A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 53 (52 na Vulgata e na Ave-Maria): Dixit insipiens, o néscio que diz que não há Deus
O salmo 53 das Bíblias traduzidas do hebraico é o salmo 52 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: *Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus*, «Disse o néscio no seu coração: Não há Deus». Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica as duas numerações, o sentido do salmo, o seu gêmeo, o salmo 14, a citação de São Paulo e o seu lugar na Prima de quarta-feira.
Procura o salmo 52 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 51.
1 In finem, pro Maëleth intelligentiæ David. Dixit insipiens in corde suo : Non est Deus.
1 Para o fim, sôbre Maelet, de inteligência de Davi. Disse o néscio no seu coração: Não há Deus.
2 Corrupti sunt, et abominabiles facti sunt in iniquitatibus ; non est qui faciat bonum.
2 Perverteram-se, e se têm feito abomináveis em iniqüidades: Não há quem faça bem.
3 Deus de cælo prospexit super filios hominum, ut videat si est intelligens, aut requirens Deum.
3 Deus desde o céu olhou sôbre os filhos dos homens: Para ver se há quem tenha inteligência, ou busque a Deus.
4 Omnes declinaverunt ; simul inutiles facti sunt : non est qui faciat bonum, non est usque ad unum.
4 Todos se desviaram, juntamente se fizeram inúteis: Não há quem faça bem, não há sequer um só.
5 Nonne scient omnes qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam ut cibum panis ?
5 Porventura não virão em conhecimento todos os que obram iniqüidade, os que devoram o meu povo como quem come pão?
6 Deum non invocaverunt ; illic trepidaverunt timore, ubi non erat timor. Quoniam Deus dissipavit ossa eorum qui hominibus placent : confusi sunt, quoniam Deus sprevit eos.
6 Não invocaram a Deus: Ali tremeram de mêdo, onde não havia que temer. Porque Deus dissipou os ossos daqueles que contentam aos homens: Foram confundidos, porque Deus os desprezou.
7 Quis dabit ex Sion salutare Israël ? cum converterit Deus captivitatem plebis suæ, exsultabit Jacob, et lætabitur Israël.
7 Quem dará de Sião a salvação a Israel? Quando Deus puser fim ao cativeiro do seu povo, regozijar-se-á Jacó, e alegrar-se-á Israel.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 53 ou salmo 52?
As Bíblias traduzidas do hebraico o numeram 53; a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia latina e pela Bíblia Ave-Maria, o numeram 52. A diferença vem de a Vulgata unir num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, o Dixit insipiens. A tabela completa está na página dos Salmos.
Quem procura “salmo 53” pode, portanto, encontrar dois salmos diferentes. Na numeração da Vulgata, dos livros litúrgicos e da Bíblia Ave-Maria, o salmo 53 é o Deus, in nomine tuo, «Salva-me, ó Deus, em teu Nome: E com o teu poder julga a minha causa», que nas Bíblias modernas é o 54: está na página do salmo 54 (53 na Vulgata). E o salmo 52 das Bíblias modernas é o Quid gloriaris, «Por que te glorias na malícia tu, que és poderoso em iniqüidade?», que no leitor está no número 51.
Aqui o título e a primeira frase formam juntos o versículo 1, e o salmo tem sete versículos. As Bíblias que não numeram o título (muitas Bíblias evangélicas) contam só seis: a partir do versículo 3 desta página, o número delas fica um abaixo do nosso.
O que significa o salmo 53? Explicação
O título o apresenta como um salmo «de inteligência de Davi» (v. 1), isto é, um salmo que instrui. A indicação «sôbre Maelet» é obscura: pensa-se numa melodia ou num instrumento, mas o sentido é incerto.
O néscio e a sua negação (v. 1-2)
«Disse o néscio no seu coração: Não há Deus» (v. 1). O néscio da Escritura não é um homem de pouca inteligência: é aquele que vive como se Deus não existisse. Não o diz necessariamente com a boca; diz «no seu coração», isto é, com as escolhas da sua vida. A consequência segue imediatamente: «Perverteram-se, e se têm feito abomináveis em iniqüidades: Não há quem faça bem» (v. 2). O esquecimento de Deus e a corrupção dos costumes andam juntos.
O olhar de Deus (v. 3-4)
O néscio pensa que ninguém o vê. O salmo responde mostrando Deus que olha: «Deus desde o céu olhou sôbre os filhos dos homens: Para ver se há quem tenha inteligência, ou busque a Deus» (v. 3). A constatação é severa: «Todos se desviaram, juntamente se fizeram inúteis: Não há quem faça bem, não há sequer um só» (v. 4).
O medo dos perseguidores (v. 5-6)
Os maus são os que «devoram o meu povo como quem come pão» (v. 5): oprimem os fracos com a mesma naturalidade com que se come. Mas a sua força é vazia: «Não invocaram a Deus: Ali tremeram de mêdo, onde não havia que temer» (v. 6). O mesmo versículo traz uma palavra que o salmo gêmeo não contém: «Deus dissipou os ossos daqueles que contentam aos homens». Onde o hebraico fala dos que sitiam o povo, a Vulgata, seguindo a Septuaginta, lê qui hominibus placent, os que agradam aos homens. O respeito humano, buscar a aprovação dos outros em vez da de Deus, torna-se assim outra forma do esquecimento de Deus. São Paulo diz o mesmo: «Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo» (Gálatas 1, 10).
A espera da salvação (v. 7)
O salmo termina com um desejo: «Quem dará de Sião a salvação a Israel? Quando Deus puser fim ao cativeiro do seu povo, regozijar-se-á Jacó, e alegrar-se-á Israel» (v. 7).
O gêmeo do salmo 14
Este salmo retoma quase palavra por palavra o salmo 14 das Bíblias modernas, 13 da Vulgata, que começa do mesmo modo: «O insensato disse no seu coração». O Saltério contém assim duas vezes o mesmo canto, com algumas variantes: o nosso diz «Deus» onde o outro diz «o Senhor», e o seu versículo 6 fala dos ossos dissipados dos que agradam aos homens.
São Paulo cita esses versículos para mostrar que judeus e pagãos estão todos sob o pecado e precisam da graça de Cristo: «Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis, não há quem faça bem, não há nem sequer um» (Romanos 3, 12). O salmo torna-se assim testemunha da doutrina do pecado original: sem Deus o homem não realiza o bem que salva.
A leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, sublinha que o néscio diz «no seu coração» o que nem sempre ousa dizer com a boca: pode-se confessar a Deus com os lábios e negá-lo com as obras. O ateísmo do salmo não é antes de tudo uma teoria, é um modo de viver. O desejo final, a salvação que vem de Sião, é lido pelos Padres como a espera do Redentor, que virá libertar o seu povo da escravidão mais grave, a do pecado.
O salmo 53 na liturgia de 1962
No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 52 da Vulgata é rezado na Prima de quarta-feira, como terceiro salmo, depois do salmo 25, Judica me, e do salmo 51, Quid gloriaris, que também denuncia o homem que confia na própria força em vez de confiar em Deus. A antífona dessa Hora é Misericordia tua, Domine, ante oculos meos: et complacui in veritate tua. O salmo que o segue no Saltério, o salmo 53, Deus, in nomine tuo, abre pouco depois a Terça do mesmo dia. O gêmeo, o salmo 13, é rezado nas Matinas de segunda-feira. Você pode rezar essa Hora no breviário; a página sobre a Liturgia das Horas explica a sua distribuição semanal.
A Prima é a Hora que consagra a Deus o trabalho do dia: dizer toda quarta-feira de manhã que o néscio vive como se Deus não o visse é um modo de começar o dia sob o seu olhar.
Para que serve o salmo 53? Como rezar
O salmo 53 não protege de mau-olhado nem afasta males por si: a Igreja não conhece um uso dos salmos como amuletos, e atribuir às palavras uma eficácia independente da fé é superstição (Catecismo, n. 2111; Catecismo Romano, sobre o primeiro mandamento). O próprio salmo ensina a não temer nada senão a Deus: os maus «tremeram de mêdo, onde não havia que temer». Reza-se:
- Como exame de consciência. O néscio não é só o ateu declarado: é também o cristão que age como se Deus não o visse. Pergunte-se em que áreas da sua vida Deus está como ausente; veja o exame de consciência.
- Contra o respeito humano. O versículo 6 adverte contra quem busca agradar mais aos homens do que a Deus: reza-se para ter a coragem da fé.
- Pela conversão dos incrédulos, quando a negação de Deus parece prevalecer em volta de você.
- Como espera da salvação. O versículo 7 se reza com o desejo do Advento: que de Sião venha a salvação.
Conclui-se com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 53 se chama também salmo 52?
Pelas duas numerações do Saltério. A Vulgata, a liturgia católica e a Bíblia Ave-Maria o contam como 52; as Bíblias traduzidas do hebraico, como 53. É o mesmo salmo, o Dixit insipiens.
O salmo 53 da Ave-Maria é este?
Não. Na Bíblia Ave-Maria o salmo 53 é o Deus, in nomine tuo, «Salva-me, ó Deus, em teu Nome», que as Bíblias modernas chamam 54 e que está na página do salmo 54 (53 na Vulgata).
O que significa o salmo 53?
Descreve o homem que exclui Deus da sua vida e a corrupção que daí resulta, depois o olhar de Deus que julga e a espera da salvação que vem de Sião. São Paulo o cita para mostrar que todos os homens precisam da graça de Cristo.
Qual a diferença entre o salmo 53 e o salmo 14?
São quase o mesmo texto. O salmo 53 chama Deus de Elohim, onde o 14 diz “o Senhor”, e no versículo 6 fala dos ossos dissipados dos que agradam aos homens. Os dois começam dizendo que o néscio negou Deus no seu coração.
Quem escreveu o salmo 53?
O título o atribui a Davi, «de inteligência de Davi», e a tradição acolhe essa atribuição. O autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo.
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