A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Filipenses 4: «Tudo posso naquele que me conforta» e a alegria no Senhor
O último capítulo da Epístola aos Filipenses traz três dos versículos mais procurados da Bíblia: a alegria no Senhor (4,4), a oração que afasta a ansiedade (4,6-7) e o célebre «Tudo posso naquele que me conforta» (4,13). Aqui está o capítulo inteiro na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o contexto, o sentido de cada trecho e o uso do capítulo na liturgia de 1962.
1 Itaque fratres mei carissimi, et desideratissimi, gaudium meum, et corona mea : sic state in Domino, carissimi.
1 Portanto, meus muito amados e desejados irmãos, gôsto meu, e coroa minha: Estai assim firmes no Senhor, caríssimos.
2 Evodiam rogo, et Syntychen deprecor, idipsum sapere in Domino.
2 Rogo a Evódia, e suplico a Síntique, que sintam o mesmo no Senhor.
3 Etiam rogo et te, germane compar, adjuva illas, quæ mecum laboraverunt in Evangelio cum Clemente, et ceteris adjutoribus meis, quorum nomina sunt in libro vitæ.
3 Também te rogo a ti ainda, ó fiel companheiro, que as ajudes como pessoas que trabalharam comigo no Evangelho com Clemente, e com os outros que me ajudaram, cujos nomes estão no livro da vida.
4 Gaudete in Domino semper : iterum dico gaudete.
4 Alegrai-vos incessantemente no Senhor: Outra vez digo, alegrai-vos.
5 Modestia vestra nota sit omnibus hominibus : Dominus prope est.
5 A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens: O Senhor está perto.
6 Nihil solliciti sitis : sed in omni oratione, et obsecratione, cum gratiarum actione petitiones vestræ innotescant apud Deum.
6 Não tenhais cuidado de coisa alguma: Mas com muita oração e rogos, com ação de graças sejam manifestas as vossas petições diante de Deus.
7 Et pax Dei, quæ exuperat omnem sensum, custodiat corda vestra, et intelligentias vestras in Christo Jesu.
7 E a paz de Deus, que sobrepuja todo o entendimento, guarde os vossos corações, e os vossos sentimentos em Jesus Cristo.
8 De cetero fratres, quæcumque sunt vera, quæcumque pudica, quæcumque justa, quæcumque sancta, quæcumque amabilia, quæcumque bonæ famæ, siqua virtus, siqua laus disciplinæ, hæc cogitate.
8 Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, se há algum louvor de costumes, isto seja o que ocupe os vossos pensamentos.
9 Quæ et didicistis, et accepistis, et audistis, et vidistis in me, hæc agite : et Deus pacis erit vobiscum.
9 O que não só aprendestes, mas recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso também praticai: E o Deus da paz será convosco.
10 Gavisus sum autem in Domino vehementer, quoniam tandem aliquando refloruistis pro me sentire, sicut et sentiebatis : occupati autem eratis.
10 Muito me tenho pois alegrado no Senhor, de que já por fim tenhais renovado o vosso cuidado acêrca de mim, pois é certo que o tínheis: Mas só vos faltava a oportunidade.
11 Non quasi propter penuriam dico : ego enim didici, in quibus sum, sufficiens esse.
11 Não o digo como apertado da necessidade: Porque eu tenho aprendido a contentar-me com o que tenho.
12 Scio et humiliari, scio et abundare (ubique et in omnibus institutus sum) : et satiari, et esurire, et abundare, et penuriam pati.
12 Sei ainda viver humilhado, sei também viver na abundância: (Para tudo e para todos os encontros me costumei a estar apercebido) Ter assim fartura, como ter fome, e passar na afluência, e padecer necessidade:
13 Omnia possum in eo qui me confortat.
13 Tudo posso naquele que me conforta.
14 Verumtamen bene fecistis, communicantes tribulationi meæ.
14 Contudo fizestes bem, em tomar parte na minha tribulação.
15 Scitis autem et vos Philippenses, quod in principio Evangelii, quando profectus sum a Macedonia, nulla mihi ecclesia communicavit in ratione dati et accepti, nisi vos soli :
15 E sabei também vós, ó Filipenses, que no princípio do Evangelho, quando parti de Macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo em razão de dar, e de receber, senão vós sòmente:
16 quia et Thessalonicam semel et bis in usum mihi misistis.
16 Porque vós me mandastes duas vêzes ainda a Tessalônica, o que me era necessário.
17 Non quia quæro datum, sed requiro fructum abundantem in ratione vestra.
17 Isto não é porque eu busque dádivas, mas busco fruto que abunde à vossa conta.
18 Habeo autem omnia, et abundo : repletus sum, acceptis ab Epaphrodito quæ misistis odorem suavitatis, hostiam acceptam, placentem Deo.
18 Assim tenho tudo, e o desfruto em abundância: Cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que me mandastes, como cheiro de suavidade, como hóstia aceita, agradável a Deus.
19 Deus autem meus impleat omne desiderium vestrum secundum divitias suas in gloria in Christo Jesu.
19 O meu Deus pois cumpra todos os vossos desejos, conforme as suas riquezas, na glória por Jesus Cristo.
20 Deo autem et Patri nostro gloria in sæcula sæculorum. Amen.
20 E glória a Deus e Pai nosso por todos os séculos dos séculos. Amém.
21 Salutate omnem sanctum in Christo Jesu.
21 Saudai a todos os Santos em Jesus Cristo.
22 Salutant vos, qui mecum sunt, fratres. Salutant vos omnes sancti, maxime autem qui de Cæsaris domo sunt.
22 Os irmãos, que estão comigo, vos saudam. Todos os Santos vos saudam, mas com muita especialidade os que são da família de César.
23 Gratia Domini nostri Jesu Christi cum spiritu vestro. Amen.
23 A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
O contexto: Paulo preso escreve aos amigos de Filipos
A Epístola aos Filipenses foi escrita por São Paulo na prisão, segundo a tradição no primeiro cativeiro de Roma, por volta de 61-63; o próprio capítulo 4 manda as saudações dos cristãos «que são da família de César» (v. 22). Filipos, na Macedônia, foi a primeira Igreja que o Apóstolo fundou na Europa, e a única que o sustentou materialmente desde o começo. A carta é, por isso, uma carta de amizade e de gratidão, e o capítulo 4 é a sua conclusão: últimos conselhos, um agradecimento pelo socorro recebido, as saudações. A introdução ao livro inteiro está na página da Epístola aos Filipenses.
É útil lembrar isso antes de ler o versículo 13: ele não está num tratado sobre o sucesso, mas na carta de um homem acorrentado que agradece a um pequeno grupo de fiéis por lhe ter mandado ajuda.
O que diz Filipenses 4? O capítulo passo a passo
Firmes e unidos no Senhor (v. 1-3). Paulo chama os filipenses de «gôsto meu, e coroa minha» (v. 1) e pede a duas mulheres da comunidade, Evódia e Síntique, que voltem à concórdia: «que sintam o mesmo no Senhor» (v. 2). Elas tinham trabalhado com ele no Evangelho. Ele recorda também Clemente; uma antiga tradição, recolhida por Eusébio de Cesareia, identificou-o com São Clemente, bispo de Roma, mas a identificação é incerta.
A alegria e a paz (v. 4-7). É o coração do capítulo: «Alegrai-vos incessantemente no Senhor: Outra vez digo, alegrai-vos» (v. 4). A razão da alegria vem logo depois: «O Senhor está perto» (v. 5). Seguem o convite a não se deixar devorar pela preocupação e a promessa da paz de Deus, que comentamos abaixo.
O programa dos pensamentos (v. 8-9). «Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama […] isto seja o que ocupe os vossos pensamentos» (v. 8). Paulo não pede apenas que se evite o mal: pede que a inteligência se alimente do que é bom. E acrescenta o seu exemplo: «O que não só aprendestes, mas recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso também praticai» (v. 9). A fé se transmite pelo ensino e pelo exemplo, e a promessa é a mesma da paz: «E o Deus da paz será convosco».
O agradecimento pelo socorro (v. 10-20). Os filipenses mandaram a Paulo, por meio de Epafrodito, um auxílio para a prisão. Ele agradece com delicadeza, sem parecer que pede mais: «Não o digo como apertado da necessidade: Porque eu tenho aprendido a contentar-me com o que tenho» (v. 11). É aqui que se encontra o versículo 13. O dom é chamado «cheiro de suavidade, como hóstia aceita, agradável a Deus» (v. 18): a esmola feita ao Apóstolo é um sacrifício oferecido a Deus.
As saudações (v. 21-23). A carta termina com uma bênção: «A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém» (v. 23).
Filipenses 4,13: «Tudo posso naquele que me conforta»
É o versículo mais procurado do capítulo, e um dos mais procurados de toda a Bíblia: «Tudo posso naquele que me conforta» (v. 13). Em latim, Omnia possum in eo qui me confortat. As Bíblias modernas costumam traduzir “que me fortalece”; o sentido é o mesmo, porque «confortar», no português clássico de Figueiredo, é tornar forte, como o latim confortare, de fortis, forte.
O que significa, no contexto? Os versículos anteriores dizem do que se trata: «Sei ainda viver humilhado, sei também viver na abundância […] Ter assim fartura, como ter fome, e passar na afluência, e padecer necessidade» (v. 12). O «tudo» de Paulo é, antes de mais nada, suportar tudo: a fome e a fartura, a prisão e a liberdade, sem perder a paz nem a fidelidade. Não é uma promessa de que Deus realizará qualquer projeto que alguém tenha em mente; é a confissão de que nenhuma situação, por pior que seja, está acima da força que Cristo dá a quem nele confia.
Quem é «aquele que me conforta»? É Cristo. Paulo o diz com outras palavras na Segunda Epístola aos Coríntios, quando o Senhor lhe responde: «Basta-te a minha graça: Porque a virtude se aperfeiçoa na enfermidade» (2 Cor 12,9). E o próprio Jesus tinha dito o reverso do versículo: «vós sem mim não podeis fazer nada» (Jo 15,5).
A leitura católica: a graça. A Igreja vê nesse versículo uma das expressões mais claras da doutrina da graça. O Concílio de Trento, na sessão VI (1547), retomou uma frase de Santo Agostinho para ensinar que Deus não manda coisas impossíveis: ao mandar, ele avisa que se faça o que se pode, que se peça o que não se pode, e ajuda para que se possa. É exatamente o movimento de Filipenses 4: Paulo trabalha, sofre, aprende a contentar-se, e sabe que tudo o que consegue lhe vem de Cristo. A força é real e é dele, mas é dada. Por isso o versículo não alimenta o orgulho; leva à oração.
Filipenses 4,6-7: a ansiedade e a paz de Deus
«Não tenhais cuidado de coisa alguma: Mas com muita oração e rogos, com ação de graças sejam manifestas as vossas petições diante de Deus» (v. 6). O latim Nihil solliciti sitis fala da solicitude que inquieta, da preocupação que tira o sono. Paulo não manda ser indiferente, manda transformar a preocupação em oração: pedir, suplicar e agradecer ao mesmo tempo. É o eco do Sermão da Montanha: «não andeis inquietos pelo dia de amanhã» (Mt 6,34).
A promessa vem logo em seguida: «E a paz de Deus, que sobrepuja todo o entendimento, guarde os vossos corações, e os vossos sentimentos em Jesus Cristo» (v. 7). O verbo latino custodiat é militar: a paz de Deus monta guarda ao coração, como uma sentinela na porta de uma cidade. Não é a paz de quem resolveu todos os problemas, mas a de quem os entregou a Deus; por isso «sobrepuja todo o entendimento». A ação de graças no meio do pedido é o sinal dessa confiança, e a oração de agradecimento é parte da vida cristã tanto quanto a súplica.
Filipenses 4,4: o domingo da alegria
O versículo 4 deu nome a um domingo inteiro. No Missal de 1962, o intróito do III domingo do Advento começa com essas palavras, Gaudete in Domino semper, e por isso o dia se chama domingo Gaudete; a epístola desse domingo é precisamente Filipenses 4,4-7. Nesse dia o sacerdote pode usar paramentos cor-de-rosa em vez de roxos: no meio da penitência do Advento, a Igreja anuncia que «O Senhor está perto» (v. 5), isto é, que o Natal se aproxima e que Cristo voltará.
No Breviário, os capítulos (leituras breves) desse domingo também vêm daqui: Filipenses 4,4-5 nas Laudes, 4,6 na Sexta e 4,7 na Noa. O Missal toma ainda Filipenses 4,4-9 para a epístola de São João Bosco, em 31 de janeiro, e as lições das Matinas da segunda-feira da IV semana depois da Epifania, quando o calendário a comporta, percorrem o início do capítulo (4,1-10).
Filipenses 4,19: «O meu Deus pois cumpra todos os vossos desejos»
Também muito procurado é o versículo 19: «O meu Deus pois cumpra todos os vossos desejos, conforme as suas riquezas, na glória por Jesus Cristo» (v. 19). Outras traduções falam de “necessidades”. No contexto, é a resposta de Paulo à generosidade dos filipenses: eles o socorreram na sua necessidade, e ele lhes deseja que Deus os socorra nas deles. A medida é a riqueza de Deus, e a forma é «na glória por Jesus Cristo»: os bens que Deus promete são, antes de tudo, os da salvação. Ler aí uma garantia de prosperidade material é tirar o versículo da sua carta. O versículo seguinte transforma tudo em louvor: «E glória a Deus e Pai nosso por todos os séculos dos séculos. Amém» (v. 20).
Como rezar com Filipenses 4
O capítulo oferece quase um pequeno método de oração. Começar pela alegria e pela lembrança de que o Senhor está perto (v. 4-5); apresentar a Deus o que preocupa, pedindo e agradecendo (v. 6); deixar que a paz dele guarde o coração (v. 7); escolher conscientemente os pensamentos que se alimentam (v. 8); e, diante das provas, repetir com Paulo o versículo 13, não como um grito de autoconfiança, mas como um ato de fé na graça. Muitos o rezam como jaculatória antes de uma tarefa difícil ou no meio de uma doença; é um uso antigo e bom, desde que a frase continue dirigida a Cristo. Outros versículos do mesmo gênero estão reunidos em versículos de fé.
Perguntas Frequentes
O que significa Filipenses 4,13?
«Tudo posso naquele que me conforta» quer dizer que Paulo, preso, aprendeu a viver na fome e na fartura sem perder a paz, porque Cristo lhe dá força. O «tudo» é suportar e cumprir tudo o que Deus pede, não realizar qualquer desejo. A Igreja lê nele a doutrina da graça: sem Cristo nada podemos, com ele podemos o que ele nos manda.
Qual a diferença entre “me conforta” e “me fortalece”?
Nenhuma de sentido. O latim da Vulgata diz confortat, que Figueiredo traduz «conforta» no sentido clássico de tornar forte; as Bíblias modernas preferem “fortalece”. Os números de capítulo e versículo são os mesmos: Filipenses 4,13 é o mesmo versículo aqui e nelas.
O que diz Filipenses 4,6-7?
Que não se deve viver dominado pela preocupação, mas apresentar tudo a Deus em oração, com súplicas e ação de graças; e que então a paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, guardará o coração e os pensamentos em Cristo Jesus.
Por que o III domingo do Advento se chama Gaudete?
Porque o intróito da Missa começa com Filipenses 4,4, Gaudete in Domino semper: «Alegrai-vos incessantemente no Senhor», na tradução de Figueiredo. A epístola do dia é Filipenses 4,4-7, e os paramentos podem ser cor-de-rosa.
Quem eram Evódia e Síntique?
Duas cristãs de Filipos que tinham trabalhado com Paulo na pregação do Evangelho e estavam em desacordo. O Apóstolo lhes pede publicamente que se reconciliem «no Senhor». Não se sabe mais nada delas com segurança.
Filipenses 4,19 promete riqueza?
Não. Paulo deseja aos filipenses, que o tinham socorrido, que Deus os socorra por sua vez, segundo as suas riquezas «na glória por Jesus Cristo». A promessa diz respeito ao cuidado de Deus e aos bens da salvação, não a uma garantia de prosperidade.
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