A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
1 Coríntios 13: o hino à caridade, «A caridade é paciente, é benigna»
1 Coríntios 13 é o hino à caridade, o capítulo que muitos procuram como “o amor é paciente” ou “o amor tudo suporta”. Aqui está o capítulo inteiro, os seus treze versículos, na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica por que Figueiredo diz «caridade», percorre as três partes do hino, comenta 13,4-7 e 13,13 e mostra o lugar do capítulo na liturgia de 1962.
1 Si linguis hominum loquar, et angelorum, caritatem autem non habeam, factus sum velut æs sonans, aut cymbalum tinniens.
1 Se eu falar as línguas dos homens, e dos Anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine.
2 Et si habuero prophetiam, et noverim mysteria omnia, et omnem scientiam : et si habuero omnem fidem ita ut montes transferam, caritatem autem non habuero, nihil sum.
2 E se eu tiver o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios, e quanto se pode saber: E se tiver tôda a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade, não sou nada.
3 Et si distribuero in cibos pauperum omnes facultates meas, et si tradidero corpus meum ita ut ardeam, caritatem autem non habuero, nihil mihi prodest.
3 E se eu distribuir todos os meus bens em o sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver caridade, nada disto me aproveita.
4 Caritas patiens est, benigna est. Caritas non æmulatur, non agit perperam, non inflatur,
4 A caridade é paciente, é benigna, a caridade não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece.
5 non est ambitiosa, non quærit quæ sua sunt, non irritatur, non cogitat malum,
5 Não é ambiciosa, não busca os seus próprios interêsses, não se irrita, não suspeita mal.
6 non gaudet super iniquitate, congaudet autem veritati :
6 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.
7 omnia suffert, omnia credit, omnia sperat, omnia sustinet.
7 Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.
8 Caritas numquam excidit : sive prophetiæ evacuabuntur, sive linguæ cessabunt, sive scientia destruetur.
8 A caridade nunca jamais há de acabar, ou deixem de ter lugar as profecias, ou cessem as línguas, ou seja abolida a ciência.
9 Ex parte enim cognoscimus, et ex parte prophetamus.
9 Porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos.
10 Cum autem venerit quod perfectum est, evacuabitur quod ex parte est.
10 Mas quando vier o que é perfeito, abolido será o que é em parte.
11 Cum essem parvulus, loquebar ut parvulus, sapiebam ut parvulus, cogitabam ut parvulus. Quando autem factus sum vir, evacuavi quæ erant parvuli.
11 Quando eu era menino, falava como menino, julgava como menino, discorria como menino. Mas depois que eu cheguei a ser homem feito, dei de mão às coisas que eram de menino.
12 Videmus nunc per speculum in ænigmate : tunc autem facie ad faciem. Nunc cognosco ex parte : tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum.
12 Nós agora vemos a Deus como por um espelho em enigmas, mas então face a face. Agora conheço-o em parte, mas então hei de conhecê-lo, como eu mesmo sou também dêle conhecido.
13 Nunc autem manent fides, spes, caritas, tria hæc : major autem horum est caritas.
13 Agora pois permanecem a Fé, a Esperança, a Caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a Caridade.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
O contexto: os dons e o caminho mais excelente
São Paulo escreveu a Primeira Epístola aos Coríntios em Éfeso, por volta de 55-57, a uma Igreja que ele tinha fundado e que estava dividida: partidos em torno de pregadores, escândalos, processos, desordens na Ceia do Senhor. Nos capítulos 12 a 14 ele trata dos dons do Espírito, os carismas, que os coríntios disputavam entre si, sobretudo o dom de línguas. O capítulo 12 termina assim: «Entre êstes dons aspirai pois aos que são melhores. Mas eu ainda vou a mostrar-vos outro caminho mais excelente» (1 Cor 12,31). O capítulo 13 é esse caminho. Não é um poema solto sobre o amor humano, mas a resposta a uma comunidade que se orgulhava dos seus dons e esquecia o essencial. Para a carta inteira, veja a página da Primeira Epístola aos Coríntios.
Caridade ou amor?
Quem procura “1 Coríntios 13” encontra quase sempre a palavra “amor”. Figueiredo, com a Vulgata, diz caridade: o latim é caritas, o grego agápe. Não é uma diferença de sentido, mas de precisão. A caridade, na linguagem da Igreja, é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. Não é um sentimento que vai e vem: é um dom sobrenatural, «a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rm 5,5). São João diz o fundamento: «Deus é caridade» (1 Jo 4,8).
Por isso o hino se aplica a todo amor cristão, o dos esposos, o dos pais, o dos amigos, o do próximo desconhecido, mas mede todos pela mesma régua, que é o amor com que Deus ama. Muitos casais escolhem hoje este capítulo para o casamento; é uma boa escolha, desde que se leia inteiro.
O que diz 1 Coríntios 13? O hino em três partes
Sem a caridade, nada (v. 1-3). «Se eu falar as línguas dos homens, e dos Anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine» (v. 1). Paulo começa pelo dom que os coríntios mais admiravam, as línguas, e sobe: a profecia, o conhecimento de todos os mistérios, a fé «até o ponto de transportar montes», e conclui: «não sou nada» (v. 2). Mais ainda: distribuir todos os bens aos pobres e entregar o corpo às chamas, «se todavia não tiver caridade, nada disto me aproveita» (v. 3). Mesmo as obras mais heroicas, sem a caridade, não têm valor diante de Deus.
O retrato da caridade (v. 4-7). Quinze traços, comentados na seção seguinte.
A caridade não passa (v. 8-13). «A caridade nunca jamais há de acabar» (v. 8). As profecias, as línguas e a ciência servem durante o caminho; quando vier «o que é perfeito» (v. 10), não serão mais necessárias. Paulo dá duas imagens. A da infância: «Quando eu era menino, falava como menino […] Mas depois que eu cheguei a ser homem feito, dei de mão às coisas que eram de menino» (v. 11). E a do espelho: «Nós agora vemos a Deus como por um espelho em enigmas, mas então face a face» (v. 12). Os espelhos antigos eram de metal polido e davam uma imagem imperfeita: assim é o nosso conhecimento de Deus nesta vida, verdadeiro, mas obscuro.
1 Coríntios 13,4-7: «A caridade é paciente»
É o trecho mais procurado: «A caridade é paciente, é benigna, a caridade não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece. Não é ambiciosa, não busca os seus próprios interêsses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre» (v. 4-7).
Paulo não define a caridade, descreve-a em ação. Duas qualidades positivas abrem a lista, a paciência e a benignidade, isto é, suportar o mal e fazer o bem. Seguem oito negações, que são o retrato do que os coríntios faziam: a inveja, a precipitação, o orgulho, a ambição, o interesse próprio, a irritação, a suspeita, o gosto pela injustiça. A caridade é o contrário de tudo isso. A lista termina com quatro «tudo»: omnia suffert, omnia credit, omnia sperat, omnia sustinet.
«Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre». Os brasileiros procuram muito este versículo 7 como “o amor tudo suporta”. Não quer dizer que a caridade aprova tudo ou acredita em qualquer mentira: no versículo anterior ela «folga com a verdade». Quer dizer que ela suporta as faltas do outro sem romper, crê no bem possível dele, espera a sua conversão e persevera nas provas. É o amor que não desiste.
Muitos autores notaram que este retrato é antes de tudo o de Cristo: pode-se pôr o seu nome no lugar da palavra «caridade», e cada traço continua verdadeiro. E o próprio Cristo deu o mandamento que resume o capítulo: «Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei» (Jo 13,34).
1 Coríntios 13,13: fé, esperança e caridade
«Agora pois permanecem a Fé, a Esperança, a Caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a Caridade» (v. 13). São as três virtudes teologais, assim chamadas porque têm Deus por objeto. A Igreja ensina que elas são infundidas na alma com a graça santificante: o Concílio de Trento, na sessão VI (1547), afirma que na justificação o homem recebe, junto com o perdão dos pecados, a fé, a esperança e a caridade, e que a fé, se não se lhe juntam a esperança e a caridade, não une perfeitamente a Cristo. É a mesma doutrina de Paulo na Epístola aos Gálatas: o que vale é «a fé, que obra por caridade» (Gl 5,6).
Por que a caridade é a maior? Porque é a única que permanece na vida eterna. A fé se tornará visão, «face a face» (v. 12); a esperança se tornará posse; a caridade continuará a mesma, mas perfeita. A teologia católica lê no versículo 12 a visão beatífica, que o papa Bento XII definiu em 1336 na constituição Benedictus Deus.
Santo Tomás de Aquino ensina que a caridade é a forma de todas as virtudes, porque as ordena todas ao fim último (Suma teológica, II-II, q. 23, a. 8); veja o artigo sobre as virtudes. E Santo Agostinho resumiu o capítulo numa frase célebre dos seus sermões sobre a Primeira Epístola de São João: Dilige, et quod vis fac, “ama, e faze o que quiseres”, porque quem ama verdadeiramente não quer senão o bem.
1 Coríntios 13 na liturgia de 1962
- Domingo da Quinquagésima. O capítulo inteiro (13,1-13) é a epístola desse domingo, o último antes da Quarta-feira de Cinzas. Às portas da Quaresma, a Igreja lembra que o jejum e a esmola nada valem sem a caridade (v. 3). No Breviário, os capítulos (leituras breves) do mesmo domingo vêm daqui: 13,1 nas Laudes, 13,8-9 na Sexta e 13,13 na Noa.
- Quinta-feira Santa. No lava-pés da Missa vespertina, entre as antífonas que se cantam, está Maneant in vobis fides, spes, caritas, tria haec: major autem horum est caritas, tirada do versículo 13. Veja Quinta-feira Santa.
- São José de Cupertino. A epístola da sua festa, a 18 de setembro, é 1 Coríntios 13,1-8.
- Matinas. As lições das Matinas da sexta-feira da semana depois do I domingo depois da Epifania percorrem o capítulo inteiro, em três partes (13,1-3; 13,4-10; 13,11-13).
Como rezar com 1 Coríntios 13
O hino serve de exame de consciência. Basta ler os versículos 4 a 7 pondo o próprio nome no lugar da palavra «caridade»: “fulano é paciente, é benigno, não é invejoso…”. Onde a frase soa falsa, está o ponto a converter. Depois, pedir a caridade a Deus, porque ela não se fabrica, recebe-se; o ato de caridade dos catecismos tradicionais é a oração própria para isso. A caridade é também o primeiro dos frutos do Espírito Santo na lista da Epístola aos Gálatas.
Perguntas Frequentes
O que diz 1 Coríntios 13?
Que sem a caridade todos os dons, até a fé que transporta montes e o martírio, não valem nada (v. 1-3); descreve a caridade em ação (v. 4-7); e ensina que ela nunca acaba, ao passo que os dons passam, e que é a maior das três virtudes teologais (v. 8-13).
Por que Figueiredo diz «caridade» e não «amor»?
Porque traduz o latim da Vulgata, caritas, que corresponde ao grego agápe. A caridade é o amor sobrenatural a Deus e ao próximo por amor de Deus; as Bíblias modernas dizem “amor”, no mesmo sentido.
O que significa “o amor tudo suporta” (1 Coríntios 13,7)?
Em Figueiredo: «Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre». A caridade suporta as faltas do outro sem romper, crê no bem dele, espera a sua conversão e persevera. Não significa aprovar o mal: ela «folga com a verdade» (v. 6).
Quais são as três virtudes de 1 Coríntios 13,13?
A fé, a esperança e a caridade, as virtudes teologais. A maior é a caridade, porque é a única que permanece na vida eterna.
O que significa ver «como por um espelho em enigmas»?
Que nesta vida conhecemos a Deus de modo verdadeiro mas imperfeito, como numa imagem obscura; no céu o veremos «face a face», na visão beatífica.
Quando se lê 1 Coríntios 13 na Missa tradicional?
No domingo da Quinquagésima, o domingo antes da Quarta-feira de Cinzas, e na festa de São José de Cupertino (18 de setembro, 13,1-8).
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