A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 101 (100 na Vulgata e na Ave-Maria): Misericordiam et judicium, a regra do rei justo
O salmo 101 das Bíblias modernas é o salmo 100 da Vulgata, o *Misericordiam et judicium cantabo tibi, Domine*: o programa de vida que o rei se dá diante de Deus, na sua casa e no seu governo. Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado, a leitura dos Padres, o lugar do salmo nas Laudes de quarta-feira e a maneira de rezá-lo.
Procura o salmo 100 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 99.
1 Psalmus ipsi David. Misericordiam et judicium cantabo tibi, Domine ; psallam,
1 Salmo do mesmo Davi. Eu te cantarei, a ti, Senhor, a tua misericórdia, e a tua justiça. Direi salmos.
2 et intelligam in via immaculata : quando venies ad me ? Perambulabam in innocentia cordis mei, in medio domus meæ.
2 E me aplicarei a conhecer o caminho da inocência, quando vieres a mim. Caminhava eu na inocência do meu coração, no meio da minha casa.
3 Non proponebam ante oculos meos rem injustam ; facientes prævaricationes odivi ; non adhæsit mihi
3 Não punha diante dos meus olhos coisa injusta: Aborrecia aos que faziam prevaricações. Não se unia a mim.
4 cor pravum ; declinantem a me malignum non cognoscebam.
4 Coração depravado: Ao malicioso que se afastava de mim não o conhecia.
5 Detrahentem secreto proximo suo, hunc persequebar : superbo oculo, et insatiabili corde, cum hoc non edebam.
5 Ao que secretamente dizia mal do seu próximo a êste perseguia. Com homem de olhos soberbos, e de coração insaciável, com êsse não comia.
6 Oculi mei ad fideles terræ, ut sedeant mecum ; ambulans in via immaculata, hic mihi ministrabat.
6 Os meus olhos só olhavam para os fiéis do país para que se assentassem comigo: O que andava em caminho de inocência, êsse me servia.
7 Non habitabit in medio domus meæ qui facit superbiam ; qui loquitur iniqua non direxit in conspectu oculorum meorum.
7 Não habitará no meio da minha casa o que obra com soberba: O que fala coisas iníquas não entrou direito na vista dos meus olhos.
8 In matutino interficiebam omnes peccatores terræ, ut disperderem de civitate Domini omnes operantes iniquitatem.
8 Pela manhã entregava à morte todos os pecadores da terra: A fim de exterminar da cidade do Senhor a todos os que obravam maldade.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 101 ou salmo 100?
As Bíblias modernas, que seguem o hebraico, contam este salmo como o 101; a Vulgata, a liturgia, Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria o contam como o 100, porque unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, o Misericordiam et judicium, e os números dos versículos coincidem.
Dois vizinhos causam confusão aqui:
- o salmo 100 das Bíblias modernas é o Jubilate Deo, «Celebrai com júbilo ao Senhor povos de tôda a terra», que na Vulgata é o salmo 99;
- o salmo 101 da Vulgata é a oração do pobre, o Domine, exaudi orationem meam, um dos sete salmos penitenciais, que começa «Oração do pobre, que estiver em tribulação» (salmo 101 da Vulgata) e que as Bíblias modernas numeram 102.
A tabela completa das duas numerações está na página dos Salmos.
Salmo 101 explicação: o que significa?
O título o atribui ao próprio Davi: «Salmo do mesmo Davi» (v. 1). É um salmo real de gênero único: não uma oração pelo rei, mas a regra de conduta que o rei impõe a si mesmo diante de Deus. Pode ser lido como um espelho oferecido a todo aquele que exerce autoridade.
O programa (v. 1-2)
«Eu te cantarei, a ti, Senhor, a tua misericórdia, e a tua justiça» (v. 1). São as duas virtudes do bom governo, e o rei as canta antes de praticá-las. Quer aplicar-se «a conhecer o caminho da inocência» (v. 2), e a primeira exigência é para ele mesmo: «Caminhava eu na inocência do meu coração, no meio da minha casa». A santidade pública começa na vida privada, entre as paredes de casa.
No meio desses propósitos aparece uma expressão inesperada: «quando vieres a mim». O latim a faz pergunta, quando venies ad me?, quando virás a mim? Alguns comentadores a aproximam da palavra de Davi no dia em que se tratava de acolher a arca: «Como entrará a arca do Senhor em minha casa?» (2 Samuel 6,9, o II Livro dos Reis de Figueiredo).
A guarda do coração (v. 3-4)
«Não punha diante dos meus olhos coisa injusta: Aborrecia aos que faziam prevaricações» (v. 3). É a guarda do olhar: o latim diz que o rei não punha diante dos olhos nada de injusto. E mantém o mal à distância: não se unia a ele «Coração depravado» (v. 4).
A escolha dos que estão ao seu lado (v. 5-7)
O rei julga os seus conselheiros. Não tolera o caluniador: «Ao que secretamente dizia mal do seu próximo a êste perseguia» (v. 5); não se senta à mesa com o soberbo e o insaciável. Procura, ao contrário, os homens retos: «Os meus olhos só olhavam para os fiéis do país para que se assentassem comigo» (v. 6). E estabelece a regra da sua casa: «Não habitará no meio da minha casa o que obra com soberba» (v. 7). A Escritura conhece bem essa lei: «O príncipe, que ouve de boamente as palavras da mentira, só os ímpios tem por ministros» (Provérbios 29,12).
A justiça de cada manhã (v. 8)
O salmo termina com a imagem do rei que fazia justiça à porta da cidade desde a aurora: «Pela manhã entregava à morte todos os pecadores da terra: A fim de exterminar da cidade do Senhor a todos os que obravam maldade» (v. 8). O versículo assusta o leitor moderno; ele descreve o dever do juiz, que não pode deixar o crime impune, e a tradição o leu sobretudo como figura do juízo de Deus e da luta interior contra o pecado, desde a primeira hora do dia.
A leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, detém-se no primeiro versículo e na ordem das suas duas palavras: primeiro a misericórdia, depois o juízo. Vê nelas os dois tempos da história da salvação: agora é o tempo da misericórdia, em que Deus espera e perdoa; depois virá o tempo do juízo, em que Ele dará a cada um segundo as suas obras. Quem canta hoje a misericórdia se prepara para não temer amanhã o juízo.
Nenhum rei de Israel foi o rei perfeito deste salmo, nem mesmo Davi. Os Padres reconheceram nele, portanto, Cristo, o único rei sem mancha, que purifica a sua cidade, a Igreja, e que no último dia «se assentará sôbre o trono da sua majestade» (Mateus 25,31) para separar os justos dos ímpios. O mesmo ideal do justo que caminha sem mancha está no salmo 15 (14 na Vulgata), Domine, quis habitabit, e a figura do rei segundo Deus no salmo 72 (71 na Vulgata), Deus, judicium tuum. Sobre o rei que a tradição reconhece como autor de tantos salmos, leia quem foi o rei Davi.
O salmo 100 na liturgia de 1962
No Breviário Romano de 1962, o salmo 100 da Vulgata é cantado nas Laudes de quarta-feira, como terceiro salmo, tanto no esquema ordinário como no dos tempos de penitência. No primeiro, vem depois do salmo 97 (96 na Vulgata), Dominus regnavit, e do salmo 65 (64 na Vulgata), Te decet hymnus, com a antífona Tibi, Domine, psallam, et intellegam in via immaculata; no segundo, vem depois do Miserere e do Te decet hymnus, com a antífona In innocentia cordis mei perambulabo, Domine. O Ofício fez assim seu o versículo 8: de manhã, antes de qualquer outra obra, renova-se o propósito de caminhar na inocência. Você pode rezar essas Laudes no breviário; a página sobre a Liturgia das Horas explica a estrutura do Ofício.
Como rezar o salmo 101
- No começo do dia, como um propósito: guardar os olhos, a língua e as companhias.
- Para quem exerce autoridade: pais, superiores, patrões, governantes. É o seu exame de consciência: como trato quem depende de mim? A quem escuto? A quem deixo falar mal dos outros?
- Contra a maledicência. O versículo 5 lembra que o caluniador secreto não tem lugar à mesa do rei justo. São Tiago diz o mesmo: «Irmãos, não faleis mal uns dos outros» (Tiago 4,11).
- Pela própria casa, para que nela se caminhe «na inocência do meu coração».
Conclua, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 101 também é chamado de salmo 100?
Porque a Vulgata e os Setenta unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 101 das Bíblias modernas é, portanto, o salmo 100 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o Misericordiam et judicium.
Qual é o significado do salmo 101?
É a regra de vida de um rei que quer governar segundo Deus: integridade pessoal, recusa da maledicência e da soberba, escolha de conselheiros fiéis, justiça feita cada manhã. A tradição vê nele também o retrato de Cristo, rei justo e juiz.
O que diz o versículo 3 do salmo 101?
Na tradução de Figueiredo: «Não punha diante dos meus olhos coisa injusta: Aborrecia aos que faziam prevaricações». O latim, Non proponebam ante oculos meos rem injustam, insiste no olhar: o justo não mantém os olhos fixos no mal.
Para que serve o salmo 101?
A Igreja o canta toda quarta-feira nas Laudes, como propósito para o dia que começa. Um católico o reza como exame de consciência, sobretudo quem tem responsabilidade sobre outros, e para pedir a pureza da casa. É uma regra de vida, não uma fórmula de efeito automático.
Quem escreveu o salmo 101?
O título traz «Salmo do mesmo Davi», e a tradição o recebe como o propósito do rei Davi para o seu governo. O autor principal é o Espírito Santo.
O salmo 100 é o “Celebrai com júbilo ao Senhor”?
Depende da Bíblia. Nas Bíblias modernas, o salmo 100 é o Jubilate Deo, o convite de toda a terra a servir ao Senhor com alegria; na Vulgata, na liturgia e na Bíblia Ave-Maria, esse salmo é o 99, e o número 100 pertence ao Misericordiam et judicium apresentado aqui. Os dois se seguem no Saltério: depois da alegria de servir a Deus, o propósito de servi-lo com uma vida reta.
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