A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 54 (53 na Vulgata e na Ave-Maria): Deus, in nomine tuo, salva-me pelo teu nome
O salmo 54 das Bíblias modernas é o salmo 53 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Deus, in nomine tuo salvum me fac*, a oração de Davi traído pelos habitantes de Zif, que em poucos versículos passa do grito de angústia à certeza de que «Deus me favorece». Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, o seu lugar na Terça e na Semana Santa e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 53 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 52.
1 In finem, in carminibus. Intellectus David,
1 Para o fim, sôbre os cânticos de inteligência de Davi,
2 cum venissent Ziphæi, et dixissent ad Saul : Nonne David absconditus est apud nos ?
2 quando vieram os zifeus, e disseram a Saul: Pois que não está Davi escondido na nossa terra?
3 Deus, in nomine tuo salvum me fac, et in virtute tua judica me.
3 Salva-me, ó Deus, em teu Nome: E com o teu poder julga a minha causa.
4 Deus, exaudi orationem meam ; auribus percipe verba oris mei.
4 Escuta, ó Deus, a minha oração: Percebe nos teus ouvidos as palavras da minha bôca.
5 Quoniam alieni insurrexerunt adversum me, et fortes quæsierunt animam meam, et non proposuerunt Deum ante conspectum suum.
5 Porque os estranhos se têm levantado contra mim, e os fortes buscaram a minha alma: E não puseram a Deus diante de si.
6 Ecce enim Deus adjuvat me, et Dominus susceptor est animæ meæ.
6 Mas eis-aqui Deus me favorece: E o Senhor é o protetor da minha alma.
7 Averte mala inimicis meis ; et in veritate tua disperde illos.
7 Faze voltar os males sôbre os meus inimigos: E na tua verdade destrói-os.
8 Voluntarie sacrificabo tibi, et confitebor nomini tuo, Domine, quoniam bonum est.
8 Eu te oferecerei um sacrifício voluntário, e louvarei o teu nome, Senhor: Porque é bom.
9 Quoniam ex omni tribulatione eripuisti me, et super inimicos meos despexit oculus meus.
9 Porquanto de tôda a tribulação me tens livrado: E os meus olhos olharam com desprêzo sôbre os meus inimigos.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 54 ou salmo 53?
Este salmo tem dois números, conforme a Bíblia que você abre. As Bíblias traduzidas do hebraico o chamam de salmo 54; a Vulgata latina e a Setenta grega, das quais se servem o Breviário, o Missal e os Padres, o contam como salmo 53, e a Bíblia Ave-Maria segue essa contagem. A razão está no começo do Saltério: a Vulgata une num só os salmos 9 e 10 do hebraico e daí em diante fica um número atrás. É o mesmo texto, que em latim começa com Deus, in nomine tuo salvum me fac; a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo segue a Vulgata.
Quem procura “salmo 53” numa Bíblia moderna encontra outro texto, o Dixit insipiens, «Disse o néscio no seu coração: Não há Deus», que na Vulgata é o salmo 52. E o “salmo 54” da Ave-Maria é o seguinte, Exaudi, Deus, «Ouve, ó Deus! A minha oração», que nas Bíblias modernas é o salmo 55 (54 na Vulgata).
Quanto aos versículos: em Figueiredo, como na Vulgata, o título ocupa os versículos 1 e 2; a oração começa no versículo 3, e o versículo da confiança, «Mas eis-aqui Deus me favorece», é o versículo 6. Nas Bíblias que não numeram o título, ele é o versículo 4.
O que significa o salmo 54? Explicação
O título: a traição dos zifeus (v. 1-2)
O título liga o salmo ao momento em que os habitantes de Zif foram dizer a Saul: «Pois que não está Davi escondido na nossa terra?» (v. 2). A história está no I Livro dos Reis (1 Samuel), capítulo 23: «os de Zif vieram ter com Saul a Gabaa». A mesma denúncia volta no capítulo 26. Davi, perseguido por Saul, tinha-se refugiado no deserto de Zif, em Judá, junto de gente da sua própria tribo; e foram justamente eles que o entregaram. O salmo nasce dessa dupla angústia: a caçada do rei e a traição dos seus.
O grito (v. 3-5)
A oração começa sem preâmbulos: «Salva-me, ó Deus, em teu Nome: E com o teu poder julga a minha causa» (v. 3). O latim diz et in virtute tua judica me: Davi não pede apenas para escapar, pede para ser julgado, isto é, reconhecido inocente por Aquele que vê os corações. Entrega a sua causa a Deus em vez de defendê-la com a espada.
O versículo 4 insiste: «Escuta, ó Deus, a minha oração: Percebe nos teus ouvidos as palavras da minha bôca» (v. 4). Vem depois a razão da angústia: «Porque os estranhos se têm levantado contra mim, e os fortes buscaram a minha alma: E não puseram a Deus diante de si» (v. 5). Todo o mal do inimigo está aí: age como se Deus não visse. Os «estranhos» são, paradoxalmente, homens da sua tribo: quem trai se torna estrangeiro.
A virada (v. 6-7)
O salmo muda de repente: «Mas eis-aqui Deus me favorece: E o Senhor é o protetor da minha alma» (v. 6). Nada mudou do lado de fora: Saul continua lá, os zifeus falaram. Mas a fé vê o socorro antes que ele chegue. É o versículo que se guarda deste salmo. O latim diz Ecce enim Deus adjuvat me, et Dominus susceptor est animæ meæ: o Senhor é Aquele que toma sobre si a minha alma e a sustenta.
O versículo 7 pede: «Faze voltar os males sôbre os meus inimigos: E na tua verdade destrói-os» (v. 7). Não é a vingança de um homem, mas a entrega do juízo a Deus, «na tua verdade»: que o mal recaia sobre quem o tramou, não pela mão de Davi.
A ação de graças (v. 8-9)
O salmo termina como se a libertação já tivesse vindo: «Eu te oferecerei um sacrifício voluntário, e louvarei o teu nome, Senhor: Porque é bom» (v. 8). O Nome invocado no primeiro versículo é louvado no último. «Porquanto de tôda a tribulação me tens livrado» (v. 9): o passado exprime a certeza da fé.
O Nome que salva: a leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, ouve neste salmo a voz de Cristo e do seu Corpo. Seguindo a interpretação dos nomes hebraicos usada no seu tempo, explica que «zifeus» quer dizer florentes, os que florescem: são os que florescem neste mundo como a erva e perseguem os justos, que florescerão no outro. Os zifeus que entregam Davi figuram assim os que entregaram Cristo e, mais largamente, o mundo que persegue a Igreja.
O «nome» pelo qual Davi pede para ser salvo recebe no Evangelho todo o seu sentido. São Pedro declara diante do Sinédrio: «Porque do Céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos» (Atos 4). O cristão que diz Deus, in nomine tuo salvum me fac invoca o nome de Jesus.
Este salmo pertence a uma família de orações de Davi perseguido. Pode ser rezado com o salmo 3, Domine, quid multiplicati sunt, nascido da fuga diante de Absalão, com o salmo 27 (26 na Vulgata), Dominus illuminatio mea, e com o salmo 70 (69 na Vulgata), Deus, in adjutorium meum intende, cujo primeiro versículo abre todas as horas do Ofício.
O salmo 54 na liturgia de 1962
Na Terça de quarta-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 53 da Vulgata é rezado na Terça de quarta-feira, seguido do salmo 54 da Vulgata dividido em duas seções, com a antífona Deus adjuvat me: et Dominus susceptor est animæ meæ, do versículo 6. A Terça é a hora do meio da manhã, quando o trabalho está em pleno andamento: a Igreja põe ali a entrega da própria causa a Deus. Você pode seguir essa hora no breviário do dia.
Na Prima, no Breviário antigo. Antes da reforma do saltério feita por São Pio X em 1911, o Deus, in nomine tuo abria a hora de Prima todos os dias do ano, antes das seções do salmo 118. Durante séculos o clero romano começou assim o dia de trabalho: pedindo para ser salvo pelo Nome de Deus.
No Ofício de Trevas. A Semana Santa lhe dá um lugar mais grave. Nas Matinas da Sexta-feira Santa, o salmo fecha o segundo noturno, com a antífona Alieni insurrexerunt in me, et fortes quæsierunt animam meam, do versículo 5: os fortes que buscam a alma do justo são os que condenam Cristo. Nas Matinas do Sábado Santo, abre o terceiro noturno, com a antífona Deus adjuvat me, et Dominus susceptor est animæ meæ: Cristo no sepulcro se entrega ao Pai, que O ressuscitará.
Na Missa. No Missal de 1962, os versículos 6 e 7 formam o Introito do 9º domingo depois de Pentecostes, Ecce Deus adjuvat me, com o versículo 3 como versículo do salmo. Os versículos 3 e 4, por sua vez, formam o Introito da segunda-feira da quarta semana da Quaresma, Deus, in nomine tuo salvum me fac; e o Gradual da segunda-feira da Paixão canta Deus, exaudi orationem meam.
Como rezar o salmo 54
No perigo ou na traição. É o salmo de quem é denunciado, caluniado ou entregue pelos seus. Ensina a entregar a própria causa a Deus em vez de fazer justiça com as próprias mãos. Tem o seu lugar entre os salmos de proteção.
De manhã, antes do trabalho. Seguindo o exemplo da Terça, e da antiga Prima, pode ser dito no começo das ocupações do dia.
Numa só frase. Na urgência, basta o versículo 3: «Salva-me, ó Deus, em teu Nome». O versículo 6, «Mas eis-aqui Deus me favorece», guarda-se na memória para as horas de angústia.
Em ação de graças. Depois de uma libertação, os versículos 8 e 9 se tornam o obrigado: louvar o Nome que salvou.
A quem pergunta “salmo 54 para que serve”: ele não é um amuleto contra inimigos nem uma fórmula que age por ser repetida, o que seria superstição, contrária ao primeiro mandamento. É um ato de confiança, que a Igreja cantou toda semana e pôs nos lábios de Cristo na Paixão. Termina-se com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 54 é chamado de salmo 53?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia latina, pela Bíblia Ave-Maria e por Figueiredo, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 54 das Bíblias modernas, Deus, in nomine tuo, é portanto o salmo 53 da Vulgata. Nas Bíblias modernas o salmo 53 é o Dixit insipiens.
O que significa «Mas eis-aqui Deus me favorece»?
É o versículo 6, o coração do salmo. Davi ainda está em perigo, mas a fé já vê o socorro de Deus. O latim susceptor animæ meæ diz que o Senhor toma sobre si a vida do seu fiel e a sustenta.
Quem eram os zifeus?
Eram os habitantes de Zif, uma localidade no deserto de Judá. Davi, perseguido por Saul, tinha-se escondido entre eles; eles foram a Saul revelar o esconderijo. A história está no I Livro dos Reis (1 Samuel), capítulos 23 e 26.
Quem escreveu o salmo 54?
O título o atribui a Davi e o liga à traição dos zifeus. A tradição recebe essa atribuição; o autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo.
O salmo 54 é uma oração de proteção?
Sim: é a oração de quem está em perigo e se entrega ao nome de Deus em vez de confiar nas próprias forças. Não é uma fórmula mágica, mas um ato de fé.
Quando se reza o salmo 54?
No Breviário de 1962, toda quarta-feira na Terça, e nas Matinas da Sexta-feira e do Sábado Santo. Na oração pessoal, convém à manhã, às horas de perigo e a toda libertação recebida.
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