A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 111 (110 na Vulgata e na Ave-Maria): Confitebor tibi, Domine, o memorial das maravilhas de Deus
Confitebor tibi, Domine
O salmo 111 das Bíblias de numeração hebraica é o salmo 110 da Vulgata e da Ave-Maria, *Confitebor tibi, Domine, in toto corde meo*: o louvor das obras de Deus, que «Deixou memória das suas maravilhas» e «Deu sustento aos que o temem». Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica os versículos, a leitura eucarística e o seu lugar nas Vésperas de domingo na liturgia de 1962.
Procura o salmo 110 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 109.
1 Alleluja. Confitebor tibi, Domine, in toto corde meo, in consilio justorum, et congregatione.
1 Aleluia. Louvar-te-ei, Senhor, com todo o meu coração: No conselho dos justos, e na congregação.
2 Magna opera Domini : exquisita in omnes voluntates ejus.
2 Grandes são as obras do Senhor: Apropriadas a tôdas as suas vontades.
3 Confessio et magnificentia opus ejus, et justitia ejus manet in sæculum sæculi.
3 A obra dêle é glória, e magnificência: E a sua justiça permanece pelo século do século.
4 Memoriam fecit mirabilium suorum, misericors et miserator Dominus.
4 Deixou memória das suas maravilhas, o Senhor, que é misericordioso e compassivo:
5 Escam dedit timentibus se ; memor erit in sæculum testamenti sui.
5 Deu sustento aos que o temem: Lembrar-se-á eternamente da sua aliança:
6 Virtutem operum suorum annuntiabit populo suo,
6 Anunciará ao seu povo a virtude das suas obras.
7 ut det illis hæreditatem gentium. Opera manuum ejus veritas et judicium.
7 Para lhes dar a êles a herança das gentes: As obras das suas mãos são verdade, e justiça.
8 Fidelia omnia mandata ejus, confirmata in sæculum sæculi, facta in veritate et æquitate.
8 Fiéis são todos os seus mandamentos: Confirmados em todos os séculos, feitos em verdade e em eqüidade.
9 Redemptionem misit populo suo ; mandavit in æternum testamentum suum. Sanctum et terribile nomen ejus.
9 Redenção enviou ao seu povo: Estabeleceu para sempre a sua aliança. Santo, e terrível é o nome dêle:
10 Initium sapientiæ timor Domini ; intellectus bonus omnibus facientibus eum : laudatio ejus manet in sæculum sæculi.
10 O temor do Senhor é princípio da sabedoria. É bom entendimento o de todos os que obram como êle: O seu louvor permanece para sempre.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 111 ou salmo 110?
Este salmo é o 111 nas Bíblias que seguem a numeração hebraica e o 110 na Vulgata, no Breviário, na Bíblia Ave-Maria e na tradução de Figueiredo, que unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, que em latim começa por Confitebor tibi, Domine, in toto corde meo. A tabela das correspondências está na página dos Salmos.
Quem procura “salmo 111” pode estar atrás de outro texto. O salmo 111 da Vulgata, dos livros litúrgicos e da Ave-Maria é o Beatus vir, qui timet Dominum, o retrato do justo, que as Bíblias de numeração hebraica chamam 112: está no salmo 112 (111 na Vulgata). E o salmo 110 de uma Bíblia moderna é o Dixit Dominus, que está no salmo 110 (109 na Vulgata).
O que significa o salmo 111? Explicação
No hebraico o salmo é alfabético: cada meio verso começa por uma letra, na ordem do alfabeto. Essa forma exprime a plenitude do louvor, que percorre tudo de ponta a ponta. O salmo não narra uma libertação particular: abraça num só olhar o conjunto da obra de Deus. O título é apenas «Aleluia» (v. 1).
O louvor na assembleia (v. 1-3)
O fiel louva a Deus «com todo o meu coração: No conselho dos justos, e na congregação» (v. 1). O seu louvor não é solitário: ergue-se no meio do povo. E dá o motivo: «Grandes são as obras do Senhor: Apropriadas a tôdas as suas vontades» (v. 2); «A obra dêle é glória, e magnificência: E a sua justiça permanece pelo século do século» (v. 3).
O memorial e o alimento (v. 4-5)
O coração do salmo está em dois versículos: «Deixou memória das suas maravilhas, o Senhor, que é misericordioso e compassivo: Deu sustento aos que o temem» (v. 4-5). Ao pé da letra, são a Páscoa, memorial da saída do Egito, e o maná do deserto, do qual Moisés disse: «Êste é o pão, que o Senhor vos deu para comerdes» (Êxodo 16, 15).
Mas a tradição reconheceu aqui o anúncio da Eucaristia: o memorial da Paixão que Cristo institui na última Ceia, dizendo «Fazei isto em memória de mim» (Lucas 22, 19), e o verdadeiro pão do Céu, dado aos que temem a Deus: «Eu sou o pão vivo, que desci do Céu» (João 6, 51).
A aliança e a redenção (v. 6-9)
Deus dá ao seu povo «a herança das gentes» (v. 7); os seus mandamentos são «Confirmados em todos os séculos, feitos em verdade e em eqüidade» (v. 8). O versículo 9 resume a história da salvação: «Redenção enviou ao seu povo: Estabeleceu para sempre a sua aliança. Santo, e terrível é o nome dêle» (v. 9). O latim diz Redemptionem misit populo suo, e os Padres ouviram nessa palavra a Redenção realizada por Cristo.
O princípio da sabedoria (v. 10)
O salmo termina com uma sentença célebre: «O temor do Senhor é princípio da sabedoria. É bom entendimento o de todos os que obram como êle: O seu louvor permanece para sempre» (v. 10).
Salmo 111, 10: “o temor do Senhor é princípio da sabedoria”
A mesma palavra se lê nos livros sapienciais: «O princípio da sabedoria é o temor do Senhor: E a ciência dos Santos é a prudência» (Provérbios 9, 10). Ela não fala do medo do escravo, mas do temor filial, que receia ofender um Pai amado. São João distingue os dois: «a caridade perfeita lança fora ao temor, porque o temor anda acompanhado de pena» (1 João 4, 18); o temor que a caridade expulsa é o servil, o que teme o castigo; o temor que permanece é o do filho.
Esse temor é um dos sete dons do Espírito Santo, que Isaías enumera ao falar do Messias: «e enchê-lo-á o espírito do temor do Senhor» (Isaías 11, 3). Os catecismos tradicionais o explicam assim: o dom do temor nos faz respeitar a Deus e recear desagradá-lo, afastando-nos do pecado. Santo Agostinho, no De doctrina christiana, põe o temor de Deus no primeiro dos degraus pelos quais a alma sobe até a sabedoria. Sobre os sete dons, veja os dons do Espírito Santo.
A leitura dos Padres e a ligação com o salmo seguinte
Os comentadores cristãos leram no alimento dado aos que temem a Deus o pão que desce do Céu, e no memorial das maravilhas aquele que Cristo deixou à sua Igreja. São Paulo diz do sacramento: «Anunciareis a morte do Senhor, até que êle venha» (1 Coríntios 11, 26).
O salmo forma um par com o seguinte, o Beatus vir, também alfabético no hebraico: um canta as obras de Deus, o outro o homem justo que as imita; e o segundo começa onde o primeiro termina, no temor do Senhor. O versículo 4 chama a Deus «misericordioso e compassivo»: é o eco da revelação do Nome a Moisés no Sinai, «todo cheio de compaixão, e de clemência, paciente, rico de misericórdia, e de verdade» (Êxodo 34, 6).
O salmo 110 na liturgia de 1962
Vésperas de domingo. No Breviário Romano de 1962, o salmo 110 é o segundo salmo das Vésperas de domingo, logo depois do Dixit Dominus, com a antífona Magna opera Domini: exquisita in omnes voluntates ejus (v. 2). Na tarde do dia do Senhor, a Igreja canta primeiro Cristo rei e sacerdote, depois as obras de Deus e o memorial das suas maravilhas. Você pode rezá-las no breviário e conhecer a sua história na página sobre as Vésperas.
Corpus Christi. No Ofício da festa, que a tradição atribui a São Tomás de Aquino, o salmo é cantado nas Vésperas de Corpus Christi com a antífona Miserator Dominus escam dedit timentibus se in memoriam suorum mirabilium, que torna explícita a leitura eucarística. Uma antífona semelhante, Misericors et miserator Dominus: escam dedit timentibus se, introduz o salmo nas Vésperas do Sagrado Coração.
Natal e outras festas. Nas segundas Vésperas do Natal, ele é cantado com a antífona Redemptionem misit Dominus populo suo: mandavit in æternum testamentum suum (v. 9); nas primeiras, com Magnificatus est Rex pacificus super omnes reges universæ terræ. Volta nas Vésperas da Santíssima Trindade, com a antífona Laus et perennis gloria Deo Patri, et Filio, Sancto simul Paraclito, e nas Vésperas do Comum da Dedicação de uma igreja.
A Missa. No Missal de 1962, o primeiro aleluia do III domingo depois da Páscoa é tirado do versículo 9: Redemptionem misit Dominus populo suo. O versículo 1, Confitebor tibi, Domine, in toto corde meo, é o verso do intróito de Santo Antônio Maria Zacarias (5 de julho).
Como rezar o salmo 111
Há quem procure o “salmo 111 do amor” ou o “salmo 111 para encontrar a alma gêmea”. Este salmo não fala de namoro nem de casamento, e nenhum salmo funciona como simpatia: atribuir a um texto sagrado um efeito automático é superstição, que o Catecismo (n. 2111) e o Catecismo Romano, ao explicar o primeiro mandamento, contam entre as faltas contra a religião. O salmo serve para louvar a Deus por suas obras, como a Igreja faz todo domingo. Quem pede a Deus um bom casamento reza com confiança, com a intercessão de Nossa Senhora e de São José, sem fórmulas.
- Depois da Comunhão, demorando-se nos versículos 4-5, o memorial e o alimento.
- No domingo à tarde, com a Igreja, para reler a semana à luz das obras de Deus.
- No começo de um estudo ou de um trabalho, pedindo a sabedoria que começa pelo temor do Senhor.
- Diante do Santíssimo, como ação de graças pelo pão do Céu.
Conclui-se com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 111 também é chamado de salmo 110?
Porque a Vulgata, seguida pela liturgia, pela Bíblia Ave-Maria e por Figueiredo, une num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O Confitebor tibi, Domine, salmo 111 das Bíblias de numeração hebraica, leva ali o número 110. O salmo 111 da Vulgata é o Beatus vir, qui timet Dominum.
Quem escreveu o salmo 111?
O salmo não tem título de autor: abre apenas com «Aleluia». A tradição o recebe entre os salmos de louvor do Saltério, sem atribuição certa.
O que significa “o temor do Senhor é princípio da sabedoria”?
Que a verdadeira sabedoria começa pelo respeito filial a Deus: quem receia ofendê-lo aprende a viver segundo a verdade. É o dom do temor de Deus, que Santo Agostinho põe no primeiro degrau da subida da alma para a sabedoria.
Por que se diz que o salmo 111 anuncia a Eucaristia?
Por causa dos versículos 4 e 5: Deus deixou um memorial das suas maravilhas e deu alimento aos que o temem. A Igreja reconheceu ali a Missa e a Comunhão, e fez desses versículos a antífona do salmo nas Vésperas de Corpus Christi.
O salmo 111 é o “salmo do amor”?
Não. Ele fala do amor de Deus manifestado nas suas obras, não de amor humano, e não é uma oração para conseguir namoro ou casamento. Usá-lo como fórmula para esse fim seria superstição.
Quando a Igreja reza o salmo 111?
No Breviário de 1962, todo domingo nas Vésperas, como segundo salmo. Volta nas Vésperas do Natal, de Corpus Christi, do Sagrado Coração e da Santíssima Trindade.
O salmo 111 pode ser cantado?
Sim, e foi feito para isso: é um dos salmos das Vésperas de domingo, cantado em gregoriano sobre os tons dos salmos, com a antífona do dia.
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