A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Efésios 6: a armadura de Deus e o combate espiritual
Efésios 6 é o capítulo da armadura de Deus: «Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as ciladas do diabo». Aqui está o capítulo inteiro na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica os deveres da família cristã (6,1-9), cada peça da armadura (6,10-17), a oração do soldado de Cristo e o uso do capítulo na liturgia de 1962.
1 Filii, obedite parentibus vestris in Domino : hoc enim justum est.
1 Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor: Porque isto é justo.
2 Honora patrem tuum, et matrem tuam, quod est mandatum primum in promissione :
2 Honra a teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa.
3 ut bene sit tibi, et sis longævus super terram.
3 Para que te vá bem e sejas de larga vida sôbre a terra.
4 Et vos patres, nolite ad iracundiam provocare filios vestros : sed educate illos in disciplina et correptione Domini.
4 E vós outros, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos: Mas criai-os em disciplina, e correção do Senhor.
5 Servi, obedite dominis carnalibus cum timore et tremore, in simplicitate cordis vestri, sicut Christo :
5 Servos, obedecei a vossos senhores temporais com temor, e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo:
6 non ad oculum servientes, quasi hominibus placentes, sed ut servi Christi, facientes voluntatem Dei ex animo,
6 Não os servindo ao ôlho, como por agradar a homens, senão como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus.
7 cum bona voluntate servientes, sicut Domino, et non hominibus :
7 Servindo-os com boa vontade, como ao Senhor e não como a homens.
8 scientes quoniam unusquisque quodcumque fecerit bonum, hoc recipiet a Domino, sive servus, sive liber.
8 Sabendo que cada um receberá do Senhor a paga do bem que tiver feito, ou seja escravo, ou livre.
9 Et vos domini, eadem facite illis, remittentes minas : scientes quia et illorum et vester Dominus est in cælis : et personarum acceptio non est apud eum.
9 E vós outros os senhores fazei isso mesmo com êles, deixando as ameaças: Sabendo que o Senhor, tanto dêles, como vosso, está nos Céus: E que não há acepção de pessoas para êle.
10 De cetero, fratres, confortamini in Domino, et in potentia virtutis ejus.
10 Quanto ao mais, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, e no poder da sua virtude.
11 Induite vos armaturam Dei, ut possitis stare adversus insidias diaboli :
11 Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as ciladas do diabo:
12 quoniam non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem, sed adversus principes, et potestates, adversus mundi rectores tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiæ, in cælestibus.
12 Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue: Mas sim contra os principados, e potestades, contra os governadores destas trevas do mundo, contra os espíritos de malícia espalhados por êsses ares.
13 Propterea accipite armaturam Dei, ut possitis resistere in die malo, et in omnibus perfecti stare.
13 Portanto tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau, e estar perfeitos em tudo.
14 State ergo succincti lumbos vestros in veritate, et induti loricam justitiæ,
14 Estai pois firmes, tendo cingidos os vossos lombos em verdade, e vestidos da couraça da justiça.
15 et calceati pedes in præparatione Evangelii pacis,
15 E tendo os pés calçados, na preparação do Evangelho da paz:
16 in omnibus sumentes scutum fidei, in quo possitis omnia tela nequissimi ignea extinguere :
16 Embraçando sobretudo o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do mais que maligno:
17 et galeam salutis assumite, et gladium spiritus (quod est verbum Dei),
17 Tomai outrossim o capacete da salvação: E a espada do espírito (que é a palavra de Deus).
18 per omnem orationem et obsecrationem orantes omni tempore in spiritu : et in ipso vigilantes in omni instantia et obsecratione pro omnibus sanctis :
18 Orando em todo o tempo com tôdas as deprecações e rogos em espírito: E vigiando para isto mesmo com todo o fervor, e rogando por todos os santos:
19 et pro me, ut detur mihi sermo in apertione oris mei cum fiducia, notum facere mysterium Evangelii :
19 E por mim, para que me seja dada no abrir da minha bôca palavra com confiança, para fazer conhecer o mistério do Evangelho:
20 pro quo legatione fungor in catena, ita ut in ipso audeam, prout oportet me loqui.
20 Pelo qual ainda estando na cadeia, faço ofício de embaixador, de maneira que eu fale livremente por êle, como devo falar.
21 Ut autem et vos sciatis quæ circa me sunt, quid agam, omnia vobis nota faciet Tychicus, carissimus frater, et fidelis minister in Domino :
21 E para que vós saibais também o estado das minhas coisas, e o que eu faço: Vos informará de tudo Tíquico, nosso irmão muito amado, e ministro fiel no Senhor.
22 quem misi ad vos in hoc ipsum, ut cognoscatis quæ circa nos sunt, et consoletur corda vestra.
22 A quem vo-lo enviei para isto mesmo, para que saibais o que é feito de nós, e para que console os vossos corações.
23 Pax fratribus, et caritas cum fide a Deo Patre et Domino Jesu Christo.
23 Paz seja aos irmãos, e caridade com fé, da parte de Deus Padre, e da do Senhor Jesus Cristo.
24 Gratia cum omnibus qui diligunt Dominum nostrum Jesum Christum in incorruptione. Amen.
24 A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo com tôda a pureza. Amém.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
O contexto: a última página da Epístola aos Efésios
A Epístola aos Efésios é uma das cartas que São Paulo escreveu na prisão, segundo a tradição em Roma, por volta de 61-63; ele mesmo se chama, neste capítulo, embaixador «estando na cadeia» (v. 20). Os três primeiros capítulos contemplam o plano de Deus, que quer reunir tudo em Cristo; os três últimos tiram as consequências para a vida. O capítulo 6 é o fim dessa segunda parte: depois de ter falado do matrimônio como imagem de Cristo e da Igreja (Ef 5,32), Paulo completa os deveres da casa cristã e termina com a grande imagem do soldado armado por Deus. Para o livro inteiro, veja a página da Epístola aos Efésios.
O que diz Efésios 6? O capítulo passo a passo
Filhos e pais (v. 1-4). «Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor: Porque isto é justo» (v. 1). Paulo cita o mandamento do Decálogo, que na contagem católica é o quarto: «Honra a teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa» (v. 2); a promessa é a do Êxodo, uma vida longa sobre a terra. Mas o dever é recíproco: «E vós outros, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos: Mas criai-os em disciplina, e correção do Senhor» (v. 4). A autoridade dos pais é um serviço, e a educação da fé é o primeiro deles.
Servos e senhores (v. 5-9). Paulo fala a uma sociedade em que a escravidão era uma instituição comum. Ele não a abole por decreto, mas a esvazia por dentro: o servo trabalha «como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus» (v. 6), e o senhor sabe que «o Senhor, tanto dêles, como vosso, está nos Céus: E que não há acepção de pessoas para êle» (v. 9). Diante de Deus, senhor e escravo têm o mesmo Juiz. Foi essa semente que, com o tempo, minou a escravidão nos povos cristãos; hoje esses versículos se aplicam a todo trabalho feito sob a autoridade de outro.
A armadura de Deus (v. 10-17). É a parte mais conhecida do capítulo, explicada nas seções seguintes.
A oração e a missão (v. 18-20). A armadura termina numa oração contínua: «Orando em todo o tempo com tôdas as deprecações e rogos em espírito: E vigiando para isto mesmo com todo o fervor, e rogando por todos os santos» (v. 18). Paulo pede para si a coragem de anunciar o Evangelho, e se define com uma imagem forte: «faço ofício de embaixador» na cadeia (v. 20).
As saudações (v. 21-24). Tíquico, o portador da carta, dará as notícias. A carta fecha com a paz, a caridade com a fé e a graça para todos «os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo com tôda a pureza» (v. 24).
Efésios 6,10: «Fortalecei-vos no Senhor»
O versículo 10 abre a passagem e lhe dá a chave: «Quanto ao mais, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, e no poder da sua virtude» (v. 10). O latim diz confortamini in Domino. A força pedida não é a do próprio cristão, mas a de Deus, e é por isso que a armadura é chamada «armadura de Deus»: ela vem dele, foi forjada por ele. Muitos procuram este versículo como palavra de coragem diante de uma prova; é exatamente o seu sentido, desde que se leia até o fim: a força do Senhor se recebe na fé, na Palavra e na oração.
Efésios 6,12: contra quem é o combate?
«Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue: Mas sim contra os principados, e potestades, contra os governadores destas trevas do mundo, contra os espíritos de malícia espalhados por êsses ares» (v. 12). «a carne e o sangue» quer dizer os homens. O inimigo do cristão não é o vizinho, o colega ou o adversário político, mas o demônio e os anjos decaídos, que a Escritura chama de principados e potestades. A Vulgata diz in caelestibus, nas regiões celestes; Figueiredo traduz «por êsses ares», segundo uma leitura antiga que o próprio Paulo autoriza quando chama o demônio de «príncipe das potestades dêste ar» (Ef 2,2).
A Igreja sempre ensinou a existência dos demônios, criaturas espirituais que se tornaram más por sua própria escolha, e a realidade da tentação. Mas também sempre ensinou que eles não têm sobre o batizado mais poder do que Deus permite, e que a vitória de Cristo é definitiva. Daí o tom do capítulo: não medo, mas firmeza. O verbo que volta é «estar firmes» (v. 11, 13, 14): o soldado de Cristo não precisa conquistar território, precisa não ceder.
A armadura de Deus, peça por peça (Efésios 6,13-17)
«Portanto tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau, e estar perfeitos em tudo» (v. 13). A imagem é a do legionário romano que Paulo tinha diante dos olhos na prisão, mas o material vem do Antigo Testamento: Isaías mostra o próprio Deus que «Vestiu-se desta sua justiça como duma couraça, e o capacete de salvação assentou na sua cabeça» (Is 59,17), e o livro da Sabedoria descreve o Senhor que «Tomará por couraça a justiça». O que era a armadura de Deus passa a ser a do cristão. (A Sabedoria é um dos sete livros que estão na Bíblia católica, de 73 livros, e faltam nas Bíblias protestantes.)
- O cinto da verdade. «tendo cingidos os vossos lombos em verdade» (v. 14). O cinto segurava a túnica e permitia mover-se: sem a verdade, sobre Deus e sobre si mesmo, nenhuma outra peça se sustenta.
- A couraça da justiça. «vestidos da couraça da justiça» (v. 14): a justiça que Deus dá na graça santificante e que se guarda pela vida reta. É ela que protege o coração.
- Os calçados do Evangelho. «tendo os pés calçados, na preparação do Evangelho da paz» (v. 15): estar pronto para levar a boa-nova e para viver em paz.
- O escudo da fé. «Embraçando sobretudo o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do mais que maligno» (v. 16). Os «dardos inflamados» são as tentações, as dúvidas, os pensamentos que acendem a cólera ou a impureza; a fé os apaga antes que peguem fogo. O latim nequissimi, o malvadíssimo, designa o demônio.
- O capacete da salvação. «Tomai outrossim o capacete da salvação» (v. 17): a esperança da salvação protege a cabeça. Na Primeira Epístola aos Tessalonicenses Paulo diz «tendo por elmo a esperança da salvação» (1 Ts 5,8).
- A espada do espírito. «E a espada do espírito (que é a palavra de Deus)» (v. 17). É a única arma de ataque. O próprio Cristo, tentado no deserto, respondeu ao demônio com a Escritura.
Todas as peças são, no fundo, virtudes e dons recebidos no batismo e fortalecidos pelos sacramentos. Por isso a tradição católica ligou esta passagem ao sacramento da Crisma, que faz do batizado um soldado de Cristo, e à confissão frequente, que repara a armadura.
A oração da armadura de Deus
Paulo não termina com a espada, mas com a oração (v. 18): a armadura não se veste uma vez por todas, veste-se rezando. Por isso muitos fiéis rezam hoje uma “oração da armadura de Deus”, que retoma as peças uma a uma; o modo católico de fazê-lo está no artigo oração da armadura de Deus, e o tema mais amplo em o combate espiritual.
A Igreja tem também a sua própria oração com as palavras deste capítulo. A oração a São Miguel Arcanjo que se rezava ao pé do altar depois da Missa rezada, nas preces leoninas do Missal de 1962, pede: contra nequitiam et insidias diaboli esto praesidium, “sede o nosso amparo contra a maldade e as ciladas do demônio”. Insidias diaboli são as mesmas palavras da Vulgata no versículo 11, «as ciladas do diabo». Veja a oração de São Miguel Arcanjo.
A oração da armadura não é um amuleto nem uma fórmula que protege por si mesma, repetida um certo número de vezes. Ela vale pelo que pede: a fé, a graça, a fidelidade. Quem a reza e foge dos sacramentos veste uma armadura de papel.
Efésios 6 na liturgia de 1962
- Missa. A epístola do XXI domingo depois de Pentecostes é Efésios 6,10-17, a armadura de Deus. Esse domingo cai perto do fim do ano litúrgico; o intróito, In voluntate tua, Domine, é tirado da oração de Mardoqueu no livro de Ester (Ester 13), outra passagem que só a Bíblia católica conserva.
- Breviário. As lições das Matinas do sábado da III semana depois da Epifania, quando o calendário a comporta, percorrem Efésios 6,1-13.
Há também, no Brasil, uma canção evangélica muito procurada com o título “Efésios 6”; esta página trata do texto bíblico.
Perguntas Frequentes
O que é a armadura de Deus de Efésios 6?
É a imagem com que São Paulo descreve as armas espirituais do cristão contra o demônio: o cinto da verdade, a couraça da justiça, os calçados do Evangelho da paz, o escudo da fé, o capacete da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus, tudo isso vestido pela oração contínua (Efésios 6,10-18).
O que significa Efésios 6,10?
«Fortalecei-vos no Senhor, e no poder da sua virtude»: o cristão não luta com a sua própria força, mas com a de Deus, que se recebe na fé, na Palavra e nos sacramentos.
O que significa Efésios 6,12?
Que o verdadeiro inimigo não são os outros homens («a carne e o sangue»), mas os demônios, os «principados» e «potestades» que tentam afastar o homem de Deus. O combate é espiritual e se trava com armas espirituais.
Qual é o primeiro mandamento com promessa?
«Honra a teu pai e tua mãe», o quarto mandamento na contagem católica. Paulo o chama assim porque vem acompanhado de uma promessa: uma vida longa sobre a terra (Efésios 6,2-3).
Quando se lê Efésios 6 na Missa tradicional?
No XXI domingo depois de Pentecostes, cuja epístola é Efésios 6,10-17.
A oração da armadura de Deus é católica?
Rezar pedindo as virtudes que Paulo descreve é plenamente católico, e a Igreja tem a sua oração a São Miguel com as mesmas palavras, «as ciladas do diabo». Não é católico usá-la como fórmula mágica ou repeti-la um número fixo de vezes para obter proteção.
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