A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 94 (93 na Vulgata e na Ave-Maria): Deus ultionum, o Juiz que vê e consola
O salmo 94 das Bíblias modernas é o salmo 93 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Deus ultionum*, «O Deus das vinganças é o Senhor», a oração do justo oprimido que entrega a sua causa a Deus e descobre, no meio das dores, as consolações do Senhor. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica o salmo, os versículos 18 e 19, a leitura dos Padres e o seu lugar na liturgia de 1962.
Procura o salmo 93 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 92.
1 Psalmus ipsi David, quarta sabbati. Deus ultionum Dominus ; Deus ultionum libere egit.
1 Salmo do mesmo Davi, para o dia quarto da semana. O Deus das vinganças é o Senhor: O Deus das vinganças sempre obrou livremente.
2 Exaltare, qui judicas terram ; redde retributionem superbis.
2 Exalta-te tu que julgas a terra: Dá a retribuição aos soberbos.
3 Usquequo peccatores, Domine, usquequo peccatores gloriabuntur ;
3 Até quando os pecadores, Senhor: Até quando os pecadores se hão de gloriar:
4 effabuntur et loquentur iniquitatem ; loquentur omnes qui operantur injustitiam ?
4 Pronunciarão, e falarão iniqüidade: E falarão todos os que obram injustiça?
5 Populum tuum, Domine, humiliaverunt, et hæreditatem tuam vexaverunt.
5 Ao teu povo, Senhor, humilharam: E à tua herança maltrataram.
6 Viduam et advenam interfecerunt, et pupillos occiderunt.
6 À viúva, e ao estrangeiro mataram: E aos órfãos tiraram a vida.
7 Et dixerunt : Non videbit Dominus, nec intelliget Deus Jacob.
7 E disseram: Não o verá o Senhor, nem o saberá o Deus de Jacó.
8 Intelligite, insipientes in populo ; et stulti, aliquando sapite.
8 Entendei, insensatos do povo: E vós, néscios, entrai uma vez em prudência.
9 Qui plantavit aurem non audiet ? aut qui finxit oculum non considerat ?
9 O que plantou o ouvido, não ouvirá? Ou o que formou o ôlho, não verá?
10 Qui corripit gentes non arguet, qui docet hominem scientiam ?
10 O que castiga as gentes, não repreenderá: Êle que ensina ao homem ciência?
11 Dominus scit cogitationes hominum, quoniam vanæ sunt.
11 O Senhor conhece os pensamentos dos homens, que são vãos.
12 Beatus homo quem tu erudieris, Domine, et de lege tua docueris eum :
12 Bem-aventurado o homem, a quem tu instruíres, Senhor: E na tua lei amestrares.
13 ut mitiges ei a diebus malis, donec fodiatur peccatori fovea.
13 A fim de o pôr em descanso nos dias maus: Entretanto que se abre a cova para o pecador.
14 Quia non repellet Dominus plebem suam, et hæreditatem suam non derelinquet,
14 Porque o Senhor não repelirá o seu povo: Nem abandonará a sua herança.
15 quoadusque justitia convertatur in judicium : et qui juxta illam, omnes qui recto sunt corde.
15 Até que a justiça venha a fazer juízo: E que estejam perto dela todos os que são retos de coração.
16 Quis consurget mihi adversus malignantes ? aut quis stabit mecum adversus operantes iniquitatem ?
16 Quem se levantará a meu favor contra os malignos? Ou quem estará comigo contra os que obram iniqüidade?
17 Nisi quia Dominus adjuvit me, paulominus habitasset in inferno anima mea.
17 Se não fôsse porque o Senhor me valeu: Quase que a minha alma houvera caído no inferno.
18 Si dicebam : Motus est pes meus : misericordia tua, Domine, adjuvabat me.
18 Se dizia: Está vacilante o meu pé: A tua misericórdia, Senhor, me sustentava.
19 Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuæ lætificaverunt animam meam.
19 Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma.
20 Numquid adhæret tibi sedes iniquitatis, qui fingis laborem in præcepto ?
20 Acaso tem união contigo a cadeira da iniqüidade: Quando tu nos impões mandamentos penosos?
21 Captabunt in animam justi, et sanguinem innocentem condemnabunt.
21 Êles irão à caça da alma do justo: E condenarão o sangue inocente.
22 Et factus est mihi Dominus in refugium, et Deus meus in adjutorium spei meæ.
22 Mas o Senhor me serviu de refúgio: E o meu Deus de socorro da minha esperança.
23 Et reddet illis iniquitatem ipsorum, et in malitia eorum disperdet eos : disperdet illos Dominus Deus noster.
23 E fará cair sôbre êles a sua iniqüidade: E na sua malícia os destruirá: Destrui-los-á a êles o Senhor nosso Deus.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 94 ou salmo 93?
Com o número 94 se designam dois salmos diferentes, conforme a Bíblia que você abre: é a primeira coisa a saber. Nas Bíblias traduzidas do hebraico, o salmo 94 é o Deus ultionum, o Deus das vinganças: é o salmo desta página, que na Vulgata, na Bíblia Ave-Maria, na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo e nos livros litúrgicos leva o número 93. Na Vulgata e na liturgia, por sua vez, o salmo 94 é outro canto, o Venite, exsultemus Domino do invitatório, que as Bíblias modernas chamam de salmo 95. Quem procura o “salmo 94” do “não fecheis o coração” procura esse, o salmo 95 (94 na Vulgata): «Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer os vossos corações».
A diferença vem de a Vulgata juntar num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Daí uma segunda confusão: o salmo 93 de uma Bíblia moderna é o breve Dominus regnavit, que na Vulgata é o salmo 92: «O Senhor reinou, vestiu-se de magnificência». Para o Deus ultionum, em compensação, os versículos têm o mesmo número nas duas tradições: o “salmo 94, 19” que se procura é o versículo 19 desta página. A tabela completa está na página do livro dos Salmos.
O que significa o salmo 94? Explicação
O título latino o atribui a Davi e o destina à quarta-feira: «Salmo do mesmo Davi, para o dia quarto da semana» (v. 1). É uma oração que apela ao tribunal de Deus e que, pouco a pouco, se transforma em confissão de confiança.
O apelo ao Juiz (v. 1-7)
O salmo se abre com um nome que desconcerta: «O Deus das vinganças é o Senhor: O Deus das vinganças sempre obrou livremente» (v. 1). Não se trata de rancor. A vingança, na linguagem bíblica, é o ato do juiz que restabelece o direito quando ninguém mais pode fazê-lo. Daí o apelo: «Exalta-te tu que julgas a terra: Dá a retribuição aos soberbos» (v. 2). E a pergunta que atravessa tantos salmos: «Até quando os pecadores se hão de gloriar» (v. 3).
O salmista descreve então a opressão: os poderosos «À viúva, e ao estrangeiro mataram: E aos órfãos tiraram a vida» (v. 6), isto é, justamente aqueles que a Lei punha sob a proteção direta de Deus. O crime deles repousa numa mentira: «Não o verá o Senhor, nem o saberá o Deus de Jacó» (v. 7).
A lição aos insensatos (v. 8-15)
Contra essa mentira o salmo levanta o argumento mais simples que existe: «O que plantou o ouvido, não ouvirá? Ou o que formou o ôlho, não verá?» (v. 9). Quem deu ao homem o poder de ver não pode ser cego. Depois: «O Senhor conhece os pensamentos dos homens, que são vãos» (v. 11). São Paulo cita este versículo para confundir a sabedoria do mundo, em 1 Coríntios 3: «O Senhor conhece os pensamentos dos sábios que são vãos».
Vem então uma bem-aventurança inesperada: «Bem-aventurado o homem, a quem tu instruíres, Senhor: E na tua lei amestrares» (v. 12). O latim erudieris indica uma educação que passa pela correção. A provação do justo não é abandono, mas pedagogia, «A fim de o pôr em descanso nos dias maus» (v. 13), como lembra a Epístola aos Hebreus a propósito do Pai que corrige os filhos, no capítulo 12: «Porque o Senhor castiga ao que ama». E vem a certeza: «Porque o Senhor não repelirá o seu povo: Nem abandonará a sua herança» (v. 14).
O amparo e as consolações (v. 16-23)
A última parte se torna pessoal. «Quem se levantará a meu favor contra os malignos?» (v. 16). E a resposta: «Se não fôsse porque o Senhor me valeu: Quase que a minha alma houvera caído no inferno» (v. 17). Vêm então os dois versículos mais procurados, que têm uma seção própria logo abaixo. O salmo termina numa confissão de confiança: «Mas o Senhor me serviu de refúgio» (v. 22).
Salmo 94, 18-19: «as tuas consolações alegraram a minha alma»
Em Figueiredo, os dois versículos dizem:
«Se dizia: Está vacilante o meu pé: A tua misericórdia, Senhor, me sustentava» (v. 18).
«Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma» (v. 19).
O latim do versículo 19 é Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuæ lætificaverunt animam meam. As Bíblias modernas o traduzem mais ou menos assim: quando a angústia me oprimia, o teu conforto me consolou.
O movimento é decisivo. Depois da injustiça de fora, o justo descobre a luta de dentro. Deus não responde antes de tudo mudando as circunstâncias, mas visitando a alma. Três coisas se podem notar. A dor não é negada: é «muitas», está no coração. A consolação não vem dos homens, mas de Deus: são «as tuas consolações». E o fruto não é só a calma, mas a alegria: Deus não se limita a acalmar a alma, alegra-a. E a medida da consolação é a da dor: «Segundo as muitas dores».
A leitura dos Padres
Santo Agostinho, comentando este salmo nas Enarrationes in Psalmos, previne contra um mal-entendido: pedir a Deus que julgue não é desejar a ruína do pecador, mas desejar que o mal seja destruído; e o homem mau, se se converte, é o primeiro a ser libertado. Deus tarda não porque ignore, mas para deixar o tempo da penitência.
A tradição ouviu também no justo do salmo a voz de Cristo, o Justo contra quem os maus «irão à caça da alma do justo: E condenarão o sangue inocente» (v. 21), e que entregou a sua causa ao Pai. A mesma luta interior se lê no salmo 73 (72 na Vulgata), Quam bonus, «Quão bom é Deus para Israel!», e a mesma lição de paciência no salmo 37 (36 na Vulgata), Noli æmulari: não se irritar contra os maus.
O salmo 94 na liturgia de 1962
Na Prima do sábado. No Breviário Romano de 1962, o salmo 93 se reza na Prima do sábado, dividido em duas partes (v. 1-11 e v. 12-23), com a antífona Exaltare, Domine, qui judicas terram: redde retributionem superbis, tirada do versículo 2. Segue-o o salmo 107 da Vulgata. No começo do dia de trabalho, no último dia da semana, a Igreja entrega ao Juiz da terra o peso das injustiças do mundo e pede a força de não se vingar por si mesma. Você pode acompanhar essa Hora no breviário do dia.
Na Sexta-feira Santa. As Matinas da Sexta-feira Santa terminam o terceiro noturno com este salmo e a antífona Captabunt in animam justi, et sanguinem innocentem condemnabunt, tirada do versículo 21: a Igreja ouve nele a condenação do Inocente.
No Sagrado Coração. Nas Matinas da festa do Sagrado Coração de Jesus, o salmo fecha o segundo noturno, com uma antífona tirada do versículo 19 e aplicada ao Coração de Cristo: Secundum multitudinem dolorum meorum in Corde meo, consolationes tuæ lætificaverunt animam meam. Para a devoção, veja a consagração ao Sagrado Coração.
Como rezar o salmo 94
- Quando se sofre uma injustiça. Diante da calúnia ou do abuso de poder, este salmo entrega a causa a Deus em vez de retomá-la com a vingança pessoal.
- Na angústia interior. Repita devagar os versículos 18 e 19 quando os pensamentos se atropelam: é uma oração da noite para os dias pesados, que se pode unir às orações da noite.
- Pela defesa dos fracos. O salmo toma o partido da viúva, do estrangeiro e do órfão: pode-se rezá-lo por quem não tem defensor.
- Como ato de fé na Providência. Deus vê, ouve e retribuirá: é a doutrina da Providência feita oração.
Muitos perguntam “para que serve o salmo 94”. Ele serve para o que a Igreja faz com ele: entregar a Deus a justiça que não podemos fazer e pedir a sua consolação. Não é uma oração de vingança nem uma fórmula contra inimigos; um salmo não age por si mesmo, como um encanto, e atribuir-lhe esse poder seria superstição. Combina bem com o salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat, que canta o abrigo do Altíssimo. Termina-se com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 94 também é chamado de salmo 93?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, contam como um só salmo o 9 e o 10 do hebraico. O Deus ultionum, salmo 94 das Bíblias modernas, leva nelas o número 93. O texto é o mesmo.
O que significa o salmo 94, versículo 19?
Figueiredo traduz: «Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma». O versículo diz que Deus mede a consolação pela dor: quanto maior a angústia, mais abundante o socorro interior. Com o versículo 18, forma uma das orações de confiança mais amadas do Saltério.
O salmo 94 “Se hoje ouvirdes a sua voz” é este?
Não. Esse versículo vem do Venite, que a liturgia e a Bíblia Ave-Maria numeram 94, segundo a Vulgata, e que as Bíblias modernas chamam de 95. O seu texto está na página do salmo 95 (94 na Vulgata).
O salmo 94 é uma oração de vingança?
Não no sentido de um rancor pessoal. O salmista entrega a justiça a Deus, o único juiz, justamente para não fazê-la por si mesmo. É uma oração de confiança: «Mas o Senhor me serviu de refúgio».
Quem escreveu o salmo 94?
O hebraico não tem título; a Vulgata o intitula «Salmo do mesmo Davi, para o dia quarto da semana». A tradição o recebe, portanto, como um salmo de Davi, sabendo que o seu autor principal é o Espírito Santo.
Quando a Igreja reza o salmo 94?
No Breviário de 1962, todo sábado na Prima. Volta com antífonas próprias nas Matinas da Sexta-feira Santa e da festa do Sagrado Coração de Jesus.
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