A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 144 (143 na Vulgata e na Ave-Maria): Benedictus Dominus, o canto de Davi contra Golias
O salmo 144 das Bíblias traduzidas do hebraico é o salmo 143 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: *Benedictus Dominus Deus meus*, «Bendito seja o Senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha», o canto de vitória que a Vulgata intitula «Contra Golias». Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia desfaz a confusão com o salmo 145, explica o salmo e o seu lugar nas Vésperas de sábado.
Procura o salmo 143 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 142.
1 Psalmus David. Adversus Goliath. Benedictus Dominus Deus meus, qui docet manus meas ad prælium, et digitos meos ad bellum.
1 Salmo de Davi. Contra Golias. Bendito seja o Senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha, e os meus dedos para a guerra.
2 Misericordia mea et refugium meum ; susceptor meus et liberator meus ; protector meus, et in ipso speravi, qui subdit populum meum sub me.
2 Êle para mim é misericórdia, e o meu refúgio: Amparador meu, libertador meu: Protetor meu, e nêle esperei: Êle o que submete o meu povo à minha autoridade.
3 Domine, quid est homo, quia innotuisti ei ? aut filius hominis, quia reputas eum ?
3 Senhor, que é o homem, pois tu a êle te manifestaste? ou o filho do homem para tu assim o estimares?
4 Homo vanitati similis factus est ; dies ejus sicut umbra prætereunt.
4 O homem se tem feito semelhante à vaidade: Os seus dias passam como sombra.
5 Domine, inclina cælos tuos, et descende ; tange montes, et fumigabunt.
5 Senhor, inclina os teus céus, e desce: Toca os montes, e fumegarão.
6 Fulgura coruscationem, et dissipabis eos ; emitte sagittas tuas, et conturbabis eos.
6 Vibra os teus coriscos, e dissipá-los-ás: Despede as tuas setas, e conturba-los-ás:
7 Emitte manum tuam de alto : eripe me, et libera me de aquis multis, de manu filiorum alienorum :
7 Envia a tua mão lá do alto, tira-me, e livra-me das muitas águas: Da mão dos filhos estranhos.
8 quorum os locutum est vanitatem, et dextera eorum dextera iniquitatis.
8 Cuja bôca falou vaidade, e a direita dêles é direita de iniqüidade.
9 Deus, canticum novum cantabo tibi ; in psalterio decachordo psallam tibi.
9 Ó Deus, eu te cantarei uma nova canção: Com o saltério de dez cordas te louvarei.
10 Qui das salutem regibus, qui redemisti David servum tuum de gladio maligno,
10 Tu que dás saúde aos reis: Que redimiste a Davi teu servo da espada maligna,
11 eripe me, et erue me de manu filiorum alienorum, quorum os locutum est vanitatem, et dextera eorum dextera iniquitatis.
11 livra-me, e tira-me da mão dos filhos estranhos, cuja bôca falou vaidade e a direita dêles é direita de iniqüidade:
12 Quorum filii sicut novellæ plantationes in juventute sua ; filiæ eorum compositæ, circumornatæ ut similitudo templi.
12 Cujos filhos são como plantas novas na sua mocidade. As suas filhas andam compostas: Adornadas tôdas como simulacro de Templo.
13 Promptuaria eorum plena, eructantia ex hoc in illud ; oves eorum fœtosæ, abundantes in egressibus suis ;
13 Atulhadas estão as suas despensas, arrevesando de umas para outras. As suas ovelhas são fecundas, abundantes nas suas saídas:
14 boves eorum crassæ. Non est ruina maceriæ, neque transitus, neque clamor in plateis eorum.
14 As suas vacas são gordas. Não há ruína de muro, nem passagem na sua cêrca: Nem estrondo nas suas praças.
15 Beatum dixerunt populum cui hæc sunt ; beatus populus cujus Dominus Deus ejus.
15 Bem-aventurado chamaram ao povo, que tem estas coisas: Bem-aventurado o povo, que tem ao Senhor por seu Deus.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 144 ou salmo 143?
As Bíblias traduzidas do hebraico numeram este salmo 144; a Vulgata, o Breviário e a Bíblia Ave-Maria, que unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico, o numeram 143. É o mesmo texto, que em latim começa com Benedictus Dominus Deus meus. Os versículos têm o mesmo número nas duas tradições: o título e a primeira frase formam juntos o versículo 1. A tabela completa está na página dos Salmos.
A confusão aqui é especialmente frequente, porque o número 144 designa também o salmo seguinte:
- salmo 144 das Bíblias modernas = salmo 143 da Vulgata: o Benedictus Dominus, o canto de batalha de Davi, apresentado nesta página;
- salmo 144 da Vulgata e da Ave-Maria = salmo 145 das Bíblias modernas: o Exaltabo te, Deus meus rex, «Eu te exaltarei, ó Deus, rei meu: E bendirei o teu nome pelo século e pelo século do século», o grande hino de louvor que a liturgia canta muitas vezes. Ele está na página do salmo 145 (144 na Vulgata).
Quem procura o salmo 144 com as palavras “bendirei eternamente o vosso nome” procura, portanto, o Exaltabo te; quem procura “Bendito seja o Senhor, minha rocha”, está na página certa.
O que significa o salmo 144? Explicação
A Vulgata lhe dá por título: «Salmo de Davi. Contra Golias» (v. 1). A tradição o liga assim ao combate em que o jovem pastor derrubou o gigante filisteu com uma funda e uma pedra, no I Livro dos Reis (1 Samuel), capítulo 17. Davi ali proclamara «que o Senhor salva não pela espada, nem pela lança: Porque êle é o Árbitro da guerra». O salmo retoma também vários versículos do grande salmo 18 das Bíblias modernas (17 na Vulgata), Diligam te, o outro canto de vitória de Davi.
Deus adestra as minhas mãos (v. 1-2)
«Bendito seja o Senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha, e os meus dedos para a guerra». O guerreiro não atribui nada a si mesmo: a mão que lançou a pedra foi guiada. As Bíblias traduzidas do hebraico dizem “Bendito seja o Senhor, minha rocha”; a Vulgata lê “Deus meu”, mas o sentido permanece: Deus é a força do combatente. Segue-se uma ladainha de títulos divinos: «Êle para mim é misericórdia, e o meu refúgio: Amparador meu, libertador meu: Protetor meu, e nêle esperei» (v. 2). O primeiro desses nomes surpreende nos lábios de um soldado: misericordia mea, Deus é a minha misericórdia.
O que é o homem? (v. 3-4)
Logo o louvor se volta para a pequenez do homem: «Senhor, que é o homem, pois tu a êle te manifestaste? ou o filho do homem para tu assim o estimares?» (v. 3). A pergunta faz eco ao salmo 8: «Que é o homem, para tu te lembrares dêle?». E a resposta: «O homem se tem feito semelhante à vaidade: Os seus dias passam como sombra» (v. 4). A vitória não incha o vencedor; lembra-lhe que sem Deus ele não é nada.
«Inclina os teus céus» (v. 5-11)
Davi invoca então uma intervenção divina com as cores do Sinai: «Senhor, inclina os teus céus, e desce: Toca os montes, e fumegarão» (v. 5). Pede os raios e as setas, a mão que o salva «das muitas águas: Da mão dos filhos estranhos» (v. 7), «Cuja bôca falou vaidade» (v. 8). A tradição cristã reconheceu no versículo 5 uma oração pela Encarnação: Deus que inclina os céus e desce é o Verbo feito carne. Depois o rei promete: «Ó Deus, eu te cantarei uma nova canção: Com o saltério de dez cordas te louvarei» (v. 9), ao Deus «Que redimiste a Davi teu servo da espada maligna» (v. 10).
Duas bem-aventuranças (v. 12-15)
O final do salmo é diferente conforme as traduções, e a diferença é instrutiva. O hebraico, que as Bíblias modernas seguem, faz dele uma bênção sobre o povo de Deus: os nossos filhos, as nossas filhas, os nossos celeiros. A Vulgata, e portanto Figueiredo, o refere aos «filhos estranhos» do versículo 11: «Cujos filhos são como plantas novas na sua mocidade. As suas filhas andam compostas: Adornadas tôdas como simulacro de Templo» (v. 12); as suas despensas cheias, as ovelhas fecundas, as vacas gordas, os muros sem brecha (v. 13-14). Vem então a conclusão: «Bem-aventurado chamaram ao povo, que tem estas coisas: Bem-aventurado o povo, que tem ao Senhor por seu Deus» (v. 15).
O mundo chama bem-aventurado quem possui; a Escritura chama bem-aventurado quem possui a Deus. O salmo não despreza os bens temporais, que vêm de Deus; mas quem põe neles a sua felicidade para no dom e esquece o doador.
Os Padres: Davi e Golias
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, liga todo o salmo ao seu título. Davi que derruba Golias é figura de Cristo que derruba o demônio, e nele de todo batizado que combate o inimigo da alma com a arma humilde da graça. O gigante, para os Padres, é também o orgulho, que ninguém derruba com as próprias forças: Davi o vence sem a armadura de Saul, com cinco pedras do riacho e o nome do Senhor.
Sobre o versículo 15, Agostinho constrói uma das suas lições mais claras: os estranhos «chamaram» bem-aventurado o povo rico, mas o salmista corrige: bem-aventurado o povo que tem o Senhor por Deus. Ele não condena as riquezas; condena quem as chama bem-aventurança. A «nova canção» do versículo 9 é, para os Padres, a do homem novo, renovado por Cristo, como no Apocalipse, onde os remidos «cantavam um cântico novo» diante do Cordeiro (Apocalipse 5, 9). E o saltério «de dez cordas» foi lido como os dez mandamentos guardados por amor: a vida inteira torna-se um instrumento afinado para o louvor.
O salmo 144 na liturgia de 1962
No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério de São Pio X (1911), o salmo 143 abre as Vésperas de sábado, dividido em duas partes, cada uma com a sua antífona:
- versículos 1-8, com a antífona Benedictus Dominus susceptor meus et liberator meus, tirada do versículo 2;
- versículos 9-15, com a antífona Beatus populus cujus Dominus Deus ejus, tirada do versículo 15.
Seguem-se as três partes do Exaltabo te, o salmo seguinte. Na tarde do último dia da semana, véspera do domingo, a Igreja bendiz o Deus que a sustentou nos seus combates e depois irrompe no louvor do Rei. Também no Breviário anterior a 1911 o salmo abria as Vésperas de sábado. Você pode rezá-lo na sua hora no breviário; sobre a estrutura dessa Hora, veja o guia das Vésperas.
No Missal de 1962, o versículo 1, Benedictus Dominus, Deus meus, qui docet manus meas ad praelium, é cantado no Aleluia do tempo pascal da Missa de São João Damasceno, a 27 de março, o doutor que defendeu as santas imagens.
Para que serve o salmo 144? Como rezar
O salmo 144 não é uma arma mágica contra inimigos, nem uma fórmula que garante vitória: atribuir às palavras uma força independente da fé é superstição (Catecismo, n. 2111). O seu uso é o da Igreja, que o reza para bendizer a Deus nas lutas da vida.
- Antes de uma batalha. O versículo 1 se reza antes de uma prova, de uma tentação, de um exame, de um trabalho difícil: a força se pede, não se presume. Contra a tentação, veja o que a tradição ensina sobre o combate espiritual.
- Depois de uma vitória. O versículo 9 promete a nova canção: devolve-se a Deus o que se venceu.
- Pela própria casa. Os versículos 12-15 lembram que uma família não é feliz pela abundância, mas porque o Senhor é ali o seu Deus.
- No sábado à tarde, com a Igreja, nas Vésperas, para entrar no domingo.
Conclui-se com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
O que diz o salmo 144, versículo 1?
Em Figueiredo: «Bendito seja o Senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha, e os meus dedos para a guerra». As traduções feitas do hebraico dizem “minha rocha”. Davi reconhece que a sua força e a sua vitória vêm só de Deus.
Qual a diferença entre o salmo 144 e o salmo 145?
São dois salmos distintos. O 144 hebraico (143 da Vulgata) é o Benedictus Dominus, canto de batalha. O 145 hebraico (144 da Vulgata e da Ave-Maria) é o Exaltabo te, grande hino de louvor. Como as duas numerações convivem, «salmo 144» pode designar um ou outro conforme o livro que se usa.
Quem escreveu o salmo 144?
O título o atribui a Davi, e a Vulgata precisa: «Contra Golias». A tradição o tem por um canto do rei Davi que dá graças pelas suas vitórias; os empréstimos do salmo 18 confirmam esse parentesco davídico.
O que significa «Bem-aventurado o povo, que tem ao Senhor por seu Deus»?
É a conclusão do salmo, no versículo 15. Os homens declaram feliz o povo rico e próspero; a Escritura declara feliz o povo que tem a Deus. A verdadeira felicidade não está nos bens, mas naquele que os dá.
Quando se reza o salmo 144 no Breviário?
No Breviário Romano de 1962, ele abre as Vésperas de sábado, dividido em duas partes, com as antífonas Benedictus Dominus susceptor meus e Beatus populus cujus Dominus Deus ejus.
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