A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Evangelho segundo São João
O quarto Evangelho, escrito em Éfeso pelo apóstolo São João, o discípulo que Jesus amava, começa com o Verbo que se fez carne e termina na margem do lago de Tiberíades. Abaixo estão os seus 21 capítulos completos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia apresenta o autor, a data, o resumo, o prólogo, os sete sinais e as grandes passagens que a Igreja lê na liturgia.
Ler Evangelho segundo São João: 21 capítulos
O Evangelho segundo São João começa antes do tempo: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (Jo 1,1). E termina com uma assinatura: «Êste é aquêle discípulo que dá testemunho destas coisas, e que as escreveu: E nós sabemos que é verdadeiro o seu testemunho» (Jo 21,24). Entre essas duas frases está o mais contemplativo dos quatro Evangelhos, que os Padres compararam à águia, porque num só bater de asas sobe até a divindade de Cristo. Para uma visão de conjunto dos quatro evangelistas, leia o nosso artigo sobre o que são os Evangelhos.
Quem escreveu o Evangelho de João?
A Igreja sempre o recebeu como obra de São João apóstolo, filho de Zebedeu e irmão de São Tiago Maior, pescador no lago da Galileia e, com Pedro e Tiago, uma das três testemunhas da Transfiguração e da agonia no horto. No seu Evangelho ele nunca diz o próprio nome: chama-se «aquêle discípulo que Jesus amava» (Jo 21,20). É ele que, na última ceia, reclina a cabeça no peito do Mestre: «um dos seus discípulos, ao qual amava Jesus, estava recostado à mesa no seio de Jesus» (Jo 13,23); é ele que está ao pé da Cruz com a Virgem Maria e que, na manhã da Páscoa, corre ao sepulcro com Pedro.
Quem foi São João evangelista?
Um jovem pescador da Galileia, que trabalhava com o pai e o irmão, e talvez discípulo de João Batista antes de seguir Jesus: a tradição o reconhece no discípulo sem nome que, com André, pergunta ao Senhor «onde assistes tu?» e ouve a resposta: «Vinde, e vêde» (Jo 1,38-39). Jesus chamou João e Tiago de «Boanerges, que quer dizer, filhos do trovão» (Mc 3,17). Depois de Pentecostes, ele aparece ao lado de Pedro em Jerusalém; mais tarde viveu na Ásia Menor, foi desterrado na ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse (Ap 1,9), e morreu muito idoso em Éfeso. Tertuliano conta que em Roma ele foi mergulhado em óleo fervente e saiu ileso (Da prescrição dos hereges, 36). A sua festa é no dia 27 de dezembro.
Não confunda: o evangelista não é São João Batista, o Precursor, de quem o Evangelho fala na terceira pessoa: «Houve um homem enviado por Deus que se chamava João» (Jo 1,6). A vida do Batista está no nosso artigo quem foi João Batista.
O testemunho dos Padres
Santo Ireneu de Lião, que na juventude tinha ouvido São Policarpo, discípulo de João, escreve que João, o discípulo do Senhor, aquele que repousou sobre o seu peito, publicou também ele um Evangelho quando morava em Éfeso (Contra as heresias, III, 1, 1). O Fragmento de Muratori, lista romana do fim do século II, conta que João escreveu a pedido dos seus condiscípulos e bispos. Clemente de Alexandria, citado por Eusébio (História eclesiástica, VI, 14), transmite a tradição dos antigos: vindo por último, João compôs, movido pelo Espírito, um “Evangelho espiritual”. São Jerônimo acrescenta que ele escreveu a pedido dos bispos da Ásia, contra os que negavam que Cristo existisse antes de Maria (Dos homens ilustres, 9). Nenhum escritor antigo da Igreja aponta outro autor.
O testemunho do próprio livro
O autor é um judeu que conhece as festas e Jerusalém nos detalhes, como a piscina que «tem cinco alpendres» (Jo 5,2), e fala como testemunha ocular: diante do golpe de lança, «Aquêle porém que o viu, deu testemunho disso: E o seu testemunho é verdadeiro» (Jo 19,35). Dos três íntimos do Senhor, Pedro é nomeado ao lado do discípulo amado, e Tiago foi morto por volta do ano 44: «E matou, à espada, a Tiago, irmão de João» (At 12,2). Resta João, cujo nome aqui nunca aparece.
A 29 de maio de 1907, a Pontifícia Comissão Bíblica, sob São Pio X, respondeu que a tradição constante da Igreja prova que o apóstolo João, e nenhum outro, é o autor do quarto Evangelho, e que os seus relatos são história, não alegoria. Muitos exegetas modernos pensam numa “escola joanina” que teria dado ao livro a forma final; o ensino recebido continua sendo o do Apóstolo.
Quando foi escrito o Evangelho de João?
A tradição o coloca por último entre os quatro, em Éfeso, no fim do século I, por volta dos anos 90 a 100. Santo Ireneu afirma que João viveu na Ásia até o tempo do imperador Trajano. O livro supõe conhecidos os três primeiros Evangelhos, alude à morte de Pedro (Jo 21,18-19) e corrige o boato que «Correu logo esta voz entre os irmãos, que aquêle discípulo não morreria» (Jo 21,23): a correção só faz sentido se João já era muito idoso. Foi escrito em grego, um grego simples e de vocabulário reduzido; São Jerônimo o reviu em latim na Vulgata, da qual Figueiredo traduziu no século XVIII.
Para quem foi escrito o Evangelho de João? Qual o seu propósito?
Para os cristãos da Ásia Menor, já instruídos na fé, e por meio deles para toda a Igreja. Santo Ireneu e São Jerônimo dizem que João quis também defender a divindade de Cristo contra os primeiros hereges, como Cerinto. Mas é o próprio evangelista quem declara o seu propósito: «foram escritos êstes, a fim de que vós creiais que Jesus é o Cristo, filho de Deus: E de que crendo-o assim, tenhais a vida em seu nome» (Jo 20,31).
Do que fala o Evangelho de João? Resumo
O livro se divide em cinco partes: o prólogo, o livro dos sinais, a última ceia com o discurso de despedida, a Paixão e a Ressurreição, e o epílogo junto ao lago.
O prólogo: o Verbo se fez carne (João 1,1-18)
Os dezoito primeiros versículos contemplam o Verbo eterno, Deus junto de Deus, por quem «Tôdas as coisas foram feitas», vida e «luz dos homens». Retomam o primeiro versículo da Bíblia, «No princípio criou Deus o céu e a terra» (Gn 1,1), e chegam à frase que faz dobrar o joelho: «E o Verbo se fêz carne, e habitou entre nós» (Jo 1,14). Terminam com a revelação do Pai pelo Filho: «O Filho unigênito, que está no seio do Pai, êsse é quem o deu a conhecer» (Jo 1,18). O capítulo 1 tem o seu guia próprio.
O livro dos sinais (capítulos 1-12)
João Batista aponta «o Cordeiro de Deus» (Jo 1,29), os seus discípulos seguem Jesus e Simão recebe o nome de Cefas. Vêm depois os sinais e os grandes diálogos:
- as bodas de Caná, onde a Mãe de Jesus diz aos serventes: «Fazei tudo o que êle vos disser» (Jo 2,5), e a purificação do Templo (capítulo 2);
- a conversa noturna com Nicodemos (capítulo 3);
- a samaritana no poço de Jacó e o filho do oficial do rei (capítulo 4);
- o paralítico da piscina e o discurso sobre a obra do Filho (capítulo 5);
- a multiplicação dos pães, a caminhada sobre as águas e o discurso do pão da vida (capítulo 6);
- a festa dos Tabernáculos: «Se alguém tem sêde, venha a mim, e beba» (Jo 7,37);
- a mulher adúltera e a luz do mundo (capítulo 8);
- o cego de nascença: «O que só sei, é que sendo eu antes cego, vejo agora» (Jo 9,25);
- o bom Pastor e a festa da Dedicação (capítulo 10);
- a ressurreição de Lázaro, que leva o Sinédrio a decidir a morte de Jesus (capítulo 11);
- a unção em Betânia, a entrada em Jerusalém e o anúncio da hora, com o grão de trigo que, se «não morrer» (Jo 12,24), fica só.
A última ceia e o discurso de despedida (capítulos 13-17)
O tom muda: «Como tinha amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Jo 13,1). Jesus lava os pés dos discípulos, anuncia a traição de Judas e dá o mandamento novo. O discurso de despedida promete as moradas do Pai e o Paráclito (capítulo 14), ensina a videira e as varas (capítulo 15) e anuncia o Espírito de verdade e a alegria que virá depois da tristeza (capítulo 16). Termina com a oração sacerdotal pela unidade de todos os que creem: «Para que êles sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti» (Jo 17,21).
A Paixão e a Ressurreição (capítulos 18-20)
A Paixão segundo São João (capítulo 18 e capítulo 19) mostra um Cristo soberano, que se entrega por si mesmo no horto além do Cedron e declara a Pilatos: «O meu reino não é dêste mundo» (Jo 18,36). Pilatos pergunta «Que coisa é a verdade?» (Jo 18,38), apresenta-o coroado de espinhos, «Eis aqui o homem» (Jo 19,5), e manda escrever sobre a cruz: «JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS» (Jo 19,19).
Jesus confia a Mãe ao discípulo, diz «Tudo está cumprido» e entrega o espírito (Jo 19,30). No capítulo 20, Maria Madalena encontra o sepulcro vazio, Pedro e João correm até lá, e o outro discípulo «viu, e creu» (Jo 20,8); o Ressuscitado aparece a Madalena, aos discípulos na tarde da Páscoa e, oito dias depois, a Tomé.
O epílogo junto ao lago de Tiberíades (capítulo 21)
Na margem do lago, a pesca milagrosa traz para terra a rede «cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes» sem que ela se rompa (Jo 21,11). Depois da refeição, Jesus pergunta três vezes a Pedro se ele o ama, confia-lhe cordeiros e ovelhas e lhe prediz o martírio.
Por que o Evangelho de João não é sinótico?
Mateus, Marcos e Lucas se chamam sinóticos porque podem ser lidos em colunas paralelas, num só olhar (synopsis, em grego): seguem quase só o ministério na Galileia e uma única subida a Jerusalém. Você pode compará-los abrindo o Evangelho segundo São Mateus ou o Evangelho segundo São Lucas. João, que escreve por último, mais completa do que repete: conta três Páscoas, várias estadas em Jerusalém e longos discursos; omite as parábolas e o relato da instituição da Eucaristia, cuja doutrina dá no capítulo 6; cala a Transfiguração, de que foi testemunha, mas escreve: «nós vimos a sua glória». Onde os três primeiros mostram sobretudo o que Jesus fez, o quarto faz ver quem ele é. Por isso o seu símbolo, desde São Jerônimo, é a águia, que encara o sol.
Os sete sinais do Evangelho de João e os «Eu sou»
João não diz «milagres», mas sinais: fatos reais que revelam quem é Jesus. Costumam-se contar sete:
- a água mudada em vinho em Caná (Jo 2,1-11);
- a cura do filho do oficial do rei (Jo 4,46-54);
- o paralítico da piscina (capítulo 5);
- a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15);
- a caminhada sobre o mar (Jo 6,16-21);
- o cego de nascença (capítulo 9);
- Lázaro chamado para fora do sepulcro (capítulo 11).
Do primeiro, o evangelista escreve: «Por êsse milagre deu Jesus princípio aos seus em Caná de Galiléia: E assim fêz que se conhecesse a sua glória, e seus discípulos creram nêle» (Jo 2,11).
Aos sinais respondem as palavras em que Jesus toma para si o nome divino revelado a Moisés na sarça, «Eu sou»:
- «Eu sou o pão da vida» (Jo 6,35);
- «Eu sou a luz do mundo: O que me segue não anda em trevas, mas terá o lume da vida» (Jo 8,12);
- «Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo» (Jo 10,9);
- «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas» (Jo 10,11);
- «Eu sou a ressurreição e a vida: O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá» (Jo 11,25);
- «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida: Ninguém vem ao Pai senão por mim» (Jo 14,6);
- «Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor» (Jo 15,1).
E, sem nenhum atributo, a palavra pela qual quiseram apedrejá-lo: «antes que Abraão fôsse feito, sou eu» (Jo 8,58).
O prólogo de João, último Evangelho da Missa
Na Missa tradicional, depois da bênção, o sacerdote vai ao lado do Evangelho e lê o começo de São João até o versículo 14; em Et Verbum caro factum est, «E o Verbo se fêz carne», ele faz a genuflexão, e os fiéis com ele.
Essa leitura, nascida da devoção medieval, foi prescrita para toda a Igreja pelo Missal de São Pio V (1570), e o Missal de 1962 a conserva no fim de quase todas as Missas; as rubricas de 1960 a omitem só em poucos dias, como a terceira Missa do Natal, cujo Evangelho já é esse prólogo, o Domingo de Ramos e a Quinta-feira Santa. Assim a Missa se fecha sobre o mistério do Natal: o Verbo eterno se fez carne e acaba de se tornar presente no altar. O nosso artigo sobre a Missa tridentina situa esse rito no conjunto da celebração.
João 6: o discurso do pão da vida
O capítulo 6 começa com a multiplicação dos cinco pães de cevada, perto da Páscoa, e continua no dia seguinte na sinagoga de Cafarnaum. Jesus passa do maná do deserto (Êx 16) ao pão verdadeiro descido do céu, e depois ao comer a sua carne: «o pão, que eu darei, é a minha carne, para ser a vida do mundo» (Jo 6,52). Os ouvintes protestam, e ele, em vez de atenuar, insiste: «Se não comerdes a carne do Filho do homem, e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós» (Jo 6,54); «Porque a minha carne verdadeiramente é comida: E o meu sangue verdadeiramente é bebida» (Jo 6,56).
Muitos discípulos vão embora. Jesus não os chama de volta com uma explicação simbólica; volta-se para os Doze, e Pedro responde: «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras da vida eterna» (Jo 6,69). A Igreja lê esse discurso como o anúncio da Eucaristia, presença real do corpo e do sangue de Cristo, cuja doutrina o Concílio de Trento definiu (sessão XIII, 1551). Santo Agostinho, comentando o capítulo, exclama: O sacramentum pietatis! O signum unitatis! O vinculum caritatis!, ó sacramento de piedade, ó sinal de unidade, ó vínculo de caridade (Tratados sobre o Evangelho de João, 26, 13).
Atenção à numeração: a Vulgata divide em dois o versículo 51 das Bíblias modernas, de modo que, daí em diante, o versículo de Figueiredo tem um número a mais (Jo 6,54 aqui é o 6,53 das traduções atuais).
João 3,16 e a conversa com Nicodemos
Nicodemos, mestre em Israel, vem de noite e ouve: «quem não renascer da água, e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus» (Jo 3,5). O Concílio de Trento se apoia nesse versículo para ensinar que a água verdadeira e natural é necessária ao batismo (sessão VII, cânon 2 sobre o batismo). Jesus anuncia depois a sua Cruz com a figura da serpente de bronze (Nm 21), e o evangelista resume todo o Evangelho numa frase: «Porque assim amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito: Para que todo o que crê nêle não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16).
A fé de que fala aqui o Senhor não é uma simples confiança interior: recebe o batismo da água e do Espírito anunciado pouco antes, e age: «aquêle que obra verdade, chega-se para a luz» (Jo 3,21). O capítulo 3 tem o seu guia próprio.
Temas e leitura católica
A divindade de Cristo. O livro se abre e se fecha com essa confissão: «o Verbo era Deus» no primeiro versículo, «Senhor meu, e Deus meu» na boca de Tomé (Jo 20,28). «Eu e o Pai somos uma mesma coisa» (Jo 10,30): os Padres de Niceia beberam aqui contra Ário. Os capítulos 14 a 16, em que o Filho promete o Paráclito, iluminam o mistério da Santíssima Trindade.
Os sacramentos. O batismo no capítulo 3, a Eucaristia no capítulo 6, a penitência na tarde da Páscoa: o Ressuscitado sopra sobre os Apóstolos, diz «Recebi o Espírito Santo» e acrescenta: «Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão êles perdoados: E aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão êles retidos» (Jo 20,22-23). O Concílio de Trento (sessão XIV, 1551) ensina que, com essas palavras, o Senhor instituiu o sacramento da confissão; veja como se confessar.
A Igreja nascida do lado aberto. «um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água» (Jo 19,34). Santo Agostinho nota que o evangelista escreveu «abriu», e não «feriu»: ali se abria a porta da vida, de onde correm os sacramentos da Igreja, como Eva foi tirada do lado de Adão adormecido (Tratados, 120, 2). As Missas do Sagrado Coração e do Preciosíssimo Sangue leem esse versículo.
A Virgem Maria. Maria aparece no começo e no fim da vida pública, e duas vezes Jesus a chama «Mulher», em Caná e no Calvário: «Mulher, eis aí teu filho»; depois ao discípulo: «Eis aí tua mãe» (Jo 19,26-27). A Igreja sempre entendeu que o discípulo representava todos os fiéis; Leão XIII o recordou na encíclica Adiutricem populi (1895).
O primado de Pedro. Jesus dá a Simão o nome de Cefas, «que quer dizer Pedro» (Jo 1,42), e depois da Ressurreição lhe confia todo o rebanho: «Apascenta os meus cordeiros» […] «Apascenta as minhas ovelhas» (Jo 21,15-17). O Concílio Vaticano I (Pastor aeternus, 1870) cita essas duas passagens para definir o primado de São Pedro e dos seus sucessores.
Versículos mais conhecidos do Evangelho de João
- O Cordeiro de Deus: «Eis aqui o Cordeiro de Deus, eis aqui o que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29), palavra que o sacerdote repete ao mostrar a Hóstia antes da comunhão dos fiéis.
- O Precursor: «Convém que êle cresça, e que eu diminua» (Jo 3,30).
- A samaritana: «Deus é espírito, e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram» (Jo 4,24).
- A adúltera: «O que de vós outros está sem pecado, seja o primeiro que a apedreje» (Jo 8,7); e depois: «Vai e não peques mais» (Jo 8,11).
- O mandamento novo: «Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei» (Jo 13,34).
- A paz de Cristo: «A paz vos deixo, a minha paz vos dou» (Jo 14,27), palavras retomadas numa oração do sacerdote antes da comunhão.
- Sem mim, nada: «vós sem mim não podeis fazer nada» (Jo 15,5).
- Tomé: «Bem-aventurados os que não viram e creram» (Jo 20,29).
O Evangelho de João no cânon e na liturgia
O quarto Evangelho está em todas as listas antigas dos livros santos, e o Concílio de Trento (sessão IV, 1546) o enumera entre os quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Tem vinte e um capítulos em todas as Bíblias; na Vulgata e em Figueiredo conta 879 versículos. O relato da adúltera (Jo 7,53-8,11) falta numa parte dos manuscritos gregos antigos, mas São Jerônimo o encontrou em muitos códices, e ele pertence ao texto que Trento recebeu na antiga Vulgata latina. O mesmo Apóstolo escreveu três epístolas, a primeira das quais começa como o Evangelho, e o Apocalipse; a voz é a mesma da Primeira Epístola de São João.
Quando se lê o Evangelho de João na Missa?
Nenhum Evangelho está tão presente no Missal de 1962 nos grandes dias. No ciclo do Natal: o III domingo do Advento (1,19-28), a terceira Missa do Natal (1,1-14), as bodas de Caná no II domingo depois da Epifania (2,1-11). Na Quaresma: a multiplicação dos pães no domingo Laetare (6,1-15) e o capítulo 8 no domingo da Paixão, além da samaritana, da adúltera, do cego de nascença e de Lázaro nas férias da III e da IV semana; a lavagem dos pés na Quinta-feira Santa (13,1-15) e a Paixão na Sexta-feira Santa (18,1-19,42).
No tempo pascal: o domingo in Albis (20,19-31), o bom Pastor (10,11-16) e o capítulo 16 nos domingos seguintes, Pentecostes (14,23-31) e a segunda-feira de Pentecostes (3,16-21). E ainda Corpus Christi (6,56-59), o Sagrado Coração (19,31-37), o Preciosíssimo Sangue (19,30-35), Cristo Rei (18,33-37), o XX domingo depois de Pentecostes (4,46-53), a festa de São João a 27 de dezembro (21,19-24), São Tomé (20,24-29) e as três Missas de Finados, que leem João 5 e João 6. Sem contar o prólogo, lido como último Evangelho em quase todas as Missas.
O Evangelho do dia e o calendário litúrgico permitem acompanhar essas leituras ao longo do ano.
Como ler o Evangelho de João
Leia-o primeiro de uma vez: basta uma noite. Depois releia o capítulo 6 pensando na Missa, e os capítulos 13 a 17 como quem está sentado à Ceia; diante de cada sinal, pergunte o que ele revela de Cristo. Um capítulo por dia o leva ao fim em três semanas, e o tempo pascal, quando a própria liturgia o lê, é o momento mais indicado. Os grandes comentários são os 124 Tratados sobre o Evangelho de João de Santo Agostinho, as homilias de São João Crisóstomo e o comentário de Santo Tomás de Aquino, com a sua Catena aurea. Toda a Bíblia pode ser lida também no aplicativo Bíblia católica, com o latim ao lado.
Perguntas Frequentes
Quem escreveu o Evangelho de João?
São João apóstolo, filho de Zebedeu e irmão de Tiago Maior, «aquêle discípulo que Jesus amava». Santo Ireneu, que conheceu São Policarpo, discípulo de João, atesta que ele o publicou em Éfeso, e o próprio livro se apresenta como o testemunho desse discípulo (Jo 21,24).
O Evangelho de João foi escrito por João Batista?
Não. O evangelista é João apóstolo, filho de Zebedeu. São João Batista, o Precursor, foi decapitado por Herodes antes da Paixão, e o Evangelho fala dele na terceira pessoa.
Quando foi escrito o Evangelho de João?
Segundo a tradição, em Éfeso, no fim do século I, entre os anos 90 e 100, aproximadamente: é o último dos quatro Evangelhos. Supõe conhecidos os outros três e alude à morte de São Pedro.
Quantos capítulos tem o Evangelho de João?
Vinte e um, com 879 versículos na Vulgata e em Figueiredo. O mais longo é o capítulo 6, o discurso do pão da vida, com 72 versículos. Todos os capítulos estão na grade desta página, com o latim ao lado.
O que significa João 3,16?
«assim amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito» resume todo o Evangelho: a salvação vem do amor do Pai, que entrega o Filho até a Cruz. Jesus acaba de dizer a Nicodemos que é preciso renascer da água e do Espírito: a fé que salva recebe o batismo e vive segundo a verdade.
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