A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 26 (25 na Vulgata e na Ave-Maria): Judica me, Domine, o salmo do Lavabo
O salmo 26 das Bíblias traduzidas do hebraico é o salmo 25 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: *Judica me, Domine*, a oração do justo que ama «a formosura da tua casa» e cujos versículos 6-12, *Lavabo inter innocentes*, o sacerdote reza em cada Missa tradicional. Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia desfaz a confusão com o salmo 27, explica o salmo e o seu lugar no Missal e no Breviário de 1962.
Procura o salmo 25 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 24.
1 In finem. Psalmus David. Judica me, Domine, quoniam ego in innocentia mea ingressus sum, et in Domino sperans non infirmabor.
1 Para o fim, Salmo de Davi. Julga-me, Senhor, porque eu andei na minha inocência: e esperando no Senhor não serei enfraquecido.
2 Proba me, Domine, et tenta me ; ure renes meos et cor meum.
2 Prova-me, Senhor, e sonda-me: Abrasa os meus rins e meu coração.
3 Quoniam misericordia tua ante oculos meos est, et complacui in veritate tua.
3 Porque a tua misericórdia eu a tenho diante de meus olhos: E na tua verdade me tenho comprazido.
4 Non sedi cum concilio vanitatis, et cum iniqua gerentibus non introibo.
4 Não me sentei no congresso da vaidade: E não tratarei com os que obram a iniqüidade.
5 Odivi ecclesiam malignantium, et cum impiis non sedebo.
5 Eu aborreci a sociedade dos malignos: e não me assentarei com os ímpios.
6 Lavabo inter innocentes manus meas, et circumdabo altare tuum, Domine :
6 Mas lavarei as minhas mãos entre os inocentes: E estarei, Senhor, ao redor do teu altar:
7 ut audiam vocem laudis, et enarrem universa mirabilia tua.
7 Para ouvir a voz dos teus louvores, e narrar tôdas as tuas maravilhas.
8 Domine, dilexi decorem domus tuæ, et locum habitationis gloriæ tuæ.
8 Senhor, eu amei a formosura da tua casa, e o lugar onde habita a tua glória.
9 Ne perdas cum impiis, Deus, animam meam, et cum viris sanguinum vitam meam :
9 Não percas, ó Deus, com os ímpios a minha alma, nem com os homens sangüinários a minha vida:
10 in quorum manibus iniquitates sunt ; dextera eorum repleta est muneribus.
10 Em cujas mãos estão as iniqüidades: A destra dêles está cheia de subornos.
11 Ego autem in innocentia mea ingressus sum ; redime me, et miserere mei.
11 Porque eu andei na minha inocência: Resgata-me, e tem compaixão de mim.
12 Pes meus stetit in directo ; in ecclesiis benedicam te, Domine.
12 O meu pé estêve na retidão: nas igrejas te bendirei, ó Senhor.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 26 ou salmo 25? E o salmo 27?
Este salmo tem dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico o chamam de salmo 26; a Vulgata, a Septuaginta, Figueiredo, os livros litúrgicos da Igreja e a Bíblia Ave-Maria o contam como salmo 25, porque unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Daí em diante, a numeração latina fica um número atrás.
A consequência é um equívoco que explica as muitas buscas por “salmo 26 ave maria”. Na Bíblia Ave-Maria, nos missais antigos e nos comentários dos Padres, o «salmo 26» é o Dominus illuminatio mea, «O Senhor é a minha luz, e a minha salvação, a quem temerei?», que as Bíblias modernas chamam salmo 27. Se é esse que você procura, ele está na página do salmo 27 (26 na Vulgata). O salmo desta página é o Judica me, Domine: 26 no hebraico, 25 no latim. E o salmo que as Bíblias modernas chamam 25, Ad te, Domine, levavi animam meam, é na Vulgata o salmo 24, o do Introito do primeiro domingo do Advento.
Em resumo: com o número hebraico, salmo 26 = Judica me, Domine (esta página) e salmo 27 = Dominus illuminatio mea; com o número latino e da Ave-Maria, salmo 25 = Judica me, Domine e salmo 26 = Dominus illuminatio mea. Os versículos, aqui, têm o mesmo número nas duas tradições, porque o título e a primeira frase formam juntos o versículo 1.
O que significa o salmo 26? Explicação
Em Figueiredo o título, «Para o fim, Salmo de Davi», está unido ao primeiro versículo. O salmo abre com um pedido que surpreende: «Julga-me, Senhor, porque eu andei na minha inocência: e esperando no Senhor não serei enfraquecido» (v. 1). Em outros salmos o pecador suplica a Deus que não entre em juízo com ele; aqui a alma chama o exame divino.
Uma inocência que se oferece ao exame (v. 1-3)
Não é a presunção de quem se julga sem culpa, mas a retidão de quem escolheu o lado de Deus e aceita ser provado: «Prova-me, Senhor, e sonda-me: Abrasa os meus rins e meu coração» (v. 2). O latim diz ure renes meos et cor meum: os rins, na língua bíblica, são a sede dos desejos escondidos, como o coração o é dos pensamentos, e o fogo purifica os dois. A razão dessa segurança não está nele: «Porque a tua misericórdia eu a tenho diante de meus olhos: E na tua verdade me tenho comprazido» (v. 3).
A separação dos maus (v. 4-5)
O justo diz o que recusou: «Não me sentei no congresso da vaidade» (v. 4), «Eu aborreci a sociedade dos malignos: e não me assentarei com os ímpios» (v. 5). É o eco do salmo 1, que chama bem-aventurado o varão «que não se assentou na cadeira da pestilência».
O altar (v. 6-8)
O coração do salmo é um gesto litúrgico: «Mas lavarei as minhas mãos entre os inocentes: E estarei, Senhor, ao redor do teu altar» (v. 6), «Para ouvir a voz dos teus louvores, e narrar tôdas as tuas maravilhas» (v. 7). Lavar as mãos é o sinal da pureza exigida para aproximar-se de Deus, e a purificação conduz ao santuário. Vem então o grito que a tradição amou mais do que qualquer outro: «Senhor, eu amei a formosura da tua casa, e o lugar onde habita a tua glória» (v. 8). O mesmo amor arde no salmo 84 das Bíblias modernas (83 na Vulgata), Quam dilecta: «Quão amáveis são os teus tabernáculos, Senhor dos exércitos!».
A súplica final (v. 9-12)
A segurança não dispensa a oração: «Não percas, ó Deus, com os ímpios a minha alma, nem com os homens sangüinários a minha vida» (v. 9); «Resgata-me, e tem compaixão de mim» (v. 11). O salmo termina de pé, na assembleia: «O meu pé estêve na retidão: nas igrejas te bendirei, ó Senhor» (v. 12).
A leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, ouve neste salmo a voz de Cristo e do seu corpo, a Igreja. Só Cristo pode dizer em plena verdade «eu andei na minha inocência»; o cristão o repete depois dele, não por uma justiça própria, mas pela que recebeu no Batismo. Pedir a Deus que julgue a própria causa é pedir-lhe que a separe da causa dos ímpios, que não «perca» a alma com eles. Sob palavras de tribunal há uma oração de confiança.
O gesto das mãos lavadas recebe do Evangelho uma dupla luz. Há a ablução inútil de Pilatos, que «lavou as mãos à vista do povo, dizendo: Eu sou inocente do sangue dêste justo» (Mateus 27, 24): a água não purifica um coração que consente no crime. E há o lava-pés, em que Cristo ensina a Pedro que a purificação vem dele: «Aquêle que está lavado, não tem necessidade de lavar senão os pés, e no mais todo êle está limpo» (João 13, 10). São Tiago dá a síntese: «Lavai, pecadores, as mãos: E os que sois de ânimo dobrado, purificai os corações» (Tiago 4, 8).
O salmo 26 na liturgia de 1962
O Lavabo da Missa
No Ofertório da Missa tradicional, depois da oblação do pão e do vinho e, nas Missas solenes, da incensação do altar, o sacerdote lava as mãos ao lado do altar rezando os versículos 6-12 deste salmo: Lavabo inter innocentes manus meas: et circumdabo altare tuum, Domine. O rito tira o nome dessa primeira palavra. O sacerdote, que vai entrar no coração do Sacrifício, pede a pureza com a voz de Davi: o salmo é assim rezado, em latim, em cada Missa. Termina com o Gloria Patri, que se omite nas Missas pelos defuntos e nas do Tempo da Paixão. O nosso artigo sobre a Missa tridentina apresenta o seu desenvolvimento completo.
Não o confunda com o outro Judica me, o salmo 43 das Bíblias modernas (42 na Vulgata), Judica me, Deus, «Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa de uma gente não santa», que o sacerdote reza ao pé do altar no começo da Missa. Um abre a Missa, o outro acompanha o Ofertório, e os dois pedem a mesma pureza.
Outros próprios da Missa
O Missal de 1962 recorre ao salmo também na Quaresma. O Introito da segunda-feira da segunda semana da Quaresma é Redime me, Domine, et miserere mei (vv. 11-12), com o versículo Judica me, Domine, quoniam ego in innocentia mea ingressus sum (v. 1). E a antífona da Comunhão da quarta-feira da Semana da Paixão é o Lavabo inter innocentes manus meas (vv. 6-7): às portas da Semana Santa, o fiel que acaba de comungar faz suas as palavras que o sacerdote disse no Ofertório.
O Breviário
No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 25 abre a Prima de quarta-feira, no começo do dia de trabalho, com a antífona tirada do versículo 3: Misericordia tua, Domine, ante oculos meos: et complacui in veritate tua. Você pode rezá-lo na sua hora no breviário.
Para que serve o salmo 26? Como rezar
O salmo não é uma fórmula para obter um efeito, e nenhuma oração age sem a fé e a conversão de quem a diz: esperar das palavras uma eficácia automática é superstição (Catecismo, n. 2111). O salmo 26 serve para o que a Igreja faz com ele: pedir mãos e coração limpos para aproximar-se de Deus.
- Antes da Missa ou da Comunhão. É o uso mais natural. Rezá-lo ao entrar na igreja, ou preparando a Comunhão, prolonga o gesto do sacerdote no Lavabo.
- Como exame de consciência. Dizer a Deus «Prova-me, Senhor, e sonda-me» é oferecer-se à sua luz antes de se apresentar à confissão; veja o exame de consciência.
- Para amar a igreja. O versículo 8 é a oração de quem encontra a sua alegria na casa de Deus, na sua liturgia e no seu tabernáculo. Une-se ao salmo 24 das Bíblias modernas (23 na Vulgata), que pede, para subir ao monte do Senhor, «O inocente de mãos e limpo de coração».
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 26 se chama também salmo 25?
Porque a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 26 das Bíblias modernas é, portanto, o 25 da Vulgata, o Judica me, Domine.
O salmo 26 da Ave-Maria é “O Senhor é a minha luz”?
Sim. Na Bíblia Ave-Maria e nos livros que seguem a Vulgata, o salmo 26 é o Dominus illuminatio mea, que as Bíblias modernas chamam 27; ele está na página do salmo 27 (26 na Vulgata). O salmo 26 do hebraico, apresentado aqui, é o Judica me, Domine do Lavabo.
Qual a ligação entre o salmo 26 e o Lavabo da Missa?
No Ofertório da Missa tradicional, o sacerdote lava as mãos rezando os versículos 6-12 deste salmo, que começam com Lavabo inter innocentes manus meas, «lavarei as minhas mãos entre os inocentes». O rito tira o nome dessa primeira palavra, e o salmo é rezado assim em cada Missa segundo o Missal de 1962.
Quem escreveu o salmo 26?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, Salmo de Davi». A tradição ouve nele a oração do rei que amava a casa de Deus a ponto de querer construir-lhe um templo. Como toda a Escritura, é inspirado pelo Espírito Santo.
O que significa «Senhor, eu amei a formosura da tua casa»?
É o versículo 8, o mais amado do salmo. Exprime a alegria de quem encontra Deus no seu santuário e na sua liturgia. O sacerdote o diz em cada Missa no Lavabo, e o fiel pode fazê-lo seu ao entrar na igreja.
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