A Fé
As Virtudes: teologais e cardeais
As sete virtudes da vida cristã segundo o Catecismo: as três teologais — fé, esperança e caridade — e as quatro cardeais — prudência, justiça, fortaleza e temperança. Quais são, o que significam e o fundamento de cada uma na Escritura.

As virtudes cristãs principais são sete: três teologais, a fé, a esperança e a caridade, e quatro cardeais, a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. É assim que as conta o Catecismo de São Pio X, e é sobre elas que se edifica toda a vida da graça. Abaixo, cada uma é definida, com o seu fundamento na Escritura e os meios de crescer nela.
O que são as virtudes
A virtude é uma disposição firme e constante a fazer o bem. Não é um sentimento passageiro nem um esforço isolado, mas um hábito do qual a alma se reveste, de modo que o bem se torna como uma segunda natureza. O homem virtuoso não pratica a justiça por acaso: ele é justo, e age com justiça porque assim se inclina por dentro.
A tradição católica, recolhendo o ensino da Sagrada Escritura e dos Padres, conta sete virtudes que sustentam toda a vida cristã. Três delas têm a Deus por objeto direto e nos são infundidas pela graça: são as virtudes teologais — a fé, a esperança e a caridade. As outras quatro ordenam a nossa conduta para com as criaturas e para conosco mesmos, e são chamadas virtudes cardeais — a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. A palavra "cardeal" vem do latim cardo, a dobradiça: são os gonzos em torno dos quais gira toda a vida moral.
Convém afastar de início uma confusão. "As virtudes" de que aqui tratamos não são listas de qualidades de caráter no sentido mundano, nem máximas de superação pessoal: são realidades sobrenaturais e morais ensinadas pela Igreja para a santificação da alma. Este é o sentido firme e antigo, e é o único que nos interessa.
As três virtudes teologais
Chamam-se teologais (de Theós, Deus) porque têm a Deus por origem, por motivo e por fim. Não nascem do esforço humano: são infundidas por Deus na alma, ordinariamente no Batismo, e crescem com a graça santificante. São Paulo as enuncia juntas na sua célebre passagem:
"Agora pois permanecem a Fé, a Esperança, a Caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a Caridade." (I Coríntios 13, 13)
A Fé é a virtude pela qual cremos firmemente em Deus e em tudo o que Ele revelou e nos propõe a Igreja, não porque o compreendamos pela razão, mas porque Deus, que é a própria Verdade, não pode enganar-se nem enganar-nos. Pela fé aderimos ao Credo, recebemos as Escrituras e nos submetemos ao ensino da Igreja. "Sem fé é impossível agradar a Deus", diz o Apóstolo (Hebreus 11, 6).
A Esperança é a virtude pela qual desejamos e esperamos de Deus, com firme confiança, a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la. Apoia-se não em nossas forças, mas na bondade, no poder e nas promessas de Deus. Ela sustém o cristão entre as provações, sem o lançar nem na presunção, que se julga já salvo, nem no desespero, que se julga perdido.
A Caridade é a virtude pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. É a maior das três, porque é a única que permanece no Céu: lá a fé cede lugar à visão e a esperança à posse, mas a caridade jamais acaba. Por isso São Paulo declara que, sem ela, nada somos:
"E se eu tiver o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios, e quanto se pode saber: E se tiver tôda a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade, não sou nada." (I Coríntios 13, 2)
E descreve os seus traços: "A caridade é paciente, é benigna, a caridade não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece... Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre." (I Coríntios 13, 4-7)
As quatro virtudes cardeais
Se as teologais nos unem diretamente a Deus, as cardeais regram a nossa vida sobre a terra, ordenando as nossas ações, os nossos desejos e as nossas paixões. Os filósofos gregos, sobretudo Platão, já as tinham reconhecido pela razão; a Escritura as nomeia juntas no livro da Sabedoria:
"E se alguém ama a justiça: Os trabalhos desta têm grandes virtudes: Porque ensina a temperança, e a prudência, e a justiça, e a fortaleza, que é o mais útil que há na vida para os homens." (Sabedoria 8, 7)
A Prudência é a virtude que dispõe a razão a discernir, em cada circunstância, o verdadeiro bem e a escolher os meios justos para alcançá-lo. Não é a cautela tímida nem o cálculo egoísta: é a reta razão aplicada ao agir, que guia todas as outras virtudes. Santo Tomás de Aquino distingue nela três atos, aconselhar-se, julgar e mandar, e ensina que o principal é o último, porque a prudência só se cumpre quando o bem é efetivamente feito (Suma Teológica II-II, q. 47, a. 8). Por isso a tradição a chama "auriga" ou cocheiro das virtudes (auriga virtutum), pois sem ela a fortaleza degenera em temeridade e a generosidade em imprudência.
A Justiça é a virtude que consiste na vontade constante e firme de dar a cada um o que lhe é devido: a Deus, o culto e a obediência; ao próximo, os seus direitos; aos pais, a honra. A justiça para com Deus é a primeira de todas as dívidas, e é nela que se fundam os Dez Mandamentos: os três primeiros, gravados na primeira tábua, regulam o que devemos ao Criador, e os outros sete, na segunda, o que devemos ao próximo.
A Fortaleza é a virtude que firma a alma na constância e na coragem diante das dificuldades, e mesmo da morte, na fidelidade ao bem. É ela que sustenta os mártires no suplício e o cristão comum nas pequenas provações de cada dia. A fortaleza não suprime o medo: ela o domina, e faz com que o temor não nos desvie do dever. Dos seus dois atos, atacar e suportar, Santo Tomás ensina que o principal é suportar (II-II, q. 123, a. 6).
A Temperança é a virtude que modera a atração dos prazeres sensíveis e mantém o desejo dentro dos limites da honestidade. Ela ordena os apetites do gosto e do tato, e dá ao homem o domínio de si. É a temperança que dá nascimento à sobriedade, à castidade e à modéstia, e que combate diretamente os vícios da gula e da luxúria que figuram entre os sete pecados capitais.
Virtudes infusas e virtudes adquiridas
A Igreja distingue ainda dois modos de possuir as virtudes morais. As virtudes adquiridas formam-se pela repetição dos atos bons: quem pratica muitas vezes a verdade torna-se verdadeiro, quem repete atos de domínio torna-se temperante. São fruto do exercício e do esforço, com o auxílio da graça.
Mas há também virtudes infusas, que Deus mesmo derrama na alma com a graça santificante, e que elevam as cardeais à ordem sobrenatural, ordenando-as não apenas à honestidade natural, mas à vida eterna. A elas se ajuntam os dons do Espírito Santo, que tornam a alma dócil às moções divinas e aperfeiçoam o que as virtudes começam. Onde reina a caridade, todas as virtudes encontram a sua forma e o seu calor, pois a caridade é a rainha das virtudes, a que a todas anima e, como ensina Santo Tomás, a forma de todas elas (II-II, q. 23, a. 8).
Como crescer nas virtudes
As virtudes teologais nos são dadas gratuitamente, mas devem ser exercidas para não morrerem: a fé pela profissão e pela meditação da doutrina, a esperança pela confiança nas provações, a caridade pelas obras de amor a Deus e ao próximo. As cardeais crescem pela repetição fiel dos atos bons e pela vitória sobre as inclinações desordenadas.
Três meios são insubstituíveis. A oração, que pede a Deus o aumento das virtudes que só Ele pode dar. Os sacramentos, sobretudo a Confissão, preparada por um bom exame de consciência, que restaura a caridade perdida pelo pecado, e a Eucaristia, que a alimenta. E a vigilância sobre si mesmo, que arranca as raízes do mal antes que cresçam. Assim, a pouco e pouco, o bem se torna conatural à alma, e o cristão caminha firme rumo ao fim para o qual foi criado.
Perguntas Frequentes
Quais são as sete virtudes?
São três teologais — fé, esperança e caridade — e quatro cardeais — prudência, justiça, fortaleza e temperança. As três primeiras têm a Deus por objeto direto; as quatro últimas ordenam a conduta humana.
Quais são as virtudes teologais?
A fé, a esperança e a caridade (I Coríntios 13, 13). Chamam-se teologais porque vêm de Deus, têm a Deus por motivo e a Deus por fim, e são infundidas na alma pela graça, ordinariamente no Batismo.
Quais são as quatro virtudes cardeais?
A prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Já a Escritura as enumerava em Sabedoria 8, 7. Chamam-se cardeais porque são os gonzos em torno dos quais gira toda a vida moral.
Qual é a maior das virtudes?
A caridade, "porque a maior delas é a Caridade" (I Coríntios 13, 13). É a única que permanece no Céu, onde a fé cede à visão e a esperança à posse, ao passo que a caridade jamais acaba.
Que virtude se opõe a cada pecado capital?
O Catecismo de São Pio X ensina que os vícios capitais se vencem pelo exercício das virtudes opostas: a soberba pela humildade, a avareza pela liberalidade, a luxúria pela castidade, a ira pela paciência, a gula pela abstinência, a inveja pelo amor fraterno e a preguiça pela diligência e o fervor no serviço de Deus. Veja os sete pecados capitais.
As virtudes se recebem ou se adquirem?
As teologais são infundidas por Deus com a graça santificante, no Batismo. As cardeais podem ser adquiridas pela repetição dos atos bons, e Deus também as infunde, com a graça, para que se ordenem à vida eterna. Umas e outras crescem pela oração, pelos sacramentos e pelo exercício.
Qual a diferença entre virtudes teologais e cardeais?
As teologais têm a Deus por objeto direto e nos unem a Ele; são infundidas pela graça. As cardeais regram a nossa conduta para com as criaturas e para conosco mesmos, e podem ser também adquiridas pelo exercício, com o auxílio da graça.
Fontes. Sagrada Escritura na Bíblia de Figueiredo (I Coríntios 13; Sabedoria 8, 7; Hebreus 11, 6); Catecismo de São Pio X, Parte V, cap. 1 (as virtudes principais) e cap. 6 (os vícios capitais e as virtudes opostas); Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica I-II, q. 61; II-II, q. 23, a. 8; q. 47, a. 8; q. 123, a. 6.
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