A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 116, 1-9 (114 na Vulgata e na Ave-Maria): Dilexi, a ação de graças da alma libertada
Dilexi
O salmo 114 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o *Dilexi, quoniam exaudiet Dominus*, corresponde aos versículos 1 a 9 do salmo 116 das Bíblias modernas: a ação de graças de um homem que viu a morte de perto e foi libertado. «Volta, ó alma minha, ao teu repouso: Porque o Senhor te fêz bem». Aqui você encontra o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado, o lugar do salmo nas Vésperas da segunda-feira e no Ofício dos Defuntos, e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 114 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 113.
1 Alleluja. Dilexi, quoniam exaudiet Dominus vocem orationis meæ.
1 Aleluia. Amei, porque o Senhor ouvirá a voz da minha oração.
2 Quia inclinavit aurem suam mihi, et in diebus meis invocabo.
2 Porque inclinou para mim o seu ouvido: E eu o invocarei todos os dias da minha vida.
3 Circumdederunt me dolores mortis ; et pericula inferni invenerunt me. Tribulationem et dolorem inveni,
3 Dores de morte me cercaram: E perigos de inferno se apoderaram de mim. Eu me achei em tribulação e dor:
4 et nomen Domini invocavi : o Domine, libera animam meam.
4 E invoquei o nome do Senhor. Ó Senhor, livra a minha alma:
5 Misericors Dominus et justus, et Deus noster miseretur.
5 Misericordioso e justo é o Senhor, e o nosso Deus tem comiseração.
6 Custodiens parvulos Dominus ; humiliatus sum, et liberavit me.
6 O Senhor é o que guarda os pequeninos: Eu fui humilhado, e êle me livrou.
7 Convertere, anima mea, in requiem tuam, quia Dominus benefecit tibi :
7 Volta, ó alma minha, ao teu repouso: Porque o Senhor te fêz bem.
8 quia eripuit animam meam de morte, oculos meos a lacrimis, pedes meos a lapsu.
8 Porque livrou da morte a minha alma: Os meus olhos das lágrimas, os meus pés da queda.
9 Placebo Domino in regione vivorum.
9 Agradarei ao Senhor na região dos vivos.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 116 ou salmos 114 e 115?
Nas Bíblias modernas, que seguem o hebraico, o salmo 116 é um só cântico de dezenove versículos. A Vulgata e a Setenta, seguidas pela Bíblia Ave-Maria e pela tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, o dividem em dois salmos: o 114, Dilexi, para os versículos 1 a 9, apresentado nesta página, e o 115, Credidi, para os versículos 10 a 19, que está na página do salmo 116, 10-19 (115 na Vulgata). É lá que se leem «Que darei em retribuição ao Senhor», «Tomarei o cálice da salvação» e «É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos». Nesta primeira parte, a numeração dos versículos é a mesma nas duas Bíblias: o versículo 7 do hebraico é o nosso versículo 7.
Os números vizinhos também trocam de lugar:
- quem procura “salmo 114” numa Bíblia moderna procura o In exitu Israel, a saída do Egito, que a Vulgata une ao salmo 115 hebraico num só salmo, o salmo 113 da Vulgata; quem lê a Bíblia Ave-Maria e procura o “salmo 114” encontra, ao contrário, nesta página o Dilexi;
- quem procura “salmo 116” num livro que segue a Vulgata encontra o salmo mais curto do Saltério, «Louvai tôdas as gentes ao Senhor», o salmo 117 das Bíblias modernas (116 na Vulgata).
O que significa o salmo 116? Explicação
Estes nove versículos são a ação de graças de um homem que viu a morte de perto e foi libertado. O salmo pertence ao Hallel (salmos 113 a 118 do hebraico), o louvor que os judeus cantavam na Páscoa. Uma tradição muito difundida pensa que são estes os salmos de que fala o Evangelho quando, depois da Última Ceia, Jesus e os Apóstolos, «cantado o hino», saíram para o monte das Oliveiras (Mateus 26,30).
O amor que responde à oração atendida (v. 1-2). O salmo se abre com uma confissão de amor: «Aleluia. Amei, porque o Senhor ouvirá a voz da minha oração» (v. 1). O latim Dilexi não diz quem é amado: é o próprio amor que brota, nascido da experiência de ter sido ouvido. Esse amor compromete a vida inteira: «Porque inclinou para mim o seu ouvido: E eu o invocarei todos os dias da minha vida» (v. 2).
A lembrança da angústia (v. 3-4). «Dores de morte me cercaram: E perigos de inferno se apoderaram de mim. Eu me achei em tribulação e dor» (v. 3). O salmista conheceu a doença mortal ou o perigo extremo. No fundo da tribulação teve uma só oração, breve como um grito: «Ó Senhor, livra a minha alma» (v. 4).
O Deus que guarda os pequenos (v. 5-6). A resposta é uma confissão de fé: «Misericordioso e justo é o Senhor, e o nosso Deus tem comiseração» (v. 5). Depois vem o versículo da humildade: «O Senhor é o que guarda os pequeninos: Eu fui humilhado, e êle me livrou» (v. 6). Foi por ser pequeno, sem outros recursos, que Deus o salvou. O latim parvulos volta no Evangelho, nos lábios de Jesus, quando bendiz o Pai que escondeu os seus mistérios aos sábios «e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25): a pequenez não é obstáculo à salvação, é a sua porta.
O repouso da alma (v. 7-9). O salmista fala então consigo mesmo: «Volta, ó alma minha, ao teu repouso: Porque o Senhor te fêz bem» (v. 7). Faz a conta da libertação: «Porque livrou da morte a minha alma: Os meus olhos das lágrimas, os meus pés da queda» (v. 8). O último versículo é uma promessa: «Agradarei ao Senhor na região dos vivos» (v. 9). O latim diz Placebo Domino in regione vivorum.
Salmo 116, 7: «Volta, ó alma minha, ao teu repouso»
É o versículo mais amado desta primeira parte. Depois da provação, o salmista não se limita a agradecer: convida a própria alma, agitada pelo medo, a voltar à paz de onde tinha saído. O repouso não é a ausência de problemas, mas a confiança reencontrada em Deus, que «te fêz bem». Os Padres viram nele também o repouso eterno prometido aos santos, o «repouso» em que a Igreja pede que entrem os defuntos.
O salmo 116 e a ressurreição
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, ouve neste salmo a voz da alma que, no meio das penas desta vida, suspira pela terra dos vivos: não esta terra onde se morre, mas a pátria do céu, onde se agrada a Deus sem fim. O repouso a que a alma é convidada a voltar é o repouso do próprio Deus.
A tradição reconheceu aqui também Cristo ressuscitado. São Pedro, no dia de Pentecostes, anuncia que Deus o ressuscitou «livrando-o das dores do inferno, porquanto era impossível que por êste fôsse êle retido» (Atos 2,24): são as mesmas «Dores de morte» e «perigos de inferno» do versículo 3, que cercaram o Senhor sem poder retê-lo.
A «região dos vivos» lembra o salmo 27 (26 na Vulgata), Dominus illuminatio mea: «Creio ver os bens do Senhor na terra dos viventes».
O salmo 116 na liturgia de 1962
Nas Vésperas da segunda-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 114 da Vulgata é o primeiro salmo das Vésperas da segunda-feira, com a antífona Inclinavit Dominus aurem suam mihi, tirada do versículo 2. Seguem-se o Credidi e depois os salmos 119, 120 e 121 da Vulgata, os primeiros cânticos graduais, que os peregrinos cantavam subindo a Jerusalém: o primeiro é o salmo 120 (119 na Vulgata). Você pode rezar essa Hora no breviário e conhecer a sua história na página sobre as Vésperas.
Nas Vésperas dos Defuntos. O salmo abre também as Vésperas do Ofício dos Defuntos, com a antífona tirada do seu último versículo: Placebo Domino in regione vivorum. Na Idade Média, por essa razão, essas Vésperas eram chamadas simplesmente de Placebo. A Igreja põe assim nos lábios do defunto a ação de graças da alma libertada, e reza para que ele entre na terra dos vivos. O mesmo Ofício inclui o salmo 130 (129 na Vulgata), De profundis, «Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor». Ele é cantado de modo especial a 2 de novembro, no dia de Finados.
Como rezar o salmo 116
- Pelos defuntos. É o primeiro salmo que a Igreja canta por eles: pode-se rezá-lo na noite de um luto ou ao visitar o cemitério, junto com a oração pelos mortos.
- Depois de uma cura ou de um perigo evitado, como ação de graças, detendo-se no versículo 8.
- Na angústia, com a oração do versículo 4, que cabe em poucas palavras: «Ó Senhor, livra a minha alma».
- À noite, com o versículo 7, para reencontrar a paz antes do descanso.
Conclui-se, como no Ofício, com o Glória ao Pai; pelos defuntos, com o Requiem æternam.
Perguntas Frequentes
Qual é o significado do salmo 116?
É a ação de graças de um homem libertado da morte. Os versículos 1 a 9, Dilexi, dizem o amor nascido da oração atendida e o repouso reencontrado; os versículos 10 a 19, Credidi, dizem a fé, a gratidão e o sacrifício de louvor.
Quem escreveu o salmo 116?
O salmo não traz nome de autor, apenas o «Aleluia». A tradição o aproximou de Davi, como a maior parte do Saltério, sem que o texto o diga. O seu autor principal é o Espírito Santo, que o inspirou.
O que diz o versículo 7 do salmo 116?
Em Figueiredo: «Volta, ó alma minha, ao teu repouso: Porque o Senhor te fêz bem». Depois da provação, o salmista convida a própria alma a reencontrar a paz em Deus. Os Padres veem nele também o repouso eterno prometido aos santos.
Onde está o versículo “Que darei ao Senhor”?
Na segunda parte do salmo 116, que a Vulgata e a Bíblia Ave-Maria numeram 115, o Credidi. A mesma página contém «Tomarei o cálice da salvação» e a morte preciosa dos santos.
Por que o salmo 116 está ligado à oração pelos mortos?
Porque a Igreja abre as Vésperas do Ofício dos Defuntos com este salmo, sob a antífona Placebo Domino in regione vivorum, «Agradarei ao Senhor na região dos vivos». Pede nele para o defunto a libertação e o repouso eterno.
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