A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 137 (136 na Vulgata e na Ave-Maria): Super flumina Babylonis, o canto do exílio
Super flumina Babylonis
O salmo 137 das Bíblias modernas é o salmo 136 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Super flumina Babylonis*, o pranto dos judeus deportados, sentados junto aos rios da Babilônia, que não querem cantar o cântico do Senhor em terra alheia e juram não esquecer Jerusalém. Aqui você encontra o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, o difícil versículo final segundo os Padres e o seu lugar na liturgia de 1962.
Procura o salmo 136 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 135.
1 Psalmus David, Jeremiæ. Super flumina Babylonis illic sedimus et flevimus, cum recordaremur Sion.
1 Salmo de Davi, para Jeremias. Junto dos rios de Babilônia, ali nos assentamos e pusemos a chorar: Lembrando-nos de Sião:
2 In salicibus in medio ejus suspendimus organa nostra :
2 Nos salgueiros que há no meio dela, penduramos nossas harpas.
3 quia illic interrogaverunt nos, qui captivos duxerunt nos, verba cantionum ; et qui abduxerunt nos : Hymnum cantate nobis de canticis Sion.
3 Porque ali nos pediram os que nos levaram cativos, palavras de canções: E os que por fôrça nos levaram, disseram: Cantai-nos um hino dos cânticos de Sião.
4 Quomodo cantabimus canticum Domini in terra aliena ?
4 Como cantaremos o cântico do Senhor em terra alheia?
5 Si oblitus fuero tui, Jerusalem, oblivioni detur dextera mea.
5 Se me esquecer de ti, Jerusalém, a esquecimento seja entregue a minha direita.
6 Adhæreat lingua mea faucibus meis, si non meminero tui ; si non proposuero Jerusalem in principio lætitiæ meæ.
6 Fique pegada a minha língua às minhas fauces, se eu me não lembrar de ti. Se não me propuser a Jerusalém, como principal objeto da minha alegria.
7 Memor esto, Domine, filiorum Edom, in die Jerusalem : qui dicunt : Exinanite, exinanite usque ad fundamentum in ea.
7 Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém: Os que dizem: Arruinai, arruinai nela até os fundamentos.
8 Filia Babylonis misera ! beatus qui retribuet tibi retributionem tuam quam retribuisti nobis.
8 Filha desastrada de Babilônia: Bem-aventurado o que te der o pago que tu deste a nós outros.
9 Beatus qui tenebit, et allidet parvulos tuos ad petram.
9 Bem-aventurado o que apanhar às mãos e fizer em pedaços numa pedra teus tenros filhos.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 137 ou salmo 136?
As Bíblias traduzidas do hebraico chamam este salmo de 137. A Vulgata, a Setenta, toda a liturgia tradicional da Igreja e a Bíblia Ave-Maria, que unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico, o contam como 136; a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo segue a Vulgata. O texto é o mesmo, reconhecível pelas primeiras palavras latinas: Super flumina Babylonis.
Cuidado com o engano contrário: o salmo 137 da Vulgata e da Ave-Maria é o salmo seguinte, a ação de graças Confitebor tibi, Domine, in toto corde meo, «Eu te glorificarei a ti, Senhor, de todo o meu coração», que nas Bíblias modernas é o salmo 138 (137 na Vulgata). Os versículos, em compensação, coincidem: «Se me esquecer de ti, Jerusalém» é o versículo 5 em toda Bíblia.
O que significa o salmo 137? Explicação
O salmo se data sozinho. Em 587 antes de Cristo, Nabucodonosor toma Jerusalém, incendeia o Templo e leva o povo para o exílio; o IV Livro dos Reis (2 Reis) conta que o seu general «queimou a casa do Senhor, e a casa do rei: E as casas de Jerusalém» (IV Reis 25). Os rios da Babilônia são o Eufrates, o Tigre e os seus canais.
O título e o autor
A Vulgata traz como título «Salmo de Davi, para Jeremias» (v. 1), que falta no hebraico. A tradição viu aqui uma palavra de Davi recebida em espírito de profecia e feita sua pelo profeta do exílio. É incerto quem o compôs; o conteúdo mostra uma testemunha da deportação, talvez já de volta à pátria, que se lembra. A questão geral está em quem escreveu os Salmos.
As harpas penduradas (v. 1-4)
Tudo começa com um quadro: «Junto dos rios de Babilônia, ali nos assentamos e pusemos a chorar: Lembrando-nos de Sião» (v. 1). Os exilados não quebraram os seus instrumentos: «Nos salgueiros que há no meio dela, penduramos nossas harpas» (v. 2), como se põe de lado o que já não serve. Os vencedores pedem, por zombaria, «Cantai-nos um hino dos cânticos de Sião» (v. 3), isto é, os cantos do Templo reduzidos a diversão de banquete. A resposta é uma recusa: «Como cantaremos o cântico do Senhor em terra alheia?» (v. 4). O canto de Sião não é espetáculo: é oração, e não se rebaixa diante de quem destruiu a casa de Deus.
O juramento de fidelidade (v. 5-6)
Vem então o juramento mais citado do salmo: «Se me esquecer de ti, Jerusalém, a esquecimento seja entregue a minha direita» (v. 5). A mão direita é a que toca a harpa, a língua é a que canta: o exilado prefere perder uma e outra a esquecer a Cidade santa. «Fique pegada a minha língua às minhas fauces, se eu me não lembrar de ti. Se não me propuser a Jerusalém, como principal objeto da minha alegria» (v. 6). Acima de toda consolação daqui de baixo está a fidelidade à casa de Deus.
O lamento contra Edom e a Babilônia (v. 7-9)
O salmo termina com palavras duras. Edom, povo irmão, descendente de Esaú, aplaudiu o saque da cidade gritando: «Arruinai, arruinai nela até os fundamentos» (v. 7). O profeta Abdias lhe censura justamente esse dia: «quando os estrangeiros levavam cativo o seu exército, e os estranhos entravam pelas suas portas, e deitavam sortes sôbre Jerusalém: Tu também eras como um dêles» (Abdias 1). A Babilônia é chamada «Filha desastrada de Babilônia» (v. 8), e o último versículo chega a proclamar: «Bem-aventurado o que apanhar às mãos e fizer em pedaços numa pedra teus tenros filhos» (v. 9).
O versículo 9: como a Igreja o lê
É o versículo mais duro do Saltério, e não deve ser adoçado nem pulado: deve ser compreendido.
O sentido literal. O salmista não prescreve nada ao fiel. Retoma a lei da retribuição, «Bem-aventurado o que te der o pago que tu deste a nós outros» (v. 8), e entrega à justiça de Deus um império que tinha tratado assim os filhos de Judá. É o grito de um povo que viu massacrar as suas crianças, e a Escritura não esconde esse grito: leva-o diante de Deus, o único que julga. O mesmo juízo sobre a Babilônia é anunciado pelos profetas, de Isaías a Jeremias.
O sentido espiritual. Os Padres, e antes de todos Santo Agostinho nas Enarrationes in Psalmos, leram aqui a lei do combate interior. Os «tenros filhos» da Babilônia são os maus desejos quando nascem: é preciso esmagá-los enquanto são pequenos, antes que o hábito lhes dê a força de um gigante, e quebrá-los contra a pedra, que é Cristo, segundo a palavra do Apóstolo: «E esta pedra era Cristo» (I Coríntios 10).
São Bento fez dessa leitura uma regra de vida: no Prólogo da sua Regra, louva o monge que toma os maus pensamentos logo que nascem e os quebra contra Cristo, e no capítulo 4 repete que os maus pensamentos que vêm ao coração devem ser logo quebrados contra Cristo. O versículo mais violento do Saltério torna-se assim a escola da vigilância: não deixar crescer em si nada do que vem da Babilônia, mas levá-lo logo ao Senhor. A vida do patriarca dos monges está em quem foi São Bento.
Babilônia e Jerusalém: as duas cidades
Santo Agostinho fez deste salmo a carta das duas cidades que desenvolveria na Cidade de Deus. A Babilônia, que ele interpreta como “confusão”, é o amor de si levado até o desprezo de Deus; Jerusalém, “visão de paz”, é o amor de Deus levado até o esquecimento de si. Os rios da Babilônia figuram os bens deste mundo, que correm e passam: o cristão se senta à sua margem sem se deixar arrastar, e chora porque se lembra da pátria. São Paulo dá a essa leitura o seu fundamento: «Mas aquela Jerusalém, que é lá de cima, é livre, a qual é nossa mãe» (Gálatas 4). E a Epístola aos Hebreus faz dela a condição de todo batizado: «Porque não temos aqui cidade permanente, mas vamos buscando a futura» (Hebreus 13).
A própria Escritura retoma o nome de Babilônia para designar o poder do mundo levantado contra Deus. No Apocalipse, um anjo lança no mar uma grande pedra de moinho, dizendo: «Assim com êste ímpeto será precipitada aquela grande Cidade de Babilônia, de sorte que ela se não achará jamais» (Apocalipse 18). A cidade do exílio cai para que desça a nova Jerusalém.
Poucos salmos deixaram tanto rastro na música: Palestrina compôs sobre ele o moteto Super flumina Babylonis, e o coro dos escravos hebreus do Nabucco de Verdi se inspira nas harpas penduradas e na pátria perdida. O texto bíblico, porém, vai além da saudade de uma pátria terrena: é a fidelidade a Deus em terra estrangeira.
O salmo 136 na liturgia de 1962
Nas Vésperas de quinta-feira. No Breviário Romano reformado por São Pio X em 1911, em vigor em 1962, o salmo 136 da Vulgata é cantado nas Vésperas de quinta-feira, com a antífona Adhæreat lingua mea faucibus meis, si non meminero tui Jerusalem, tirada do versículo 6. Logo depois vem o Confitebor tibi, salmo 137 da Vulgata: depois do pranto do exílio, a ação de graças de quem Deus atendeu. Você pode rezar esse Ofício da tarde no breviário e conhecer a sua história na página sobre as Vésperas.
Na Missa. O primeiro versículo forma o Ofertório do 20º domingo depois de Pentecostes e da quinta-feira da semana da Paixão: Super flumina Babylonis illic sedimus et flevimus: dum recordaremur tui, Sion. No outono do ano litúrgico, quando ele se aproxima do fim, e às portas da Semana Santa, a Igreja se reconhece assim exilada, chorando ao lembrar a pátria.
Como rezar o salmo 137
- Na desolação. Quando a alegria se cala e as harpas estão penduradas, este salmo dá palavras às lágrimas sem deixá-las virar desespero: chora-se, mas «Lembrando-nos de Sião».
- Como ato de fidelidade. Repetir o versículo 5 de manhã é pôr Deus e a sua Igreja em primeiro lugar antes das ocupações do dia.
- Na tentação que nasce. Segundo a leitura de Santo Agostinho e de São Bento, o versículo final se reza no momento em que aparece um mau pensamento: quebra-se em Cristo antes que crie raízes.
- Na saudade do Céu. O salmo educa o desejo da verdadeira pátria, como o salmo 122 (121 na Vulgata), Lætatus sum, que canta a alegria de ir à casa do Senhor, e o salmo 126 (125 na Vulgata), In convertendo, a volta dos cativos.
Um salmo como este não é uma fórmula contra inimigos nem uma maldição a ser repetida: quem o usasse assim cairia na superstição, que o primeiro mandamento proíbe, e contrariaria o Evangelho, que manda amar os inimigos. A Igreja o reza como pranto, como juramento de fidelidade e como combate contra o mal dentro de nós. Termina-se, como no Ofício, com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
O que significa o salmo 137?
É o lamento dos judeus deportados para a Babilônia depois da ruína de Jerusalém, em 587 antes de Cristo. Sentados junto aos rios, recusam cantar os cantos do Templo para os vencedores e juram nunca esquecer a Cidade santa. Os Padres leem aqui o exílio de toda alma neste mundo, longe da Jerusalém celeste.
O que quer dizer o versículo 9, despedaçar as crianças na pedra?
Ao pé da letra, o salmista entrega à justiça de Deus um império que tinha massacrado as crianças de Judá; não prescreve nenhuma violência ao fiel. No sentido espiritual, Santo Agostinho vê aqui os maus desejos quando nascem, que devem ser quebrados contra a pedra, isto é, contra Cristo, antes que cresçam. É essa leitura que permite ao cristão rezá-lo.
Quem escreveu o salmo 137?
O hebraico não tem título. A Vulgata e a Setenta trazem «Salmo de Davi, para Jeremias»: a tradição refere o Saltério a Davi e liga este canto ao profeta Jeremias, testemunha da ruína de Jerusalém. O autor real é incerto; o texto é de uma testemunha do exílio.
Qual a diferença para o salmo 137 da Bíblia Ave-Maria?
O salmo 137 da Vulgata e da Ave-Maria é o Confitebor tibi, a ação de graças «À vista dos anjos», que nas Bíblias modernas é o salmo 138. O Super flumina Babylonis é o 136 da Vulgata e da Ave-Maria e o 137 das Bíblias modernas. No Breviário os dois são cantados um depois do outro nas Vésperas de quinta-feira.
Quando a Igreja canta o salmo 137?
No Breviário de 1962, toda quinta-feira nas Vésperas. O seu primeiro versículo é também o Ofertório do 20º domingo depois de Pentecostes e da quinta-feira da semana da Paixão.
Para que serve o salmo 137?
Para rezar no exílio e na desolação, para renovar a fidelidade a Deus acima de toda alegria terrena e, segundo os Padres, para combater os maus pensamentos desde o seu nascimento. Não é uma oração de vingança: o cristão entrega a Deus a justiça e reserva para si o perdão.
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