A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Filipenses 1: «Graças dou a meu Deus, cada vez que me lembro de vós»
Filipenses 1 é a abertura da carta mais afetuosa de São Paulo: escrita da prisão, começa com uma ação de graças, «Graças dou a meu Deus, cada vez que me lembro de vós», e chega a uma das frases mais fortes do Novo Testamento, «para mim o viver é Cristo, e o morrer lucro». Abaixo está o capítulo completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica os versículos 3, 6 e 21, o capítulo inteiro e o seu lugar no Missal de 1962.
1 Paulus et Timotheus, servi Jesu Christi, omnibus sanctis in Christo Jesu, qui sunt Philippis, cum episcopis et diaconibus.
1 Paulo, e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os Santos em Jesus Cristo, que se acham em Filipos, com os bispos, e diáconos.
2 Gratia vobis, et pax a Deo Patre nostro, et Domino Jesu Christo.
2 Graça seja a vós outros, e paz da parte de Deus nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo.
3 Gratias ago Deo meo in omni memoria vestri,
3 Graças dou a meu Deus, cada vez que me lembro de vós.
4 semper in cunctis orationibus meis pro omnibus vobis, cum gaudio deprecationem faciens,
4 Fazendo sempre deprecações com gôsto por todos vós em tôdas as minhas orações.
5 super communicatione vestra in Evangelio Christi a prima die usque nunc.
5 Sôbre a vossa comunicação no Evangelho de Cristo desde o primeiro dia até agora.
6 Confidens hoc ipsum, quia qui cœpit in vobis opus bonum, perficiet usque in diem Christi Jesu :
6 Tendo por certo isto mesmo, que quem começou em vós a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo.
7 sicut est mihi justum hoc sentire pro omnibus vobis : eo quod habeam vos in corde, et in vinculis meis, et in defensione, et confirmatione Evangelii, socios gaudii mei omnes vos esse.
7 Como é justo que eu sinta isto de todos vós: Porque vos tenho no coração, e me acho convosco nas minhas prisões, e na defensa e confirmação do Evangelho, por serdes todos vós companheiros do meu gôsto.
8 Testis enim mihi est Deus, quomodo cupiam omnes vos in visceribus Jesu Christi.
8 Porque Deus me é testemunha, de quão ternamente eu vos amo a todos nas entranhas de Jesus Cristo.
9 Et hoc oro, ut caritas vestra magis ac magis abundet in scientia, et in omni sensu :
9 E o que eu lhe peço é que a vossa caridade cresça mais e mais em ciência, e em todo o conhecimento.
10 ut probetis potiora, ut sitis sinceri, et sine offensa in diem Christi,
10 Para que aproveis o melhor, para que sejais sinceros e sem tropêço para o dia de Cristo.
11 repleti fructu justitiæ per Jesum Christum, in gloriam et laudem Dei.
11 Cheios de frutos de justiça por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus.
12 Scire autem vos volo fratres, quia quæ circa me sunt, magis ad profectum venerunt Evangelii :
12 Quero pois, irmãos, que vós saibais que tôdas as coisas que passam comigo, têm contribuído mais ao proveito do Evangelho.
13 ita ut vincula mea manifesta fierent in Christo in omni prætorio, et in ceteris omnibus,
13 De maneira que as minhas prisões se têm feito notórias em Cristo, por tôda a côrte do imperador, e em todos os outros lugares.
14 et plures e fratribus in Domino confidentes vinculis meis, abundantius auderent sine timore verbum Dei loqui.
14 E muitos dos irmãos no Senhor cobrando ânimo com as minhas prisões, têm ousado mais alentadamente falar a palavra de Deus sem temor.
15 Quidam quidem et propter invidiam et contentionem : quidam autem et propter bonam voluntatem Christum prædicant :
15 É verdade que alguns pregam a Cristo até por inveja e por emulação: Mas outros o fazem também por uma boa vontade.
16 quidam ex caritate, scientes quoniam in defensionem Evangelii positus sum.
16 Outros por caridade: Sabendo que eu tenho sido pôsto para defensa do Evangelho.
17 Quidam autem ex contentione Christum annuntiant non sincere, existimantes pressuram se suscitare vinculis meis.
17 Mas outros pregam a Cristo por contenção, não sinceramente, crendo acrescentar aflição às minhas cadeias.
18 Quid enim ? Dum omni modo sive per occasionem, sive per veritatem, Christus annuntietur : et in hoc gaudeo, sed et gaudebo.
18 Mas que importa? Contanto que Cristo em tôdas as maneiras seja anunciado, ou por pretexto, ou por verdade: Não só nisto me alegro, mas ainda me alegrarei.
19 Scio enim quia hoc mihi proveniet ad salutem, per vestram orationem, et subministrationem Spiritus Jesu Christi,
19 Porque sei que isto se me converterá em salvação, pela vossa oração, e pelo socorro do espírito de Jesus Cristo,
20 secundum exspectationem et spem meam, quia in nullo confundar : sed in omni fiducia sicut semper, et nunc magnificabitur Christus in corpore meo, sive per vitam, sive per mortem.
20 segundo as minhas ânsias e esperanças, que tenho, de que em nenhuma coisa serei confundido: Antes com tôda a confiança, assim como sempre, também agora será Cristo engrandecido no meu corpo, ou seja pela vida, ou pela morte.
21 Mihi enim vivere Christus est, et mori lucrum.
21 Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer lucro.
22 Quod si vivere in carne, hic mihi fructus operis est, et quid eligam ignoro.
22 E se o viver em carne, êste é para mim fruto do trabalho, não sei na verdade que devo escolher.
23 Coarctor autem e duobus : desiderium habens dissolvi, et esse cum Christo, multo magis melius :
23 Pois me vejo em apêrto por duas partes: Tendo desejo de ser desatado da carne, e estar com Cristo, que é sem comparação muito melhor.
24 permanere autem in carne, necessarium propter vos.
24 Mas o permanecer em carne, é necessário por amor de vós.
25 Et hoc confidens scio quia manebo, et permanebo omnibus vobis ad profectum vestrum, et gaudium fidei :
25 E persuadido disto, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós, para proveito vosso, e gôzo da fé.
26 ut gratulatio vestra abundet in Christo Jesu in me, per meum adventum iterum ad vos.
26 A fim de que o vosso regozijo abunde por mim em Cristo Jesus, pela minha nova ida a vós outros.
27 Tantum digne Evangelio Christi conversamini : ut sive cum venero, et videro vos, sive absens audiam de vobis, quia statis in uno spiritu unanimes, collaborantes fidei Evangelii :
27 Sòmente vos recomendo que vos porteis conforme ao Evangelho de Cristo: Para que, ou seja que eu vá ver-vos, ou que esteja ausente, ouça de vós que permaneceis unânimes em um mesmo espírito, trabalhando concordemente na fé do Evangelho.
28 et in nullo terreamini ab adversariis : quæ illis est causa perditionis, vobis autem salutis, et hoc a Deo :
28 E em nada tenhais mêdo dos vossos adversários: O que para êles é motivo de perdição, é para vós outros de salvação, e isto vem de Deus:
29 quia vobis donatum est pro Christo, non solum ut in eum credatis, sed ut etiam pro illo patiamini :
29 Porque a vós vos é dado por Cristo, não sòmente que creiais nêle, senão que padeçais também por êle.
30 idem certamen habentes, quale et vidistis in me, et nunc audistis de me.
30 Sofrendo o mesmo combate, qual vós também vistes em mim, e agora tendes ouvido de mim.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Filipenses 1 na carta
Filipos, na Macedônia, foi a primeira cidade da Europa onde São Paulo fundou uma Igreja, na sua segunda viagem, por volta do ano 50; os Atos contam a conversão de Lídia, a vendedora de púrpura, e a noite em que Paulo e Silas, presos, cantavam hinos na cadeia. Anos depois, o Apóstolo escreve aos filipenses estando de novo preso: «as minhas prisões se têm feito notórias em Cristo, por tôda a côrte do imperador» (v. 13). A tradição situa essa prisão em Roma, por volta de 61-63; alguns estudiosos modernos pensam em Éfeso ou em Cesareia. Os filipenses lhe tinham mandado ajuda por meio de Epafrodito, e a carta é também um agradecimento. Mais sobre o autor na página da carta aos Filipenses e no artigo sobre a conversão de São Paulo.
O capítulo 1 tem três movimentos: a saudação e a ação de graças (v. 1-11), as notícias da prisão (v. 12-26) e uma primeira exortação à unidade e à coragem (v. 27-30).
O que diz Filipenses 1? Explicação
A saudação (v. 1-2). «Paulo, e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os Santos em Jesus Cristo, que se acham em Filipos, com os bispos, e diáconos» (v. 1). Em poucas linhas a Igreja de Filipos aparece já organizada, com os seus pastores (episcopis, na Vulgata) e os seus diáconos. Nesse tempo os nomes «bispo» e «presbítero» ainda se usavam um pelo outro, mas a estrutura hierárquica estava lá desde o começo.
A ação de graças e a oração (v. 3-11). Paulo agradece pela «comunicação no Evangelho» dos filipenses «desde o primeiro dia até agora» (v. 5), a sua participação, com ajuda e oração, na missão do Apóstolo. Ele os tem «no coração» (v. 7), e jura: «Porque Deus me é testemunha, de quão ternamente eu vos amo a todos nas entranhas de Jesus Cristo» (v. 8). Depois pede para eles uma caridade que cresça «mais e mais em ciência, e em todo o conhecimento» (v. 9), para que saibam discernir «o melhor» e cheguem ao dia de Cristo «Cheios de frutos de justiça» (v. 10-11).
A prisão que ajuda o Evangelho (v. 12-18). As cadeias de Paulo, longe de calar o Evangelho, «têm contribuído mais ao proveito do Evangelho» (v. 12): os guardas sabem por que ele está preso, e os irmãos ganharam coragem (v. 14). Alguns pregam Cristo por inveja, para aumentar a sua aflição; Paulo responde com uma grandeza de alma rara: «Mas que importa? Contanto que Cristo em tôdas as maneiras seja anunciado, ou por pretexto, ou por verdade: Não só nisto me alegro, mas ainda me alegrarei» (v. 18).
Viver ou morrer (v. 19-26). Paulo não sabe se será libertado ou executado, e pesa as duas saídas (v. 20-24), até concluir que ficará, para o bem dos filipenses (v. 25-26).
Firmes no mesmo espírito (v. 27-30). «Sòmente vos recomendo que vos porteis conforme ao Evangelho de Cristo» (v. 27), unidos e sem medo dos adversários. E o capítulo termina com uma frase que muda o sentido do sofrimento: «Porque a vós vos é dado por Cristo, não sòmente que creiais nêle, senão que padeçais também por êle» (v. 29). Sofrer por Cristo é um dom, não um fracasso.
Filipenses 1,3: «Graças dou a meu Deus, cada vez que me lembro de vós»
«Graças dou a meu Deus, cada vez que me lembro de vós» (v. 3). E o versículo seguinte diz como: «Fazendo sempre deprecações com gôsto por todos vós em tôdas as minhas orações» (v. 4).
É o versículo mais procurado do capítulo, muitas vezes para mensagens de agradecimento a amigos, pais, padrinhos ou professores. Ele cabe bem nesse uso, desde que se guarde o essencial: Paulo não agradece aos filipenses, agradece a Deus por eles. A amizade cristã se torna oração. Lembrar-se de alguém diante de Deus, dar graças por essa pessoa e pedir por ela é a forma mais alta de gratidão; veja também a oração de agradecimento. E esse agradecimento nasce no meio da prisão: a alegria, palavra que volta a cada página da carta, não depende das circunstâncias.
Filipenses 1,6: «quem começou em vós a boa obra a aperfeiçoará»
«Tendo por certo isto mesmo, que quem começou em vós a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo» (v. 6).
É Deus quem começa a obra da salvação em nós, e é ele quem a leva a termo. O Concílio de Trento, no decreto sobre a justificação (sessão VI, cap. 13), cita este versículo ao falar do dom da perseverança: todos devem pôr no auxílio de Deus a esperança mais firme, porque Deus, se eles não faltarem à sua graça, assim como começou a boa obra, a levará a termo, operando o querer e o realizar. O Concílio une assim Filipenses 1,6 a Filipenses 2,13: «Deus é o que obra em vós o querer, e o perfazer» (Fl 2,13). A confiança não é uma segurança automática: o mesmo São Paulo manda, no capítulo seguinte, operar a salvação «com receio, e com tremor» (Fl 2,12). Confiança em Deus, vigilância sobre nós.
Filipenses 1,21: «para mim o viver é Cristo, e o morrer lucro»
«Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer lucro» (v. 21). Em latim, Mihi vivere Christus est, et mori lucrum.
Para Paulo, a vida não tem outro conteúdo senão Cristo: viver é servi-lo, anunciá-lo, sofrer por ele. Por isso a morte não é perda, é ganho, porque leva àquele por quem se vive. O versículo 23 explica: «Tendo desejo de ser desatado da carne, e estar com Cristo, que é sem comparação muito melhor». A Igreja leu nessa frase que a alma do justo, purificada, vai ter com Cristo logo depois da morte, sem esperar o fim do mundo, o que o Papa Bento XII definiu na constituição Benedictus Deus (1336). Sobre o que acontece depois da morte, veja este artigo.
Mas Paulo não foge da vida: «o permanecer em carne, é necessário por amor de vós» (v. 24). O desejo do céu não é desprezo pela terra; é o que dá sentido ao trabalho que ainda falta fazer.
Filipenses 1 na liturgia de 1962
- Missal. Os versículos 6-11 são a Epístola do 22º domingo depois de Pentecostes: Confidimus in Domino Jesu, quia, qui coepit in vobis opus bonum, perficiet usque in diem Christi Jesu. O Gradual e o Aleluia da Missa de Santo Antônio Maria Zaccaria (5 de julho) cantam os versículos 8-11.
- Breviário. As três lições do primeiro noturno das Matinas do 4º domingo depois da Epifania são Filipenses 1,1-18.
Perguntas Frequentes
O que significa Filipenses 1,3?
Que São Paulo agradece a Deus cada vez que se lembra dos filipenses, e reza por eles com alegria. É a gratidão cristã: agradecer a Deus pelas pessoas e transformar a lembrança em oração.
O que quer dizer Filipenses 1,6?
Que Deus, que começou a obra da salvação em nós, a levará até o fim, se não lhe resistirmos. O Concílio de Trento cita o versículo ao ensinar a esperança na perseverança, unida ao esforço de cooperar com a graça.
O que significa «para mim o viver é Cristo, e o morrer lucro»?
Que toda a vida de Paulo pertence a Cristo, e por isso a morte é ganho: ela o une a Cristo para sempre. A frase supõe que a alma do justo vai para junto de Cristo logo depois da morte.
Onde São Paulo estava quando escreveu Filipenses?
Na prisão, como ele mesmo diz (v. 13). A tradição situa essa prisão em Roma, por volta dos anos 61-63; alguns estudiosos propõem Éfeso.
Havia bispos e diáconos em Filipos?
Sim: Paulo saúda os santos «com os bispos, e diáconos» (v. 1). É um dos testemunhos mais antigos de uma Igreja local com os seus ministros ordenados.
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