A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 73 (72 na Vulgata e na Ave-Maria): Quam bonus Israel Deus, a crise do justo e a sua cura
O salmo 73 das Bíblias modernas é o salmo 72 da Vulgata, *Quam bonus Israel Deus his qui recto sunt corde*: o justo que invejava a sorte dos ímpios e reencontra a paz ao entrar no santuário de Deus. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica as partes do salmo, quem foi Asaf, os versículos 25-28, os Padres e o uso na liturgia de 1962.
Procura o salmo 72 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 71.
1 Psalmus Asaph. Quam bonus Israël Deus, his qui recto sunt corde !
1 Salmo de Asaf. Quão bom é Deus para Israel! Para os que são retos de coração.
2 Mei autem pene moti sunt pedes, pene effusi sunt gressus mei :
2 Os meus pés por pouco não vacilaram: Por pouco se não transtornaram os meus passos.
3 quia zelavi super iniquos, pacem peccatorum videns.
3 Porque tive zêlo sôbre os iníquos, vendo a paz dos pecadores.
4 Quia non est respectus morti eorum, et firmamentum in plaga eorum.
4 Porque êles não atendem à sua morte: E não há firmeza na sua ferida.
5 In labore hominum non sunt, et cum hominibus non flagellabuntur.
5 Não participam dos trabalhos dos homens, nem com os homens serão flagelados:
6 Ideo tenuit eos superbia ; operti sunt iniquitate et impietate sua.
6 Portanto os possui a soberba, cobertos estão da sua iniqüidade, e impiedade.
7 Prodiit quasi ex adipe iniquitas eorum ; transierunt in affectum cordis.
7 Como da gordura nasceu a sua maldade: Se transformaram segundo o afeto do seu coração.
8 Cogitaverunt et locuti sunt nequitiam ; iniquitatem in excelso locuti sunt.
8 Cogitaram, e falaram maldade: Iniqüidade falaram em alto.
9 Posuerunt in cælum os suum, et lingua eorum transivit in terra.
9 Puseram no céu a sua bôca: E a língua dêles foi discorrendo pela terra.
10 Ideo convertetur populus meus hic, et dies pleni invenientur in eis.
10 Por isto se voltará aqui o meu povo: E serão achados nêles os dias cheios.
11 Et dixerunt : Quomodo scit Deus, et si est scientia in excelso ?
11 E disseram: Acaso Deus sabe isto, e tem disto notícia o Altíssimo?
12 Ecce ipsi peccatores, et abundantes in sæculo obtinuerunt divitias.
12 Eis-aqui os mesmos pecadores, e os que abundam no século têm adquirido riquezas.
13 Et dixi : Ergo sine causa justificavi cor meum, et lavi inter innocentes manus meas,
13 E disse: Logo em vão justifiquei o meu coração, e lavei entre os inocentes as minhas mãos:
14 et fui flagellatus tota die, et castigatio mea in matutinis.
14 Pois tenho sido afligido todo o dia, e castigado desde a manhã.
15 Si dicebam : Narrabo sic ; ecce nationem filiorum tuorum reprobavi.
15 Se dizia: Contá-lo-ei assim: Via que condenava a nação de teus filhos.
16 Existimabam ut cognoscerem hoc ; labor est ante me :
16 Pensava para entender isto, trabalho é êste aos meus olhos:
17 donec intrem in sanctuarium Dei, et intelligam in novissimis eorum.
17 Até que eu entre no santuário de Deus: E aprenda qual será o fim dêles.
18 Verumtamen propter dolos posuisti eis ; dejecisti eos dum allevarentur.
18 Certamente por causa dos seus enganos lhes mandaste males: Derribaste-os quando se elevavam.
19 Quomodo facti sunt in desolationem ? subito defecerunt : perierunt propter iniquitatem suam.
19 Como os que são postos em desolação, repentinamente feneceram. Pereceram pela sua maldade.
20 Velut somnium surgentium, Domine, in civitate tua imaginem ipsorum ad nihilum rediges.
20 Como sonho dos que despertam, tornarás, Senhor, em nada a imagem dêles, na tua cidade.
21 Quia inflammatum est cor meum, et renes mei commutati sunt ;
21 Porque se inflamou o meu coração, as minhas entranhas se comoveram:
22 et ego ad nihilum redactus sum, et nescivi :
22 Também eu fui reduzido ao nada, e não o entendi.
23 ut jumentum factus sum apud te, et ego semper tecum.
23 Como jumento me tenho feito diante de ti: E eu estarei sempre contigo.
24 Tenuisti manum dexteram meam, et in voluntate tua deduxisti me, et cum gloria suscepisti me.
24 Tomaste-me pela minha mão direita: E me conduziste segundo a tua vontade, e com glória me acolheste.
25 Quid enim mihi est in cælo ? et a te quid volui super terram ?
25 Pois que tenho eu no céu? E fora de ti, que desejei eu sôbre a terra?
26 Defecit caro mea et cor meum ; Deus cordis mei, et pars mea, Deus in æternum.
26 Desfaleceu a minha carne, e o meu coração: Deus do meu coração, e minha porção, Deus para sempre.
27 Quia ecce qui elongant se a te peribunt ; perdidisti omnes qui fornicantur abs te.
27 Pois eis-aqui, os que se apartam de ti perecerão: Acabaste com todos os que te quebrantam a fé.
28 Mihi autem adhærere Deo bonum est ; ponere in Domino Deo spem meam : ut annuntiem omnes prædicationes tuas in portis filiæ Sion.
28 Mas para mim me é bom unir-me a Deus: E pôr no Senhor Deus a minha esperança: Para anunciar todos os teus louvores nas portas da filha de Sião.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 73 ou salmo 72?
As Bíblias modernas, que seguem o hebraico, numeram este salmo 73; a Vulgata, os Padres, o Breviário Romano e a Bíblia Ave-Maria o contam como 72, porque unem num só os salmos 9 e 10. É o mesmo texto, que em latim começa com Quam bonus Israel Deus. Os versículos, por sua vez, têm o mesmo número nas duas tradições, porque aqui o título e o primeiro versículo formam juntos o versículo 1: o “salmo 73, 28” de uma Bíblia moderna é o versículo 28 desta página. A tabela das correspondências está na página dos Salmos.
Quem procura o “salmo 72” pode querer dois textos diferentes:
- salmo 73 (hebraico) = salmo 72 (Vulgata e Ave-Maria): o Quam bonus, apresentado aqui;
- salmo 72 (hebraico) = salmo 71 (Vulgata): o salmo régio e messiânico Deus, judicium tuum regi da, que a Igreja canta na Epifania.
E o salmo 73 da Vulgata é ainda outro, o Ut quid, Deus, repulisti in finem, salmo 74 das Bíblias modernas.
Quem foi Asaf, o autor do salmo 73?
O título atribui o salmo a Asaf (em muitas Bíblias, Asafe). Asaf era um levita, «Asaf filho de Baraquias, filho de Samaa» (1 Crônicas 6,39, o I Paralipômenos de Figueiredo), que Davi pôs à frente dos cantores do culto quando a Arca foi levada a Jerusalém: «Asaf o primeiro» na lista dos levitas que deviam louvar o Senhor (1 Crônicas 16,5). Séculos depois, o rei Ezequias ainda mandava os levitas cantar «pelas palavras de Davi, e do profeta Asaf» (2 Crônicas 29,30).
Doze salmos levam o seu nome: o 49 e os salmos 72 a 82 da Vulgata (50 e 73 a 83 das Bíblias modernas). Este é o primeiro dos salmos de Asaf que abrem o terceiro livro do Saltério. Alguns podem vir da escola de cantores que levava o seu nome; a tradição os recebe todos como salmos de Asaf, inspirados pelo Espírito Santo.
O que significa o salmo 73? Explicação
O salmo conta uma crise da fé e a sua cura. É um dos testemunhos mais sinceros da Escritura sobre a tentação do justo diante do sucesso dos maus.
A tentação (v. 1-3)
Tudo começa por uma afirmação: «Quão bom é Deus para Israel! Para os que são retos de coração» (v. 1). Mas logo o salmista confessa que esteve a ponto de cair: «Os meus pés por pouco não vacilaram: Por pouco se não transtornaram os meus passos» (v. 2), «Porque tive zêlo sôbre os iníquos, vendo a paz dos pecadores» (v. 3).
O retrato dos ímpios (v. 4-12)
Segue uma descrição sem indulgência. Os ímpios parecem poupados da dor: «Não participam dos trabalhos dos homens, nem com os homens serão flagelados» (v. 5); a soberba os domina, «Puseram no céu a sua bôca» (v. 9), e dizem: «Acaso Deus sabe isto, e tem disto notícia o Altíssimo?» (v. 11). E, no entanto, prosperam: «os que abundam no século têm adquirido riquezas» (v. 12).
O desânimo (v. 13-16)
O justo faz então a conta que o leva à beira do abismo: «Logo em vão justifiquei o meu coração, e lavei entre os inocentes as minhas mãos» (v. 13). Contém-se para não escandalizar os filhos de Deus (v. 15), mas a pergunta o oprime: «Pensava para entender isto, trabalho é êste aos meus olhos» (v. 16).
O santuário (v. 17-20)
A virada está num versículo: «Até que eu entre no santuário de Deus: E aprenda qual será o fim dêles» (v. 17). Na oração, à luz de Deus, o olhar muda. Deus os derruba «quando se elevavam» (v. 18), e a sua glória se desfaz «Como sonho dos que despertam» (v. 20).
Só Deus (v. 21-28)
O salmista reconhece a sua insensatez: «Como jumento me tenho feito diante de ti: E eu estarei sempre contigo» (v. 23). Deus não o deixou: «Tomaste-me pela minha mão direita: E me conduziste segundo a tua vontade, e com glória me acolheste» (v. 24). A conclusão é uma das orações mais altas do Antigo Testamento:
«Pois que tenho eu no céu? E fora de ti, que desejei eu sôbre a terra?» (v. 25)
«Desfaleceu a minha carne, e o meu coração: Deus do meu coração, e minha porção, Deus para sempre» (v. 26).
«Mas para mim me é bom unir-me a Deus: E pôr no Senhor Deus a minha esperança» (v. 28).
Salmo 73, 26 e 28: Deus, a minha porção
O versículo 26 diz o que permanece quando tudo desfalece: a carne e o coração se consomem, mas Deus continua sendo «minha porção». É a palavra dos levitas, que não tinham terra em Israel porque o Senhor era a sua parte: «Eu é que sou a tua parte e a tua herança no meio dos filhos de Israel» (Números 18,20). Asaf, levita, a toma para si: um versículo de confiança para a doença, a velhice e a morte.
O versículo 28, em latim Mihi autem adhærere Deo bonum est, é a resposta à inveja do versículo 3. O justo que olhava a paz dos pecadores descobre que o único bem verdadeiro é estar unido a Deus, e faz disso a matéria do seu louvor, «Para anunciar todos os teus louvores nas portas da filha de Sião». Muitos o repetiram como oração depois da Comunhão ou diante do sacrário, na adoração ao Santíssimo.
A leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, lê o salmo como a história de uma alma que servia a Deus pelos bens da terra, e que a prosperidade dos ímpios escandalizou porque esperava de Deus outra coisa que não Deus. Entrando no santuário, ela aprende a amá-lo gratuitamente; o versículo 25 é a resposta: nem no céu nem na terra a alma quer outra coisa senão o próprio Deus. Agostinho se detém também no «jumento» do versículo 23: humilde e lento, carrega o peso sem entender, e no entanto permanece sempre junto do seu dono.
A mesma pergunta atravessa a Escritura. Jeremias a faz a Deus: «Por que motivo é prosperado o caminho dos ímpios?» (Jeremias 12,1), e Jó faz dela o tema do seu livro. O Senhor responde com a parábola do rico e de Lázaro: «Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em tua vida» (Lucas 16,25). O «fim» que o salmista compreende no santuário é o juízo e a vida eterna. O salmo 37 (36 na Vulgata), Noli æmulari, começa com o mesmo conselho: «Não queiras imitar aos malignos».
O salmo 72 na liturgia de 1962
Terça de quinta-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 72 forma sozinho a salmodia da Terça de quinta-feira, em três partes (v. 1-9, 10-17, 18-28), com a antífona Quam bonus Israel Deus, his, qui recto sunt corde. É a oração do meio da manhã, no coração do trabalho, quando o sucesso de uns e o cansaço de outros mais se fazem sentir. Você pode rezá-la no breviário.
A Quinta-feira Santa. No segundo noturno das Matinas de Trevas da Quinta-feira Santa, o salmo é cantado com a antífona Cogitaverunt impii, et locuti sunt nequitiam (v. 8): a Igreja ouve nele os desígnios dos inimigos de Cristo.
O Domingo de Ramos. No Missal de 1962, o Gradual do Domingo de Ramos é tirado deste salmo: Tenuisti manum dexteram meam: et in voluntate tua deduxisti me: et cum gloria assumpsisti me (v. 24), com os versículos 1-3 como verso. À entrada da Semana Santa, a Igreja põe nos lábios de Cristo a certeza de que o Pai o segura pela mão até a glória.
Nas festas dos santos. O versículo 28, Mihi autem adhærere Deo bonum est, é o Ofertório da Missa de São Roberto Belarmino (13 de maio), e o versículo 26, Defecit caro mea et cor meum, entra no Gradual de Santa Margarida Maria Alacoque (17 de outubro).
Como rezar o salmo 73
- Na inveja e no desânimo, quando quem engana parece vencer e a fidelidade parece inútil: o salmo dá palavras à tentação e a conduz à paz.
- Na dúvida sobre a Providência, com os versículos 16-17: levar a pergunta à oração, diante do sacrário.
- Na doença e no declínio, com o versículo 26.
- Depois da Comunhão, os versículos 25-28 são uma ação de graças perfeita.
Para que serve o salmo 73? Para curar o olhar do justo que se compara com os outros, como a Igreja o reza na Terça de quinta-feira. Não é uma fórmula de prosperidade nem de vingança: ele ensina justamente a não medir a vida pelos bens visíveis. Termine-o com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 73 também é chamado de salmo 72?
Porque a Vulgata, seguida pela liturgia, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, conta como um só salmo o 9 e o 10 do hebraico. O Quam bonus, salmo 73 das Bíblias modernas, leva nela o número 72; os números dos versículos continuam os mesmos.
Quem escreveu o salmo 73?
O título o atribui a Asaf, levita que Davi pôs à frente dos cantores do culto; a tradição o recebe como salmo de Asaf ou da sua escola de cantores.
O que significa o versículo 28 do salmo 73?
Figueiredo traduz: «Mas para mim me é bom unir-me a Deus: E pôr no Senhor Deus a minha esperança». Depois de invejar os ímpios, o justo descobre que o único bem é a união com Deus, e quer anunciar os seus louvores «nas portas da filha de Sião».
O que significa o versículo 26 do salmo 73?
Mesmo quando o corpo e as forças se consomem, Deus continua sendo a «porção» da alma para sempre. É um versículo de confiança para a doença e para a hora da morte.
Por que os ímpios prosperam, segundo o salmo 73?
O salmo não nega o fato, mas o olha a partir do fim: a felicidade deles passa como um sonho, enquanto o justo tem o próprio Deus por herança. A resposta se encontra «no santuário de Deus», isto é, na oração e na luz do juízo de Deus.
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