A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 30 (29 na Vulgata e na Ave-Maria): Exaltabo te, de tarde as lágrimas e de manhã a alegria
O salmo 30 das Bíblias modernas é o salmo 29 da Vulgata, o *Exaltabo te, Domine*: a ação de graças de um homem que Deus arrancou da morte, o do versículo «De tarde estaremos em lágrimas: E de manhã em alegria». Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica o significado, a leitura pascal dos Padres, o uso na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 29 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 28.
1 Psalmus cantici, in dedicatione domus David.
1 Salmo de Cântico. Na dedicação da casa de Davi.
2 Exaltabo te, Domine, quoniam suscepisti me, nec delectasti inimicos meos super me.
2 Eu te glorificarei, Senhor, porque me recebeste: E não comprazeste a meus inimigos em meu dano.
3 Domine Deus meus, clamavi ad te, et sanasti me.
3 Senhor meu Deus, eu clamei a ti, e tu me saraste.
4 Domine, eduxisti ab inferno animam meam ; salvasti me a descendentibus in lacum.
4 Senhor, tiraste do inferno a minha alma: Puseste-me a salvo dos que descem ao lago.
5 Psallite Domino, sancti ejus ; et confitemini memoriæ sanctitatis ejus.
5 Santos do Senhor, cantai-lhe hinos: E celebrai a memória da sua santidade.
6 Quoniam ira in indignatione ejus, et vita in voluntate ejus : ad vesperum demorabitur fletus, et ad matutinum lætitia.
6 Porque êle nos fere na sua ira: E êle nos dá a vida na sua boa vontade. De tarde estaremos em lágrimas: E de manhã em alegria.
7 Ego autem dixi in abundantia mea : Non movebor in æternum.
7 Ora eu tinha dito na minha abundância: Não terei jamais mudança.
8 Domine, in voluntate tua præstitisti decori meo virtutem ; avertisti faciem tuam a me, et factus sum conturbatus.
8 Senhor, por teu querer deste firmeza à minha prosperidade. Apartaste de mim teu rosto, e eu fiquei conturbado.
9 Ad te, Domine, clamabo, et ad Deum meum deprecabor.
9 A ti, Senhor, clamarei: E ao meu Deus rogarei.
10 Quæ utilitas in sanguine meo, dum descendo in corruptionem ? numquid confitebitur tibi pulvis, aut annuntiabit veritatem tuam ?
10 Que proveito há no meu sangue, se desço à corrupção? Porventura dirá o pó o teu louvor, ou publicará êle a tua verdade?
11 Audivit Dominus, et misertus est mei ; Dominus factus est adjutor meus.
11 O Senhor me ouviu, e se compadeceu de mim: O Senhor se fêz meu ajudador.
12 Convertisti planctum meum in gaudium mihi ; conscidisti saccum meum, et circumdedisti me lætitia :
12 Tu converteste o meu pranto em gôzo: Tu rasgaste o meu saco, e todo me cercaste de alegria:
13 ut cantet tibi gloria mea, et non compungar. Domine Deus meus, in æternum confitebor tibi.
13 Para que te cante na minha glória: E eu não tenha penas: Senhor Deus meu, eu te louvarei eternamente.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 30 ou salmo 29?
Este salmo tem dois números. As Bíblias modernas seguem o hebraico e o chamam salmo 30; a Vulgata, a Septuaginta e os livros litúrgicos da Igreja o contam como salmo 29, porque unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. A Bíblia Ave-Maria, que segue a numeração da Vulgata, também o numera 29. É o mesmo texto, que em latim começa com Exaltabo te, Domine, quoniam suscepisti me. A tabela completa está na página dos Salmos.
Atenção ao número vizinho: quem procura o salmo 30 da Bíblia Ave-Maria procura outro salmo, o In te, Domine, speravi, o das palavras de Jesus na cruz, «Nas tuas mãos encomendo o meu espírito». Nas Bíblias modernas é o salmo 31, e está na página do salmo 31 (30 na Vulgata).
Os versículos também podem variar de uma unidade. Figueiredo, como a Vulgata, conta o título como versículo 1; muitas Bíblias, sobretudo protestantes, não o numeram. O versículo das lágrimas e da alegria, que muitos procuram como “salmo 30, 5”, é assim o versículo 6 nesta página.
O que significa o salmo 30? Explicação
O título latino, Psalmus cantici, in dedicatione domus David, torna-se em Figueiredo «Salmo de Cântico. Na dedicação da casa de Davi» (v. 1). Davi tinha mandado construir a sua casa em Jerusalém com a madeira de cedro enviada por Hirão, rei de Tiro: «E edificaram a casa de Davi» (2 Samuel 5,11, o II Livro dos Reis de Figueiredo). E, no entanto, o salmo não fala de paredes: canta uma vida devolvida. É a ação de graças de quem esteve doente à beira da morte, ou num perigo mortal, e que Deus levantou.
O grito de gratidão (v. 2-4). O salmo começa pelo fim da história: «Eu te glorificarei, Senhor, porque me recebeste: E não comprazeste a meus inimigos em meu dano». O latim suscepisti me é o gesto de quem levanta do chão alguém que caiu. Depois, o relato em poucas palavras: «Senhor meu Deus, eu clamei a ti, e tu me saraste» (v. 3). E a medida do perigo: «Senhor, tiraste do inferno a minha alma: Puseste-me a salvo dos que descem ao lago» (v. 4). O “inferno” é aqui o sheol, a morada dos mortos, e o “lago” é a cova.
As lágrimas da tarde (v. 5-6). O salvo convida os fiéis a se unirem a ele: «Santos do Senhor, cantai-lhe hinos: E celebrai a memória da sua santidade» (v. 5). Vem então o versículo mais célebre: «Porque êle nos fere na sua ira: E êle nos dá a vida na sua boa vontade. De tarde estaremos em lágrimas: E de manhã em alegria» (v. 6). A desproporção é proposital: a provação é uma noite, o favor de Deus é uma vida inteira. A tarde das lágrimas não é a última palavra; anuncia uma manhã.
A presunção confessada (v. 7-8). O salmista conta como a provação chegou: «Ora eu tinha dito na minha abundância: Não terei jamais mudança» (v. 7). Tinha esquecido que a sua força vinha de Deus. Então Deus se escondeu: «Apartaste de mim teu rosto, e eu fiquei conturbado» (v. 8). A prosperidade expõe ao esquecimento de Deus; a provação reconduz a ele.
A oração na provação (v. 9-11). Eis a súplica daqueles dias: «Que proveito há no meu sangue, se desço à corrupção? Porventura dirá o pó o teu louvor, ou publicará êle a tua verdade?» (v. 10). É o mesmo argumento do rei Ezequias curado, no seu cântico: «O que vive, o que vive, êsse é o que te bendirá, como eu também o faço hoje» (Isaías 38,19). E Deus respondeu: «O Senhor me ouviu, e se compadeceu de mim: O Senhor se fêz meu ajudador» (v. 11).
O saco rasgado (v. 12-13). O fecho é um dos quadros de alegria mais belos do Saltério: «Tu converteste o meu pranto em gôzo: Tu rasgaste o meu saco, e todo me cercaste de alegria» (v. 12). O saco era a veste do luto e da penitência; é o próprio Deus quem o rasga. A última palavra é uma promessa sem fim: «Senhor Deus meu, eu te louvarei eternamente» (v. 13).
«De tarde estaremos em lágrimas, e de manhã em alegria»: da Sexta-feira Santa à Páscoa
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, ouve neste salmo a voz de Cristo ressuscitado. A “casa” que se dedica é para ele o corpo de Cristo, destruído e reconstruído em três dias, e depois a Igreja, casa feita de pedras vivas. A alma tirada do inferno é a descida de Cristo à mansão dos mortos e a sua ressurreição.
O versículo 6 ganha então todo o seu peso. As lágrimas da tarde são as da Sexta-feira Santa e do sepulcro fechado; a alegria da manhã é a das santas mulheres que encontram o túmulo vazio ao amanhecer do primeiro dia da semana. O Senhor o tinha anunciado: «vós haveis de estar tristes, mas que a vossa tristeza se há de converter em gôzo» (João 16,20). O saco rasgado do versículo 12 é o luto da humanidade, que a Ressurreição transforma em veste de festa. Por isso o salmo acompanha a alegria da Páscoa.
O salmo 29 na liturgia de 1962
As Matinas de segunda-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, que segue a reforma de São Pio X (1911), o salmo 29 é o último dos nove salmos das Matinas de segunda-feira, no terceiro noturno, com a antífona Exaltabo te, Domine, quoniam suscepisti me. Quem canta «de manhã em alegria» canta-o assim antes da aurora, quando a noite termina. Você pode rezá-lo no breviário.
O Sábado Santo. Nas Matinas de Trevas do Sábado Santo, é o terceiro salmo do segundo noturno, com a antífona Domine, abstraxisti ab inferis animam meam, tirada do versículo 4: a Igreja o reza junto ao sepulcro, esperando a manhã da Páscoa.
A Ascensão. Nas Matinas da Ascensão, volta no segundo noturno, com a antífona Exaltabo te, Domine, quoniam suscepisti me, alleluia.
No Missal. Os primeiros versículos formam o Ofertório da Quarta-feira de Cinzas e o do 11º domingo depois de Pentecostes: Exaltabo te, Domine, quoniam suscepisti me, nec delectasti inimicos meos super me. Na sexta-feira depois das Cinzas, o Introito canta o versículo 11, Audivit Dominus, et misertus est mihi: Dominus factus est adjutor meus; na quarta-feira da semana da Paixão, os versículos 2-4 formam o Gradual. No começo da Quaresma, portanto, a Igreja já canta a ação de graças do perdoado: o caminho penitencial começa na certeza da misericórdia. O Introito da Imaculada Conceição, em 8 de dezembro, e o do Comum dos Sumos Pontífices tomam o versículo 2 como versículo do salmo.
Como rezar o salmo 30
Depois de uma cura. É o salmo do pedido atendido. Uma doença superada, uma cirurgia bem-sucedida, um perigo afastado: ele dá as palavras da gratidão e prolonga a oração de cura. Forma um par com o salmo 6, Domine, ne in furore, o primeiro dos salmos penitenciais, onde o doente ainda suplica: «Porque na morte não há quem se lembre de ti: E no inferno quem te louvará?». O salmo 6 é a oração de antes, o salmo 30 a de depois.
Na noite. Quando uma provação parece não ter fim, o versículo 6 é uma oração de esperança: a tarde é real, mas a manhã virá.
Contra a presunção. O versículo 7 é um exame de consciência para os dias felizes: não dizer «Não terei jamais mudança», mas agradecer a força recebida.
Em ação de graças. Combina com a oração de agradecimento e com o salmo 34 (33 na Vulgata), Benedicam Dominum. Termine-o, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
E a “quebra de maldição”? Muitos procuram o salmo 30 “para quebra de maldição”. A Igreja não conhece esse uso. Um salmo não é uma fórmula que desfaz males por si mesma, e tratá-lo assim é superstição, contrária ao primeiro mandamento. Quem teme estar sob a influência do mal tem os meios que a Igreja oferece: a confissão, a Missa, a oração confiante, os sacramentais usados com fé, e, se for o caso, o conselho de um sacerdote. Rezado com fé, o salmo 30 é uma ação de graças pela vida devolvida, não um amuleto.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 30 é chamado de salmo 29?
Porque a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 30 das Bíblias modernas é, portanto, o salmo 29 da Vulgata, o Exaltabo te, Domine. O salmo 30 da Vulgata é o In te, Domine, speravi, o 31 das Bíblias modernas.
O que significa «de tarde estaremos em lágrimas, e de manhã em alegria»?
É o versículo 6 desta página (o 5 nas Bíblias que não numeram o título). Ensina que a provação passa e que o favor de Deus permanece: a tristeza dura uma noite, a vida que Deus dá dura para sempre. Santo Agostinho lê nele a passagem da Sexta-feira Santa à manhã da Páscoa.
Qual é o significado do salmo 30?
É a ação de graças de um homem que Deus levantou de uma doença mortal ou de um grande perigo, depois de uma provação que o curou da presunção. Santo Agostinho ouve nele a voz de Cristo ressuscitado.
O salmo 30 é uma oração de cura?
É uma oração de quem foi curado: o versículo 3 diz «eu clamei a ti, e tu me saraste». Reza-se depois de uma cura, para agradecer, e também durante a doença, na confiança de que Deus ouve. Não é uma fórmula que cura por si mesma.
Quem escreveu o salmo 30?
O título o atribui a Davi e o liga à dedicação da sua casa. A tradição o acolhe como o canto do rei depois de uma libertação, inspirado pelo Espírito Santo.
Posso rezar o salmo 30 em latim?
Sim, o latim da Vulgata está ao lado do português nesta página. O versículo 2, Exaltabo te, Domine, quoniam suscepisti me, é o que a Igreja canta no Ofertório da Quarta-feira de Cinzas e na antífona das Matinas de segunda-feira.
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