A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 11 (10 na Vulgata e na Ave-Maria): In Domino confido, a confiança do justo
O salmo 11 das Bíblias modernas, 10 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria, é o *In Domino confido*: «No Senhor confio», a resposta do justo a quem lhe aconselha fugir quando tudo parece desabar. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, os versículos mais procurados, a leitura de Santo Agostinho, o uso na liturgia de 1962 e a maneira de rezá-lo.
Procura o salmo 10 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 9.
1 In finem. Psalmus David.
1 Para o fim, Salmo de Davi.
2 In Domino confido ; quomodo dicitis animæ meæ : Transmigra in montem sicut passer ?
2 No Senhor confio: Por que dizeis à minha alma: Foge para o monte como pássaro?
3 Quoniam ecce peccatores intenderunt arcum ; paraverunt sagittas suas in pharetra, ut sagittent in obscuro rectos corde :
3 Porque eis-aí os pecadores estenderam o seu arco, prepararam as suas setas na aljava, para as dispararem na obscuridade contra os que são de coração reto.
4 quoniam quæ perfecisti destruxerunt ; justus autem, quid fecit ?
4 Porque destruíram o que tu tinhas acabado: E que fêz o justo?
5 Dominus in templo sancto suo ; Dominus in cælo sedes ejus. Oculi ejus in pauperem respiciunt ; palpebræ ejus interrogant filios hominum.
5 O Senhor habita no seu santo templo, o trono do Senhor é no Céu. Os seus olhos olham para o pobre: As suas pálpebras fazem perguntas aos filhos dos homens.
6 Dominus interrogat justum et impium ; qui autem diligit iniquitatem, odit animam suam.
6 O Senhor faz perguntas ao justo e ao ímpio: Aquêle porém que ama a iniqüidade, aborrece a sua alma.
7 Pluet super peccatores laqueos ; ignis et sulphur, et spiritus procellarum, pars calicis eorum.
7 Fará chover laços sôbre os pecadores: O fogo, e o enxôfre, e as tempestades são a parte que lhes toca.
8 Quoniam justus Dominus, et justitias dilexit : æquitatem vidit vultus ejus.
8 Porque o Senhor é justo, e êle amou a justiça: O seu rosto olha para a eqüidade.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 11 ou salmo 10?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico chamam-no salmo 11; a Vulgata, a liturgia latina e as Bíblias católicas de numeração antiga, como a de Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria, que juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico, chamam-no salmo 10. Em latim ele começa com In Domino confido. A tabela completa está na página dos Salmos.
Quem procura o «salmo 10» pode, portanto, querer dois textos diferentes:
- salmo 11 hebraico = salmo 10 da Vulgata e da Ave-Maria: In Domino confido, nesta página;
- salmo 10 hebraico: é a segunda metade do salmo 9 da Vulgata, que começa assim: «Porque te apartaste, tu, Senhor, para longe, desamparas-nos nas necessidades, na tribulação?».
E o salmo 11 da Bíblia Ave-Maria é outro, o Salvum me fac: «Salva-me, Senhor, porque faltou homem santo» (salmo 12 hebraico, 11 na Vulgata).
Os versículos também mudam. Figueiredo conta o título sozinho como versículo 1, «Para o fim, Salmo de Davi»; as Bíblias que não numeram o título ficam um número atrás. O versículo 3 delas, o dos fundamentos destruídos, é aqui o versículo 4, e o versículo 6, o do fogo e do enxofre, é o versículo 7.
O que significa o salmo 11? Explicação
O salmo é curto e todo voltado para um só ato: a confiança. Algumas vozes empurram o justo para a fuga; ele recusa, porque o seu refúgio não é um monte, mas Deus.
Versículos 2-4: «Foge para o monte como pássaro»
A primeira palavra é uma profissão de fé: «No Senhor confio: Por que dizeis à minha alma: Foge para o monte como pássaro?» (v. 2). Quem fala assim não é necessariamente um inimigo: talvez sejam amigos prudentes, que veem o perigo crescer. Mas o conselho deles leva a buscar a segurança fora de Deus. O pássaro que voa assustado é a imagem da alma com medo. Nosso Senhor retomará o passarinho para dizer o contrário: «Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse: E um dêles não cairá sôbre a terra sem vosso Pai?» (Mateus 10,29).
O perigo é real: «Porque eis-aí os pecadores estenderam o seu arco, prepararam as suas setas na aljava, para as dispararem na obscuridade contra os que são de coração reto» (v. 3). Atira-se na sombra: são as armas da calúnia e da traição. Vem depois o versículo mais discutido: «Porque destruíram o que tu tinhas acabado: E que fêz o justo?» (v. 4). O hebraico, seguido pelas Bíblias modernas, diz: quando os fundamentos são abalados, que pode fazer o justo? A Vulgata entende a obra de Deus destruída pelos maus e a inocência do justo, que não teve parte nisso. Nas duas leituras a ordem parece desmoronar, e o justo parece desarmado.
Versículos 5-6: o Senhor no seu templo
A resposta não vem da terra: «O Senhor habita no seu santo templo, o trono do Senhor é no Céu. Os seus olhos olham para o pobre: As suas pálpebras fazem perguntas aos filhos dos homens» (v. 5). Quando tudo vacila aqui embaixo, o trono de Deus não vacila. E Deus não é um espectador distante: os seus olhos olham para o pobre, as suas pálpebras examinam, como quando se apertam os olhos para ver melhor.
«O Senhor faz perguntas ao justo e ao ímpio: Aquêle porém que ama a iniqüidade, aborrece a sua alma» (v. 6). O justo não é poupado da prova: Deus o examina para torná-lo firme. E a segunda metade do versículo é uma das sentenças mais profundas do Saltério: amar o mal é odiar a si mesmo. O pecador pensa servir-se; na verdade, destrói-se. A Sabedoria diz o mesmo nos Provérbios: «Aquêle porém que pecar contra mim fará mal à sua alma» (Provérbios 8,36).
Versículos 7-8: o fogo e o enxofre, e o rosto de Deus
«Fará chover laços sôbre os pecadores: O fogo, e o enxôfre, e as tempestades são a parte que lhes toca» (v. 7). É o versículo 6 das Bíblias modernas. A imagem é a de Sodoma: «Fêz o Senhor pois, cair sôbre Sodoma, e Gomorra uma chuva de enxôfre e de fogo» (Gênesis 19,24). O latim fala da pars calicis eorum, a porção do seu cálice: na Escritura, o cálice é a sorte que Deus dá a beber a cada um, e o mau bebe o que preparou.
O último versículo é luminoso: «Porque o Senhor é justo, e êle amou a justiça: O seu rosto olha para a eqüidade» (v. 8). O hebraico diz que os homens retos contemplarão o seu rosto. As duas leituras se encontram: Deus olha com amor a retidão, e a recompensa do justo é ver Deus. O medo do começo se desfaz na visão.
Quem aconselha a fuga: o salmo e o Evangelho
A cena do salmo se repete na vida de Davi, a quem o título o atribui. A tradição o liga às perseguições de Saul ou à revolta de Absalão, quando os amigos lhe aconselhavam pôr-se a salvo. Davi fugiu mais de uma vez, e a prudência não é culpa; mas o salmo distingue a fuga que obedece a Deus da que o abandona.
Um episódio do Evangelho ilumina estas palavras. Alguns fariseus vão a Jesus e lhe dizem: «Sai, e vai-te daqui: Porque Herodes te quer matar» (Lucas 13,31). O Senhor não foge: continua a sua obra e segue o caminho para Jerusalém, onde sabe que a Cruz o espera. O seu refúgio não é um monte distante, mas a vontade do Pai.
A leitura de Santo Agostinho
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, ouve no conselho de fugir uma tentação sempre presente para o fiel: buscar apoio num homem ou num partido, em vez de em Cristo. Aplicava-o aos donatistas do seu tempo, que se apresentavam como o verdadeiro monte e convidavam os católicos a passar para o lado deles. A quem quer que prometa um refúgio fora de Deus, a alma responde com a primeira palavra do salmo. O verdadeiro monte é Cristo, e o socorro vem do Senhor, como diz o salmo 121 (120 na Vulgata): «O meu socorro vem do Senhor, que fêz o céu, e a terra».
O salmo pertence à família dos grandes salmos de confiança no perigo: o salmo 3, em que Davi, fugindo de Absalão, dorme em paz: «Eu dormi e estive sepultado no sono: E levantei-me, porque o Senhor me amparou»; o salmo 27 (26 na Vulgata): «O Senhor é a minha luz, e a minha salvação, a quem temerei?»; e o salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat, a oração de proteção por excelência. Os outros estão reunidos em salmos de proteção.
O salmo 11 na liturgia de 1962
Matinas de domingo. No Breviário Romano de 1962, o salmo 10 é cantado nas Matinas de domingo, no terceiro noturno, logo depois das duas últimas partes do salmo 9. A antífona retoma o último versículo: Justus Dominus et justitiam dilexit, «o Senhor é justo, e êle amou a justiça». Na noite que precede o dia da Ressurreição, a Igreja repete que o Senhor continua no seu trono quando os fundamentos parecem ruir. O Ofício do dia está no breviário.
Ascensão. Nas Matinas da Ascensão, o salmo é cantado no primeiro noturno com uma antífona tirada do versículo 5: Dominus in templo sancto suo, Dominus in caelo, alleluja. O Senhor que «habita no seu santo templo» e tem o trono no céu é Cristo que sobe aos céus.
O Comum dos mártires. O mesmo versículo final, inteiro, Justus Dominus, et justitiam dilexit: aequitatem vidit vultus ejus, é a antífona do salmo no terceiro noturno das Matinas do Comum de um mártir pontífice: o mártir é o justo que não fugiu e que agora vê o rosto de Deus.
No Missal. A Comunhão da quarta-feira da II semana da Quaresma canta o versículo 8: Justus Dominus, et justitiam dilexit: aequitatem vidit vultus ejus.
Como rezar o salmo 11
- Quando tudo parece desabar. Uma crise na família, no trabalho ou na Igreja: o versículo 5 lembra que o trono de Deus não vacila.
- Quando aconselham a fugir. O salmo ajuda a distinguir a prudência legítima do medo que abandona Deus.
- Contra a angústia. O versículo 2 repete-se como um ato de fé: In Domino confido, «No Senhor confio».
- No exame de consciência. «Aquêle porém que ama a iniqüidade, aborrece a sua alma» é uma luz para olhar os próprios pecados como uma ferida feita a si mesmo; veja o guia do exame de consciência.
Termina-se com o Gloria Patri. Como todo salmo, ele não age por si mesmo como uma fórmula de proteção: atribuir-lhe tal poder seria superstição, que o primeiro mandamento proíbe (Catecismo, n. 2111). A sua força é a da confiança que ele ensina.
Perguntas Frequentes
O que diz o salmo 11, versículo 6?
Nas Bíblias modernas, o versículo 6 diz que Deus faz chover sobre os maus fogo e enxofre. Em Figueiredo é o versículo 7: «Fará chover laços sôbre os pecadores: O fogo, e o enxôfre, e as tempestades são a parte que lhes toca». A imagem lembra o castigo de Sodoma: o mau bebe o cálice que preparou.
O que significa o versículo 3 do salmo 11?
O versículo 3 das Bíblias modernas, "quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?", corresponde ao versículo 4 de Figueiredo: «Porque destruíram o que tu tinhas acabado: E que fêz o justo?». Descreve um mundo onde a ordem parece destruída; a resposta vem logo depois: o Senhor está no seu templo.
O que quer dizer «Aquêle porém que ama a iniqüidade, aborrece a sua alma»?
É a segunda metade do versículo 6 de Figueiredo, versículo 5 nas Bíblias modernas. O pecador pensa buscar o próprio bem, mas, amando o mal, faz mal a si mesmo e perde a própria alma. O verdadeiro amor de si passa pelo amor da justiça.
Quem escreveu o salmo 11?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, Salmo de Davi». A tradição o liga às perseguições que ele sofreu, sob Saul ou durante a revolta de Absalão, quando os amigos lhe aconselhavam a fuga. Como toda a Escritura, tem por autor principal o Espírito Santo.
O salmo 10 das Bíblias modernas é este salmo?
Não. O salmo 10 hebraico é a segunda parte do salmo 9 da Vulgata, a que começa no versículo 22. O salmo 10 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, In Domino confido, é o 11 das Bíblias modernas.
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