A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 74 (73 na Vulgata e na Ave-Maria): Ut quid, Deus, o lamento sobre o santuário destruído
O salmo 74 das Bíblias modernas é o salmo 73 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o *Ut quid, Deus, repulisti in finem*: «Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado para sempre?». É o lamento do povo diante do Templo queimado pelos inimigos, uma das orações mais duras do Saltério, e também uma das mais confiantes: «Mas o Deus Rei nosso antes dos séculos: Obrou a salvação no meio da terra». Aqui você encontra o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, a sua leitura cristã, o seu lugar na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 73 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 72.
1 Intellectus Asaph. Ut quid, Deus, repulisti in finem, iratus est furor tuus super oves pascuæ tuæ ?
1 De inteligência de Asaf. Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado para sempre? Incendido está o teu furor sôbre as ovelhas do teu pasto?
2 Memor esto congregationis tuæ, quam possedisti ab initio. Redemisti virgam hæreditatis tuæ, mons Sion, in quo habitasti in eo.
2 Lembra-te da tua congregação, que possuíste desde o princípio. Tu redimiste a porção da tua herança: O monte de Sião em que te aprouve habitar.
3 Leva manus tuas in superbias eorum in finem : quanta malignatus est inimicus in sancto !
3 Levanta as tuas mãos contra as soberbas dêles até ao fim: Quantas maldades tem cometido o inimigo no Santuário!
4 Et gloriati sunt qui oderunt te in medio solemnitatis tuæ ; posuerunt signa sua, signa :
4 E os que te aborreceram, gloriaram-se: No meio da tua solenidade. Puseram os seus estandartes, em grande número,
5 et non cognoverunt sicut in exitu super summum. Quasi in silva lignorum securibus
5 e não os conheceram, bem como nas portas sôbre o mais alto. Como em um bosque de árvores com machados,
6 exciderunt januas ejus in idipsum ; in securi et ascia dejecerunt eam.
6 destroçaram à uma as suas portas: Com machado e camartelo a derribaram.
7 Incenderunt igni sanctuarium tuum ; in terra polluerunt tabernaculum nominis tui.
7 Abrasaram em fogo ao teu Santuário: Na terra profanaram o tabernáculo do teu nome.
8 Dixerunt in corde suo cognatio eorum simul : Quiescere faciamus omnes dies festos Dei a terra.
8 Disseram no seu coração os das suas parentelas todos juntamente: Façamos cessar da terra tôdas as festas de Deus.
9 Signa nostra non vidimus ; jam non est propheta ; et nos non cognoscet amplius.
9 Não temos visto os nossos sinais: Já não há profeta: E não nos conhecerá daqui em diante.
10 Usquequo, Deus, improperabit inimicus ? irritat adversarius nomen tuum in finem ?
10 Até quando, ó Deus, nos afrontará o inimigo: Blasfemará o adversário o teu nome até ao fim?
11 Ut quid avertis manum tuam, et dexteram tuam de medio sinu tuo in finem ?
11 Por que retrais a tua mão, e a tua direita do meio do teu seio até ao fim?
12 Deus autem rex noster ante sæcula : operatus est salutem in medio terræ.
12 Mas o Deus Rei nosso antes dos séculos: Obrou a salvação no meio da terra.
13 Tu confirmasti in virtute tua mare ; contribulasti capita draconum in aquis.
13 Tu com o teu poder deste solidez ao mar: Moeste as cabeças dos dragões nas águas.
14 Tu confregisti capita draconis ; dedisti eum escam populis Æthiopum.
14 Tu quebraste as cabeças do dragão: Deste-o por comida aos povos da Etiópia.
15 Tu dirupisti fontes et torrentes ; tu siccasti fluvios Ethan.
15 Tu abriste as fontes, e os ribeiros: Tu secaste os rios de Etan.
16 Tuus est dies, et tua est nox ; tu fabricatus es auroram et solem.
16 Teu é o dia, e tua é a noite: Tu fabricaste a aurora e o sol.
17 Tu fecisti omnes terminos terræ ; æstatem et ver tu plasmasti ea.
17 Tu fizeste todos os limites da terra: o estio e a primavera tu os formaste.
18 Memor esto hujus : inimicus improperavit Domino, et populus insipiens incitavit nomen tuum.
18 Lembra-te disto: O inimigo improperou ao Senhor: E um povo néscio irritou o teu nome.
19 Ne tradas bestiis animas confitentes tibi, et animas pauperum tuorum ne obliviscaris in finem.
19 Não entregues às feras as almas que te louvam, e não ponhas em esquecimento para sempre as almas dos teus pobres.
20 Respice in testamentum tuum, quia repleti sunt qui obscurati sunt terræ domibus iniquitatum.
20 Olha para o teu testamento: Porque os obscurecidos da terra são os que estão cheios de casas de iniqüidade.
21 Ne avertatur humilis factus confusus ; pauper et inops laudabunt nomen tuum.
21 Não se volte confundido o humilde: O pobre, e o desvalido louvarão o teu Nome.
22 Exsurge, Deus, judica causam tuam ; memor esto improperiorum tuorum, eorum quæ ab insipiente sunt tota die.
22 Levanta-te, ó Deus, julga a tua causa: Lembra-te dos impropérios feitos contra ti, daqueles com que um povo néscio te injuria todo o dia.
23 Ne obliviscaris voces inimicorum tuorum : superbia eorum qui te oderunt ascendit semper.
23 Não te esqueças das vozes de teus inimigos: A soberba daqueles que te aborrecem, sobe continuamente.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 74 ou salmo 73?
É o mesmo salmo com dois números. O 74 é o da numeração hebraica, seguida pelas Bíblias modernas mais lidas no Brasil. A Vulgata latina e a Setenta grega, que a Igreja sempre cantou, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico e por isso contam este salmo como 73; a Bíblia Ave-Maria e a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo seguem essa contagem. Em latim ele começa com Ut quid, Deus, repulisti in finem.
Os versículos têm aqui o mesmo número nas duas contagens. Atenção aos vizinhos:
- salmo 74 (hebraico) = salmo 73 (Vulgata e Ave-Maria): «Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado», nesta página;
- salmo 73 (hebraico) = salmo 72 (Vulgata): o Quam bonus Israel Deus, na página do salmo 73 (72 na Vulgata);
- salmo 75 (hebraico) = salmo 74 (Vulgata): o Confitebimur tibi, Deus, na página do salmo 75 (74 na Vulgata).
O que significa o salmo 74? Explicação
O título diz «De inteligência de Asaf» (v. 1). Asaf foi um dos mestres de canto de Davi, e o seu nome ficou ligado a uma família de cantores do Templo, os «filhos de Asaf» (I Paralipômenos (1 Crônicas) 25,2); os salmos que levam o seu nome podem vir dessa escola. Este salmo descreve o santuário incendiado e profanado pelos inimigos. É incerto a que catástrofe ele se refere: os comentadores pensam sobretudo no incêndio do Templo pelos babilônios, quando Nabuzardan, general do rei da Babilônia, «queimou a casa do Senhor» (IV Livro dos Reis (2 Reis) 25,9); outros, na profanação feita por Antíoco Epífanes, contada nos livros dos Macabeus. O salmo serve às duas, e a todas as horas em que a Igreja parece abandonada.
Por quê, Senhor? (v. 1-3)
O salmo começa por uma pergunta, não por um louvor: «Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado para sempre? Incendido está o teu furor sôbre as ovelhas do teu pasto?» (v. 1). O povo não perdeu a fé: chama-se «ovelhas do teu pasto», o rebanho de Deus. E lembra a Deus a sua própria história: «Lembra-te da tua congregação, que possuíste desde o princípio» (v. 2). É a antífona com que a Igreja canta este salmo na Sexta de quinta-feira.
O santuário em chamas (v. 4-9)
Segue a descrição da ruína, quase como uma reportagem. Os inimigos se gloriaram «No meio da tua solenidade» e plantaram ali os seus estandartes (v. 4); como lenhadores num bosque, «Com machado e camartelo a derribaram» (v. 6); «Abrasaram em fogo ao teu Santuário: Na terra profanaram o tabernáculo do teu nome» (v. 7). O plano deles é apagar a fé: «Façamos cessar da terra tôdas as festas de Deus» (v. 8). E o povo sente a pior das perdas: «Já não há profeta» (v. 9), ninguém que diga quanto tempo isso vai durar.
Até quando? (v. 10-11)
«Até quando, ó Deus, nos afrontará o inimigo: Blasfemará o adversário o teu nome até ao fim?» (v. 10). O que dói ao salmista não é só a destruição; é que o nome de Deus seja insultado. E pergunta por que Deus guarda a mão «do meio do teu seio» (v. 11), como quem cruza os braços.
O Deus Rei que salvou (v. 12-17)
No centro do salmo, a virada: «Mas o Deus Rei nosso antes dos séculos: Obrou a salvação no meio da terra» (v. 12). O povo se lembra do que Deus já fez. Primeiro o Êxodo: «Tu com o teu poder deste solidez ao mar: Moeste as cabeças dos dragões nas águas» (v. 13); os «dragões» são os monstros do mar, imagem do Egito e das forças do caos vencidas na passagem do mar Vermelho. Depois a criação: «Teu é o dia, e tua é a noite: Tu fabricaste a aurora e o sol» (v. 16), e as estações (v. 17). O Deus que venceu o mar e ordenou o tempo não pode ser vencido por um exército.
Levanta-te, ó Deus (v. 18-23)
O fim é uma súplica insistente. «Não entregues às feras as almas que te louvam, e não ponhas em esquecimento para sempre as almas dos teus pobres» (v. 19). «Olha para o teu testamento» (v. 20), isto é, lembra-te da tua aliança. «O pobre, e o desvalido louvarão o teu Nome» (v. 21). E o grito final: «Levanta-te, ó Deus, julga a tua causa» (v. 22). A causa do povo é a causa de Deus.
A leitura cristã
Para o cristão, o salmo não fala só de um edifício de pedra. O próprio Senhor anunciou a ruína do Templo de Jerusalém: «não ficará aqui pedra sôbre pedra, que não seja derribada» (Mateus 24,2). O verdadeiro santuário é o Corpo de Cristo, destruído na Paixão e reconstruído em três dias, e a Igreja, o seu Corpo, que conhece ao longo dos séculos perseguições, igrejas profanadas e festas proibidas. O salmo dá palavras a essas horas.
O versículo 12, «Obrou a salvação no meio da terra», foi lido pelos Padres da Cruz. São Cirilo de Jerusalém, nas Catequeses, pregando no lugar do Calvário, aplicava-o ao Gólgota, onde Cristo estendeu os braços para abraçar o mundo inteiro. A salvação que Deus «obrou» não foi uma vitória militar, mas a Cruz.
O «dragão» do versículo 14 tem também um eco no Apocalipse: «foi precipitado aquêle grande Dragão, aquela antiga serpente, que se chama o diabo e satanás» (Apocalipse 12,9). O Deus que esmagou as cabeças dos dragões é o que vence o inimigo da alma.
O salmo 74 na liturgia de 1962
Sexta de quinta-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 73 forma sozinho a Sexta da quinta-feira, dividido em três partes (v. 1-9, 10-17 e 18-23), sob a antífona Memor esto congregationis tuæ, Domine, quam possedisti ab initio (v. 2). Ao meio-dia de cada quinta-feira, a Igreja pede a Deus que se lembre do seu povo. Você pode rezar a Sexta no breviário.
Quinta-feira Santa. Nas Matinas da Quinta-feira Santa, o salmo 73 é o terceiro salmo do segundo noturno, com a antífona Exsurge, Domine, et judica causam meam. Nessa noite em que Cristo é traído, a Igreja canta o lamento do santuário que vai ser destruído. Veja a Quinta-feira Santa.
No Missal. O salmo dá o intróito e o gradual do 13º domingo depois de Pentecostes. O intróito une os versículos 20, 19 e 23: Respice, Domine, in testamentum tuum, et animas pauperum tuorum ne derelinquas in finem: exsurge, Domine, et judica causam tuam, et ne obliviscaris voces quærentium te, com o versículo 1, Ut quid, Deus, repulisti in finem, como verso do salmo. O gradual retoma os versículos 20, 19 e 22: Respice, Domine, in testamentum tuum… Exsurge, Domine, et judica causam tuam: memor esto opprobrii servorum tuorum. O mesmo gradual se canta na quinta-feira da 4ª semana da Quaresma. E na festa de São João Bosco (31 de janeiro), o versículo do Aleluia é o versículo 21: Pauper et inops laudabunt nomen tuum.
Salmo 74 para que serve?
O salmo 74 serve para rezar nas horas de desolação coletiva: quando uma igreja é profanada, quando a fé é perseguida, quando a comunidade parece abandonada por Deus. Ensina a perguntar «por quê?» sem deixar de crer, a lembrar a Deus as suas obras e a pedir que Ele se levante. Pode-se rezá-lo também numa ruína pessoal, quando tudo o que se construiu parece destruído.
Não é uma fórmula para vencer inimigos nem para conseguir algo à força de repetição; isso seria superstição (CIC 2111). É a súplica de um povo que confia no Deus Rei.
Como rezar o salmo 74
- Pela Igreja perseguida. Os versículos 4-10 se rezam pelos cristãos que veem as suas igrejas queimadas e as suas festas proibidas.
- Numa ruína pessoal. Os versículos 1-2 deixam perguntar a Deus «por quê?» sem perder a confiança.
- Para reencontrar a esperança. Os versículos 12-17 recordam o que Deus já fez: a Cruz, a criação, as libertações passadas.
- Pelos pobres. Os versículos 19-21 são uma oração pelos humildes e desvalidos, que «louvarão o teu Nome».
- Pela paz, com uma oração pela paz.
Conclui-se com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
O salmo 74 e o salmo 73 são o mesmo?
Sim. O salmo 74 das Bíblias modernas é o salmo 73 da Vulgata, da Bíblia Ave-Maria e de Figueiredo: o Ut quid, Deus. O salmo 74 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria é outro, o Confitebimur tibi, Deus (75 das Bíblias modernas).
Qual é o significado do salmo 74?
É o lamento do povo diante do Templo destruído e profanado. O salmista pergunta a Deus por que o abandonou, descreve a ruína, recorda as obras de Deus no Êxodo e na criação e pede que Ele se levante para defender a sua causa.
Qual é a explicação do versículo «Obrou a salvação no meio da terra»?
É o versículo 12, o ponto de virada do salmo: no meio da desgraça, o povo se lembra de que Deus é rei desde sempre e já salvou. Os Padres, como São Cirilo de Jerusalém, o aplicaram à Cruz erguida no Calvário.
Quem escreveu o salmo 74?
O título o atribui a Asaf, isto é, ao mestre de canto de Davi ou à família de cantores que levava o seu nome. Como o salmo descreve a destruição do Templo, muitos o datam de depois dessa catástrofe; o autor humano preciso é incerto. Veja quem escreveu os salmos.
Quando a Igreja reza o salmo 74?
No Breviário de 1962, toda quinta-feira na Sexta e nas Matinas da Quinta-feira Santa. No Missal, no intróito e no gradual do 13º domingo depois de Pentecostes.
O salmo 74 é católico?
O salmo pertence a toda a Bíblia, mas a página traz a tradução católica do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, e mostra como a Igreja o reza na liturgia tradicional.
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