A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 148: Laudate Dominum de cælis, o louvor de toda a criação
Laudate Dominum de cælis
O salmo 148, *Laudate Dominum de cælis*, chama toda a criação a louvar a Deus: os anjos e os astros, o fogo e a neve, os montes e os animais, os reis e os povos, «Os mancebos, e as donzelas». Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, o seu parentesco com o cântico dos três jovens e o seu lugar nas Laudes de domingo na liturgia de 1962.
1 Alleluja. Laudate Dominum de cælis ; laudate eum in excelsis.
1 Aleluia. Louvai desde os céus ao Senhor: Louvai-o nas alturas.
2 Laudate eum, omnes angeli ejus ; laudate eum, omnes virtutes ejus.
2 Louvai-o, todos os seus anjos: Louvai-o, tôdas as suas virtudes.
3 Laudate eum, sol et luna ; laudate eum, omnes stellæ et lumen.
3 Louvai-o, sol e lua: Louvai-o, tôdas as estrêlas e o lume.
4 Laudate eum, cæli cælorum ; et aquæ omnes quæ super cælos sunt,
4 Louvai-o, céus dos céus: E tôdas as águas que estão sôbre os céus,
5 laudent nomen Domini. Quia ipse dixit, et facta sunt ; ipse mandavit, et creata sunt.
5 louvem o nome do Senhor. Porque êle disse, e foram feitas as coisas: Êle mandou e elas foram criadas.
6 Statuit ea in æternum, et in sæculum sæculi ; præceptum posuit, et non præteribit.
6 Êle as estabeleceu para sempre, e pelo século do século: Preceito pôs, e não se quebrantará.
7 Laudate Dominum de terra, dracones et omnes abyssi ;
7 Louvai ao Senhor os que sois da terra, vós, dragões, e todos os abismos.
8 ignis, grando, nix, glacies, spiritus procellarum, quæ faciunt verbum ejus ;
8 O fogo, o granizo, a neve, a geada, o espírito de tempestades, que executam a sua palavra.
9 montes, et omnes colles ; ligna fructifera, et omnes cedri ;
9 Os montes, e todos os outeiros: As árvores frutíferas, e todos os cedros.
10 bestiæ, et universa pecora ; serpentes, et volucres pennatæ ;
10 Os animais, e todos os gados: As serpentes, e as aves que voam:
11 reges terræ et omnes populi ; principes et omnes judices terræ ;
11 Os reis da terra, e todos os povos: Os príncipes, e todos os juízes da terra.
12 juvenes et virgines ; senes cum junioribus, laudent nomen Domini :
12 Os mancebos, e as donzelas: Os velhos com os moços louvem o nome do Senhor:
13 quia exaltatum est nomen ejus solius.
13 Porque só o nome dêle foi exaltado.
14 Confessio ejus super cælum et terram ; et exaltavit cornu populi sui. Hymnus omnibus sanctis ejus ; filiis Israël, populo appropinquanti sibi. Alleluja.
14 O seu louvor é sôbre o céu, e a terra: E exaltou o poder do seu povo. Hino digam todos os seus santos; os filhos de Israel, o povo que se lhe aproxima. Aleluia.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 148: o número é o mesmo nas duas Bíblias?
Sim. Entre os salmos 10 e 147, a numeração da Vulgata (seguida pela liturgia e pela Bíblia Ave-Maria) e a do hebraico (seguida pela maior parte das Bíblias modernas) andam com um número de diferença. No fim do Saltério elas voltam a coincidir, porque a Vulgata une num só os salmos 146 e 147 do hebraico. O salmo 148 é, portanto, o 148 em todas as Bíblias. A tabela completa está na página dos Salmos.
Os três últimos salmos, 148, 149 e 150, começam e terminam todos com «Aleluia» e formam um conjunto: o grande final de louvor do livro. O salmo 150 tem a sua própria página: salmo 150, Laudate Dominum in sanctis ejus.
O que significa o salmo 148? Explicação
O salmo é um convite dirigido a toda a criação, em dois movimentos: primeiro o céu (v. 1-6), depois a terra (v. 7-14). Em cada um, depois da lista dos convidados, vem a razão do louvor. O salmista não fala com Deus: fala com as criaturas, e manda-as louvar.
O louvor do céu (v. 1-6)
«Aleluia. Louvai desde os céus ao Senhor: Louvai-o nas alturas» (v. 1). Os primeiros chamados são os seres mais altos: «Louvai-o, todos os seus anjos: Louvai-o, tôdas as suas virtudes» (v. 2). Depois os astros: «Louvai-o, sol e lua: Louvai-o, tôdas as estrêlas e o lume» (v. 3); e os céus dos céus com as águas que estão acima deles (v. 4).
A razão vem logo: «louvem o nome do Senhor. Porque êle disse, e foram feitas as coisas: Êle mandou e elas foram criadas» (v. 5). É o eco do primeiro capítulo do Gênesis, onde tudo existe porque Deus falou. E o que ele criou, ele o mantém: «Êle as estabeleceu para sempre, e pelo século do século: Preceito pôs, e não se quebrantará» (v. 6). A ordem do universo é obediência.
O louvor da terra (v. 7-12)
O segundo movimento desce: «Louvai ao Senhor os que sois da terra, vós, dragões, e todos os abismos» (v. 7). Os “dragões” são os grandes monstros marinhos, as criaturas mais temíveis do mar. Seguem os elementos: «O fogo, o granizo, a neve, a geada, o espírito de tempestades, que executam a sua palavra» (v. 8). Até a tempestade obedece. Depois a paisagem e os seres vivos: «Os montes, e todos os outeiros: As árvores frutíferas, e todos os cedros» (v. 9); «Os animais, e todos os gados: As serpentes, e as aves que voam» (v. 10).
Por fim, a humanidade inteira, sem distinção de poder, de sexo ou de idade: «Os reis da terra, e todos os povos: Os príncipes, e todos os juízes da terra» (v. 11); «Os mancebos, e as donzelas: Os velhos com os moços louvem o nome do Senhor» (v. 12). Diante de Deus, o rei e o menino estão no mesmo coro.
A razão final: o povo de Deus (v. 13-14)
«Porque só o nome dêle foi exaltado» (v. 13). E o salmo termina no povo que Deus escolheu: «O seu louvor é sôbre o céu, e a terra: E exaltou o poder do seu povo. Hino digam todos os seus santos; os filhos de Israel, o povo que se lhe aproxima. Aleluia» (v. 14). A criação inteira louva a Deus, mas é o seu povo, o povo que «se lhe aproxima», que dá voz consciente a esse louvor.
O salmo 148 e o cântico dos três jovens
O salmo tem um irmão no livro de Daniel: o cântico que os três jovens cantam na fornalha, o Benedicite, que só a Bíblia católica conserva, porque faz parte das passagens de Daniel que a Igreja recebe como canônicas. Ali também toda a criação é chamada, uma por uma: «Obras do Senhor, bendizei tôdas ao Senhor: Louvai-o e sobreexaltai-o por todos os séculos. Anjos do Senhor, bendizei ao Senhor» (Daniel 3, 57-58). A liturgia os pôs lado a lado: nas Laudes de domingo (fora do tempo da Septuagésima e da Quaresma, quando se diz o segundo esquema), o Benedicite é cantado imediatamente antes do salmo 148.
Como as criaturas louvam a Deus?
A pergunta é natural: como podem o fogo, o granizo ou as árvores louvar a Deus? A tradição cristã responde que as criaturas sem razão louvam o Criador com aquilo que são: a sua beleza e a sua ordem proclamam a sabedoria de quem as fez, como diz outro salmo: «Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos» (salmo 18, 2). O homem que as contempla empresta a sua voz a esse louvor mudo. Ele é como o sacerdote da criação, que oferece a Deus com inteligência o que as coisas oferecem só com a sua existência.
O Apocalipse mostra o fim desse caminho, quando toda criatura, no céu, na terra e no mar, louva o Cordeiro: «Ao que está assentado no trono, e ao Cordeiro, bênção, e honra, e glória, e poder por séculos de séculos» (Apocalipse 5, 13).
O salmo 148 na liturgia de 1962
Laudes de domingo e das festas. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 148 é o último salmo das Laudes de domingo, depois do Benedicite, com a antífona Alleluia, laudate Dominum de cælis, alleluia, alleluia. Como as Laudes das festas tomam os salmos do domingo, ele é cantado também em todas as festas: Natal, Páscoa, festas de Nossa Senhora e dos santos. Você pode rezar as Laudes no breviário.
Antes de 1911. No Breviário anterior à reforma de São Pio X, os três últimos salmos, 148, 149 e 150, eram cantados juntos todos os dias no fim das Laudes. Os seus repetidos Laudate deram o nome à Hora da aurora: Laudes, os louvores.
Os anjos na Missa. O versículo 2, Laudate Dominum, omnes Angeli ejus: laudate eum, omnes virtutes ejus, é o aleluia do II domingo depois da Epifania, o trato da Missa de São Rafael Arcanjo (festa a 24 de outubro), usado quando essa Missa é dita no tempo da Septuagésima e da Quaresma, e o verso do intróito de São Luís Gonzaga (21 de junho), o jovem santo cuja pureza a Igreja compara à dos anjos.
Como rezar o salmo 148
Quem procura “salmo 148 para que serve” encontra a resposta no próprio texto: ele serve para louvar a Deus com toda a criação. Não é uma fórmula para obter algo; atribuir a um salmo um efeito automático é superstição, que o Catecismo (n. 2111) e o Catecismo Romano condenam ao explicar o primeiro mandamento.
- De manhã. É a sua hora litúrgica. Rezado ao amanhecer, com as orações da manhã, une o fiel a toda a criação que acorda.
- Diante da natureza. Numa caminhada, diante do mar ou de um céu estrelado, o salmo dá palavras para transformar a admiração em louvor.
- Com os anjos. O versículo 2 une a oração da terra à dos anjos; reza-se bem com a oração do anjo da guarda ou na festa de São Miguel Arcanjo.
- Em família. O versículo 12, «Os velhos com os moços louvem o nome do Senhor», é uma oração para as gerações reunidas.
Conclui-se com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
O salmo 148 tem o mesmo número na Bíblia católica e nas outras?
Sim. Do salmo 148 ao 150, a numeração da Vulgata, da Bíblia Ave-Maria e das Bíblias de numeração hebraica coincide.
Quem escreveu o salmo 148?
O título traz apenas «Aleluia», sem nome de autor. A Igreja o recebe como Palavra de Deus inspirada pelo Espírito Santo; o seu autor humano é desconhecido.
O que significa o salmo 148?
É um convite a toda a criação para louvar a Deus: os anjos, os astros, os elementos, os animais e todos os homens. A razão está no versículo 5: Deus falou, e tudo foi criado. O louvor termina no povo de Deus, que dá voz consciente ao louvor de todas as criaturas.
O que quer dizer “os velhos com os moços louvem o nome do Senhor”?
É o versículo 12: «Os mancebos, e as donzelas: Os velhos com os moços louvem o nome do Senhor». Diante de Deus não há idade nem condição que dispense do louvor: jovens e velhos, homens e mulheres, reis e povos formam um só coro.
Qual a relação do salmo 148 com o Benedicite?
O Benedicite, cântico dos três jovens na fornalha (Daniel 3), chama como o salmo 148 todas as criaturas ao louvor. Nas Laudes de domingo do Breviário de 1962 (no primeiro esquema, fora da Septuagésima e da Quaresma), o Benedicite é cantado imediatamente antes do salmo 148.
Quando a Igreja reza o salmo 148?
No Breviário Romano de 1962, nas Laudes de domingo e de todas as festas, como último salmo. Antes de 1911, era cantado todos os dias nas Laudes com os salmos 149 e 150.
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