A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 149: Cantate Domino canticum novum, o cântico novo dos santos
O salmo 149, *Cantate Domino canticum novum*, é o penúltimo do Saltério: o povo de Deus canta um cântico novo ao seu Criador e ao seu Rei, com os louvores de Deus na boca e a espada de dois fios na mão. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado, a leitura dos Padres sobre a espada, o lugar nas Laudes de sábado e o modo de rezá-lo.
1 Alleluja. Cantate Domino canticum novum ; laus ejus in ecclesia sanctorum.
1 Aleluia. Cantai ao Senhor um novo cântico: Seja o seu louvor na Igreja dos Santos.
2 Lætetur Israël in eo qui fecit eum, et filii Sion exsultent in rege suo.
2 Alegre-se Israel naquele que o fêz: E os filhos de Sião regozijem-se em seu rei.
3 Laudent nomen ejus in choro ; in tympano et psalterio psallant ei.
3 Louvem o seu nome em côro: Com tambor, e saltério louvem-no a êle.
4 Quia beneplacitum est Domino in populo suo, et exaltabit mansuetos in salutem.
4 Porque o Senhor se tem comprazido no seu povo: E exaltará aos mansos para os salvar.
5 Exsultabunt sancti in gloria ; lætabuntur in cubilibus suis.
5 Regozijar-se-ão os santos na glória: Êles se alegrarão nas suas mansões.
6 Exaltationes Dei in gutture eorum, et gladii ancipites in manibus eorum :
6 Altos louvores de Deus se acham na sua bôca: E espadas de dois fios nas suas mãos.
7 ad faciendam vindictam in nationibus, increpationes in populis ;
7 Para fazer vingança nas nações: Castigos nos povos.
8 ad alligandos reges eorum in compedibus, et nobiles eorum in manicis ferreis ;
8 Para meter os reis dêles em grilhões: E os seus nobres em algemas de ferro.
9 ut faciant in eis judicium conscriptum : gloria hæc est omnibus sanctis ejus. Alleluja.
9 Para exercer sôbre êles o juízo prescrito: Esta glória é reservada para todos os seus santos. Aleluia.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 149: o mesmo número em todas as Bíblias
O salmo 149 tem o mesmo número na Vulgata, em Figueiredo, na Bíblia Ave-Maria e nas Bíblias modernas. As duas numerações, defasadas a partir do salmo 9, voltam a coincidir no salmo 148, porque a Vulgata divide em dois o salmo 147 do hebraico. Quem procura o “salmo 149” encontra, portanto, aqui o mesmo salmo da sua Bíblia, numa outra tradução. As outras correspondências estão na página dos Salmos.
Não se deve confundi-lo com outros salmos que começam do mesmo modo: o salmo 96 das Bíblias modernas (95 na Vulgata) e o salmo 98 (97 na Vulgata) também se abrem com «Cantai ao Senhor um cântico novo».
O que significa o salmo 149? Explicação
É o penúltimo dos salmos do Aleluia que fecham o Saltério, entre o apelo cósmico do salmo 148, Laudate Dominum de cælis, e o aleluia final do salmo 150. Depois do louvor de toda a criação, vem o louvor próprio do povo de Deus, «a Igreja dos Santos». O título é só a palavra «Aleluia» (v. 1), “louvai o Senhor”.
O cântico novo (v. 1-3)
«Cantai ao Senhor um novo cântico: Seja o seu louvor na Igreja dos Santos» (v. 1). O latim diz laus ejus in ecclesia sanctorum, e Figueiredo traduz sem hesitar «Igreja». O motivo do louvor é duplo: Deus é o criador do seu povo e o seu rei. «Alegre-se Israel naquele que o fêz: E os filhos de Sião regozijem-se em seu rei» (v. 2). A alegria se faz música: «Louvem o seu nome em côro: Com tambor, e saltério louvem-no a êle» (v. 3). O latim in choro pode entender-se como coro ou como dança.
Santo Agostinho dedicou ao primeiro versículo um célebre sermão: só o homem novo conhece o cântico novo. A novidade do canto não vem de palavras novas, mas da caridade que o Espírito Santo derrama no coração; o cântico novo é a vida nova. O Apocalipse mostra os resgatados que, diante do trono, «cantavam um como cântico novo», que ninguém mais podia cantar (Apocalipse 14,3).
Deus se compraz no seu povo (v. 4-5)
O versículo 4 diz o fundamento dessa alegria: «Porque o Senhor se tem comprazido no seu povo: E exaltará aos mansos para os salvar» (v. 4). O latim é forte: beneplacitum est Domino in populo suo, o Senhor encontra o seu agrado no seu povo. Não é antes de tudo o povo que ama a Deus; é Deus que encontra nele a sua alegria.
E os que ele exalta são os mansos, não os poderosos, como o Senhor ensinará: «aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração» (Mateus 11,29). Então «Regozijar-se-ão os santos na glória: Êles se alegrarão nas suas mansões» (v. 5). O latim in cubilibus suis, “nos seus leitos”, sugere que o louvor continua até no repouso da noite; os Padres leram aí também o repouso eterno dos santos.
As espadas de dois fios (v. 6-9)
A segunda parte surpreende: «Altos louvores de Deus se acham na sua bôca: E espadas de dois fios nas suas mãos» (v. 6), «Para fazer vingança nas nações: Castigos nos povos» (v. 7), «Para meter os reis dêles em grilhões: E os seus nobres em algemas de ferro» (v. 8). No sentido literal, o salmo evoca as guerras de Israel contra os povos que o oprimiam.
A leitura cristã sempre deu a essa espada outro nome. A Epístola aos Hebreus o diz: «a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que tôda a espada de dois gumes» (Hebreus 4,12). São Paulo chama «a espada do espírito (que é a palavra de Deus)» (Efésios 6,17) a arma do cristão. Os santos conquistam as nações pela pregação, e os reis acorrentados são os que o Evangelho submeteu ao jugo suave de Cristo. O último versículo dá o sentido de todo o combate: «Esta glória é reservada para todos os seus santos» (v. 9). A vitória não pertence às armas, mas aos que têm na boca o louvor de Deus.
“O Senhor ama o seu povo”: o versículo 4
Muitos procuram o salmo 149 pelo refrão “O Senhor ama o seu povo de verdade”, cantado em muitas paróquias. Ele vem do versículo 4, que Figueiredo traduz, mais perto do latim, «Porque o Senhor se tem comprazido no seu povo». O sentido é o mesmo, e ainda mais forte: Deus não apenas ama o seu povo, mas se alegra nele, como um pai nos seus filhos. E esse povo não é definido pela força, mas pela mansidão: Deus «exaltará aos mansos para os salvar».
É a mesma alegria que o Pai manifesta sobre o Filho no batismo do Jordão, e que se estende a todos os que estão em Cristo. O cristão que reza o salmo 149 se sabe objeto dessa complacência, não por mérito próprio, mas por graça.
O salmo 149 na liturgia de 1962
As Laudes de sábado. O salmo 149 é um dos três salmos de louvor, com o 148 e o 150, que deram o nome à Hora das Laudes: antes da reforma de São Pio X (1911), eles eram cantados juntos todos os dias no fim dessa Hora. No Breviário Romano de 1962, o salmo 149 abre as Laudes de sábado no esquema ordinário, com a antífona Filii Sion exsultent in Rege suo, tirada do versículo 2, e o salmo 150 as encerra. Você pode rezá-lo no breviário; a página sobre a Liturgia das Horas explica a organização do Ofício.
As Missas dos mártires. No Missal de 1962, os versículos 5 e 6, Exsultabunt sancti in gloria, lætabuntur in cubilibus suis: exaltationes Dei in faucibus eorum, formam o Ofertório da Missa Sapientiam Sanctorum, do Comum de vários mártires. A Igreja reconhece neles os santos que combateram só com a espada da fé e agora exultam na glória.
Como rezar o salmo 149
- De manhã. O versículo 1 abre o dia com um cântico novo: mais do que palavras novas, um coração renovado; veja também as orações da manhã.
- Na Igreja. Este salmo se reza no plural: «a Igreja dos Santos» é a Igreja inteira, militante, padecente e triunfante, unida na comunhão dos santos.
- Antes de ler a Escritura. O versículo 6 lembra que a palavra de Deus é uma espada: recebe-se para ser por ela atravessado e convertido, antes de brandi-la contra os outros.
- Nas festas dos mártires, com o Ofertório Exsultabunt sancti, e para conhecer melhor os santos que a Igreja venera.
Para que serve o salmo 149? A Igreja o canta para louvar a Deus que se alegra no seu povo. As espadas do versículo 6 não são um convite à violência nem uma fórmula de vitória contra inimigos: são, para a tradição, a palavra de Deus. Termine-o com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Qual é o significado do salmo 149?
É um canto de alegria do povo de Deus, que louva o seu Criador e o seu Rei com um cântico novo. Afirma que o Senhor se compraz no seu povo e exalta os mansos. As suas espadas de dois fios figuram, para a tradição, a palavra de Deus que conquista as nações, não a violência.
O que quer dizer «o Senhor se tem comprazido no seu povo»?
É o versículo 4. Deus encontra a sua alegria naqueles que escolheu, e são os mansos os que ele exalta e salva. O latim, beneplacitum est Domino in populo suo, diz a complacência de Deus.
Quem escreveu o salmo 149?
O salmo tem por título apenas Aleluia, sem nome de autor. A tradição o põe entre os salmos de louvor do Saltério, livro que a Igreja liga a Davi; muitos comentadores o situam depois da volta do exílio. O autor principal é o Espírito Santo.
Quando a Igreja canta o salmo 149?
No Breviário Romano de 1962, todo sábado, como primeiro salmo das Laudes. Até a reforma de 1911, era cantado todos os dias nas Laudes, junto com os salmos 148 e 150.
O salmo 149 é o mesmo na Bíblia Ave-Maria?
Sim. A partir do salmo 148, as Bíblias que seguem a Vulgata, como a Ave-Maria e Figueiredo, e as que seguem o hebraico voltam a ter os mesmos números. O salmo 149 é o Cantate Domino canticum novum em todas.
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