cumpriu perfeitamente; e o Senhor resume esse amor numa frase: «Se me amais: Guardai os meus mandamentos» (João 14,15). O salmo canta assim o amor que faz guardar os dez mandamentos não por medo, mas por atração. Ele prolonga o salmo 19 (18 na Vulgata), Cæli enarrant, onde «A lei do Senhor que é imaculada converte as almas».
O salmo 119 na liturgia de 1962
As Horas menores do domingo. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério reorganizado por São Pio X em 1911, o salmo 118 é distribuído em seções de dezesseis versículos, isto é, duas estrofes de cada vez, entre as Horas menores do domingo:
- Prima: depois do salmo 117, os versículos 1-16 e 17-32 (Aleph a Daleth);
- Terça: os versículos 33-48, 49-64 e 65-80 (He a Jod), com a antífona Deduc me, Domine, in semitam mandatorum tuorum;
- Sexta: os versículos 81-96, 97-112 e 113-128 (Caph a Ain), com a antífona Tuus sum ego, salvum me fac, Domine;
- Noa: os versículos 129-144, 145-160 e 161-176 (Phe a Thau), com a antífona Faciem tuam, Domine, illumina super servum tuum.
Nos domingos comuns essas antífonas vêm emolduradas pelo Alleluia. Todo domingo a Igreja reza, portanto, o salmo inteiro, da manhã à tarde. Antes da reforma de São Pio X ele se rezava assim todos os dias nas Horas menores: durante séculos os sacerdotes rezaram diariamente os cento e setenta e seis versículos. Desde 1911, nos dias de semana, essas Horas têm outros salmos. Você pode rezá-las no breviário; sobre a sua estrutura, veja a página sobre a Liturgia das Horas.
As sete Horas. O salmo deu ao Ofício também a sua forma. São Bento, no capítulo 16 da Regra, apoia-se no versículo 164, Septies in die laudem dixi tibi, para fixar as sete Horas do dia, e no versículo 62, Media nocte surgebam ad confitendum tibi, para o Ofício noturno. Na sua Regra, aliás, o salmo 118 se canta nas Horas menores do domingo e da segunda-feira.
No Missal. Muitos cantos da Missa vêm deste salmo. A 26 de dezembro, festa de Santo Estêvão, o intróito e o gradual cantam os versículos 23 e 86: Sederunt principes, et adversum me loquebantur: et iniqui persecuti sunt me. A 29 de agosto, na Degolação de São João Batista, o intróito é o versículo 46: Loquebar de testimoniis tuis in conspectu regum, et non confundebar. O ofertório da Quinquagésima é Benedictus es, Domine, doce me justificationes tuas (versículos 12-13), o do segundo domingo da Quaresma, Meditabor in mandatis tuis, quæ dilexi valde (versículos 47-48).
Depois de Pentecostes, o intróito do décimo sétimo domingo é Justus es, Domine, et rectum judicium tuum (versículos 137 e 124), com o versículo Beati immaculati in via; a comunhão do décimo nono é Tu mandasti mandata tua custodiri nimis (versículos 4-5), a do vigésimo, Memento verbi tui servo tuo, Domine (versículo 49), e a do vigésimo primeiro, In salutari tuo anima mea, et in verbum tuum speravi.
Como rezar o salmo 119
O tamanho assusta; mas há muitos modos de rezá-lo.
- Como a Igreja, no domingo, seguindo as seções de Prima, Terça, Sexta e Noa.
- Por estrofes. Cada estrofe de oito versículos forma uma meditação completa; o nome da letra, conservado no texto, marca onde retomar.
- Antes de ler a Bíblia, com o versículo 18: «Tira o véu dos meus olhos».
- Na tentação, com o versículo 11, e pela guarda dos olhos com o 37.
- À noite, depois de uma queda, com o último versículo, a oração da ovelha desgarrada, antes do exame de consciência.
O versículo 105 pode se tornar uma jaculatória para cada decisão. Conclui-se, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
O que diz o salmo 119, versículo 105?
Em Figueiredo: «Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos». As Bíblias modernas traduzem “lâmpada para os meus pés é a tua palavra”. A palavra de Deus ilumina a vida passo a passo; é o primeiro versículo da estrofe Nun, a décima quarta.
Quantos versículos tem o salmo 119?
Cento e setenta e seis, o que faz dele o salmo mais longo e o capítulo mais longo da Bíblia. Eles se dividem em vinte e duas estrofes de oito versículos, uma para cada letra do alfabeto hebraico.
Por que o salmo 119 é tão longo?
Porque é um acróstico completo: oito versículos para cada uma das vinte e duas letras do alfabeto hebraico. A forma diz que o louvor da palavra de Deus percorre tudo, “de A a Z”, sem deixar nada de fora.
Qual é o significado do salmo 119?
É uma longa meditação de amor sobre a lei de Deus, isto é, sobre a sua vontade e a sua palavra. Em vinte e duas estrofes o salmista louva, suplica na provação e promete fidelidade; termina com a confissão de uma ovelha desgarrada que pede para ser buscada.
Por que as estrofes do salmo 119 têm nomes como Aleph e Beth?
São as letras do alfabeto hebraico. No original, os oito versículos de cada estrofe começam com a mesma letra; a Vulgata e Figueiredo, sem poder conservar o acróstico, mantiveram o nome da letra no início de cada estrofe.
Para que serve o salmo 119?
Para rezar a palavra de Deus e pedir a graça de vivê-la. A Igreja o reza todo domingo nas Horas menores. Não é uma fórmula com efeito automático: é uma escola de oração, que ensina a amar a vontade de Deus.
O salmo 119 fala de Cristo?
Os Padres o leem à luz de Cristo, Palavra eterna do Pai e cumprimento da lei: ninguém amou e cumpriu a vontade de Deus como Ele. E o último versículo, a ovelha que pede ao pastor que a busque, encontra a sua resposta na parábola do Bom Pastor.
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