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A Primeira Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses
A Primeira Epístola aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, a carta mais antiga de São Paulo: cinco capítulos de ação de graças, de santidade de vida, de esperança para os mortos e de vigilância à espera do dia do Senhor, com o preceito «Orai sem intermissão». Abaixo está o texto do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia apresenta o autor, a data, o resumo dos capítulos e os versículos mais procurados, como 1 Tessalonicenses 5,18.
Ler I Epístola aos Tessalonicenses: 5 capítulos
A Primeira Epístola aos Tessalonicenses, Epistola I ad Thessalonicenses na Vulgata, é uma carta breve, cinco capítulos e oitenta e nove versículos, que São Paulo escreveu a uma jovem Igreja da Macedônia de onde tivera de fugir às pressas. Tem o tom de um pai que escreve aos filhos distantes. O Apóstolo dá graças a Deus pela fé deles e depois ensina como agradar a Deus: na pureza, na caridade fraterna e no trabalho tranquilo, na esperança pelos mortos e na espera vigilante do dia do Senhor. Os capítulos 4 e 5 trazem alguns dos versículos mais citados do Novo Testamento, da ressurreição dos mortos ao «Estai sempre alegres».
Quem eram os tessalonicenses?
Os habitantes de Tessalônica, a atual Salônica, na Grécia. A cidade fora fundada por volta de 315 antes de Cristo por Cassandro, rei da Macedônia, que lhe deu o nome da esposa, Tessalônica, meia-irmã de Alexandre Magno. No tempo de São Paulo era a capital da província romana da Macedônia, um grande porto do mar Egeu sobre a Via Egnácia, com uma comunidade judaica e a sua sinagoga.
A Igreja nasceu ali durante a segunda viagem missionária. Os Atos contam que Paulo, segundo o seu costume, foi à sinagoga, «e por três sábados disputou com êles sôbre as Escrituras» (At 17,2); creram alguns judeus, «como também uma grande multidão de prosélitos e de gentios, e não poucas mulheres de qualidade» (At 17,4). Um tumulto cercou a casa de Jasão, que o hospedava, e os irmãos fizeram Paulo e Silas partir de noite para Bereia (At 17,10). A comunidade que ficava era, portanto, formada sobretudo por pagãos convertidos, como confirma a carta: vocês se converteram «dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro» (1 Ts 1,9).
Quem escreveu 1 Tessalonicenses?
São Paulo, que escreve com os seus dois companheiros: «Paulo, Silvano e Timóteo, à Igreja dos Tessalonicenses em Deus Padre, e no Senhor Jesus Cristo» (1 Ts 1,1). Silvano é o Silas dos Atos; Timóteo é o discípulo que Paulo levara consigo de Listra. Na carta domina o «nós», mas o autor se nomeia sozinho: «quisemos ir ter convosco: Eu, Paulo na verdade uma, e outra vez» (1 Ts 2,18).
O testemunho antigo é precoce. Santo Ireneu, por volta de 180, cita o versículo 5,23 atribuindo-o expressamente ao Apóstolo na primeira aos Tessalonicenses; Tertuliano se serve dela contra Marcião e no tratado sobre a ressurreição da carne; o Cânon de Muratori a conta entre as cartas de Paulo. As objeções levantadas por alguns críticos no século XIX não convenceram: também a quase totalidade dos estudiosos modernos a reconhece como autêntica.
Quando foi escrita?
Em Corinto, por volta do ano 51, durante a segunda viagem. De Atenas, Paulo, aflito pelos seus, enviara Timóteo de volta a Tessalônica «para vos fortalecer e consolar na vossa fé» (1 Ts 3,2). Depois passara a Corinto, onde o alcançaram «de Macedônia Silas e Timóteo» (At 18,5). Foi a boa notícia trazida por Timóteo, «a vossa fé e caridade» (1 Ts 3,6), que fez nascer a carta.
O proconsulado de Galião na Acaia (At 18,12), conhecido por uma inscrição de Delfos, permite situar a estada de um ano e meio em Corinto por volta de 50-52. Com a segunda, esta carta é considerada o mais antigo escrito de São Paulo que possuímos, e um dos primeiros de todo o Novo Testamento.
Do que fala o livro de 1 Tessalonicenses? Resumo
A carta se divide em duas partes: uma parte pessoal (capítulos 1-3), em que Paulo lembra a fundação da Igreja e o seu laço com ela, e uma parte de exortação (capítulos 4-5).
Ação de graças por uma Igreja modelo (capítulo 1)
Paulo dá graças a Deus lembrando «da obra da vossa fé, e do trabalho, e da caridade, e da firmeza da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo» (1 Ts 1,3). Os tessalonicenses receberam a palavra «com muita tribulação, com gôzo do Espírito Santo» (1 Ts 1,6) e se tornaram «modêlo a todos os que abraçaram a Fé na Macedônia, e na Acaia» (1 Ts 1,7). Esperam agora «do Céu a Jesus seu Filho» (1 Ts 1,10).
O ministério de Paulo entre eles (capítulo 2)
O Apóstolo lembra como pregou, depois das afrontas sofridas em Filipos: sem adulação nem cobiça, «como uma mãe que anima a seus filhos» (1 Ts 2,7), «Trabalhando de noite e de dia, por não gravarmos a nenhum de vós» (1 Ts 2,9). Dá graças porque acolheram a sua pregação como palavra de Deus, fala das perseguições que sofrem dos seus concidadãos e do seu desejo de revê-los: «Certamente vós sois a nossa glória, e o nosso contentamento» (1 Ts 2,20).
A missão de Timóteo (capítulo 3)
Não podendo voltar, Paulo enviou Timóteo. As notícias que recebe o enchem de alegria: «Porque agora vivemos nós, se vós estais firmes no Senhor» (1 Ts 3,8). O capítulo 3 termina com uma oração para que cresçam na caridade e tenham os corações firmes «sem repreensão em santidade» na vinda do Senhor (1 Ts 3,12-13).
Santidade de vida e a sorte dos mortos (capítulo 4)
A parte moral se abre com a vontade de Deus: «Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: Que vos abstenhais da fornicação» (1 Ts 4,3). Paulo recomenda a caridade fraterna e o trabalho tranquilo, «que procureis viverdes quietos e que trateis do vosso negócio, e que trabalheis com as vossas mãos» (1 Ts 4,11), e depois responde à dor da Igreja pelos seus mortos: na vinda do Senhor, eles ressuscitarão primeiro, e os vivos serão arrebatados com eles ao seu encontro (1 Ts 4,13-18).
O dia do Senhor e os últimos conselhos (capítulo 5)
«assim como costuma vir um ladrão de noite, assim virá o dia do Senhor» (1 Ts 5,2): os filhos da luz devem vigiar e ser sóbrios, revestidos de fé, de caridade e de esperança. Seguem preceitos breves, que ocupam o resto do capítulo 5: respeitar os pastores, corrigir os inquietos, alegrar-se, orar, dar graças, examinar tudo. A carta termina com uma bênção sobre o homem inteiro, espírito, alma e corpo (1 Ts 5,23).
1 Tessalonicenses 4,13-18: a ressurreição dos mortos e a vinda do Senhor
«E não queremos, irmãos, que vós ignoreis coisa alguma acêrca dos que dormem, para que não vos entristeçais como também os outros, que não têm esperança» (1 Ts 4,13). Alguns fiéis tinham morrido, e a comunidade temia que ficassem fora da alegria da vinda do Senhor. Paulo responde com a fé pascal: «se cremos que Jesus morreu e ressuscitou: Assim também Deus trará com Jesus aquêles que dormiram por êle» (1 Ts 4,14).
Depois descreve o acontecimento: «o mesmo Senhor com mandato e com voz de Arcanjo, e com a trombeta de Deus, descerá do Céu: E os que morreram em Cristo, ressurgirão primeiro» (1 Ts 4,16). Os vivos serão «arrebatados juntamente com êles nas nuvens a receber a Cristo nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor» (1 Ts 4,17). E conclui: «Portanto consolai-vos uns aos outros com estas palavras» (1 Ts 4,18).
A Igreja lê esta passagem como a volta gloriosa e pública de Cristo no fim do mundo, com a ressurreição de todos e o juízo final, como no capítulo 15 da Primeira Epístola aos Coríntios e no discurso de Jesus sobre o fim dos tempos. Não vê nela o “arrebatamento” secreto dos crentes antes de uma grande tribulação, que alguns meios protestantes ensinam desde o século XIX: o texto fala de trombeta, de voz de Arcanjo e de descida do Céu, isto é, de um acontecimento visível a todos. Os que «dormem» não estão aniquilados: a palavra cristã para os mortos, o sono, já anuncia o despertar. Por isso esta página sustenta a oração pelos mortos e o luto cristão, que chora sem desespero.
São Paulo pensava ver em vida a volta de Cristo? Aquele «nós outros, que vivemos» o fez crer a alguns. A Pontifícia Comissão Bíblica respondeu, em 18 de junho de 1915, que o Apóstolo não escreveu nada que não esteja de acordo com a ignorância da hora, que o próprio Cristo declarou própria dos homens. Paulo fala dos vivos como de uma categoria, e logo em seguida acrescenta que o dia virá «como um ladrão».
1 Tessalonicenses 5: explicação dos versículos mais procurados
«paz e segurança» (5,3). «Porque quando disserem paz e segurança: Então lhes sobrevirá uma morte repentina, como a dor a uma mulher que está de parto, e não escaparão» (1 Ts 5,3). Paulo retoma a imagem do ladrão usada pelo Senhor (Mateus 24,43): o dia do Senhor surpreenderá quem se julga seguro e vive como se Deus não tivesse de vir. A imagem do parto diz duas coisas: o acontecimento é repentino, mas também certo e inevitável. Não é uma previsão política, mas um convite à vigilância.
«Estai sempre alegres. Orai sem intermissão» (5,16-17). «Orai sem intermissão» (1 Ts 5,17) não pede que se recitem orações sem parar, mas que se mantenha o coração voltado para Deus com um desejo constante, reavivado em horas fixas, segundo a parábola do Senhor, que ensinou «que importa orar sempre, e não cessar de o fazer» (Lucas 18,1). Santo Agostinho, comentando o salmo 37, diz numa frase que o próprio desejo é a oração, e que, se o desejo é contínuo, a oração é contínua. A resposta da Igreja a este preceito é o Ofício divino, que santifica as horas do dia: é possível rezá-lo no Breviário e conhecer a sua história no artigo sobre a Liturgia das Horas.
«Em tudo dai graças» (5,18). «Em tudo dai graças: Porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo para com todos vós» (1 Ts 5,18). É o versículo mais procurado da carta. Paulo não manda agradecer o mal enquanto mal, mas dar graças em todas as circunstâncias, mesmo na provação, porque nada escapa à providência de Deus e tudo pode servir à salvação de quem o ama. Esse é o fundamento da oração de agradecimento em todo tempo.
«Examinai porém tudo: Abraçai o que é bom» (5,19-22). «Não extingais o Espírito de Deus. Não desprezeis as Profecias. Examinai porém tudo: Abraçai o que é bom» (1 Ts 5,19-21). Não é um convite à dúvida universal, mas ao discernimento dos dons espirituais: não sufocá-los, verificá-los e reter o que é bom. «Guardai-vos de tôda a aparência do mal» (1 Ts 5,22).
Espírito, alma e corpo (5,23). «E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo, para que todo o vosso espírito, e a alma, e o corpo se conservem sem repreensão para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo» (1 Ts 5,23). O versículo não ensina que o homem tenha duas almas. O IV Concílio de Constantinopla (869-870) condenou quem o afirma: o homem tem uma só alma racional, unida ao corpo. Por «espírito» Paulo indica a parte mais alta da alma, a que se abre a Deus e recebe a graça; por «alma», a vida que anima o corpo e os seus afetos. A oração pede que Deus santifique o homem inteiro, até o corpo, destinado a ressuscitar.
Temas e leitura católica
A palavra de Deus recebida pela pregação. Paulo dá graças porque os tessalonicenses receberam a sua palavra «não como palavra de homens, mas (segundo é verdade) como palavra de Deus» (1 Ts 2,13). O Evangelho lhes chegara de viva voz antes que se escrevesse uma só linha desta carta. A segunda epístola o dirá abertamente: é preciso conservar as tradições recebidas «ou de palavra, ou por Carta nossa» (2 Ts 2,15).
Fé, esperança e caridade. As três virtudes teologais aparecem juntas desde o primeiro capítulo (1,3), e depois na armadura do cristão: «estando vestidos da couraça da fé e da caridade, e tendo por elmo a esperança da salvação» (1 Ts 5,8). É provavelmente a mais antiga menção escrita dessa tríade, que Paulo cantará na Primeira Epístola aos Coríntios: «Agora pois permanecem a Fé, a Esperança, a Caridade, estas três virtudes».
A pureza, vontade de Deus. Que cada um saiba «possuir o seu vaso em santificação e honra» (1 Ts 4,4). Figueiredo conserva a palavra do latim, vas suum, o seu vaso: os Padres a entenderam do próprio corpo ou da esposa; em ambos os casos se trata do domínio sobre a carne. «Porque Deus não vos chamou para a imundícia senão para a santificação» (1 Ts 4,7).
O trabalho. Paulo trabalhou «de noite e de dia» para não pesar a ninguém e pede aos fiéis que trabalhem com as próprias mãos (4,11). A segunda epístola terá de insistir, diante dos que deixaram de trabalhar à espera do fim.
Versículos mais conhecidos de 1 Tessalonicenses
- «Portanto consolai-vos uns aos outros com estas palavras» (1 Ts 4,18).
- «Pelo que consolai-vos mùtuamente: E edificai-vos uns aos outros, como ainda o fazeis» (1 Ts 5,11).
- «Vêde que nenhum dê a outro, mal por mal» (1 Ts 5,15).
- «Estai sempre alegres» (1 Ts 5,16) e «Orai sem intermissão» (5,17); em latim, Semper gaudete. Sine intermissione orate.
- «Em tudo dai graças» (1 Ts 5,18).
- «Fiel é o que vos chamou: qual também o cumprirá» (1 Ts 5,24).
1 Tessalonicenses no cânon e na liturgia
Na ordem da Vulgata é a oitava das catorze epístolas de São Paulo, depois da Epístola aos Colossenses e antes da Segunda aos Tessalonicenses. Nunca foi contestada, tem o mesmo nome e os mesmos cinco capítulos em todas as Bíblias; o Concílio de Trento (sessão IV, 1546) a nomeia entre as cartas de Paulo.
O Missal de 1962 a lê:
- 1 Ts 1,2-10, no VI domingo depois da Epifania;
- 1 Ts 4,1-7, no II domingo da Quaresma: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação»;
- 1 Ts 5,14-23, no sábado das Têmporas da Quaresma;
- 1 Ts 2,2-8, na festa de São Pio X, em 3 de setembro, e 1 Ts 2,2-9 na de Santo Agostinho de Cantuária, em 28 de maio: o retrato do pastor que ama o rebanho «como uma mãe».
No Breviário, a carta é lida no primeiro noturno das Matinas na quinta e na sexta-feira da IV semana depois da Epifania, quando o calendário conserva essa semana. Os capítulos de Laudes, Sexta e Noa do II domingo da Quaresma são tirados do capítulo 4. Encontre essas datas no calendário litúrgico.
Como ler 1 Tessalonicenses
Leia a carta de uma vez, basta um quarto de hora, depois releia o capítulo 17 dos Atos e continue com a Segunda Epístola, que corrige quem tinha entendido mal a primeira. Volte ao capítulo 4 quando rezar pelos seus mortos, e ao capítulo 5 como exame de consciência. O latim ao lado ilumina algumas palavras: sine intermissione orate, omnia autem probate, vas suum possidere.
Perguntas Frequentes
Quem escreveu 1 Tessalonicenses?
São Paulo, que na saudação nomeia ao seu lado Silvano (Silas) e Timóteo. A Igreja sempre a recebeu como dele, e quase todos os críticos modernos o admitem.
Quem eram os tessalonicenses?
Os cristãos de Tessalônica, a atual Salônica, capital da província romana da Macedônia. A sua Igreja, fundada por Paulo por volta do ano 50, era formada em grande parte por pagãos convertidos e foi perseguida desde o início.
Quando e onde foi escrita?
Em Corinto, por volta de 51, pouco depois da volta de Timóteo de Tessalônica (1 Ts 3,6; At 18,5). É considerada a mais antiga carta conservada de São Paulo.
O que diz 1 Tessalonicenses 5,18?
«Em tudo dai graças: Porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo para com todos vós». Paulo pede que se dê graças em todas as circunstâncias, também nas provações, confiando na providência de Deus.
O que significa 1 Tessalonicenses 4,13-18?
Paulo consola cristãos de luto: os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro quando o Senhor descer do Céu, e os vivos serão arrebatados com eles ao seu encontro, «e assim estaremos para sempre com o Senhor». A Igreja lê aí a segunda vinda gloriosa de Cristo e a ressurreição de todos.
Como entender espírito, alma e corpo em 1 Tessalonicenses 5,23?
Paulo pede que Deus santifique o homem inteiro. Não ensina que haja duas almas, doutrina condenada pelo IV Concílio de Constantinopla: o «espírito» é a parte mais alta da única alma, aberta a Deus, a «alma» é o princípio da vida sensível, e o corpo está destinado à ressurreição.
Onde fica 1 Tessalonicenses na Bíblia e quantos capítulos tem?
No Novo Testamento, depois de Colossenses: é o décimo terceiro livro do Novo Testamento. Tem cinco capítulos e 89 versículos, que se leem todos na Bíblia da Iter Fidei, até o capítulo 5.
A Primeira Epístola aos Tessalonicenses também pode ser lida versículo por versículo, em português e em latim, no aplicativo Bíblia católica da Iter Fidei.
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