A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Provérbios 16: «Descobre ao Senhor as tuas obras», o homem propõe e Deus dispõe
Provérbios 16 é o capítulo de um dos versículos mais procurados da Bíblia no Brasil, Provérbios 16,3: «Descobre ao Senhor as tuas obras, e serão dirigidos os teus pensamentos». Aqui está o capítulo inteiro na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o sentido de 16,3, os planos do homem e a direção de Deus (16,1 e 16,9), a soberba que precede a ruína (16,18) e as outras sentenças do capítulo.
1 Hominis est animam præparare, et Domini gubernare linguam.
1 Da parte do homem está o preparar a sua alma: E da parte do Senhor o governar-lhe a língua.
2 Omnes viæ hominis patent oculis ejus ; spirituum ponderator est Dominus.
2 Todos os caminhos do homem estão patentes aos seus olhos: O Senhor pesa os espíritos.
3 Revela Domino opera tua, et dirigentur cogitationes tuæ.
3 Descobre ao Senhor as tuas obras, e serão dirigidos os teus pensamentos.
4 Universa propter semetipsum operatus est Dominus ; impium quoque ad diem malum.
4 Tudo fêz o Senhor por causa de si mesmo: Até ao ímpio para o dia mau.
5 Abominatio Domini est omnis arrogans ; etiamsi manus ad manum fuerit, non est innocens. Initium viæ bonæ facere justitiam ; accepta est autem apud Deum magis quam immolare hostias.
5 Todo o arrogante é a abominação do Senhor: Ainda quando estiver com uma mão sôbre outra, não é inocente. O princípio do caminho bom é praticar a justiça: E diante de Deus é mais aceita do que imolar hóstias.
6 Misericordia et veritate redimitur iniquitas, et in timore Domini declinatur a malo.
6 A iniqüidade redime-se pela misericórdia e pela verdade: E o mal evita-se pelo temor do Senhor.
7 Cum placuerint Domino viæ hominis, inimicos quoque ejus convertet ad pacem.
7 Quando os caminhos do homem agradarem ao Senhor, até reduzirá à paz os seus inimigos.
8 Melius est parum cum justitia quam multi fructus cum iniquitate.
8 Melhor é o pouco com justiça, do que muitos frutos com iniqüidade.
9 Cor hominis disponit viam suam, sed Domini est dirigere gressus ejus.
9 O coração do homem dispõe o seu caminho: Mas da parte do Senhor está dirigir os seus passos.
10 Divinatio in labiis regis ; in judicio non errabit os ejus.
10 A adivinhação se acha nos lábios do rei, a sua bôca não errará no juízo.
11 Pondus et statera judicia Domini sunt, et opera ejus omnes lapides sacculi.
11 Os juízos do Senhor são pêso e balança: E as suas obras são tôdas as pedras do saco.
12 Abominabiles regi qui agunt impie, quoniam justitia firmatur solium.
12 Os que obram impiamente são abomináveis ao rei: Porque o trono se firma com justiça.
13 Voluntas regum labia justa ; qui recta loquitur diligetur.
13 A vontade dos reis são os lábios justos: O que fala coisas retas, será amado.
14 Indignatio regis nuntii mortis, et vir sapiens placabit eam.
14 A indignação do rei são uns correios da morte: E o varão sábio a aplacará.
15 In hilaritate vultus regis vita, et clementia ejus quasi imber serotinus.
15 Na alegria do semblante do rei está a vida: E a sua clemência é como a chuva serôdia.
16 Posside sapientiam, quia auro melior est, et acquire prudentiam, quia pretiosior est argento.
16 Possui sabedoria, pois que ela é melhor do que o ouro: E adquire a prudência, pois que é mais preciosa do que a prata.
17 Semita justorum declinat mala ; custos animæ suæ servat viam suam.
17 A vereda dos justos aparta os males: O que guarda a sua alma conserva o seu caminho.
18 Contritionem præcedit superbia, et ante ruinam exaltatur spiritus.
18 A soberba precede a ruína: E o espírito eleva-se antes da queda.
19 Melius est humiliari cum mitibus quam dividere spolia cum superbis.
19 Mais vale ser humilhado com os mansos, do que repartir despojos com os soberbos.
20 Eruditus in verbo reperiet bona, et qui sperat in Domino beatus est.
20 O que é hábil no empreendido negócio, achará bens: E o que espera no Senhor, é bem-aventurado.
21 Qui sapiens est corde appellabitur prudens, et qui dulcis eloquio majora percipiet.
21 O que é sábio de coração, será chamado prudente: E o que é doce no falar, receberá coisas maiores.
22 Fons vitæ eruditio possidentis ; doctrina stultorum fatuitas.
22 A erudição do que a possui é uma fonte de vida: A doutrina dos insensatos é fatuidade.
23 Cor sapientis erudiet os ejus, et labiis ejus addet gratiam.
23 O coração do sábio instruirá a sua bôca: E acrescentará graça aos seus lábios.
24 Favus mellis composita verba ; dulcedo animæ sanitas ossium.
24 As palavras compostas são um favo de mel: A doçura da alma é a saúde dos ossos.
25 Est via quæ videtur homini recta, et novissima ejus ducunt ad mortem.
25 Há um caminho que parece ao homem que é direito: E contudo o seu fim guia para a morte.
26 Anima laborantis laborat sibi, quia compulit eum os suum.
26 A alma do que trabalha, para si trabalha, porque a sua bôca o constrangeu a isso.
27 Vir impius fodit malum, et in labiis ejus ignis ardescit.
27 O varão ímpio cava o mal, e nos seus lábios se vai ateando o fogo.
28 Homo perversus suscitat lites, et verbosus separat principes.
28 O homem perverso move pleitos: E o verboso divide os príncipes.
29 Vir iniquus lactat amicum suum, et ducit eum per viam non bonam.
29 O homem iníquo atrai ao seu amigo: E o conduz por um caminho não bom.
30 Qui attonitis oculis cogitat prava, mordens labia sua perficit malum.
30 Aquêle que cogita em malvados projetos com os olhos espantados, executa o mal mordendo os seus beiços.
31 Corona dignitatis senectus, quæ in viis justitiæ reperietur.
31 Coroa de dignidade é a velhice, a qual se achará nos caminhos da justiça.
32 Melior est patiens viro forti, et qui dominatur animo suo expugnatore urbium.
32 O homem paciente vale mais do que o valoroso: E o que domina o seu ânimo, do que o expugnador de cidades.
33 Sortes mittuntur in sinum, sed a Domino temperantur.
33 Os bilhetes da sorte lançam-se numa dobra do vestido, mas o Senhor é quem os tempera.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
O contexto: as parábolas de Salomão
O capítulo 16 pertence à grande coleção das “parábolas de Salomão”, que vai do capítulo 10 ao 22,16 do livro dos Provérbios. Não é um discurso seguido, mas uma série de sentenças breves, quase sempre de duas linhas: a segunda repete, completa ou contradiz a primeira. A tradição da Igreja recebeu essas sentenças como obra do rei Salomão, a quem Deus deu uma sabedoria prodigiosa (veja quem foi Salomão). O fio do capítulo 16 é claro: o homem faz planos, fala, governa, trabalha, mas o Senhor é quem pesa os corações e dirige os passos.
O ponto de partida de todo o livro é este: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria» (Pr 1,7). Os Provérbios não são uma coleção de truques para ter sucesso, mas uma escola para viver diante de Deus.
Provérbios 16,3: «Descobre ao Senhor as tuas obras»
«Descobre ao Senhor as tuas obras, e serão dirigidos os teus pensamentos» (v. 3). Em latim, Revela Domino opera tua, et dirigentur cogitationes tuae. Os brasileiros procuram o versículo como “consagre ao Senhor tudo o que você faz” ou “confia ao Senhor as tuas obras”, que é o modo como o traduzem as Bíblias feitas sobre o hebraico.
Por que «descobre»? O hebraico usa um verbo que significa “rolar”: fazer passar para outro um peso que não se pode carregar sozinho. A Vulgata traduziu revela, descobre, manifesta, e Figueiredo a segue. As duas imagens se completam. Rolar a obra para Deus é confiar-lhe o resultado; descobri-la diante dele é não lhe esconder nada, apresentar-lhe com franqueza os projetos, as intenções, os medos. O mesmo verbo latino está no salmo 36 (37 nas Bíblias traduzidas do hebraico): «Descobre ao Senhor o teu caminho, e espera nêle; e êle fará» (Sl 36,5).
O que é prometido? Não que todos os planos darão certo, mas que «serão dirigidos os teus pensamentos»: quem apresenta as suas obras a Deus recebe dele a retidão do juízo, a luz para decidir e a paz para aceitar. A promessa é sobre o coração antes de ser sobre os resultados. É a mesma confiança que São Pedro ensina: «remetendo para êle tôdas as vossas inquietações, porque êle tem cuidado de vós» (1 Pd 5,7).
Como viver Provérbios 16,3? A tradição católica tem uma prática simples: o oferecimento das obras pela manhã, que consagra a Deus o trabalho, as alegrias e os sofrimentos do dia, e a intenção reta renovada antes de cada ação importante. Quem faz isso põe em prática este versículo.
Os planos do homem e a direção de Deus (16,1 e 16,9)
O versículo 3 é emoldurado por outros dois que dizem a mesma coisa de dois lados. O primeiro do capítulo: «Da parte do homem está o preparar a sua alma: E da parte do Senhor o governar-lhe a língua» (v. 1). E o nono, também muito procurado: «O coração do homem dispõe o seu caminho: Mas da parte do Senhor está dirigir os seus passos» (v. 9). É o que o provérbio popular diz em poucas palavras: o homem propõe, Deus dispõe.
Esses versículos não fazem do homem um fantoche. Ele prepara, pensa, decide, e é responsável pelo que faz. Mas não é o senhor último da história nem do seu próprio êxito. A doutrina católica da graça diz o mesmo com precisão: o Concílio de Trento, na sessão VI (1547), ensina que Deus nos move primeiro pela sua graça, sem a qual não podemos nos voltar para ele, e que o homem coopera livremente com essa graça, podendo também recusá-la. A liberdade é real, a iniciativa é de Deus. São Tiago tira daí uma regra para os planos de cada dia: dizer sempre «Se o Senhor quiser» (Tg 4,15).
O versículo 33 fecha o capítulo com a mesma ideia: «Os bilhetes da sorte lançam-se numa dobra do vestido, mas o Senhor é quem os tempera» (v. 33). Até o que parece acaso está nas mãos da Providência; os Apóstolos lançaram sortes para escolher Matias depois de rezar (At 1,26). Isso não autoriza a adivinhação, que a Igreja sempre condenou: o versículo fala de confiança em Deus, não de técnicas para conhecer o futuro.
O que diz Provérbios 16? As outras sentenças
Deus pesa os corações (v. 2). «Todos os caminhos do homem estão patentes aos seus olhos: O Senhor pesa os espíritos». Cada um se julga justo; só Deus vê as intenções.
Tudo para Deus (v. 4). «Tudo fêz o Senhor por causa de si mesmo: Até ao ímpio para o dia mau». O versículo não diz que Deus cria alguém para pecar: o mal é obra da liberdade da criatura, e a Igreja condenou expressamente a ideia de uma predestinação ao mal. Diz que nada escapa ao plano de Deus, nem mesmo o ímpio, que encontrará o seu dia de juízo.
A justiça e a misericórdia (v. 5-8). A Vulgata conserva no versículo 5 uma linha que não está no hebraico: «O princípio do caminho bom é praticar a justiça: E diante de Deus é mais aceita do que imolar hóstias». O versículo 6 é uma das bases bíblicas da doutrina da esmola e da penitência: «A iniqüidade redime-se pela misericórdia e pela verdade» (v. 6). O 7 promete que Deus reconcilia o justo até com os inimigos, e o 8 prefere a pobreza honesta: «Melhor é o pouco com justiça, do que muitos frutos com iniqüidade» (v. 8).
O rei justo (v. 10-15). Uma pequena série sobre o rei: a sua palavra é decisiva, o seu trono se firma na justiça (v. 12), ele ama os lábios retos (v. 13). Para o leitor cristão, é o retrato de Cristo Rei, cuja justiça não erra.
A sabedoria vale mais que o ouro (v. 16). «Possui sabedoria, pois que ela é melhor do que o ouro».
A soberba e a humildade (v. 18-19). Comentadas abaixo.
As palavras (v. 20-24). «As palavras compostas são um favo de mel: A doçura da alma é a saúde dos ossos» (v. 24). A palavra boa cura; e «o que espera no Senhor, é bem-aventurado» (v. 20).
O caminho que parece direito (v. 25). «Há um caminho que parece ao homem que é direito: E contudo o seu fim guia para a morte». O mesmo provérbio está em Provérbios 14,12: a consciência precisa ser formada, porque a sinceridade sozinha não garante o caminho certo.
Os homens perversos (v. 27-30). O intrigante, o fofoqueiro que «divide os príncipes» (v. 28), o que seduz o amigo para o mal.
A velhice e a paciência (v. 31-32). «Coroa de dignidade é a velhice, a qual se achará nos caminhos da justiça» (v. 31). E uma das sentenças mais belas do livro: «O homem paciente vale mais do que o valoroso: E o que domina o seu ânimo, do que o expugnador de cidades» (v. 32). Vencer a si mesmo é mais difícil que conquistar uma cidade.
Provérbios 16,18: «A soberba precede a ruína»
«A soberba precede a ruína: E o espírito eleva-se antes da queda» (v. 18). A soberba é, para a tradição católica, o primeiro dos sete pecados capitais, a raiz dos outros, e o pecado dos anjos rebeldes. O versículo seguinte dá o remédio: «Mais vale ser humilhado com os mansos, do que repartir despojos com os soberbos» (v. 19). O Novo Testamento repete: «Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes» (Tg 4,6), e Cristo se apresenta como modelo: «aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração» (Mt 11,29).
Provérbios 16 na liturgia de 1962
O Missal de 1962 não toma o capítulo 16 para as leituras da Missa. No Breviário, os Provérbios são lidos nas Matinas na primeira semana de agosto, e as lições do sábado dessa semana são precisamente o início deste capítulo (16,1-15).
Perguntas Frequentes
O que significa Provérbios 16,3?
Que o homem deve apresentar a Deus as suas obras e projetos, sem lhe esconder nada, e confiar-lhe o resultado; e que Deus, em troca, dirige os seus pensamentos, dando-lhe retidão de juízo e paz. Figueiredo, com a Vulgata, diz «Descobre ao Senhor as tuas obras»; as Bíblias traduzidas do hebraico dizem “confia” ou “consagra”.
Provérbios 16,3 garante que os meus planos darão certo?
Não. Promete que os pensamentos de quem se entrega a Deus serão dirigidos por ele. Deus pode conduzir por caminhos que não eram os planejados, como diz o versículo 9.
O que significa Provérbios 16,9?
«O coração do homem dispõe o seu caminho: Mas da parte do Senhor está dirigir os seus passos.» O homem faz planos livremente e é responsável por eles, mas a direção última da vida está nas mãos da Providência: o homem propõe, Deus dispõe.
O que significa «A soberba precede a ruína» (Provérbios 16,18)?
Que o orgulho é o prelúdio da queda: quem se exalta perde o temor de Deus e a prudência, e acaba caindo. A soberba é o primeiro dos pecados capitais; o remédio é a humildade (v. 19).
Provérbios 16,4 quer dizer que Deus cria pessoas para o mal?
Não. Quer dizer que nada escapa ao plano de Deus e que o ímpio também terá o seu dia de juízo. A Igreja ensina que Deus não predestina ninguém ao pecado; o mal vem da liberdade da criatura.
Quem escreveu Provérbios 16?
O capítulo pertence às “parábolas de Salomão” (Provérbios 10,1-22,16), que a tradição atribui ao rei Salomão, filho de Davi.
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