A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 14 (13 na Vulgata e na Ave-Maria): Dixit insipiens, o insensato que diz «Não há Deus»
O salmo 14 das Bíblias modernas, 13 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria, é o *Dixit insipiens*: «O insensato disse no seu coração: Não há Deus», o retrato do homem que vive como se Deus não visse, e a espera da salvação que vem de Sião. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, o longo versículo 3 citado por São Paulo, a relação com o salmo 53, o uso na liturgia de 1962 e a maneira de rezá-lo.
Procura o salmo 13 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 12.
1 In finem. Psalmus David. Dixit insipiens in corde suo : Non est Deus. Corrupti sunt, et abominabiles facti sunt in studiis suis ; non est qui faciat bonum, non est usque ad unum.
1 Para o fim, Salmo de Davi. O insensato disse no seu coração: Não há Deus. Corromperam-se, e se fizeram abomináveis nos seus desejos: Não há quem faça o bem, não há nem sequer um.
2 Dominus de cælo prospexit super filios hominum, ut videat si est intelligens, aut requirens Deum.
2 O Senhor olhou desde o céu para os filhos dos homens, para ver se há quem tenha inteligência, ou quem busque a Deus.
3 Omnes declinaverunt, simul inutiles facti sunt. Non est qui faciat bonum, non est usque ad unum. Sepulchrum patens est guttur eorum ; linguis suis dolose agebant. Venenum aspidum sub labiis eorum, quorum os maledictione et amaritudine plenum est ; veloces pedes eorum ad effundendum sanguinem. Contritio et infelicitas in viis eorum, et viam pacis non cognoverunt ; non est timor Dei ante oculos eorum.
3 Todos se desviaram, à uma se fizeram inúteis: Não há quem faça o bem, não há nem sequer um. A sua garganta é sepulcro aberto: Com as suas línguas urdiam enganos, veneno de áspides debaixo dos seus lábios. Cuja bôca está cheia de maldição e de amargura: Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Aflição e calamidade nos caminhos dêles, e não conheceram o caminho da paz: Não há temor de Deus diante de seus olhos.
4 Nonne cognoscent omnes qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam sicut escam panis ?
4 Acaso não terão conhecimento todos os que obram a iniqüidade, os que devoram o meu povo, como um pedaço de pão?
5 Dominum non invocaverunt ; illic trepidaverunt timore, ubi non erat timor.
5 Não invocaram o Senhor, ali tremeram de mêdo, onde não havia que temer.
6 Quoniam Dominus in generatione justa est : consilium inopis confudistis, quoniam Dominus spes ejus est.
6 Porque Deus está com a geração dos justos, confundistes o conselho do pobre: porque o Senhor é a sua esperança.
7 Quis dabit ex Sion salutare Israël ? Cum averterit Dominus captivitatem plebis suæ, exsultabit Jacob, et lætabitur Israël.
7 Quem dará de Sião a salvação de Israel? Quando o Senhor puser fim ao cativeiro do seu povo, exultará Jacó, e alegrar-se-á Israel.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 14 ou salmo 13?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico chamam-no salmo 14; a Vulgata latina, a versão grega dos Setenta, o Missal, o Breviário e as Bíblias católicas de numeração antiga, como a de Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria, contam-no como salmo 13, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Em latim ele começa com Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus. A tabela completa está na página dos Salmos.
Daí três confusões possíveis:
- quem procura o salmo 14 da Bíblia Ave-Maria, o que começa «Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Ou quem descansará no teu santo monte?», está procurando o salmo 15 hebraico, 14 na Vulgata, Domine, quis habitabit;
- o salmo 13 das Bíblias modernas é o Usquequo, Domine: «Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre?» (salmo 12 na Vulgata);
- o Saltério contém uma segunda versão quase idêntica deste canto, o salmo 53 das Bíblias modernas, 52 na Vulgata, que também começa: «Disse o néscio no seu coração: Não há Deus».
O que significa o salmo 14? Explicação
O título latino, In finem, Psalmus David, que Figueiredo traduz «Para o fim, Salmo de Davi», atribui o salmo a Davi; aqui ele está unido ao primeiro versículo. O salmo é curto e avança por quadros: a sentença do insensato, o olhar de Deus, o castigo, a espera da salvação.
O insensato e o seu coração (v. 1). Tudo começa com uma frase dita por dentro: «O insensato disse no seu coração: Não há Deus». O insensato da Escritura não é, antes de tudo, um filósofo que raciocina, mas o homem que vive como se Deus não visse nada. Ele o diz «no seu coração», onde se decide a conduta. E a consequência vem logo: «Corromperam-se, e se fizeram abomináveis nos seus desejos: Não há quem faça o bem, não há nem sequer um». Esquecer Deus é desfazer-se a si mesmo.
Deus que olha (v. 2-3). O insensato acha que Deus não vê; o salmo mostra Deus que olha: «O Senhor olhou desde o céu para os filhos dos homens, para ver se há quem tenha inteligência, ou quem busque a Deus» (v. 2). A constatação é severa: «Todos se desviaram, à uma se fizeram inúteis» (v. 3). Na Vulgata o versículo 3 continua com uma longa série de imagens: a garganta como sepulcro aberto, o «veneno de áspides debaixo dos seus lábios», os pés ligeiros para derramar sangue, e por fim a raiz de tudo: «Não há temor de Deus diante de seus olhos».
A opressão dos pequenos (v. 4-6). O ateísmo prático se traduz em injustiça: os que praticam a iniquidade são «os que devoram o meu povo, como um pedaço de pão» (v. 4). A segurança deles, porém, é frágil: «Não invocaram o Senhor, ali tremeram de mêdo, onde não havia que temer» (v. 5). Quem expulsou o temor de Deus cai no medo de tudo. E o salmista dá a razão: «Porque Deus está com a geração dos justos», e o pobre de quem os ímpios zombam tem uma defesa, «porque o Senhor é a sua esperança» (v. 6).
A espera de Sião (v. 7). O último versículo se abre para a esperança: «Quem dará de Sião a salvação de Israel? Quando o Senhor puser fim ao cativeiro do seu povo, exultará Jacó, e alegrar-se-á Israel». A tradição reconheceu aí a espera do Redentor, que vem de Sião para libertar o seu povo da escravidão mais profunda, a do pecado.
São Paulo e o longo versículo 3
São Paulo cita este salmo na Carta aos Romanos para mostrar que judeus e gentios estão todos debaixo do pecado: «Não há pois nenhum justo. Não há quem entenda, não há quem busque a Deus» (Romanos 3,10-11). A essas palavras o Apóstolo junta outros versículos dos salmos e de Isaías: a garganta como sepulcro aberto, que se lê no salmo 5, o veneno de áspides, os pés velozes para derramar sangue, até «Não há temor de Deus diante dos olhos dêles» (Romanos 3,18), que é o versículo 2 do salmo 36 das Bíblias modernas, 35 na Vulgata: «Não há temor de Deus ante seus olhos».
O texto grego e latino do salmo 13 contém justamente essa série de versículos, que o hebraico não tem: por isso o versículo 3 de Figueiredo é tão longo, enquanto nas Bíblias traduzidas do hebraico ele é curto. São Jerônimo já observava que essas linhas não se encontram no texto hebraico do salmo. A explicação mais comum é que a cadeia de citações composta pelo Apóstolo entrou muito cedo nos manuscritos gregos do Saltério; a Igreja latina a cantou nesse lugar durante séculos.
A lição é doutrinal. O salmo não ensina que o homem não pode fazer nada de bom, mas que ninguém pode salvar-se só com as próprias forças: «Porque todos pecaram, e necessitam da glória de Deus», escreve ainda São Paulo (Romanos 3,23). É um dos textos bíblicos do pecado original e da necessidade da graça, que Santo Agostinho meditou longamente contra quem pensava poder dispensá-la.
O salmo 14 e o salmo 53: por que duas vezes?
Os dois salmos são quase idênticos. O salmo 13 da Vulgata chama Deus de «Senhor»; o salmo 52 diz «Deus». O segundo não tem o longo acréscimo do versículo 3 e difere perto do fim, sobre a sorte dos ímpios. Os estudiosos pensam em duas coleções de salmos que conservaram o mesmo canto, cada uma com o seu uso do nome divino. Para o leitor que crê, a repetição tem um sentido simples: o Espírito Santo quis que essa verdade sobre o homem sem Deus fosse dita duas vezes no Saltério.
O salmo 14 na liturgia de 1962
Matinas de segunda-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 13 abre o primeiro noturno das Matinas de segunda-feira, com a antífona Dominus de caelo prospexit super filios hominum, tirada do versículo 2. Segue-o o salmo 14 da Vulgata, Domine, quis habitabit: ao retrato do homem sem Deus responde o do homem justo, que habitará no monte santo. O Ofício do dia pode ser rezado no breviário.
Na Missa. O Missal de 1962 tira do versículo 7 a Comunhão da segunda-feira da terceira semana da Quaresma: Quis dabit ex Sion salutare Israel? No tempo da penitência, a Igreja faz sua a espera do salmista: a salvação vem de Sião, e é recebida no altar.
Como rezar o salmo 14
- Como exame de consciência. O insensato não é só o outro: qualquer um pode viver um dia inteiro como se Deus não visse. O salmo ajuda a reconhecer onde se deixou de lado o temor de Deus; combina com o exame de consciência da noite.
- Por quem não crê. O versículo 2 mostra Deus que procura quem o procure: reza-se pelos que estão longe, sem desprezo, porque o salmo diz «não há nem sequer um».
- Pelos pobres e oprimidos. Os versículos 4-6 lembram que o esquecimento de Deus sempre recai sobre os pequenos, e que o Senhor é a esperança deles.
- Na espera do Salvador, com o versículo 7, sobretudo no Advento e na Quaresma.
Termina-se, como no Ofício, com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
O que significa "Disse o insensato no seu coração: Não há Deus"?
É uma recusa prática de Deus, mais que uma tese: o insensato vive como se Deus não visse nada. O salmo mostra que esse esquecimento traz consigo a corrupção dos costumes e a opressão dos fracos. A Bíblia chama de insensatez não a falta de inteligência, mas a falta de sabedoria, que começa pelo temor de Deus.
Por que São Paulo cita o salmo 14?
Na Carta aos Romanos (3,10-18), para mostrar que todos os homens, judeus e gentios, estão debaixo do pecado e precisam da graça de Cristo. O salmo 13 da Vulgata contém, aliás, toda a série de versículos que o Apóstolo reúne nesse trecho.
Qual é a diferença entre o salmo 14 e o salmo 53?
São duas versões quase idênticas do mesmo canto. O salmo 14 (13 na Vulgata) nomeia o Senhor, o salmo 53 (52 na Vulgata) nomeia Deus; o segundo não tem o longo acréscimo do versículo 3 e muda na conclusão.
O salmo 14 da Bíblia Ave-Maria é este?
Não. A Bíblia Ave-Maria segue a numeração da Vulgata: o seu salmo 14 é o Domine, quis habitabit, «Senhor, quem habitará no teu tabernáculo?», salmo 15 das Bíblias modernas. O salmo desta página é o 13 da Ave-Maria.
Quem escreveu o salmo 14?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, Salmo de Davi». É a atribuição acolhida pela tradição da Igreja. Como toda a Escritura, tem por autor principal o Espírito Santo.
Quando se reza o salmo 14 no Breviário?
No Breviário Romano de 1962, ele abre as Matinas de segunda-feira, no primeiro noturno. O Missal canta o seu versículo 7 na Comunhão da segunda-feira da terceira semana da Quaresma.
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