A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 38 (37 na Vulgata e na Ave-Maria): Domine, ne in furore, o terceiro salmo penitencial
O salmo 38 das Bíblias modernas, 37 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria, é o *Domine, ne in furore tuo arguas me*: a oração de um pecador ferido no corpo e na alma, abandonado pelos amigos, que confessa a sua culpa e espera em Deus. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, o seu lugar entre os sete salmos penitenciais, a leitura dos Padres, o uso na liturgia de 1962 e a maneira de rezá-lo.
Procura o salmo 37 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 36.
1 Psalmus David, in rememorationem de sabbato.
1 Salmo de Davi, em memória do sábado.
2 Domine, ne in furore tuo arguas me, neque in ira tua corripias me :
2 Senhor, não me repreendas no teu furor, nem me castigues na tua ira.
3 quoniam sagittæ tuæ infixæ sunt mihi, et confirmasti super me manum tuam.
3 Porque as tuas setas se me cravaram: E assentaste sôbre mim a tua mão.
4 Non est sanitas in carne mea, a facie iræ tuæ ; non est pax ossibus meis, a facie peccatorum meorum :
4 Não há parte sã na minha carne na face da tua ira: Não há paz nos meus ossos à vista dos meus pecados.
5 quoniam iniquitates meæ supergressæ sunt caput meum, et sicut onus grave gravatæ sunt super me.
5 Porque as minhas iniqüidades se elevaram por cima da minha cabeça: E como carga pesada se agravaram sôbre mim.
6 Putruerunt et corruptæ sunt cicatrices meæ, a facie insipientiæ meæ.
6 Apodreceram e corromperam-se as minhas cicatrizes, à vista da minha estultícia.
7 Miser factus sum et curvatus sum usque in finem ; tota die contristatus ingrediebar.
7 Eu me tornei miserável, e todo encurvado: Todo o dia andava oprimido de tristeza.
8 Quoniam lumbi mei impleti sunt illusionibus, et non est sanitas in carne mea.
8 Porque os meus lombos estão cheios de ilusões: E não há parte alguma sã na minha carne.
9 Afflictus sum, et humiliatus sum nimis ; rugiebam a gemitu cordis mei.
9 Estou aflito, e grandemente abatido: Rugia pela fôrça do gemido do meu coração.
10 Domine, ante te omne desiderium meum, et gemitus meus a te non est absconditus.
10 Senhor, diante de ti está todo o meu desejo: E o meu gemido te não é oculto.
11 Cor meum conturbatum est ; dereliquit me virtus mea, et lumen oculorum meorum, et ipsum non est mecum.
11 O meu coração está conturbado, a minha fôrça me desamparou: E ainda o mesmo lume dos meus olhos não está já comigo.
12 Amici mei et proximi mei adversum me appropinquaverunt, et steterunt ; et qui juxta me erant, de longe steterunt : et vim faciebant qui quærebant animam meam.
12 Os meus amigos, e os meus propínquos se chegaram, e se puseram contra mim. E os que estavam perto de mim, se puseram de longe:
13 Et qui inquirebant mala mihi, locuti sunt vanitates, et dolos tota die meditabantur.
13 E faziam seus esforços os que buscavam a minha alma. E os que me procuravam males, falaram coisas vãs: E todo o dia maquinavam enganos.
14 Ego autem, tamquam surdus, non audiebam ; et sicut mutus non aperiens os suum.
14 Mas eu como um surdo não ouvia: E como um mudo que não abre a sua bôca.
15 Et factus sum sicut homo non audiens, et non habens in ore suo redargutiones.
15 E tornei-me como homem que não ouve; e que não tem na sua bôca palavras com que se defenda.
16 Quoniam in te, Domine, speravi ; tu exaudies me, Domine Deus meus.
16 Porque em ti, Senhor, esperei: Tu me ouvirás, Senhor Deus meu.
17 Quia dixi : Nequando supergaudeant mihi inimici mei ; et dum commoventur pedes mei, super me magna locuti sunt.
17 Porque disse: Nunca triunfem de mim meus inimigos: E enquanto meus pés estão vacilantes, falaram com orgulho contra mim.
18 Quoniam ego in flagella paratus sum, et dolor meus in conspectu meo semper.
18 Porque aparelhado estou para os açoites: E a minha dor está sempre diante de mim.
19 Quoniam iniquitatem meam annuntiabo, et cogitabo pro peccato meo.
19 Porque eu publicarei a minha iniqüidade: E meditarei sôbre o meu pecado.
20 Inimici autem mei vivunt, et confirmati sunt super me : et multiplicati sunt qui oderunt me inique.
20 Mas os meus inimigos vivem, e se têm fortificado sôbre mim: E se têm multiplicado os que me aborrecem injustamente.
21 Qui retribuunt mala pro bonis detrahebant mihi, quoniam sequebar bonitatem.
21 Os que tornam males por bens, murmuravam de mim, porque eu seguia o que era bom.
22 Ne derelinquas me, Domine Deus meus ; ne discesseris a me.
22 Não me desampares, Senhor Deus meu: Não te apartes de mim.
23 Intende in adjutorium meum, Domine Deus salutis meæ.
23 Acode prontamente em meu socorro, Senhor Deus da minha salvação.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 38 ou salmo 37?
Este salmo é o 38 nas Bíblias traduzidas do hebraico e o 37 na Vulgata, nos Setenta, nos livros litúrgicos e nas Bíblias católicas de numeração antiga, como a de Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria, que juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto. A tabela completa está na página dos Salmos.
Ele começa quase como o salmo 6, o primeiro salmo penitencial: «Senhor, não me arguas no teu furor, nem me castigues na tua ira». A semelhança às vezes confunde, assim como os números vizinhos:
- o salmo 37 das Bíblias modernas é o Noli aemulari: «Não queiras imitar aos malignos» (salmo 36 na Vulgata);
- o salmo 38 da Bíblia Ave-Maria é o Dixi, custodiam, sobre a brevidade da vida: «Disse: Guardarei os meus caminhos: Para não delinqüir com a minha língua» (salmo 39 hebraico, 38 na Vulgata).
Quanto aos versículos, Figueiredo conta o título como versículo 1; as Bíblias que não o numeram ficam um número atrás.
O que significa o salmo 38? Explicação
O título diz: «Salmo de Davi, em memória do sábado» (v. 1); o latim traz in rememorationem de sabbato. O penitente compõe diante de Deus um memorial da sua miséria, para que Deus se lembre dele.
O pecado como doença (v. 2-9). O salmo se abre com uma súplica: «Senhor, não me repreendas no teu furor, nem me castigues na tua ira» (v. 2). Ele pede para ser corrigido como por um pai, não por um juiz irado. Depois descreve o seu estado com uma crueza rara: «Porque as tuas setas se me cravaram: E assentaste sôbre mim a tua mão» (v. 3); «Não há parte sã na minha carne na face da tua ira: Não há paz nos meus ossos à vista dos meus pecados» (v. 4).
Não procura desculpas: «Porque as minhas iniqüidades se elevaram por cima da minha cabeça: E como carga pesada se agravaram sôbre mim» (v. 5), e as suas feridas se corromperam «à vista da minha estultícia» (v. 6). «Eu me tornei miserável, e todo encurvado: Todo o dia andava oprimido de tristeza» (v. 7).
O salmo une o sofrimento do corpo e o da alma. Não diz que toda doença seja castigo de uma culpa; faz falar um homem que reconhece que o seu pecado atingiu tudo nele. Santo Agostinho vê aí a condição do homem ferido depois da queda, e na dor do penitente um remédio que Deus aplica para curar.
O desejo diante de Deus (v. 10-11). No meio do lamento, uma frase de confiança: «Senhor, diante de ti está todo o meu desejo: E o meu gemido te não é oculto» (v. 10). Santo Agostinho tirou daí, comentando este salmo, uma das suas lições mais conhecidas sobre a oração: o próprio desejo é oração; se o desejo é contínuo, contínua é a oração. Quem já não encontra palavras ainda pode desejar a Deus, mesmo quando «O meu coração está conturbado, a minha fôrça me desamparou» (v. 11).
O abandono dos próximos (v. 12-15). O penitente está só: «Os meus amigos, e os meus propínquos se chegaram, e se puseram contra mim. E os que estavam perto de mim, se puseram de longe» (v. 12); «E faziam seus esforços os que buscavam a minha alma» (v. 13). Ele não responde: «Mas eu como um surdo não ouvia: E como um mudo que não abre a sua bôca» (v. 14).
A tradição reconheceu aqui o Cristo da Paixão. No Calvário, os conhecidos de Jesus «estavam da mesma sorte vendo estas coisas lá de parte» (Lucas 23,49); diante do Sinédrio, «Porém Jesus estava calado» (Mateus 26,63), como o cordeiro de Isaías, que «não abriu a sua bôca» (Isaías 53,7). O Justo tomou sobre si o lamento do pecador.
A confissão e o apelo (v. 16-23). A última parte volta à esperança: «Porque em ti, Senhor, esperei: Tu me ouvirás, Senhor Deus meu» (v. 16). O penitente aceita a correção, «Porque aparelhado estou para os açoites: E a minha dor está sempre diante de mim» (v. 18), e confessa: «Porque eu publicarei a minha iniqüidade: E meditarei sôbre o meu pecado» (v. 19). O salmo termina com dois gritos breves: «Não me desampares, Senhor Deus meu: Não te apartes de mim» (v. 22) e «Acode prontamente em meu socorro, Senhor Deus da minha salvação» (v. 23).
O terceiro dos sete salmos penitenciais
A tradição da Igreja reuniu sete salmos que exprimem o arrependimento: na numeração da Vulgata, o 6, o 31, o 37, o 50, Miserere, o 101, o 129, De profundis e o 142. Este é o terceiro, entre o salmo 31, Beati quorum, e o Miserere. A piedade católica os reza juntos sobretudo na Quaresma e nos dias de penitência.
O salmo 38 na liturgia de 1962
Matinas de terça-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 37 da Vulgata é cantado nas Matinas de terça-feira, como sétimo e oitavo salmos, dividido em duas partes, com as antífonas Ne in ira tua corripias me, Domine e Intende in adjutorium meum, Domine, virtus salutis meae. O Ofício do dia está no breviário.
Sexta-feira Santa. Nas Matinas da Sexta-feira Santa, o Ofício das Trevas, o salmo abre o segundo noturno com a antífona Vim faciebant qui quaerebant animam meam, «E faziam seus esforços os que buscavam a minha alma» (v. 13). A Igreja ouve nele a voz de Cristo cercado pelos inimigos.
Quaresma. O Missal de 1962 tira dele o Intróito da quarta-feira da segunda semana da Quaresma: Ne derelinquas me, Domine Deus meus, ne discedas a me: intende in adjutorium meum, Domine, virtus salutis meae (v. 22-23), com o versículo 2 como versículo do salmo.
Como rezar o salmo 38
- Antes da confissão. O versículo 19 é um ato de acusação de si; prepara para a confissão sem fechar-se na vergonha, porque o salmo começa e termina na esperança. Combina com o ato de contrição.
- Na doença. O doente pode unir o seu sofrimento ao do penitente e ao de Cristo, oferecendo o que não pode mudar.
- Quando a oração está árida. Basta o versículo 10: dizer a Deus que todo desejo está diante dele.
- Na Sexta-feira Santa, meditando o silêncio de Cristo diante dos acusadores.
Termina-se com o Gloria Patri. A quem procura o "salmo do milagre" ou pergunta "para que serve o salmo 38": a Igreja nunca o apresentou como fórmula de milagre. Um salmo não age por si, e prometer um efeito garantido a quem o reza seria superstição, que o primeiro mandamento proíbe (Catecismo, n. 2111). O milagre que o salmo pede é o da conversão e do perdão; quanto às curas, Deus as concede quando quer, à oração humilde.
Perguntas Frequentes
Quem escreveu o salmo 38?
O título o atribui a Davi: «Salmo de Davi, em memória do sábado». A tradição ouve nele a voz do rei penitente e, mais profundamente, a de Cristo, que carregou o peso de pecados que não eram seus.
O salmo 38 é um salmo penitencial?
Sim, é o terceiro dos sete salmos penitenciais: 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143 nas Bíblias modernas; 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria. Exprime a contrição de um pecador que reconhece a culpa sem desesperar.
Qual é o significado do salmo 38?
É a oração de um homem esmagado pelos seus pecados, doente e abandonado, que confessa a culpa a Deus e espera nele. O salmo ensina a manter juntas a confissão e a confiança.
O que diz o versículo 10 do salmo 38?
«Senhor, diante de ti está todo o meu desejo: E o meu gemido te não é oculto.» Santo Agostinho lê aí que o desejo já é oração: quem deseja a Deus sem interrupção reza sem interrupção, mesmo quando se cala.
O salmo 38 da Bíblia Ave-Maria é este?
Não. A Bíblia Ave-Maria segue a numeração da Vulgata: o seu salmo 38 é o Dixi, custodiam, salmo 39 das Bíblias modernas. O salmo desta página é o 37 na Ave-Maria.
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