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Epístola de São Paulo a Filemom (Filemon)
A carta a Filemom é o bilhete que São Paulo, preso, escreveu a um cristão de Colossos para lhe devolver o escravo fugitivo Onésimo, tornado cristão, «Não já como um servo, mas em vez de servo, um irmão muito amado». Aqui você encontra o seu único capítulo de vinte e cinco versículos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata (que escreve Filemon), com o latim ao lado; o guia explica quem foram Filemom e Onésimo, o versículo 15 e o sentido da carta.
Ler Epístola a Filemon: um capítulo
A epístola a Filemom, Epistola ad Philemonem na Vulgata, é a mais curta das catorze cartas de São Paulo: um só capítulo de vinte e cinco versículos, que se lê em cinco minutos. É também a mais pessoal. Não há nela controvérsias de doutrina nem Igrejas em crise: só um escravo que fugiu, um Apóstolo acorrentado que o converteu e um senhor a quem se pede que o receba como irmão. Os Padres viram tudo o que cabe nessa pequena história: uma caridade que pede em vez de mandar, um pecador reerguido, uma dívida paga por outro. O nome aparece como Filemon no texto de Figueiredo e como Filemom nas Bíblias brasileiras de hoje; é a mesma pessoa e a mesma carta.
Quem foi Filemom na Bíblia?
Um cristão de Colossos, na Frígia, homem de posses que tinha escravos e em cuja casa se reunia a comunidade: a saudação da carta se estende «à Igreja que está em tua casa» (Fm 2). Paulo o chama «amado Filemon, e Coadjutor nosso» (Fm 1), louva a sua caridade e lhe lembra «que até a ti mesmo te me deves» (Fm 19): provavelmente foi o Apóstolo quem o converteu, talvez durante a longa estada em Éfeso. Que Filemom era de Colossos, deduz-se da epístola aos Colossenses, que chama Onésimo, escravo dele, de «muito bem amado, e fiel irmão, que é da vossa naturalidade».
A carta se dirige também «a Ápia nossa muito amada irmã, e a Árquipo companheiro da nossa milícia» (Fm 2). Ápia é comumente tida como a esposa de Filemom. Árquipo seria talvez o filho deles; é o ministro a quem Paulo manda dizer, na carta aos Colossenses: «Vê o ministério, que recebeste do Senhor, para o cumprires» (Colossenses 4,17). O Martirológio Romano faz memória de São Filemom e Santa Ápia em 22 de novembro, como mártires em Colossos.
Quem era Onésimo, e o que Filemom era dele?
Onésimo era o escravo de Filemom; Filemom era o seu senhor. Segundo São João Crisóstomo, ele tinha roubado o patrão antes de fugir para Roma. Ali encontrou Paulo na prisão, ouviu a sua palavra e recebeu o batismo: «Rogo-te por meu filho Onésimo, que eu gerei nas prisões» (Fm 10). Em grego, o nome quer dizer “útil”, e Paulo brinca com a palavra: «O qual em algum tempo te foi inútil, mas agora é útil assim para mim, como para ti» (Fm 11).
A tradição não o esqueceu. O Martirológio Romano o comemora em 16 de fevereiro e o diz ordenado bispo de Éfeso por São Paulo, depois de São Timóteo, levado depois acorrentado a Roma e apedrejado pela fé. Por volta do ano 107, Santo Inácio de Antioquia, escrevendo aos Efésios a caminho do martírio, louva o bispo deles, Onésimo; muitos pensaram que fosse o mesmo homem, mas não há certeza.
Quem escreveu a carta a Filemom, e quando?
São Paulo, com Timóteo nomeado a seu lado: «Paulo, prêso de Jesus Cristo, e Timóteo, seu irmão» (Fm 1). O Apóstolo assina o compromisso com a própria mão: «Eu, Paulo, o escrevi de mão própria: Eu o pagarei» (Fm 19), e se apresenta como «velho, e atualmente prêso de Jesus Cristo» (Fm 9). O Cânon de Muratori a conta entre as cartas de Paulo; Tertuliano nota que Marcião, que mutilava as epístolas, deixou esta intacta, salva pela sua brevidade. No século IV, alguns objetaram não que Paulo não a tivesse escrito, mas que um bilhete sobre um escravo era indigno da Escritura. São Jerônimo e São João Crisóstomo responderam que Deus cuida das pequenas coisas da vida como das grandes.
Foi escrita em Roma, durante a primeira prisão, por volta de 61 a 63: aquela de que falam os Atos: «dois anos inteiros permaneceu Paulo num aposento que alugara: E recebia a todos que o vinham ver» (Atos 28,30). Um escravo vindo da Ásia podia, portanto, encontrá-lo. A carta partiu junto com a epístola aos Colossenses: as duas nomeiam os mesmos companheiros e o mesmo Onésimo, que Paulo envia a Colossos com Tíquico. Alguns autores modernos propõem Cesareia ou Éfeso; a tradição fica com Roma.
Do que fala a carta a Filemom? Resumo
Saudação e ação de graças (versículos 1-7)
Depois da saudação a Filemom, a Ápia, a Árquipo e à Igreja da sua casa, Paulo dá graças a Deus, «Ouvindo a tua caridade, e a fé que tens no Senhor Jesus, e para com todos os Santos» (Fm 5), e diz a sua alegria: «os corações dos Santos por ti, irmão, foram confortados» (Fm 7). O elogio é sincero e prepara o pedido que vem a seguir.
O pedido por Onésimo (versículos 8-21)
É o coração da carta. Paulo poderia mandar, mas prefere pedir: «ainda que eu tenha muita liberdade em Jesus Cristo, para te mandar o que te convém. Contudo antes te rogo com caridade» (Fm 8-9). Devolve Onésimo: «O qual te tornei a enviar. E tu recebe-o, como às minhas entranhas» (Fm 12). Teria gostado de retê-lo consigo, «Mas sem o teu consentimento nada quis fazer, para que o teu benefício não fôsse como por necessidade, senão voluntário» (Fm 14).
Depois lê a Providência no que aconteceu (versículos 15-16, explicados abaixo). Toma sobre si a dívida: «E se algum dano te fêz ou te deve alguma coisa: Carrega-o sôbre mim» (Fm 18), e conclui com confiança: «Sabendo que farás ainda mais de quanto digo» (Fm 21). A palavra liberdade não é pronunciada, mas muitos leitores, antigos e modernos, a ouviram nesta última frase.
Pousada e saudações (versículos 22-25)
Paulo pede que lhe preparem pousada, porque espera ser restituído aos seus «pelas vossas orações» (Fm 22), e transmite as saudações de Epafras, seu companheiro de prisão, e de «Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, que são meus coadjutores» (Fm 24). Marcos, que um dia se separara de Paulo, está de novo ao seu lado; a vida dele está no artigo sobre São Marcos evangelista. Demas, fiel aqui, abandonará mais tarde o Apóstolo, como conta a segunda carta a Timóteo: «Porque Demas me desamparou, amando êste século».
Filemom 1,15 explicação: «para que tu o recobrasses para sempre»
É, de longe, o versículo mais procurado da carta. «Porque talvez êle se apartou de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre. Não já como um servo, mas em vez de servo, um irmão muito amado, principalmente de mim: E quanto mais de ti assim na carne, como no Senhor?» (Fm 15-16).
Paulo não diz que Onésimo fez bem em fugir; diz «talvez», com delicadeza. Mas convida Filemom a olhar o acontecimento com os olhos da fé. Uma fuga, um prejuízo, uma ausência: Deus se serviu disso para trazer Onésimo a Cristo. Filemom perdeu um escravo «por algum tempo» e recupera um irmão «para sempre», isto é, para a eternidade, porque a comunhão dos que estão em Cristo não acaba com a morte. É a mesma lição que José dá aos irmãos no fim do Gênesis: o mal que os homens quiseram, Deus o converteu em bem.
O versículo 16 diz como deve ser recebido: «Não já como um servo, mas em vez de servo, um irmão muito amado». Paulo não apaga a condição social de Onésimo, mas a ultrapassa. Ele continua a ser de Filemom «na carne», segundo a ordem da sociedade, e passa a ser dele «no Senhor», como irmão na fé. É por isso que tantas pessoas, nas horas de separação ou de perda, se agarram a este versículo: nada do que Deus permite é sem sentido para quem o ama. Mas ele não é uma promessa de que tudo o que se perdeu voltará do mesmo modo; é a certeza de que Deus pode fazer de uma ferida o começo de uma ligação mais santa.
Estudo da carta: temas e leitura católica
Uma caridade que pede. Paulo tem a autoridade de um Apóstolo e escolhe pedir. São João Crisóstomo tira daí a primeira lição da carta: se Paulo se ocupa tanto de um escravo fugitivo e ladrão, nós não devemos desprezar nenhuma alma. Ninguém está fora do alcance da graça, e quem era «inútil» se torna ajuda do Apóstolo. A vida e os escritos desse Padre estão no artigo sobre São João Crisóstomo.
O perdão das ofensas. Paulo pede a Filemom o que o Evangelho pede a todo cristão: perdoar uma ofensa real e acolher o culpado. Perdoar as injúrias é uma das obras de misericórdia espirituais, e o pedido do Pai-Nosso, «perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores» (Mateus 6,12), ganha aqui um rosto concreto.
Uma dívida paga por outro. O latim diz hoc mihi imputa, põe isso na minha conta. Vê-se aqui, em pequeno, o que Cristo fez por nós: o culpado é recebido por causa de outro, que toma sobre si a dívida.
A paternidade espiritual. «Que eu gerei nas prisões»: Paulo usa a mesma linguagem na primeira epístola aos Coríntios: «Pois eu sou o que vos gerei em Jesus Cristo pelo Evangelho». Quem dá uma alma a Cristo pela palavra e pelo batismo torna-se verdadeiramente pai na fé. Daí o costume católico de chamar “padre”, pai, ao sacerdote.
A escravidão e o Evangelho. Paulo não manda Filemom libertar Onésimo, e não retém o escravo sem o consentimento do senhor. Mas transforma a relação por dentro: o escravo é agora um irmão muito amado, «assim na carne, como no Senhor». Ele o escrevera aos Gálatas: «Não há servo, nem livre […] Porque todos vós sois um em Jesus Cristo» (Gálatas 3,28). Esses princípios agiram como um fermento que, lentamente, minou a escravidão antiga; séculos depois, os Papas condenariam expressamente o tráfico de escravos.
Versículos mais conhecidos da carta a Filemom
- «O qual em algum tempo te foi inútil, mas agora é útil assim para mim, como para ti» (Fm 11).
- «Porque talvez êle se apartou de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre» (Fm 15).
- «Portanto se me tens por companheiro recebe-o como a mim» (Fm 17).
- «Para que a comunicação da tua fé seja clara, pelo conhecimento de tôda a obra boa» (Fm 6).
- «A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém» (Fm 25).
A carta a Filemom no cânon e na liturgia
A carta figura em todas as Bíblias, católicas, ortodoxas e protestantes, com o mesmo nome e o mesmo capítulo único. Na Vulgata vem depois da epístola a Tito e antes da epístola aos Hebreus: é a última das cartas de Paulo dirigidas a pessoas. O Concílio de Trento (sessão IV, 1546) a nomeia entre as catorze cartas do Apóstolo.
O Missal de 1962 não tira dela nenhuma epístola. No Breviário, os versículos 1 a 19 são lidos nas três lições das Matinas do sábado da V semana depois da Epifania, quando o calendário o permite: é a última carta de Paulo lida antes da epístola aos Hebreus.
Como ler a carta a Filemom
Leia-a em voz alta, de uma vez, como uma carta que acaba de chegar. Depois leia-a junto com o capítulo 4 da epístola aos Colossenses, que partiu no mesmo correio. Por fim, ponha-se no lugar de cada um: de Onésimo, que volta para casa com medo; de Filemom, que precisa perdoar; de Paulo, que intercede e paga. É um bom texto para preparar uma reconciliação, ou um exame de consciência sobre o perdão.
Perguntas Frequentes
Quem foi Filemom na Bíblia?
Um cristão rico de Colossos, convertido por São Paulo, em cuja casa se reunia a Igreja. Era o senhor do escravo Onésimo. Paulo lhe escreveu para pedir que recebesse Onésimo como um irmão.
Quem era Onésimo?
O escravo de Filemom, que lhe causou prejuízo, fugiu para Roma, encontrou ali São Paulo preso e se tornou cristão. O nome quer dizer “útil”. O Martirológio Romano o honra em 16 de fevereiro como bispo de Éfeso depois de São Timóteo e como mártir.
Quem escreveu a carta a Filemom?
São Paulo, com Timóteo nomeado na saudação, por volta de 61-63, em Roma, durante a primeira prisão. Ele a assinou de próprio punho (versículo 19), e a Igreja sempre a recebeu como dele.
O que significa Filemom 1,15?
Que Deus se serviu da fuga de Onésimo para trazê-lo a Cristo: Filemom o perdeu «por algum tempo» para recobrá-lo «para sempre», não mais como escravo, mas como irmão na fé. Paulo diz «talvez», sem justificar a fuga, e convida a ler os acontecimentos à luz da Providência.
Quem era a esposa de Filemom?
Segundo a interpretação mais comum, Ápia, a «muito amada irmã» saudada no versículo 2. Árquipo, saudado em seguida, seria talvez filho deles.
Onde fica a carta a Filemom na Bíblia, e quantos capítulos tem?
No Novo Testamento, depois da carta a Tito e antes da epístola aos Hebreus. Tem um só capítulo de 25 versículos; por isso se cita só pelo versículo, Fm 15 ou Filemom 1,15. Você pode lê-la com todos os outros livros na Bíblia de Iter Fidei.
A epístola a Filemom também se lê versículo por versículo, em português e em latim, no aplicativo Bíblia católica de Iter Fidei.
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