A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Provérbios 18: a língua, o amigo e a mulher boa
Provérbios 18 reúne sentenças de Salomão sobre a palavra, o orgulho, a amizade e o casamento: «A morte e a vida estão no poder da língua», «Aquêle que achou a uma mulher boa, achou o bem», «O homem amável no trato será mais amigo do que um irmão». Abaixo está o capítulo completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica os versículos 10, 21, 22 e 24, e por que alguns deles têm na Bíblia católica uma frase a mais.
1 Occasiones quærit qui vult recedere ab amico : omni tempore erit exprobrabilis.
1 O que quer deixar-se do seu amigo, busca-lhe as ocasiões: Êle será coberto de opróbrio em todo o tempo.
2 Non recipit stultus verba prudentiæ, nisi ea dixeris quæ versantur in corde ejus.
2 O insensato não recebe as palavras da prudência: Se tu lhe não falares em correspondência das coisas, que passam dentro no seu coração.
3 Impius, cum in profundum venerit peccatorum, contemnit ; sed sequitur eum ignominia et opprobrium.
3 O ímpio, depois de haver chegado ao profundo dos pecados, tudo despreza: Mas a ignomínia e o opróbrio o vão seguindo.
4 Aqua profunda verba ex ore viri, et torrens redundans fons sapientiæ.
4 As palavras saem da bôca do varão, como uma água profunda: E a fonte da sabedoria é como a torrente, que transborda.
5 Accipere personam impii non est bonum, ut declines a veritate judicii.
5 Não é bom guardar respeito à pessoa do ímpio, para te desviares da verdade do juízo.
6 Labia stulti miscent se rixis, et os ejus jurgia provocat.
6 Os lábios do insensato metem-se em disputas: e a sua bôca provoca a contendas.
7 Os stulti contritio ejus, et labia ipsius ruina animæ ejus.
7 A bôca do insensato fere-o a êle mesmo: E os seus lábios são a ruína da sua alma.
8 Verba bilinguis quasi simplicia, et ipsa perveniunt usque ad interiora ventris. Pigrum dejicit timor ; animæ autem effeminatorum esurient.
8 As palavras do homem de língua dobre parecem singelas: Mas elas penetram até o íntimo das entranhas. O temor abate o preguiçoso: Mas as almas dos efeminados terão fome.
9 Qui mollis et dissolutus est in opere suo frater est sua opera dissipantis.
9 Aquêle que é mole e frouxo no seu trabalho, é irmão do que dissipa as suas obras.
10 Turris fortissima nomen Domini ; ad ipsum currit justus, et exaltabitur.
10 O nome do Senhor é uma tôrre fortíssima: A êle mesmo se acolhe o justo, e será exaltado.
11 Substantia divitis urbs roboris ejus, et quasi murus validus circumdans eum.
11 O cabedal do rico é a cidade da sua fortaleza, e como uma grossa muralha que o cerca.
12 Antequam conteratur, exaltatur cor hominis, et antequam glorificetur, humiliatur.
12 O coração do homem eleva-se antes de ser quebrantado: E humilha-se antes de ser glorificado.
13 Qui prius respondet quam audiat, stultum se esse demonstrat, et confusione dignum.
13 Aquêle que responde antes de ouvir, mostra ser um insensato, e digno de confusão.
14 Spiritus viri sustentat imbecillitatem suam ; spiritum vero ad irascendum facilem quis poterit sustinere ?
14 O espírito do homem sustém a sua debilidade: Mas quem poderá suster a um espírito que fàcilmente se deixa levar da ira?
15 Cor prudens possidebit scientiam, et auris sapientium quærit doctrinam.
15 O coração prudente possuirá a ciência: E o ouvido dos sábios busca a doutrina.
16 Donum hominis dilatat viam ejus, et ante principes spatium ei facit.
16 O presente que um homem faz abre-lhe um dilatado caminho, e dá-lhe lugar diante dos príncipes.
17 Justus prior est accusator sui : venit amicus ejus, et investigabit eum.
17 O justo é o primeiro que a si mesmo se acusa: Vem depois o seu amigo, e êle o sondará.
18 Contradictiones comprimit sors, et inter potentes quoque dijudicat.
18 A sorte apazigua as diferenças, e decide ainda entre os poderosos.
19 Frater qui adjuvatur a fratre quasi civitas firma, et judicia quasi vectes urbium.
19 O irmão, que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte: E os seus juízos são como os ferrolhos das cidades.
20 De fructu oris viri replebitur venter ejus, et genimina labiorum ipsius saturabunt eum.
20 Do fruto da bôca do homem se encherá o seu ventre: E os renovos dos seus lábios o fartarão.
21 Mors et vita in manu linguæ ; qui diligunt eam comedent fructus ejus.
21 A morte e a vida estão no poder da língua: Os que a amam, comerão dos seus frutos.
22 Qui invenit mulierem bonam invenit bonum, et hauriet jucunditatem a Domino. Qui expellit mulierem bonam expellit bonum ; qui autem tenet adulteram stultus est et impius.
22 Aquêle que achou a uma mulher boa, achou o bem: E receberá do Senhor um manancial de alegria. Aquêle que expele a uma mulher virtuosa, expele o bem: Mas o que retém a adúltera é um insensato e um ímpio.
23 Cum obsecrationibus loquetur pauper, et dives effabitur rigide.
23 O pobre falará com súplicas: E o rico lhe responderá com aspereza.
24 Vir amabilis ad societatem magis amicus erit quam frater.
24 O homem amável no trato será mais amigo do que um irmão.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Provérbios 18 no livro
O capítulo 18 pertence à grande coleção de sentenças de Salomão que começa no capítulo 10 e vai até 22,16. A tradição da Igreja atribui essas sentenças ao rei Salomão, filho de Davi, a quem Deus deu uma sabedoria proverbial. Aqui não há discurso contínuo, como nos nove primeiros capítulos: cada versículo é uma sentença completa, quase sempre em duas partes que se respondem ou se opõem. Por isso o capítulo se lê devagar, sentença por sentença, e se agrupa por temas mais do que por ordem.
Três desses temas dominam o capítulo 18: o uso da palavra, o orgulho e a humildade, e as relações que sustentam a vida (o irmão, o amigo, a esposa).
O que diz Provérbios 18? Explicação
O insensato e o seu discurso (v. 1-8). O insensato não escuta: «O insensato não recebe as palavras da prudência» (v. 2). Fala para brigar, e a sua boca se volta contra ele: «A bôca do insensato fere-o a êle mesmo: E os seus lábios são a ruína da sua alma» (v. 7). Ao contrário, a palavra do sábio é «como uma água profunda» (v. 4). O versículo 8 fala do maledicente, cujas palavras «parecem singelas: Mas elas penetram até o íntimo das entranhas».
A torre do justo (v. 9-12). Depois de uma palavra contra a preguiça (v. 9), vem um dos versículos mais belos do livro: «O nome do Senhor é uma tôrre fortíssima: A êle mesmo se acolhe o justo, e será exaltado» (v. 10). O versículo seguinte faz o contraste: o rico confia no seu cabedal como numa «cidade da sua fortaleza» (v. 11), mas é uma fortaleza que ele mesmo imagina. E o 12 dá a lei que atravessa toda a Escritura: «O coração do homem eleva-se antes de ser quebrantado: E humilha-se antes de ser glorificado».
Ouvir antes de responder (v. 13-17). «Aquêle que responde antes de ouvir, mostra ser um insensato, e digno de confusão» (v. 13). O sábio busca a doutrina com o ouvido (v. 15). E o versículo 17, na Vulgata, dá uma regra de vida interior: «O justo é o primeiro que a si mesmo se acusa». Os autores espirituais aplicaram-no muitas vezes ao exame de consciência e à confissão: o justo não espera que o acusem, reconhece ele mesmo a sua falta.
O irmão e a palavra (v. 18-21). O irmão ajudado pelo irmão «é como uma cidade forte» (v. 19); o homem colhe o fruto da própria boca (v. 20), até a sentença do versículo 21.
A esposa, o pobre e o amigo (v. 22-24). O capítulo termina com três sentenças sobre os laços humanos, as mais procuradas.
Provérbios 18,21: «A morte e a vida estão no poder da língua»
«A morte e a vida estão no poder da língua: Os que a amam, comerão dos seus frutos» (v. 21). A palavra não é neutra: pode matar a reputação, a paz e a alma do próximo, e pode consolar, ensinar, reconciliar. A segunda metade diz que quem gosta de falar comerá do que falou, para o bem ou para o mal.
São Tiago desenvolverá a mesma ideia: «Também a língua é um fogo: Um mundo de iniqüidade» (Tg 3,6). A tradição católica tira daí as obrigações do oitavo mandamento: não mentir, não caluniar, não difamar, não julgar temerariamente. Não se trata, porém, de um poder mágico da palavra, como se dizer uma coisa a fizesse acontecer: o versículo fala da responsabilidade de quem fala, não de uma “confissão positiva” que obrigaria Deus.
Provérbios 18,22: «Aquêle que achou a uma mulher boa, achou o bem»
Na tradução de Figueiredo o versículo tem duas partes:
«Aquêle que achou a uma mulher boa, achou o bem: E receberá do Senhor um manancial de alegria. Aquêle que expele a uma mulher virtuosa, expele o bem: Mas o que retém a adúltera é um insensato e um ímpio» (v. 22).
A primeira metade é a que todas as Bíblias trazem. A segunda não está no texto hebraico: a Vulgata a tem em comum com a antiga tradução grega dos Setenta, e por isso as Bíblias evangélicas, traduzidas do hebraico, param na primeira frase. Ela condena quem repudia uma esposa fiel e quem convive com o adultério.
A mulher boa é chamada um «bem» que se acha e que se recebe «do Senhor». O próprio livro o repete: «Os pais dão casas e riquezas, porém o Senhor dá pròpriamente uma mulher de prudência» (Pr 19,14). A Igreja vê aqui o casamento como dom de Deus antes de ser conquista do homem, e Nosso Senhor, ao responder sobre o repúdio, lembra o desígnio do princípio: «Não separe logo o homem o que Deus ajuntou» (Mt 19,6). O elogio completo da esposa virtuosa está no capítulo 31.
Provérbios 18,24: «mais amigo do que um irmão»
É o versículo mais procurado do capítulo. Em Figueiredo:
«O homem amável no trato será mais amigo do que um irmão» (v. 24).
O latim é Vir amabilis ad societatem magis amicus erit quam frater. As Bíblias traduzidas do hebraico costumam dizer que há amigo mais chegado do que um irmão, depois de uma primeira frase sobre quem tem muitos companheiros. A Vulgata concentra tudo numa sentença: a amizade verdadeira nasce da amabilidade no trato, e pode unir mais do que o sangue.
O Eclesiástico dirá o mesmo com outras palavras: «O amigo fiel é uma forte proteção: E quem o achou, achou um tesouro» (Eclo 6,14). A leitura cristã chega a Cristo, o amigo que não falha: «Mas chamei-vos amigos» (Jo 15,15). O versículo é muitas vezes citado em mensagens de amizade; ele pede, antes, que sejamos nós esse amigo amável e fiel.
O texto de Provérbios 18 na Bíblia católica
Além do versículo 22, o versículo 8 também é mais longo na Vulgata: depois da sentença sobre o maledicente, acrescenta «O temor abate o preguiçoso: Mas as almas dos efeminados terão fome» (v. 8), frase que se encontra igualmente nos Setenta. A numeração dos versículos, porém, é a mesma das Bíblias evangélicas: 18,21, 18,22 e 18,24 são os mesmos versículos em Figueiredo e nelas. O que muda é a redação, porque Figueiredo traduz o latim de São Jerônimo e as Bíblias evangélicas traduzem o hebraico. Nenhum versículo deste capítulo é lido no Missal de 1962.
Como ler Provérbios 18
Leia uma sentença por vez e pergunte-se a quem ela se aplica na sua vida: à sua língua, aos seus juízos apressados, aos seus amigos, ao seu casamento. Os Provérbios são um livro de exame de consciência mais do que de frases decorativas. O versículo 10 pode servir de oração breve nas horas de medo: o justo se refugia não num lugar, mas no nome do Senhor.
Perguntas Frequentes
O que significa Provérbios 18,24?
Que a amizade verdadeira pode ser mais forte que o parentesco. Em Figueiredo: «O homem amável no trato será mais amigo do que um irmão». A amizade nasce da bondade no trato e se prova na fidelidade.
O que diz Provérbios 18,22?
Que quem acha uma boa esposa acha um bem que vem do Senhor. Na Bíblia católica o versículo acrescenta, como os Setenta, uma condenação de quem repudia a esposa virtuosa e de quem retém a adúltera.
O que quer dizer «a morte e a vida estão no poder da língua»?
Que as palavras têm consequências reais, para os outros e para quem fala. É um chamado à responsabilidade e ao domínio da língua, não a crença de que declarar uma coisa a faz acontecer.
Quem escreveu Provérbios 18?
O capítulo pertence às “Parábolas de Salomão” (10,1-22,16), que a tradição da Igreja atribui ao rei Salomão, filho de Davi.
Por que Provérbios 18 tem frases a mais na Bíblia católica?
Porque a tradução de Figueiredo segue a Vulgata latina, que nos versículos 8 e 22 traz frases que também estão na versão grega dos Setenta e faltam no texto hebraico seguido pelas Bíblias evangélicas. A numeração não muda.
A Bíblia inteira offline, com a página marcada e os versículos destacados: a Bíblia católica no aplicativo.
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