A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 75 (74 na Vulgata e na Ave-Maria): Confitebimur tibi, Deus juiz que humilha e exalta
O salmo 75 das Bíblias modernas, 74 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria, é o *Confitebimur tibi, Deus*: um louvor em que o próprio Deus toma a palavra para anunciar que julgará no tempo marcado, abatendo os soberbos e exaltando o justo. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, a imagem do cálice, o uso na liturgia de 1962 e a maneira de rezá-lo.
Procura o salmo 74 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 73.
1 In finem, ne corrumpas. Psalmus cantici Asaph.
1 Para o fim, não destruas, Salmo de Cântico de Asaf.
2 Confitebimur tibi, Deus, confitebimur, et invocabimus nomen tuum ; narrabimus mirabilia tua.
2 Nós te glorificaremos, ó Deus: Confessaremos, e invocaremos o teu Nome. Cantaremos as tuas maravilhas:
3 Cum accepero tempus, ego justitias judicabo.
3 Quando eu tomar o meu tempo, julgarei com justiça.
4 Liquefacta est terra et omnes qui habitant in ea : ego confirmavi columnas ejus.
4 Tem-se liqüidado a terra, e todos os que a habitam: Eu fortaleci as suas colunas.
5 Dixi iniquis : Nolite inique agere : et delinquentibus : Nolite exaltare cornu :
5 Disse aos malvados: Não cometais maldade: E aos que pecam: Não vos glorieis do poder.
6 nolite extollere in altum cornu vestrum ; nolite loqui adversus Deum iniquitatem.
6 Não queirais levantar ao alto vosso poder: Não queirais falar iniquamente contra Deus.
7 Quia neque ab oriente, neque ab occidente, neque a desertis montibus :
7 Porque nem do Oriente, nem do Ocidente, nem dos montes desertos:
8 quoniam Deus judex est. Hunc humiliat, et hunc exaltat :
8 Porque Deus é o Juiz. A êste humilha, e àquele exalta:
9 quia calix in manu Domini vini meri, plenus misto. Et inclinavit ex hoc in hoc ; verumtamen fæx ejus non est exinanita : bibent omnes peccatores terræ.
9 Porque na mão do Senhor está o cálice de vinho puro cheio duma mistura. E deitou dêste naquele: Certamente as suas fezes não se apuraram: Delas beberão todos os pecadores da terra.
10 Ego autem annuntiabo in sæculum ; cantabo Deo Jacob :
10 Mas eu anunciarei pelo século: Cantarei ao Deus de Jacó.
11 et omnia cornua peccatorum confringam, et exaltabuntur cornua justi.
11 E quebrarei tôdas as fôrças dos pecadores: E será exaltada a glória do justo.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 75 ou salmo 74?
As Bíblias traduzidas do hebraico numeram este salmo como 75; a Vulgata, o Breviário Romano e as Bíblias católicas de numeração antiga, como a de Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria, numeram-no 74, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto. A correspondência de todos os salmos está na página dos Salmos.
Quem procura o «salmo 75» pode, portanto, encontrar dois textos:
- salmo 75 hebraico = salmo 74 da Vulgata e da Ave-Maria: o Confitebimur tibi, nesta página;
- salmo 75 da Bíblia Ave-Maria = salmo 76 hebraico: o Notus in Judaea, «Conhecido é Deus na Judéia; em Israel grande é o seu nome» (salmo 75 na Vulgata), que vem logo depois na mesma Hora do Breviário.
E o salmo 74 das Bíblias modernas é o Ut quid, Deus, a lamentação sobre o santuário incendiado: «Por que razão, ó Deus, nos hás desamparado para sempre?» (salmo 73 na Vulgata).
Quanto aos versículos, aqui o título forma o versículo 1, como nas Bíblias que também o numeram; nas que não o numeram, tudo fica um número atrás.
O que significa o salmo 75? Explicação
O título (v. 1). Figueiredo traduz: «Para o fim, não destruas, Salmo de Cântico de Asaf». O latim diz ne corrumpas, "não destruas": a mesma indicação aparece nos títulos de três salmos de Davi, os salmos 56 a 58 da Vulgata, como o salmo 57 (56 na Vulgata), «Para o fim, não destruas, Davi pôs esta inscrição por título». Muitos veem aí o nome de uma melodia conhecida, na qual o salmo devia ser cantado; o sentido exato é incerto.
O louvor (v. 2). O povo começa: «Nós te glorificaremos, ó Deus: Confessaremos, e invocaremos o teu Nome. Cantaremos as tuas maravilhas» (v. 2). Em latim, Confitebimur tibi, Deus: o verbo da confissão e do louvor ao mesmo tempo.
Deus fala (v. 3-6). De repente, é Deus quem toma a palavra: «Quando eu tomar o meu tempo, julgarei com justiça» (v. 3). O juízo é adiado, não esquecido. Mesmo quando a terra parece dissolver-se, é ele quem a sustenta: «Tem-se liqüidado a terra, e todos os que a habitam: Eu fortaleci as suas colunas» (v. 4). Depois, a advertência aos soberbos: «Disse aos malvados: Não cometais maldade: E aos que pecam: Não vos glorieis do poder» (v. 5); «Não queirais levantar ao alto vosso poder: Não queirais falar iniquamente contra Deus» (v. 6). Onde Figueiredo diz «poder», o latim diz cornu, o chifre, que na Bíblia é a imagem da força e do orgulho.
Só Deus é juiz (v. 7-8). A salvação não virá «nem do Oriente, nem do Ocidente, nem dos montes desertos» (v. 7), «Porque Deus é o Juiz. A êste humilha, e àquele exalta» (v. 8). É a mesma inversão que canta Ana, mãe de Samuel: «O Senhor é o que empobrece e enriquece: êle abate e eleva» (I Livro dos Reis, 1 Samuel 2,7), e que a Virgem retomará no Magnificat: «Depôs do Trono os poderosos, e elevou os humildes» (Lucas 1,52).
O cálice (v. 9). Vem a imagem mais forte: «Porque na mão do Senhor está o cálice de vinho puro cheio duma mistura. E deitou dêste naquele […] beberão todos os pecadores da terra» (v. 9). Deus derrama de um lado e de outro, mas o fundo do cálice, a borra (faex no latim), não se esgota: é ela que os pecadores beberão. O Apocalipse retoma a imagem para o juízo final, falando do «vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira» (Apocalipse 14,10).
A conclusão (v. 10-11). O salmista promete cantar: «Mas eu anunciarei pelo século: Cantarei ao Deus de Jacó» (v. 10), e Deus conclui: «E quebrarei tôdas as fôrças dos pecadores: E será exaltada a glória do justo» (v. 11). Em latim: et omnia cornua peccatorum confringam, et exaltabuntur cornua justi.
A leitura cristã: o cálice e o juízo
Os Padres leem este salmo à luz do juízo de Cristo, a quem o Pai entregou todo o julgamento. O cálice recebeu um sentido ainda mais profundo. No Getsêmani, Cristo reza: «Pai meu, se é possível, passe de mim êste cálice: Todavia não se faça nisto a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39). Aquele que era sem pecado bebeu o cálice destinado aos pecadores, para que estes recebessem o cálice da salvação.
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, vê no cálice derramado "de um lado para o outro" a passagem da herança de Israel para as nações, enquanto a borra fica para quem recusa a graça.
O salmo aproxima-se do salmo 82 (81 na Vulgata), Deus stetit, em que «Deus assistiu sempre no conselho dos deuses: No meio dêles julga os mesmos deuses», e do salmo 113 (112 na Vulgata), Laudate, pueri, que levanta o pobre do pó: «Êle levanta da terra ao desvalido, e tira da abjeção ao pobre».
Quem foi Asaf?
Asaf era um levita, chefe dos cantores no tempo de Davi. O livro dos Paralipômenos conta que, quando a arca foi levada para Jerusalém, «Naquele dia fêz Davi a Asaf primeiro cantor, para cantar os louvores ao Senhor com seus irmãos» (I Paralipômenos, 1 Crônicas 16,7). Os seus descendentes, os filhos de Asaf (1 Crônicas 25,1), continuaram esse ministério no Templo durante gerações. Mais tarde, o rei Ezequias mandou aos levitas «que cantassem os louvores a Deus pelas palavras de Davi, e do profeta Asaf» (II Paralipômenos, 2 Crônicas 29,30): a Escritura lhe dá, pois, o título de profeta.
Doze salmos levam o seu nome no Saltério: o 49 e os salmos 72 a 82 da Vulgata (50 e 73 a 83 nas Bíblias modernas). Eles têm um tom próprio: o juízo de Deus, a história de Israel relida diante de Deus, a prosperidade dos ímpios que escandaliza o justo. O salmo 75 é um dos mais breves e dos mais diretos: em poucas linhas, Deus mesmo toma a palavra e se declara juiz. Se foi composto pelo próprio Asaf ou por um dos cantores da sua família, não se pode dizer com certeza; a tradição recebe o salmo com esse nome, sabendo que o autor principal é o Espírito Santo.
O salmo 75 na liturgia de 1962
Noa de quinta-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 74 abre a Noa de quinta-feira, a Hora do meio da tarde, seguido das duas partes do salmo 75, sob a antífona tirada dos seus versículos 2 e 3: Invocabimus nomen tuum, Domine: narrabimus mirabilia tua. O Ofício do dia está no breviário.
Quinta-feira Santa. Nas Matinas das Trevas da Quinta-feira Santa, o salmo abre o terceiro noturno sob a antífona tirada dos versículos 5 e 6: Dixi iniquis: Nolite loqui adversus Deum iniquitatem. Na noite em que o Senhor aceita o cálice, a Igreja canta o salmo do cálice.
Os Apóstolos. No Comum dos Apóstolos, o salmo abre o terceiro noturno das Matinas com a antífona do último versículo: Exaltabuntur cornua justi, alleluja. A Igreja aplica assim aos Apóstolos a promessa feita aos justos, cuja glória será exaltada.
Como rezar o salmo 75
Reza-se diante da injustiça que parece triunfar, para lembrar que Deus marcou a sua hora; na tentação do orgulho, com os versículos 5 e 6; meditando o juízo final, com o cálice do versículo 9; e na Quinta-feira Santa, com Cristo que aceita o cálice. Termina-se com o Gloria Patri.
O salmo não é uma fórmula para "derrubar" inimigos nem para obter vitórias: tratá-lo assim seria superstição, que o primeiro mandamento proíbe (Catecismo, n. 2111). Ele ensina a deixar o juízo a Deus e a temer, antes de tudo, o próprio orgulho.
Perguntas Frequentes
O que significa o salmo 75?
É um louvor em que o próprio Deus anuncia que julgará no tempo que marcou. Abate os soberbos, exalta os humildes e dá a beber aos pecadores o cálice da sua ira.
O que dizem os versículos 6 e 7 do salmo 75?
O versículo 6 proíbe o orgulho: «Não queirais levantar ao alto vosso poder: Não queirais falar iniquamente contra Deus». O versículo 7 diz que a salvação não vem nem do oriente, nem do ocidente, nem dos montes do deserto: vem de Deus só, que é juiz (v. 8).
O que significa o versículo 9 do salmo 75?
Descreve o cálice de vinho que o Senhor tem na mão e cuja borra todos os pecadores da terra beberão: a imagem do juízo de Deus sobre o mal. Cristo, no Getsêmani, aceitou bebê-lo em nosso lugar.
Quem escreveu o salmo 75?
O título o atribui a Asaf, levita que Davi fez primeiro cantor (1 Crônicas 16,7) e chefe de uma família de cantores do Templo. É um dos doze salmos de Asaf do Saltério (49 e 72 a 82 na Vulgata). Como toda a Escritura, tem por autor principal o Espírito Santo.
O salmo 75 é o mesmo que o salmo 74?
Sim, se se segue a Vulgata e a Bíblia Ave-Maria: o salmo 74 dos livros litúrgicos é o salmo 75 das Bíblias modernas. O salmo 74 das Bíblias modernas é o Ut quid, Deus, salmo 73 da Vulgata.
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