Santos
Conversão de São Paulo: a passagem, a festa e a oração
A Conversão de São Paulo no caminho de Damasco: a passagem bíblica nos três relatos dos Atos e na carta aos Gálatas, o que a Igreja vê nela, a festa de 25 de janeiro no calendário de 1962, a oitava pela unidade, a pintura de Caravaggio e a oração do Missal.
A Conversão de São Paulo é o acontecimento em que Saulo de Tarso, fariseu zeloso que perseguia a Igreja, foi derrubado por uma luz do Céu no caminho de Damasco, ouviu a voz de Jesus ressuscitado e se tornou o Apóstolo das gentes. A Igreja a celebra com uma festa própria: no calendário de 1962, a 25 de janeiro, festa de 3ª classe, com a comemoração de São Pedro. Contamos aqui a passagem bíblica nas suas quatro versões, o que os Padres viram nela, como a Igreja a celebra, a oitava de oração pela unidade que termina nesse dia, a famosa pintura de Caravaggio e a oração do Missal.
Quem era Saulo antes da conversão
O próprio Paulo apresenta-se assim: "Eu pelo que toca à minha pessoa sou judeu, que nasci em Tarso de Cilícia, e me criei nesta cidade, instruído aos pés de Gamaliel, conforme a verdade da Lei de nossos pais, zelador da Lei" (Atos 22, 3). Aos filipenses diz que era "da tribo de Benjamim, nascido hebreu de pais hebreus", e "quanto à lei, fui fariseu. Que quanto ao zêlo, cheguei a perseguir a igreja de Deus" (Filipenses 3, 5-6).
Os Atos mostram-no pela primeira vez no martírio de Santo Estêvão, o primeiro mártir: "E as testemunhas depuseram os seus vestidos aos pés de um moço que se chamava Saulo", e "Saulo era consentidor na sua morte" (Atos 7, 57.59). Santo Agostinho, num sermão que o Breviário Romano lia na festa antes das rubricas de 1960, comenta que Saulo, guardando as vestes de todos os que apedrejavam, estava como que nas mãos de todos eles, mais cruel ajudando a todos do que se apedrejasse com as próprias mãos.
A passagem bíblica da conversão de São Paulo
A conversão é contada três vezes nos Atos dos Apóstolos: uma vez por São Lucas (capítulo 9) e duas vezes pelo próprio Paulo, diante do povo de Jerusalém (capítulo 22) e diante do rei Agripa (capítulo 26). O trecho do capítulo 9 é a Epístola da Missa da festa no Missal de 1962 (Atos 9, 1-22):
"Saulo, pois, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, se apresentou ao príncipe dos sacerdotes. E lhe pediu cartas para as Sinagogas de Damasco: Com o fim de levar presos a Jerusalém quantos achasse desta profissão, homens e mulheres. E indo êle seu caminho, foi coisa fatível que se avizinhasse a Damasco: E sùbitamente o cercou ali uma luz vinda do Céu. E caindo em terra ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Êle disse: Quem és tu, Senhor? E êle lhe respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues: Dura coisa é para ti recalcitrar contra o aguilhão. Então, tremente e atônito, disse: Senhor, que queres tu que eu faça? E o Senhor lhe respondeu: Levanta-te, e entra na cidade, e aí se te dirá o que convém fazer." (Atos 9, 1-7)
Saulo levantou-se cego e foi levado pela mão a Damasco, onde ficou três dias sem ver, sem comer nem beber. O Senhor enviou-lhe então um discípulo chamado Ananias, que hesitava por conhecer a fama do perseguidor:
"Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque êste é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante das gentes, e dos reis, e dos filhos de Israel. Porque eu lhe mostrarei quantas coisas lhe é necessário padecer pelo meu nome. E foi Ananias, e entrou na casa: E pondo as mãos sôbre êle, disse: Saulo irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo. E no mesmo ponto lhe cairam dos olhos umas como escamas, e assim recuperou a vista: E levantando-se foi batizado." (Atos 9, 15-18)
E logo pregava nas sinagogas "que êste era o Filho de Deus" (Atos 9, 20), para espanto dos que sabiam por que tinha vindo a Damasco.
Os outros relatos: Atos 22 e Atos 26
Diante do povo de Jerusalém, Paulo acrescenta que a luz o cercou "à hora do meio-dia" e que o Senhor se nomeou "Jesus Nazareno" (Atos 22, 6-8). Diante de Agripa, descreve uma luz "que excedia o resplendor do sol" e repete a missão recebida: ser enviado aos gentios "a abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz, e do poder de satanaz a Deus" (Atos 26, 13-18). E conclui: "Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial" (Atos 26, 19).
O que o próprio Paulo diz nas cartas
Na carta aos Gálatas, São Paulo insiste em que o seu Evangelho não vem dos homens, mas "por revelação de Jesus Cristo":
"Mas quando aprouve àquele que me destinou desde o ventre da minha mãe, e me chamou pela sua graça, o revelar seu Filho por mim, para que eu o pregasse entre a gente: Desde aquêle ponto não me acomodei à carne, nem ao sangue. Nem vim a Jerusalém aos que eram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco. Dali, no fim de três anos, vim a Jerusalém por ver a Pedro, e fiquei com êle quinze dias." (Gálatas 1, 15-18)
E aos coríntios, com uma humildade que diz tudo sobre a conversão: "Porque eu sou o mínimo dos Apóstolos, que não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus, sou o que sou, e a sua graça não tem sido vã em mim" (1 Coríntios 15, 9-10). Esta última frase ecoa no Gradual da Missa da festa.
O sentido da conversão de São Paulo
"Por que me persegues?"
Jesus não diz "por que persegues os meus discípulos", mas "por que me persegues". A tradição viu nessa palavra a revelação de que Cristo e a Igreja formam um só corpo: quem fere os fiéis fere a Cabeça. É a doutrina que o próprio Paulo desenvolverá nas cartas aos Coríntios, aos Efésios e aos Colossenses.
O lobo de Benjamim
O Breviário Romano anterior às rubricas de 1960 lia, no dia da festa, um sermão de Santo Agostinho que aplica a Paulo a bênção de Jacó sobre a tribo de Benjamim, à qual Paulo pertencia: "Benjamim será como um lôbo arrebatador; êle pela manhã devorará a prêsa, e à tarde repartirá os despojos" (Gênesis 49, 27). De manhã, diz Agostinho, Saulo arrebatava a presa, indo com cartas dos sacerdotes prender os cristãos; à tarde, Paulo repartia o alimento, pregando o Evangelho. Cristo "prostrou o perseguidor para fazer dele o doutor da Igreja", ferindo-o e curando-o, matando-o e vivificando-o: "o Cordeiro morto pelos lobos, que faz dos lobos cordeiros".
Uma conversão sem cavalo
A arte cristã representa quase sempre Saulo caindo de um cavalo. Os Atos não falam de cavalo: dizem apenas que Saulo caiu por terra, e, no relato de Atos 26, que todos os seus companheiros caíram também. O cavalo é uma tradição dos pintores, que não contradiz o texto, mas também não está nele.
Saulo ou Paulo?
A conversão não mudou o nome de Saulo, como às vezes se diz. Os Atos continuam a chamá-lo Saulo depois de Damasco, e a primeira menção do outro nome vem mais tarde, na missão em Chipre: "Porém Saulo, que é também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo..." (Atos 13, 9). A partir daí, São Lucas o chama sempre Paulo, o nome com que ele se apresenta nas suas cartas.
A festa da Conversão de São Paulo: 25 de janeiro
No calendário de 1962, a festa da Conversão de São Paulo é a 25 de janeiro, festa de 3ª classe, com cor branca (não é a festa de um martírio, mas de uma graça), Glória e prefácio dos Apóstolos. A Missa começa com o Intróito Scio cui credidi, tirado da segunda carta a Timóteo: "sei a quem tenho crido, e estou certo de que êle é poderoso para guardar o meu depósito para aquêle dia" (2 Timóteo 1, 12).
Na liturgia romana, São Pedro e São Paulo nunca se separam: na festa de Paulo faz-se a comemoração de São Pedro, e na festa da Cátedra de São Pedro, a 22 de fevereiro, a comemoração de São Paulo. A grande festa dos dois Apóstolos, com o martírio em Roma, é a 29 de junho; para ela preparamos a novena de São Pedro e São Paulo. A véspera da Conversão, 24 de janeiro, é a festa de São Timóteo, o discípulo amado do Apóstolo.
A reforma do calendário de 1969 conservou a festa no dia 25 de janeiro.
A oitava de oração pela unidade da Igreja
A festa da Conversão de São Paulo encerra uma oitava de oração pela unidade, de 18 a 25 de janeiro. Segundo a história dessa iniciativa, ela nasceu em 1908, proposta pelo Pe. Paul Wattson, então clérigo episcopaliano, e por Madre Lurana White, fundadores da Sociedade da Expiação, que pouco depois entraram na Igreja Católica; diz-se que São Pio X a abençoou e que Bento XV a recomendou à Igreja inteira.
A escolha das datas não era casual: ia de 18 de janeiro, então festa da Cátedra de São Pedro em Roma, a 25 de janeiro, festa da Conversão de São Paulo. A intenção era rezar pelo retorno dos cristãos separados à plena comunhão com a Igreja, unida à Sé de Pedro, colocando essa oração sob o patrocínio do Apóstolo das gentes, o maior convertido da história. Desde as rubricas de 1960, a festa romana de 18 de janeiro já não está no calendário (explicamos por que na página sobre a Cátedra de São Pedro), mas as datas da oitava ficaram as mesmas. A questão de fundo, qual é a Igreja que Cristo fundou sobre Pedro, tratamos em quem fundou a Igreja Católica.
A conversão de São Paulo na pintura: Caravaggio e Michelangelo
Poucas cenas do Novo Testamento inspiraram tanto os pintores.
- Caravaggio pintou duas versões, encomendadas em 1600 para a Capela Cerasi da igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma. A que lá está, pintada por volta de 1600-1601, mostra Saulo caído de costas no chão, de braços abertos e olhos fechados, banhado de luz, sob o enorme cavalo que um velho criado segura; não se vê Cristo nem anjo, só a luz. Uma primeira versão, de composição diferente, em que Cristo aparece amparado por um anjo, pertence à coleção Odescalchi Balbi, em Roma.
- Michelangelo pintou a cena (1542-1545) num afresco da Capela Paulina, no Vaticano, em frente ao Martírio de São Pedro, na outra parede da capela: Cristo surge do céu entre os anjos e Saulo, já idoso, jaz por terra, enquanto o cavalo se empina.
As imagens da conversão de São Paulo seguem quase sempre os mesmos elementos: a luz que vem do alto, o cavalo (da tradição, como dissemos), a queda, os companheiros espantados.
Oração da Conversão de São Paulo no Missal de 1962
A oração da Igreja na festa é a coleta da Missa. No Missal de 1962, a ela se junta a oração de São Pedro, comemoração "inseparável": as duas são ditas seguidas, sem novo Oremus, sob uma só conclusão, a da oração de São Pedro. Damo-las assim, em latim e numa tradução fiel.
Deus, qui univérsum mundum beáti Pauli Apóstoli prædicatióne docuísti: da nobis, quǽsumus; ut, qui ejus hódie Conversiónem cólimus, per ejus ad te exémpla gradiámur.
Deus, qui beáto Petro Apóstolo tuo, collátis clávibus regni cœléstis, ligándi atque solvéndi pontifícium tradidísti: concéde; ut, intercessiónis ejus auxílio, a peccatórum nostrórum néxibus liberémur: Qui vivis et regnas cum Deo Patre, in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sǽcula sæculórum. Amen.
Ó Deus, que pela pregação do bem-aventurado Apóstolo Paulo instruístes o mundo inteiro, concedei-nos, vos suplicamos, que, celebrando hoje a sua Conversão, caminhemos para vós pelos seus exemplos.
Ó Deus, que, entregando ao bem-aventurado Pedro, vosso Apóstolo, as chaves do reino celeste, lhe conferistes o poder de ligar e desligar: concedei que, pelo auxílio da sua intercessão, sejamos livres dos laços dos nossos pecados. Vós que viveis e reinais com Deus Pai, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
A coleta não pede uma emoção, mas um caminho: andar para Deus pelos exemplos de Paulo. O Gradual da Missa resume esse exemplo: "A graça de Deus não foi vã em mim, mas a sua graça permanece sempre em mim." Quem quiser rezar a São Pedro fora da Missa encontra a oração a São Pedro Apóstolo; a Missa da festa, com o seu Intróito, a Epístola dos Atos e a comemoração do Príncipe dos Apóstolos, é uma das belas páginas da Missa tridentina. E no nosso guia dos santos católicos explicamos por que a Igreja venera e invoca os santos.
Perguntas Frequentes
O que foi a conversão de São Paulo?
O encontro de Saulo de Tarso, fariseu que perseguia os cristãos, com Jesus ressuscitado no caminho de Damasco. Derrubado por uma luz do Céu, ouviu: "Saulo, Saulo, por que me persegues?", ficou três dias cego, foi curado e batizado por Ananias e começou logo a pregar que Jesus é o Filho de Deus.
Onde está a passagem da conversão de São Paulo na Bíblia?
Nos Atos dos Apóstolos, contada três vezes: no capítulo 9 (versículos 1-22), no capítulo 22 (versículos 6-16) e no capítulo 26 (versículos 12-19). O próprio Paulo fala dela na carta aos Gálatas (1, 11-18) e na primeira carta aos Coríntios (15, 8-10).
Qual é o dia da conversão de São Paulo?
25 de janeiro. No calendário de 1962 é festa de 3ª classe, com a comemoração de São Pedro; o calendário reformado de 1969 manteve a mesma data.
Por que a Igreja celebra a conversão de São Paulo?
Porque é uma obra única da graça: o perseguidor tornou-se o Apóstolo das gentes, o "vaso escolhido" para levar o nome de Cristo aos pagãos, aos reis e aos filhos de Israel. A coleta da festa pede que caminhemos para Deus pelos seus exemplos.
São Paulo caiu do cavalo?
Os Atos dizem que Saulo caiu por terra, mas não falam de cavalo. O cavalo vem da tradição artística, presente nas pinturas de Caravaggio e de Michelangelo.
Onde está a pintura "A Conversão de São Paulo" de Caravaggio?
A versão mais conhecida, pintada por volta de 1600-1601, está na Capela Cerasi da igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma, em frente à Crucifixão de São Pedro do mesmo pintor. Uma primeira versão, diferente, está na coleção Odescalchi Balbi, em Roma.
Saulo mudou de nome para Paulo depois da conversão?
Não exatamente. Os Atos continuam a chamá-lo Saulo depois de Damasco; o nome Paulo aparece pela primeira vez em Atos 13, 9 ("Saulo, que é também chamado Paulo"), durante a missão em Chipre, e a partir daí é o nome que São Lucas usa ao narrar.
O app Iter Fidei traz o Missal e o Breviário de 1962 com a festa da Conversão de São Paulo, os santos de cada dia e a Bíblia de Figueiredo, em latim e português, com áudio. Participe do acesso antecipado aqui.
Fontes. Sagrada Escritura, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (Gênesis 49, 27; Atos 7, 57-59; 9, 1-22; 13, 9; 22, 3-11; 26, 13-19; 1 Coríntios 15, 9-10; Gálatas 1, 15-18; Filipenses 3, 5-6; 2 Timóteo 1, 12); Missal Romano de 1962 (25 de janeiro, coleta, comemoração de São Pedro, Intróito, Epístola e Gradual); Breviário Romano, 25 de janeiro (lições de Matinas; sermão de Santo Agostinho, lido antes das rubricas de 1960); Código de Rubricas de 1960 (comemoração de São Pedro sob uma só conclusão).