A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 13 (12 na Vulgata e na Ave-Maria): Usquequo, Domine, até quando, Senhor?
O salmo 13 das Bíblias de numeração hebraica é o salmo 12 da Vulgata e da Ave-Maria, o *Usquequo, Domine*: «Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre?». Em seis versículos passa do lamento de quem se sente esquecido por Deus à confiança e ao canto. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica o salmo, a leitura dos Padres, o seu lugar nas Completas de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 12 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 11.
1 In finem. Psalmus David. Usquequo, Domine, oblivisceris me in finem ? usquequo avertis faciem tuam a me ?
1 Para o fim, Salmo de Davi. Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre? Até quando apartarás de mim a tua face?
2 quamdiu ponam consilia in anima mea ; dolorem in corde meo per diem ?
2 Até quando encherei a minha alma de desígnios, cada dia com dor no meu coração?
3 usquequo exaltabitur inimicus meus super me ?
3 Até quando será o meu inimigo exaltado sôbre mim?
4 Respice, et exaudi me, Domine Deus meus. Illumina oculos meos, ne umquam obdormiam in morte ;
4 Olha para mim, e ouve-me, Senhor Deus meu. Alumia os meus olhos para que eu não durma jamais na morte:
5 nequando dicat inimicus meus : Prævalui adversus eum. Qui tribulant me exsultabunt si motus fuero ;
5 Para que nunca o meu inimigo diga: Eu prevaleci contra êle. Os que me atribulam, exultarão se eu fôr abalado:
6 ego autem in misericordia tua speravi. Exsultabit cor meum in salutari tuo. Cantabo Domino qui bona tribuit mihi ; et psallam nomini Domini altissimi.
6 Porém eu esperei na tua misericórdia. O meu coração exultará na salvação que me virá de ti: Cantarei ao Senhor que me deu bens: E entoarei salmos ao nome do Senhor altíssimo.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 13 ou salmo 12?
O número 13 é o da numeração hebraica, seguida pela maior parte das Bíblias modernas. A Vulgata latina e a Septuaginta unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico e contam, por isso, este salmo como salmo 12: com esse número o conhecem o Breviário, o Missal, os comentários dos Padres e a Bíblia Ave-Maria. O texto é o mesmo, reconhecível pelas primeiras palavras, Usquequo, Domine, oblivisceris me in finem?. A tabela das correspondências está na página dos Salmos.
Quem procura “salmo 13” numa Bíblia de numeração da Vulgata encontra outro texto: o salmo 13 da Vulgata e da Ave-Maria é o Dixit insipiens, «O insensato disse no seu coração. Não há Deus» (salmo 13 da Vulgata), que as Bíblias modernas chamam 14. E o salmo 12 das Bíblias de numeração hebraica é o Salvum me fac, Domine, salmo 11 da Vulgata, que na liturgia vem logo antes deste.
O que significa o salmo 13? Explicação
O salmo é curto e tem uma construção muito nítida em três tempos: o lamento (v. 1-3), a súplica (v. 4-5), a confiança (v. 6). O título, «Para o fim, Salmo de Davi», está no versículo 1, como na Vulgata.
Quatro vezes “até quando” (v. 1-3)
O salmista começa com uma pergunta repetida: «Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre? Até quando apartarás de mim a tua face?» (v. 1). A pergunta volta no versículo 2, sobre a tristeza que enche a alma «cada dia», e no versículo 3: «Até quando será o meu inimigo exaltado sôbre mim?» (v. 3). São quatro “até quando”. O orante não duvida de que Deus exista nem de que possa salvá-lo; sofre com a demora. O pior, para ele, não é o inimigo, mas o rosto de Deus que parece voltado para outro lado.
O salmo dá assim palavras a uma experiência que todo fiel conhece: a oração que parece não ser ouvida, a provação que se prolonga, o silêncio de Deus. A Escritura não manda calar essa queixa; põe-na na boca do justo e faz dela uma oração.
«Alumia os meus olhos» (v. 4-5)
A queixa se transforma em pedido: «Olha para mim, e ouve-me, Senhor Deus meu. Alumia os meus olhos para que eu não durma jamais na morte» (v. 4). Ao pé da letra, o homem esgotado pede que Deus lhe devolva a vida antes que os seus olhos se apaguem. E dá a razão: «Para que nunca o meu inimigo diga: Eu prevaleci contra êle» (v. 5). A derrota do justo seria a vitória aparente do mal; o salmista pede a Deus que não a permita, pela sua própria glória.
O canto final (v. 6)
Sem transição, o tom muda: «Porém eu esperei na tua misericórdia. O meu coração exultará na salvação que me virá de ti: Cantarei ao Senhor que me deu bens: E entoarei salmos ao nome do Senhor altíssimo» (v. 6). Nada mudou ainda por fora; mudou o olhar. O justo, que começava perguntando “até quando”, termina cantando os bens recebidos. A confiança vem antes da resposta.
O sono da morte: a leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, entende o quádruplo “até quando” como o gemido da alma que suporta a demora de Deus e deseja vê-lo. Detém-se sobretudo no versículo 4. Os olhos de que fala o salmo são os do coração; adormecer na morte é consentir no pecado e nele permanecer; o inimigo que diz «Eu prevaleci» é o demônio. A luz pedida é a da graça, que mantém a alma acordada.
Essa leitura liga o salmo ao combate espiritual. O cristão não pede só para escapar de um perigo exterior, mas para não adormecer na tibieza. São Paulo usa a mesma imagem: «Desperta tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te alumiará» (Efésios 5, 14).
O versículo 6 mostra o movimento de toda oração verdadeira: começa-se onde se está, com a própria queixa, e termina-se onde Deus quer levar, no louvor. A esperança não espera ver para cantar.
O salmo 12 na liturgia de 1962
Completas de terça-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 12 é rezado nas Completas de terça-feira, entre o salmo 11 e o salmo 15 da Vulgata, sob a antífona Tu, Domine, servabis nos: et custodies nos in æternum. O lugar é eloquente: à noite, quando o dia termina e as forças diminuem, a Igreja faz o fiel pedir: «Alumia os meus olhos para que eu não durma jamais na morte». O sono do corpo torna-se imagem do sono da alma, e a oração pede que ele nunca chegue. Você pode rezar as Completas no breviário.
No Missal. O salmo dá vários textos à Missa de 1962:
- o intróito da Missa do I domingo depois de Pentecostes, Domine, in tua misericordia speravi (v. 6), com o versículo 1, Usquequo, Domine, como verso do salmo; desde que a festa da Santíssima Trindade ocupa esse domingo, essa Missa é dita nos dias de semana que se seguem;
- a comunhão do II domingo depois de Pentecostes, Cantabo Domino, qui bona tribuit mihi: et psallam nomini Domini altissimi (v. 6);
- o ofertório do IV domingo depois de Pentecostes e do sábado da II semana da Quaresma, Illumina oculos meos, ne umquam obdormiam in morte (v. 4-5);
- o gradual da festa do Imaculado Coração de Maria (22 de agosto), Exsultabit cor meum in salutari tuo (v. 6).
Como rezar o salmo 13
Há quem procure o salmo 13 como oração para um pedido urgente, com a ideia de que repeti-lo traria a resposta mais depressa. Um salmo não é uma fórmula que age sozinha: atribuir-lhe tal efeito é superstição, que o Catecismo (n. 2111) e o Catecismo Romano condenam ao explicar o primeiro mandamento. O salmo 13 ensina, ao contrário, a rezar na demora, a confiar antes de ver.
- Na provação que se prolonga. Quando a oração parece não ter resposta, os versículos 1-3 dão permissão para a queixa, e o versículo 6 ensina a terminá-la na confiança.
- À noite. É a sua hora litúrgica. O versículo 4 pode ser a última oração antes de dormir, ao lado das orações da noite: pedir a luz da graça para não adormecer no pecado.
- No desânimo espiritual. Quem se sente frio na fé encontra aqui uma oração honesta: dizer a Deus que se sente longe dele, e pedir-lhe a luz.
- Em ação de graças. O versículo 6, «Cantarei ao Senhor que me deu bens», reza-se sozinho como jaculatória de agradecimento.
Conclui-se com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 13 também é chamado de salmo 12?
Porque a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O Usquequo, Domine, salmo 13 das Bíblias de numeração hebraica, é o salmo 12 da Vulgata.
Quem escreveu o salmo 13?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, Salmo de Davi». A tradição o recebe como oração do rei perseguido, inspirada pelo Espírito Santo.
O que significa “até quando, Senhor”?
É o grito da alma que se sente esquecida e não entende o silêncio de Deus. Repetido quatro vezes, exprime o cansaço da provação mais do que a revolta. Santo Agostinho ouve nele o gemido de quem deseja ver a Deus e suporta a sua demora.
O que quer dizer “para que eu não durma jamais na morte”?
Ao pé da letra, o salmista esgotado pede a Deus que lhe devolva a vida antes que os seus olhos se apaguem. Santo Agostinho o entende da morte da alma: adormecer na morte é consentir no pecado, e a luz pedida é a da graça. A Igreja fez desse versículo um ofertório da Missa.
Quando a Igreja reza o salmo 13?
No Breviário Romano de 1962, nas Completas de terça-feira, a oração da noite. O Missal usa os seus versículos no I, II e IV domingos depois de Pentecostes, num sábado da Quaresma e na festa do Imaculado Coração de Maria.
O salmo 13 é um salmo de lamentação?
Começa como lamentação, mas não termina nela. Em seis versículos vai da queixa à súplica e da súplica ao canto: «Cantarei ao Senhor que me deu bens». Por isso é um modelo da oração na provação.
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