A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 32 (31 na Vulgata e na Ave-Maria): Beati quorum, a alegria do pecado perdoado
Beati quorum
O salmo 32 das Bíblias modernas é o salmo 31 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Beati quorum*, «Bem-aventurados aquêles cujas iniqüidades são perdoadas», o segundo dos sete salmos penitenciais. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o caminho do salmo, do silêncio à confissão e à alegria, a leitura de São Paulo e dos Padres e o seu lugar na liturgia de 1962.
Procura o salmo 31 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 30.
1 Ipsi David intellectus. Beati quorum remissæ sunt iniquitates, et quorum tecta sunt peccata.
1 Ao mesmo Davi, de inteligência. Bem-aventurados aquêles cujas iniqüidades são perdoadas: E cujos pecados são cobertos.
2 Beatus vir cui non imputavit Dominus peccatum, nec est in spiritu ejus dolus.
2 Bem-aventurado o homem, a quem o Senhor não imputou pecado, e cujo espírito é isento de dolo.
3 Quoniam tacui, inveteraverunt ossa mea, dum clamarem tota die.
3 Porque calei, e envelheceram os meus ossos enquanto clamava todo o dia.
4 Quoniam die ac nocte gravata est super me manus tua, conversus sum in ærumna mea, dum configitur spina.
4 Porque a tua mão se fêz pesada sôbre mim de dia e de noite: Eu me converti na minha miséria, enquanto se crava a espinha.
5 Delictum meum cognitum tibi feci, et injustitiam meam non abscondi. Dixi : Confitebor adversum me injustitiam meam Domino ; et tu remisisti impietatem peccati mei.
5 Eu te manifestei o meu pecado: E não ocultei a minha injustiça. Eu disse: Confessarei ao Senhor contra mim a minha injustiça: E tu me perdoaste a impiedade do meu pecado.
6 Pro hac orabit ad te omnis sanctus in tempore opportuno. Verumtamen in diluvio aquarum multarum, ad eum non approximabunt.
6 Por isso orará a ti todo o santo no tempo oportuno. Mas na inundação das muitas águas, a êle não se chegarão.
7 Tu es refugium meum a tribulatione quæ circumdedit me ; exsultatio mea, erue me a circumdantibus me.
7 Tu és o meu refúgio na tribulação, que me cercou: Alegria minha, livra-me dos que me cercam.
8 Intellectum tibi dabo, et instruam te in via hac qua gradieris ; firmabo super te oculos meos.
8 Inteligência te darei, e instruir-te-ei neste caminho, em que hás de andar: Fixarei sôbre ti os meus olhos.
9 Nolite fieri sicut equus et mulus, quibus non est intellectus. In camo et freno maxillas eorum constringe, qui non approximant ad te.
9 Não queirais ser como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento. Com o bocado e com a brida aperta as queixadas daqueles que não se chegam a ti.
10 Multa flagella peccatoris ; sperantem autem in Domino misericordia circumdabit.
10 Muitos são os açoites para o pecador, mas o que espera no Senhor misericórdia o cercará.
11 Lætamini in Domino, et exsultate, justi ; et gloriamini, omnes recti corde.
11 Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos, ó justos, e gloriai-vos todos os de reto coração.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 32 ou salmo 31?
Este salmo tem dois números, conforme a Bíblia que você abre. As Bíblias traduzidas do hebraico o chamam de salmo 32; a Vulgata latina e a Setenta grega, com as quais a Igreja rezou durante séculos no Missal e no Breviário, o contam como salmo 31, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. A Bíblia Ave-Maria e a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo seguem a mesma contagem. É o mesmo texto, o Beati quorum. A tabela completa está na página do livro dos Salmos.
Quem procura “salmo 31”, por outro lado, pode querer outro texto: nas Bíblias modernas o salmo 31 é o In te, Domine, speravi, o das palavras que Jesus disse na Cruz. Na Vulgata é o salmo 30: «Nas tuas mãos encomendo o meu espírito».
Os versículos, neste salmo, coincidem: em Figueiredo o título está unido ao primeiro versículo, e o célebre versículo 8 é o 8 em todas as Bíblias.
O que significa o salmo 32? Explicação
O título diz: «Ao mesmo Davi, de inteligência» (v. 1). O latim intellectus indica uma lição a ser compreendida. E a lição está toda na primeira bem-aventurança do salmo, que não declara feliz o homem que nunca pecou, mas aquele a quem o pecado foi perdoado.
Duas bem-aventuranças (v. 1-2)
«Bem-aventurados aquêles cujas iniqüidades são perdoadas: E cujos pecados são cobertos» (v. 1). O mal recebe vários nomes, iniquidades e pecados; o perdão, três verbos: perdoar, cobrir e, no versículo seguinte, não imputar. O versículo 2 acrescenta uma condição que não é secundária: «Bem-aventurado o homem, a quem o Senhor não imputou pecado, e cujo espírito é isento de dolo» (v. 2). O perdão é dado a quem já não engana nem a Deus nem a si mesmo.
O silêncio que consome (v. 3-4)
Vem depois a lembrança do tempo em que Davi recusava confessar. «Porque calei, e envelheceram os meus ossos» (v. 3): a culpa escondida gasta o homem por dentro. A mão de Deus pesa sobre ele dia e noite; ele se revolve na sua miséria, «enquanto se crava a espinha» (v. 4). A tradição latina viu nessa espinha o aguilhão da consciência, a compunção que fere para curar. A dor não é aqui uma vingança de Deus, mas um chamado a sair da mentira.
A confissão e o perdão (v. 5)
O versículo 5 é o centro do salmo: «Eu te manifestei o meu pecado: E não ocultei a minha injustiça. Eu disse: Confessarei ao Senhor contra mim a minha injustiça: E tu me perdoaste a impiedade do meu pecado» (v. 5). Santo Agostinho se detém nessa ordem: Davi diz apenas que vai confessar, e o perdão já é concedido. Deus ouve a confissão do coração antes da dos lábios. São João dirá o mesmo, na sua Primeira Epístola: «Porém se nós confessarmos os nossos pecados: Êle é fiel e justo para nos perdoar êsses nossos pecados».
A segurança do perdoado (v. 6-7)
O perdão muda a situação do homem diante do perigo. Todo santo rezará «no tempo oportuno», e «na inundação das muitas águas, a êle não se chegarão» (v. 6). O pecador reerguido pode dizer: «Tu és o meu refúgio na tribulação, que me cercou: Alegria minha» (v. 7).
Salmo 32, 8: Deus se faz guia (v. 8-9)
Depois a voz muda: é Deus quem fala. «Inteligência te darei, e instruir-te-ei neste caminho, em que hás-de andar: Fixarei sôbre ti os meus olhos» (v. 8). É o versículo mais procurado do salmo. Deus não se limita a apagar a culpa: toma a seu cargo o caminho daquele que perdoou e o guarda sob o seu olhar. O título prometia intellectus; aqui é o próprio Deus quem o dá.
O versículo seguinte dá a condição, por contraste: «Não queirais ser como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento» (v. 9). O animal precisa do freio e da brida; do homem Deus pede uma docilidade livre.
A alegria dos justos (v. 10-11)
«Muitos são os açoites para o pecador, mas o que espera no Senhor misericórdia o cercará» (v. 10). O salmo se fecha na alegria: «Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos, ó justos» (v. 11). O salmo que começou no silêncio da culpa termina no canto.
São Paulo e os Padres: a graça que justifica
São Paulo cita os dois primeiros versículos na Epístola aos Romanos para mostrar que a justiça é dada por graça. Em Romanos 4, escreve: «Como também Davi declara a bem-aventurança do homem, a quem Deus atribui justiça sem obras», e logo depois transcreve o salmo: «Bem-aventurados aqueles, cujas iniqüidades foram perdoadas, e cujos pecados têm sido cobertos». Santo Agostinho faz disso a chave do seu comentário nas Enarrationes in Psalmos: o título intellectus convida a compreender que ninguém é salvo pelos seus méritos, mas pela misericórdia que precede e torna possíveis as boas obras. O primeiro fruto dessa inteligência é reconhecer-se pecador.
Possídio, o biógrafo de Agostinho, conta que na sua última doença o bispo de Hipona mandou copiar os salmos de Davi que tratam da penitência e os lia chorando, postos diante dos olhos na parede. O texto não diz quais eram; a tradição pensa naturalmente nos que a Igreja chama penitenciais, entre os quais este.
A tradição católica lê aqui também a força do sacramento da penitência. O perdão que Davi recebe ao confessar, a Igreja o dá pela absolvição a quem acusa as suas culpas com contrição. Para se preparar, veja como se confessar.
O salmo 32 na liturgia de 1962
O segundo salmo penitencial. O Beati quorum é o segundo dos sete salmos penitenciais, que na numeração da Vulgata são 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142. A tradição os reza juntos, seguidos da Ladainha de Todos os Santos. Na série, o Miserere (50 na Vulgata) pede o perdão; o Beati quorum canta a alegria de tê-lo recebido. Os outros são o salmo 6 e o salmo 38 (37 na Vulgata), que começam ambos por «Senhor, não me repreendas no teu furor», o salmo 102 (101 na Vulgata), o De profundis (129 na Vulgata) e o salmo 143 (142 na Vulgata).
Na Noa da segunda-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 31 da Vulgata se diz na Noa da segunda-feira, seguido do salmo 32 da Vulgata, com a antífona Exsultate, justi, et gloriamini, omnes recti corde, que junta o último versículo deste salmo ao primeiro do seguinte. A Igreja o põe assim, toda semana, no meio da tarde: você o encontra no breviário do dia.
Em Todos os Santos. Na festa de Todos os Santos, o salmo fecha o segundo noturno das Matinas, com a antífona Lætamini in Domino, et exsultate justi, et gloriamini omnes recti corde: os santos são, antes de tudo, pecadores perdoados.
Na Missa. O mesmo versículo 11, Lætamini in Domino et exsultate, justi: et gloriamini, omnes recti corde, forma o Ofertório de várias Missas de mártires, como a de São Fabião e São Sebastião (20 de janeiro) e a dos Quarenta Mártires de Sebaste (10 de março).
Como rezar o salmo 32
Antes da confissão. Os versículos 3-5 ajudam a vencer a vergonha que retém a confissão. Leia-os devagar durante o exame de consciência e depois reze o ato de contrição.
Depois da absolvição. Os versículos 1, 2, 7 e 11 se tornam ação de graças: o pecador perdoado é devolvido à alegria.
Diante de uma escolha difícil. O versículo 8 se reza sozinho, como pedido de luz, quando é preciso discernir uma decisão, uma vocação, um caminho: «Fixarei sôbre ti os meus olhos».
Na Quaresma. Reze-o com os outros seis salmos penitenciais, de preferência na sexta-feira, e termine-o com o Glória ao Pai.
O salmo não é uma fórmula que apaga os pecados por ser recitada: o perdão vem de Deus, pela contrição e, para os pecados graves, pela confissão sacramental. O salmo ensina o caminho e dá as palavras para percorrê-lo.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 32 é chamado também de salmo 31?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia latina, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 32 das Bíblias modernas, Beati quorum, é portanto o salmo 31 da Vulgata. Nas Bíblias modernas, o salmo 31 é o In te, Domine, speravi.
O que diz o salmo 32, versículo 8?
Em Figueiredo: «Inteligência te darei, e instruir-te-ei neste caminho, em que hás-de andar: Fixarei sôbre ti os meus olhos». É a resposta de Deus ao pecador que confessou a sua culpa: Ele não o deixa só, mas o guia e o guarda com o olhar.
Por que o salmo 32 é um salmo penitencial?
Porque descreve todo o caminho do arrependimento: o silêncio que consome, a confissão, o perdão e a alegria reencontrada. É o segundo dos sete salmos penitenciais, rezados tradicionalmente com a Ladainha de Todos os Santos.
Quem escreveu o salmo 32?
O título o atribui a Davi, e São Paulo o cita como palavra de Davi na Epístola aos Romanos. A tradição ouviu nele a experiência do rei depois do seu pecado, como no Miserere. O autor principal é o Espírito Santo.
O que significa «enquanto se crava a espinha»?
É o versículo 4. Figueiredo segue a Vulgata, que fala de um espinho cravado, dum configitur spina; o hebraico, traduzido de outro modo nas Bíblias modernas, fala do vigor que seca. Na leitura latina, o espinho é o remorso da consciência, que faz sofrer até que o pecado seja confessado.
Quando se reza o salmo 32?
No Breviário de 1962, toda segunda-feira na Noa, entre os salmos penitenciais e na festa de Todos os Santos. Na vida pessoal, convém antes e depois da confissão, e sempre que se quer agradecer a Deus o perdão.
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