Atualidades
A Comissão Teológica propõe um «pecado contra a criação»: o que diz a doutrina perene
A Comissão Teológica Internacional propõe qualificar o dano ecológico de «pecado contra a criação e contra o Criador»; medimo-lo pela doutrina perene.

A 2 de setembro de 2026, no primeiro dia do «Tempo da Criação», a Comissão Teológica Internacional, organismo consultivo ligado ao Dicastério para a Doutrina da Fé, tornou público um documento intitulado «Cuidar da nossa casa comum». O texto, com 148 parágrafos, foi elaborado por uma subcomissão presidida por Alenka Arko e coordenada por D. Piero Coda, secretário-geral da comissão. Foi aprovado por votação a 23 de julho de 2026, submetido ao cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério, levado a Leão XIV a 28 de julho, e a sua publicação foi autorizada a 21 de agosto.
O documento propõe designar o dano ecológico «pecado contra a criação e contra o Criador», em substituição de termos como «ecocídio» ou «pecado ecológico» genérico. Reclama uma «viragem ecológica», rejeita dois excessos que julga inaceitáveis, o antropocentrismo predador que faria do homem o «senhor absoluto» da criação e o biocentrismo que o exclui do centro, e retém um «antropocentrismo situado» tomado da encíclica «Magnifica humanitas» de Leão XIV. Adverte contra as filosofias que, suprimindo a diferença de valor entre a pessoa humana e os outros viventes, abririam caminho a um «novo panteísmo» tingido de neopaganismo. Apresenta, por fim, o vegetarianismo como encontrando no Génesis «um ponto de apoio inegável» e afirma que «todo o ato de compra é um ato moral», impondo uma restrição voluntária do consumo.
A criação é um dom, e só o Criador é o seu termo
Sobre o que é a criação, a doutrina não é de hoje. O primeiro artigo do Símbolo confessa «Deus Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra»: pela sua virtude todo-poderosa «criou do nada o céu e a terra e tudo o que eles encerram, e, depois de tudo ter criado, conserva e governa todas as coisas». A criatura nunca está fechada sobre si mesma: vem de Deus como dom e remete para Ele como para o «Bem soberano e perfeito». Reconhecer no mundo a marca do seu autor não é, pois, uma descoberta recente; é a primeira palavra do Credo.
Sobre o lugar do homem, a Escritura é clara. «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, o qual presida aos peixes do mar, às aves do céu»; «enchei a terra, e tende-a sujeita a vós, e dominai sôbre os peixes do mar» (Génesis I). O homem não é uma espécie entre outras: é feito à imagem de Deus e estabelecido sobre os viventes. A Tradição sustenta, pois, sem hesitação, aquilo a que o documento chama «antropocentrismo situado»: o homem no cume do visível, mas sob Deus, responsável pela sua administração.
O que se une à doutrina, e o que dela se afasta
Onde o documento recusa o biocentrismo e o ecocentrismo e adverte contra o panteísmo, reencontra a fé de sempre: o Criador é distinto da sua criação, o homem não se dissolve na natureza, e divinizar o mundo é uma recaída pagã. Neste ponto nada temos a corrigir e tudo a aprovar.
A própria expressão «pecado contra a criação» pede, porém, uma distinção. O pecado é formalmente uma ofensa feita a Deus, transgressão da sua lei; a criatura não é um terceiro que se ofenderia ao lado dele. O documento aliás concede-o, precisando que esse pecado o é «na medida em que viola o sentido da criação querido por Deus». É este segundo membro, «contra o Criador», que carrega toda a doutrina; o primeiro, tomado sozinho, deslocaria o objeto do pecado de Deus para a coisa. Dissipar os bens confiados é um pecado, não porque a natureza fosse lesada num direito, mas porque a avareza, a intemperança e a destruição gratuita dos dons de Deus ofendem aquele que os fez. A Tradição já condenava isto, e sem palavra nova.
Resta o ponto onde o texto se afasta francamente. Fazer do vegetarianismo uma doutrina apoiada no Génesis contradiz o próprio Génesis: depois do dilúvio, Deus diz a Noé «Sustentai-vos de tudo o que tem vida, e movimento: eu vos deixei tôdas estas coisas» (Génesis IX). E o Apóstolo adverte que «nos últimos tempos» haverá quem proíba «que se faça uso das viandas que Deus criou», sendo que «tôda a criatura de Deus é boa» (Primeira a Timóteo IV).
A abstinência de carne, na Igreja, é uma penitência livre, a sexta-feira, a Quaresma, as Têmporas, nunca a confissão de que a carne fosse impura ou o seu consumo uma falta. Elevar a renúncia penitencial à categoria de regra moral da compra é inverter a ordem: Deus entregou os animais para alimento do homem, e nenhum «ato de compra» é em si um pecado.
O que o fiel deve reter
Um documento de uma comissão teológica não é uma definição da Igreja; é um estudo, autorizado a aparecer, não um artigo de fé. O fiel lê-o como tal. O que ele traz de verdadeiro, Deus criador, o homem administrador sob Ele, a recusa do panteísmo, já o tinha do Credo e do Génesis. O que avança de novo, um objeto do pecado deslocado para a criatura, um vegetarianismo encostado à Escritura, uma compra erigida em ato moral, mede-o pela doutrina recebida e só dela retém o que se lhe conforma. A sobriedade, a guarda dos dons de Deus, o combate à avareza são virtudes antigas; não precisam de um vocabulário novo para obrigar a consciência.
Fontes. Catecismo do Concílio de Trento (1566), primeiro artigo do Símbolo, «Criador do Céu e da Terra». Sagrada Escritura: Génesis I, 26-28 e IX, 1-3; Primeira Epístola a Timóteo IV, 1-5, segundo a Vulgata (tradução de Figueiredo).