A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 50 (49 na Vulgata e na Ave-Maria): Deus deorum, o juízo de Deus e o sacrifício de louvor
O salmo 50 das Bíblias modernas é o salmo 49 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Deus deorum* de Asaf, em que Deus julga o seu povo e pede, em vez de touros e cabritos, o sacrifício de louvor. Procura o «salmo 50» da Ave-Maria, o *Miserere*? Ele está na página do salmo 51 (50 na Vulgata). Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo com o latim ao lado, versículo por versículo, e um guia sobre o sentido do salmo, o versículo 15, os Padres, a liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 49 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 48.
1 Psalmus Asaph. Deus deorum Dominus locutus est, et vocavit terram a solis ortu usque ad occasum.
1 Salmo de, ou para Asaf. O Deus dos Deuses, o Senhor falou: E convocou a terra. Desde o oriente do sol até ao seu ocaso:
2 Ex Sion species decoris ejus :
2 De Sião é que vem o resplendor da sua formosura.
3 Deus manifeste veniet ; Deus noster, et non silebit. Ignis in conspectu ejus exardescet ; et in circuitu ejus tempestas valida.
3 Deus virá manifestamente: Deus nosso, e não guardará silêncio. Fogo se incenderá na sua presença: E em roda dêle tempestade forte.
4 Advocabit cælum desursum, et terram, discernere populum suum.
4 Chamará de cima ao céu: E a terra para julgar ao seu povo.
5 Congregate illi sanctos ejus, qui ordinant testamentum ejus super sacrificia.
5 Congregai junto dêle os seus santos: Que compõem aliança com êle sôbre sacrifícios.
6 Et annuntiabunt cæli justitiam ejus, quoniam Deus judex est.
6 E anunciarão os céus a justiça dêle: Porquanto Deus é o juiz.
7 Audi, populus meus, et loquar ; Israël, et testificabor tibi : Deus, Deus tuus ego sum.
7 Ouve, povo meu, e eu falarei: Ouve, Israel, e testificarei contra ti: Deus, o teu Deus sou eu.
8 Non in sacrificiis tuis arguam te ; holocausta autem tua in conspectu meo sunt semper.
8 Não te argüirei sôbre os teus sacrifícios: Porque os teus holocaustos estão sempre diante de mim.
9 Non accipiam de domo tua vitulos, neque de gregibus tuis hircos :
9 Não receberei de tua casa bezerros: Nem cabritos dos teus rebanhos.
10 quoniam meæ sunt omnes feræ silvarum, jumenta in montibus, et boves.
10 Porque minhas são tôdas as feras das selvas, os animais nos montes e bois.
11 Cognovi omnia volatilia cæli, et pulchritudo agri mecum est.
11 Conheço tôdas as aves do céu: E a formosura do campo comigo está.
12 Si esuriero, non dicam tibi : meus est enim orbis terræ et plenitudo ejus.
12 Se tiver fome não to direi a ti: Porque minha é a redondeza da terra, e a sua plenidão.
13 Numquid manducabo carnes taurorum ? aut sanguinem hircorum potabo ?
13 Porventura comerei carnes de touros? ou beberei sangue de cabritos?
14 Immola Deo sacrificium laudis, et redde Altissimo vota tua.
14 Oferece a Deus sacrifício de louvor: E paga ao Altíssimo os teus votos.
15 Et invoca me in die tribulationis : eruam te, et honorificabis me.
15 E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás.
16 Peccatori autem dixit Deus : Quare tu enarras justitias meas ? et assumis testamentum meum per os tuum ?
16 Mas ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos meus mandamentos, e tomas o meu testamento na tua bôca?
17 Tu vero odisti disciplinam, et projecisti sermones meos retrorsum.
17 Pôsto que tu tens aborrecido a disciplina: E postergaste as minhas palavras.
18 Si videbas furem, currebas cum eo ; et cum adulteris portionem tuam ponebas.
18 Se vias um ladrão, corrias com êle: E com os adúlteros fazias sociedade.
19 Os tuum abundavit malitia, et lingua tua concinnabat dolos.
19 A tua bôca abundou de malícia: E a tua língua urdia enganos.
20 Sedens adversus fratrem tuum loquebaris, et adversus filium matris tuæ ponebas scandalum.
20 Estando sentado falavas contra teu irmão, e punhas tropêço contra o filho da tua mãe:
21 Hæc fecisti, et tacui. Existimasti inique quod ero tui similis : arguam te, et statuam contra faciem tuam.
21 Isto fizeste, e eu me calei. Creste a iniqüidade, que serei tal como tu: Argüir-te-ei, e to porei diante da tua cara.
22 Intelligite hæc, qui obliviscimini Deum, nequando rapiat, et non sit qui eripiat.
22 Entendei isto os que vos esqueceis de Deus: Não suceda que vos arrebate, e não haja quem vos livre.
23 Sacrificium laudis honorificabit me, et illic iter quo ostendam illi salutare Dei.
23 Sacrifício de louvor me honrará: E ali o caminho, por onde lhe mostrarei a salvação de Deus.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 50 ou salmo 49?
O salmo que as Bíblias traduzidas do hebraico chamam de 50 tem o número 49 na Vulgata, na Setenta e na Bíblia Ave-Maria. A razão é simples: a Vulgata conta como um só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico, e por isso boa parte do Saltério tem ali um número a menos. É o mesmo texto, o que começa com Deus deorum Dominus locutus est, «O Deus dos Deuses, o Senhor falou».
Essa diferença produz uma confusão muito comum no Brasil. Quem procura “salmo 50 ave maria” ou “salmo 50 miserere” está pensando no Miserere, a oração de penitência de Davi, e tem razão na numeração da Vulgata, que é a da liturgia e da Bíblia Ave-Maria. Numa Bíblia feita sobre o hebraico, porém, o Miserere é o salmo 51, e o salmo 50 é este, o salmo de Asaf. Em resumo:
- “salmo 50” numa Bíblia moderna = o Deus deorum, esta página, salmo 49 da Vulgata e da Ave-Maria;
- “salmo 50 ave maria”, “salmo 50 miserere”, “salmo 51” = o Miserere, na página do salmo 51 (50 na Vulgata).
Os dois salmos, aliás, são vizinhos também na oração da Igreja: na quarta-feira, nas Matinas, o Deus deorum é rezado e logo depois vem o Miserere. Os versículos de Figueiredo têm aqui a mesma numeração da Vulgata: o título está dentro do versículo 1.
O que significa o salmo 50? Explicação
O salmo tem a forma de um processo. Deus se assenta para julgar, chama as testemunhas, interroga o seu povo e pronuncia a sentença. Mas o réu não é uma nação pagã: é Israel, o povo da aliança, e a culpa que Deus censura não é o abandono dos ritos. É um culto sem o coração.
O tribunal é convocado (v. 1-6)
«O Deus dos Deuses, o Senhor falou: E convocou a terra. Desde o oriente do sol até ao seu ocaso» (v. 1). A audiência se abre na luz de Sião: «De Sião é que vem o resplendor da sua formosura» (v. 2). Vem depois o anúncio que tanto impressionou os Padres: «Deus virá manifestamente: Deus nosso, e não guardará silêncio» (v. 3). O fogo e a tempestade acompanham a sua vinda, como no Sinai.
Deus «Chamará de cima ao céu: E a terra para julgar ao seu povo» (v. 4): são as duas testemunhas que Moisés já invocava contra Israel no Deuteronômio, «Ouvi, céus, o que vou a dizer: ouça a terra as palavras da minha bôca» (Deuteronômio 32). Os acusados são nomeados com uma ironia dolorosa: «Congregai junto dêle os seus santos: Que compõem aliança com êle sôbre sacrifícios» (v. 5). São homens piedosos na aparência, que não faltam a nenhuma oferta.
O que Deus não pede (v. 7-13)
Deus toma a palavra: «Ouve, povo meu, e eu falarei» (v. 7). Começa por desfazer um mal-entendido: «Não te argüirei sôbre os teus sacrifícios: Porque os teus holocaustos estão sempre diante de mim» (v. 8). Os ritos não são condenados; são postos no seu lugar.
Segue uma passagem de grande altura. Deus não precisa de nada: «Porque minhas são tôdas as feras das selvas, os animais nos montes e bois» (v. 10); «Se tiver fome não to direi a ti: Porque minha é a redondeza da terra, e a sua plenidão» (v. 12). A pergunta final destrói a ideia pagã de um deus que se alimenta: «Porventura comerei carnes de touros? ou beberei sangue de cabritos?» (v. 13). O sacrifício não é uma refeição oferecida a Deus; é o sinal de um coração que se entrega.
O que Deus pede (v. 14-15)
«Oferece a Deus sacrifício de louvor: E paga ao Altíssimo os teus votos» (v. 14). Três coisas: o louvor, a fidelidade às promessas, a confiança. O versículo 15, o mais procurado do salmo, é o seu ponto alto: «E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás» (v. 15).
Esse versículo inverte a lógica da barganha. O homem não compra a ajuda de Deus com vítimas; ele O invoca, Deus o livra, e a própria libertação se torna a glória de Deus. A oração do pobre que clama honra a Deus mais do que mil holocaustos, porque confessa que tudo vem d'Ele.
A acusação contra o hipócrita (v. 16-21)
A segunda parte visa outro culpado: «Mas ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos meus mandamentos, e tomas o meu testamento na tua bôca?» (v. 16). É o homem que recita a Lei e a viola: «Pôsto que tu tens aborrecido a disciplina: E postergaste as minhas palavras» (v. 17). O salmo passa então em revista os mandamentos: o roubo e o adultério (v. 18), a mentira (v. 19), a maledicência contra o irmão, «o filho da tua mãe» (v. 20). É a segunda tábua dos Dez Mandamentos.
O versículo 21 mostra o fundo do pecado: «Isto fizeste, e eu me calei. Creste a iniqüidade, que serei tal como tu». Porque Deus se calava, o pecador pensou que Ele aprovava; a paciência de Deus foi tomada por indiferença. Mas o silêncio acaba: «Argüir-te-ei, e to porei diante da tua cara».
A sentença (v. 22-23)
A conclusão ainda deixa uma porta aberta: «Entendei isto os que vos esqueceis de Deus» (v. 22). A última palavra retoma a do versículo 14: «Sacrifício de louvor me honrará: E ali o caminho, por onde lhe mostrarei a salvação de Deus» (v. 23). As versões feitas sobre o hebraico traduzem esse versículo com uma promessa a quem “ordena o seu caminho”: o sentido é próximo, a letra é diferente.
Quem escreveu o salmo 50? Asaf
O título atribui o salmo a Asaf: «Salmo de, ou para Asaf», diz Figueiredo, que conserva a hesitação do latim Psalmus Asaph. O I Livro dos Paralipômenos (1 Crônicas) o mostra posto por Davi à frente dos cantores diante da arca: «Naquele dia fêz Davi a Asaf primeiro cantor, para cantar os louvores ao Senhor com seus irmãos» (1 Paralipômenos 16).
O Saltério lhe atribui doze salmos: este, isolado no segundo livro dos Salmos, e depois os salmos 72 a 82 da Vulgata (73 a 83 do hebraico). Neles volta muitas vezes o mesmo tom profético e a mesma meditação sobre a justiça de Deus, como no salmo 73 (72 na Vulgata), em que Asaf se espanta com a prosperidade dos maus. A questão geral dos autores do Saltério está tratada em quem escreveu os Salmos.
O salmo nos Padres: a vinda de Cristo e o sacrifício novo
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, lê o versículo 3 das duas vindas de Cristo. Na primeira, veio escondido, na humildade, e calou-se diante dos seus juízes; na segunda virá «manifestamente», e então não se calará mais. O salmo se torna assim um anúncio do Juízo final, quando o Filho do homem reunirá todas as nações diante de si. O Evangelho dá o quadro: «Mas quando vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com êle, então se assentará sôbre o trono da sua majestade» (Mateus 25).
O salmo prepara também a palavra dos profetas e a de Cristo. «Porque o que eu quero é a misericórdia e não o sacrifício», diz Deus pela boca de Oseias (Oseias 6), e Nosso Senhor retoma a palavra contra os fariseus. A Epístola aos Hebreus tira a conclusão para o culto cristão: «Ofereçamos pois por êle a Deus sem cessar sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios, que confessam o seu nome» (Hebreus 13).
O Cânon romano da Missa retoma a expressão do salmo. No Memento dos vivos, o sacerdote reza por aqueles que oferecem a Deus hoc sacrificium laudis, este sacrifício de louvor. Os sacrifícios de animais cessaram; o único sacrifício que permanece é o de Cristo, renovado no altar, ao qual o fiel une o seu louvor. A página o que é a Missa desenvolve essa doutrina.
O equilíbrio do salmo merece atenção: Deus não despreza os ritos que Ele mesmo instituiu, mas recusa que sejam separados da obediência. A lição vale para o cristão que vai à Missa e descuida da caridade.
O salmo 49 na liturgia de 1962
Nas Matinas de quarta-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 49 da Vulgata é rezado nas Matinas de quarta-feira, no terceiro noturno, dividido em duas partes: os versículos 1-15 com a antífona Deus deorum, Dominus locutus est, os versículos 16-23 com a antífona Intellegite, qui obliviscimini Deum. Logo depois vem o Miserere.
Nas quartas-feiras dos tempos de penitência, quando o Miserere passa para as Laudes, o salmo 49 é dividido em três partes, a do meio com a antífona Immola Deo sacrificium laudis, e o versículo do noturno é o próprio versículo 23: Sacrificium laudis honorificabit me. Toda semana o Ofício da noite faz ressoar, para o clérigo e o monge, a censura de Deus contra o culto sem o coração: ela se dirige primeiro aos que mais rezam. Você pode reencontrá-lo no seu lugar no breviário.
No Missal. O Missal de 1962 tira dele o Gradual do segundo domingo do Advento: Ex Sion species decoris ejus: Deus manifeste veniet (v. 2-3), com o versículo Congregate illi sanctos ejus, qui ordinaverunt testamentum ejus super sacrificia (v. 5). A Igreja ouve aí, como Santo Agostinho, o anúncio da vinda do Senhor.
O “salmo 50” que se ouve cantar no Asperges do domingo ou no começo das Laudes da Quaresma não é este: é o Miserere, salmo 50 da Vulgata.
Como rezar o salmo 50
No dia da provação. O versículo 15 é uma promessa feita pelo próprio Deus. Pode ser decorado e repetido tal como está: «E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei». Quem procura “para que serve o salmo 50” encontra aqui a resposta do próprio texto: ele ensina a invocar a Deus, não a obrigá-Lo. Um salmo não age como uma fórmula; tratá-lo assim seria superstição, contrária ao primeiro mandamento.
Antes da Missa. O salmo dispõe a oferecer com a Igreja o sacrifício de louvor, e não a “cumprir devoções” como uma dívida a pagar.
No exame de consciência. Os versículos 16-21 são um espelho. Quem reza muito pode perguntar-se se a sua língua, as suas companhias e os seus juízos sobre o irmão correspondem ao que a sua boca recita.
Em ação de graças. Depois de um benefício, o salmo manda pagar ao Altíssimo os votos: cumprir as promessas feitas a Deus na necessidade é a forma mais simples da gratidão.
Perguntas Frequentes
O salmo 50 é o Miserere?
Depende da numeração. Nas Bíblias feitas sobre o hebraico, o salmo 50 é o Deus deorum de Asaf, e o Miserere é o salmo 51. Na Vulgata, na liturgia e na Bíblia Ave-Maria, o Miserere tem o número 50 e este salmo o 49.
O que significa o versículo 15 do salmo 50?
«E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás» (v. 15). Deus declara que a oração confiante O honra mais do que as vítimas e promete Ele mesmo a libertação. A tradição fez dele uma palavra de recurso em toda provação.
Quem escreveu o salmo 50?
O título o atribui a Asaf, chefe dos cantores posto por Davi diante da arca, segundo o I Livro dos Paralipômenos (1 Crônicas). Doze salmos levam o seu nome.
O que quer dizer “sacrifício de louvor”?
É o culto que Deus prefere aos touros e cabritos: o louvor e a ação de graças de um coração obediente. Os Padres veem aqui o anúncio do sacrifício da Lei nova, a Missa, que o Cânon romano chama sacrificium laudis.
Quando a Igreja reza o salmo 50 (49)?
No Breviário de 1962, nas Matinas de quarta-feira, no terceiro noturno, logo antes do Miserere. No Missal, os seus versículos 2, 3 e 5 formam o Gradual do segundo domingo do Advento.
Onde ler o salmo 50 com o texto latino?
No alto desta página: o texto de Figueiredo e a Vulgata estão lado a lado, versículo por versículo. Numa Bíblia que segue a Vulgata, como a Ave-Maria, você o encontra no número 49; numa Bíblia feita sobre o hebraico, no número 50.
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