A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 21 (20 na Vulgata e na Ave-Maria): Domine, in virtute tua, o salmo do Rei coroado
O salmo 21 das Bíblias modernas é o salmo 20 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o *Domine, in virtute tua lætabitur rex*: o canto de vitória do rei atendido, que a Igreja sempre leu de Cristo ressuscitado e coroado de glória. Atenção: o «salmo 21» dos livros litúrgicos e da Ave-Maria é outro, o salmo da Paixão. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia traz a explicação, a leitura dos Padres, o uso na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 20 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 19.
1 In finem. Psalmus David.
1 Para o fim, Salmo de Davi.
2 Domine, in virtute tua lætabitur rex, et super salutare tuum exsultabit vehementer.
2 Senhor, o rei se alegrará na tua fortaleza: E na tua salvação se regozijará em grande maneira.
3 Desiderium cordis ejus tribuisti ei, et voluntate labiorum ejus non fraudasti eum.
3 Tu lhe cumpriste o desejo de seu coração: E não o defraudaste da vontade de seus lábios.
4 Quoniam prævenisti eum in benedictionibus dulcedinis ; posuisti in capite ejus coronam de lapide pretioso.
4 Porque tu o preveniste de bênçãos de doçuras: E puseste sôbre a sua cabeça uma coroa de pedras preciosas.
5 Vitam petiit a te, et tribuisti ei longitudinem dierum, in sæculum, et in sæculum sæculi.
5 Vida te pediu a ti: E lhe concedeste diuturnidade de dias pelo século, e pelos séculos dos séculos.
6 Magna est gloria ejus in salutari tuo ; gloriam et magnum decorem impones super eum.
6 Grande é a sua glória na tua salvação: Glória e grande formosura porás sôbre êle.
7 Quoniam dabis eum in benedictionem in sæculum sæculi ; lætificabis eum in gaudio cum vultu tuo.
7 Porque tu o darás para bênção pelos séculos dos séculos: Enche-lo-ás de alegria com o teu rosto.
8 Quoniam rex sperat in Domino, et in misericordia Altissimi non commovebitur.
8 Porquanto o rei espera no Senhor: E na misericórdia do Altíssimo não será comovido.
9 Inveniatur manus tua omnibus inimicis tuis ; dextera tua inveniat omnes qui te oderunt.
9 Caia a tua mão sôbre todos os teus inimigos: Caia a tua destra sôbre todos os que te aborrecem.
10 Pones eos ut clibanum ignis in tempore vultus tui : Dominus in ira sua conturbabit eos, et devorabit eos ignis.
10 Tu os porás como um forno aceso ao mostrar-lhes teu rosto: O Senhor na sua ira os conturbará, e o fogo os devorará.
11 Fructum eorum de terra perdes, et semen eorum a filiis hominum,
11 Seu fruto exterminarás da terra: E a sua descendência de entre os filhos dos homens.
12 quoniam declinaverunt in te mala ; cogitaverunt consilia quæ non potuerunt stabilire.
12 Porque urdiram contra ti males: Maquinaram conselhos que não puderam estabelecer.
13 Quoniam pones eos dorsum ; in reliquiis tuis præparabis vultum eorum.
13 Porquanto os porás em fugida: Nos teus resíduos prepararás o rosto dêles.
14 Exaltare, Domine, in virtute tua ; cantabimus et psallemus virtutes tuas.
14 Exalta-te, Senhor, no teu poder: Cantaremos e louvaremos as tuas maravilhas.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 21 ou salmo 20?
O mesmo salmo tem dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico o chamam de salmo 21; a Vulgata, a Setenta, a liturgia e a Bíblia Ave-Maria o contam como salmo 20, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Os números dos versículos coincidem: o título forma o versículo 1 nas duas tradições. Só as Bíblias que não numeram o título contam um versículo a menos. A tabela completa está na página dos Salmos.
A diferença engana com frequência:
- salmo 21 (hebraico) = salmo 20 (Vulgata e Ave-Maria): Domine, in virtute tua, o canto de vitória do rei, nesta página;
- salmo 21 da Vulgata e da Ave-Maria = salmo 22 (hebraico): o Deus, Deus meus, «Deus, Deus meu, olha para mim: Por que me desamparaste?», o salmo que Jesus rezou na Cruz.
Se você procura o salmo da Paixão, ele está, portanto, na página do salmo 21 da Vulgata. Os dois textos, lado a lado, se iluminam: a coroa de glória e a coroa de espinhos.
O que significa o salmo 21? Explicação
O título é «Para o fim, Salmo de Davi» (v. 1). O salmo responde ponto por ponto ao anterior. No salmo 20 das Bíblias modernas (19 na Vulgata), Exaudiat te Dominus, o povo rezava pelo seu rei antes da batalha: «Reparta contigo segundo o teu coração: E cumpra todos os teus desígnios». Aqui a batalha está vencida e a oração atendida. Pedido e agradecimento formam um díptico.
A alegria do rei (v. 2-7). O salmo se abre em júbilo: «Senhor, o rei se alegrará na tua fortaleza: E na tua salvação se regozijará em grande maneira» (v. 2). O rei não se alegra da própria força, mas da força de Deus, in virtute tua. O que o povo havia pedido foi dado: «Tu lhe cumpriste o desejo de seu coração: E não o defraudaste da vontade de seus lábios» (v. 3). Os dons se acumulam: «Porque tu o preveniste de bênçãos de doçuras: E puseste sôbre a sua cabeça uma coroa de pedras preciosas» (v. 4). Deus não se limita a responder; Ele se antecipa, dá antes que se peça.
Vem depois o versículo que rompe o quadro de uma simples vitória militar: «Vida te pediu a ti: E lhe concedeste diuturnidade de dias pelo século, e pelos séculos dos séculos» (v. 5). Nenhum rei da terra recebe dias sem fim. E o ponto mais alto está no versículo 7: «Enche-lo-ás de alegria com o teu rosto» (v. 7). A maior recompensa do rei não é a coroa nem a vitória, mas a presença de Deus.
O segredo da sua força (v. 8). O centro do salmo cabe numa frase: «Porquanto o rei espera no Senhor: E na misericórdia do Altíssimo não será comovido». A estabilidade do reino não repousa nas armas, mas na confiança.
O juízo dos inimigos (v. 9-13). A segunda parte se dirige ao rei vencedor, ou ao próprio Deus: «Caia a tua mão sôbre todos os teus inimigos» (v. 9). As imagens são terríveis, a fornalha ardente e o fogo que devora: «Tu os porás como um forno aceso ao mostrar-lhes teu rosto» (v. 10). Elas dizem o juízo de Deus sobre aqueles que tramaram contra Ele e «Maquinaram conselhos que não puderam estabelecer» (v. 12). A tradição leu aqui o juízo do último dia, quando Cristo aparecerá em glória diante de quem o rejeitou. Não é sede de vingança: é a certeza de que o mal não terá a última palavra.
A aclamação final (v. 14). O povo conclui: «Exalta-te, Senhor, no teu poder: Cantaremos e louvaremos as tuas maravilhas». O primeiro e o último versículo falam da mesma força, virtus: a de Deus, que faz a alegria do rei e o canto do povo.
O Rei é Cristo ressuscitado
A leitura dos Padres sobre este salmo é unânime: o rei é Cristo. Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, o entende de Nosso Senhor do começo ao fim: é o homem Cristo que se alegra na força de Deus.
A vida pedida e concedida «pelo século, e pelos séculos dos séculos» é a Ressurreição. Cristo rezou ao Pai na sua Paixão, e o Pai o atendeu devolvendo-lhe uma vida que não acabará mais. São Paulo o diz aos Romanos: «tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá sôbre êle mais domínio» (Romanos 6, 9).
A coroa posta sobre a sua cabeça é a glória que Ele recebeu por meio dos sofrimentos. A Epístola aos Hebreus o diz expressamente: «aquêle Jesus, que por um pouco foi feito menor que os Anjos, nós o vemos pela paixão da morte coroado de glória e de honra» (Hebreus 2, 9). E a alegria diante do rosto de Deus, no versículo 7, é a do Filho que volta para junto do Pai na sua humanidade glorificada, no dia da Ascensão.
O lugar do salmo no Saltério ganha então todo o seu sentido. Depois do rei coroado vem o salmo 21 da Vulgata, o salmo da Paixão: a coroa de pedras preciosas não se entende sem a coroa de espinhos. O salmo pertence à família dos salmos régios e messiânicos, com o salmo 2, onde Deus diz ao seu Cristo «Tu és meu Filho, eu te gerei hoje», e com o salmo 110 das Bíblias modernas (109 na Vulgata), Dixit Dominus, onde o Senhor faz o Messias sentar-se à sua direita. Toda a festa de Cristo Rei se alimenta destes salmos.
A coroa dos Santos
A liturgia deu mais um passo. O que o salmo diz do rei, Cristo o comunica aos que o seguem até o fim: os mártires, os confessores, os santos. A «coroa de pedras preciosas» do versículo 4 torna-se assim a coroa de glória prometida aos fiéis, e o salmo, cantado nas suas festas, diz que a vitória da Cabeça é também a dos membros. São Paulo, no fim da sua carreira, esperava justamente isto: «me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia: E não só a mim, senão também àqueles que amam a sua vinda» (II Timóteo 4, 8).
O salmo 21 na liturgia de 1962
Matinas de segunda-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 20 se reza nas Matinas de segunda-feira, o Ofício da noite, no terceiro noturno, sob a antífona Domine, in virtute tua lætabitur rex. Fica ao lado da oração pelo rei, o salmo 19, e da ação de graças do salmo 29: súplica e agradecimento se respondem na mesma vigília. Você pode rezá-lo no breviário do dia.
A Ascensão. Nas Matinas da Ascensão o salmo abre o segundo noturno, com uma antífona tirada do seu último versículo: Exaltare, Domine, in virtute tua: cantabimus et psallemus, alleluja. O rei que sobe ao céu é o rei do salmo, a quem o Pai deu a vida pelos séculos.
Os Comuns dos mártires e dos confessores. No Comum de um Mártir Pontífice o salmo é cantado no terceiro noturno sob a antífona Posuisti, Domine, super caput ejus coronam de lapide pretioso; no Comum de um Confessor Pontífice, sob a antífona Vitam petiit a te, et tribuisti ei, Domine. Ele volta também nas Matinas de São José, do Nascimento de São João Batista, de São Lourenço e de São Martinho.
No Missal. Os versículos 2 a 6 aparecem sem cessar nas Missas dos Santos:
- a Missa In virtute do Comum de um Mártir abre com o versículo 2 aplicado ao justo: In virtute tua, Domine, lætabitur justus;
- o Gradual Domine, prævenisti eum in benedictionibus dulcedinis: posuisti in capite ejus coronam de lapide pretioso (v. 4-5) se canta na festa de São José, em 19 de março;
- Posuisti, Domine, in capite ejus coronam de lapide pretioso (v. 4) é a Comunhão da Degolação de São João Batista, em 29 de agosto, e, com o versículo 5, o Ofertório de São Mateus, em 21 de setembro, cuja Comunhão é o versículo 6, Magna est gloria ejus in salutari tuo;
- o Trato Desiderium animæ ejus tribuisti ei (v. 3-4) se canta, depois da Septuagésima, nos Comuns dos mártires e em várias festas de Santos;
- o versículo 2, Domine, in virtute tua lætabitur rex, é o verso do Intróito da Vigília de São João Batista e o Aleluia do quinto domingo depois de Pentecostes.
Como rezar o salmo 21
Como ação de graças. Depois de uma graça recebida, de um pedido atendido, de uma prova superada, o salmo põe nos lábios a gratidão: «Tu lhe cumpriste o desejo de seu coração». Acompanha bem a oração de agradecimento da tradição.
No tempo pascal. Como o seu coração é a vida dada pelos séculos dos séculos, reza-se diante de Cristo ressuscitado, na Páscoa e nos dias até a Ascensão.
Para honrar a realeza de Cristo. Na festa de Cristo Rei, ou sempre que se quer reconhecer a sua soberania sobre si, sobre a própria família e sobre a pátria, o salmo é uma aclamação pronta.
Nas festas dos Santos. Rezado no dia de um mártir ou de um santo, lembra a coroa prometida a quem persevera.
Para que serve o salmo 21? Para agradecer e louvar, como a Igreja faz com ele; não é uma fórmula de vitória que funciona por si, mas a oração de quem põe a sua confiança no Senhor e não na própria força. Termina-se com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 21 também é chamado de salmo 20?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia católica, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 21 das Bíblias modernas é, portanto, o salmo 20 da Vulgata, o Domine, in virtute tua. Ao contrário, o «salmo 21» dos livros litúrgicos é o salmo da Paixão, numerado 22 nas Bíblias modernas.
Qual a diferença entre o salmo 20 e o salmo 21?
Nas Bíblias modernas, o salmo 20 é a oração do povo pelo rei antes da batalha, e o salmo 21 é o agradecimento depois da vitória. Na Vulgata e na Ave-Maria, esses dois salmos são o 19 e o 20, e o «salmo 21» é o Deus, Deus meus da Paixão.
O salmo 21 fala de Jesus Cristo?
Sim, segundo a leitura constante dos Padres. Santo Agostinho o entende todo de Cristo: a vida pedida e concedida para sempre é a Ressurreição, e a coroa é a glória recebida por meio da Paixão. A Epístola aos Hebreus mostra Jesus «coroado de glória e de honra» por causa dos seus sofrimentos.
Quem escreveu o salmo 21?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, Salmo de Davi». A tradição o recebe como obra do rei profeta, inspirada pelo Espírito Santo; os Padres ouvem nele, para além de Davi, a realeza eterna de Cristo.
Qual o versículo mais conhecido do salmo 21?
O versículo 4, «puseste sôbre a sua cabeça uma coroa de pedras preciosas», que a Igreja canta nas festas dos mártires com as palavras Posuisti, Domine, in capite ejus coronam de lapide pretioso. O versículo 2, Domine, in virtute tua lætabitur rex, é o incipit pelo qual a liturgia o conhece.
Quando é melhor rezar o salmo 21?
Depois de uma graça recebida, como ação de graças; no tempo pascal e na Ascensão; na festa de Cristo Rei e nas festas dos Santos. A Igreja o reza toda semana nas Matinas de segunda-feira.
A Bíblia inteira offline, com a página marcada e os versículos destacados: a Bíblia católica no aplicativo.
Salmo 20 (21) · com o app
Acesso antecipado