A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 58 (57 na Vulgata e na Ave-Maria): Si vere utique, o Deus que julga sobre a terra
O salmo 58 das Bíblias modernas é o salmo 57 da Vulgata, o *Si vere utique justitiam loquimini* de Davi: uma acusação contra os juízes iníquos, a «áspide surdo, e que fecha os seus ouvidos», e a certeza final de que «há Deus que os julga sôbre a terra». Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado, o modo cristão de ler um salmo imprecatório e o seu lugar no Breviário de 1962.
Procura o salmo 57 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 56.
1 In finem, ne disperdas. David in tituli inscriptionem.
1 Para o fim, não destruas, Davi pôs esta inscrição por título.
2 Si vere utique justitiam loquimini, recta judicate, filii hominum.
2 Se verdadeiramente falais justiça: Julgai com retidão, ó filhos dos homens.
3 Etenim in corde iniquitates operamini ; in terra injustitias manus vestræ concinnant.
3 Porquanto obrais maldades no coração: As vossas mãos tramam injustiças na terra.
4 Alienati sunt peccatores a vulva ; erraverunt ab utero : locuti sunt falsa.
4 Os pecadores desde a sua origem se alienaram, erraram desde que saíram do ventre de sua mãe: Falaram falsidades.
5 Furor illis secundum similitudinem serpentis, sicut aspidis surdæ et obturantis aures suas,
5 O furor dêles é semelhante ao da serpente: Como o de áspide surdo, e que fecha os seus ouvidos.
6 quæ non exaudiet vocem incantantium, et venefici incantantis sapienter.
6 Que não ouvirá a voz dos encantadores: Nem a do mago que encanta segundo a sua arte.
7 Deus conteret dentes eorum in ore ipsorum ; molas leonum confringet Dominus.
7 Deus lhes quebrará os dentes na sua bôca: Os queixos dos leões quebrará o Senhor.
8 Ad nihilum devenient tamquam aqua decurrens ; intendit arcum suum donec infirmentur.
8 Reduzir-se-ão ao nada como água que corre: Entesou o seu arco até que sejam abatidos.
9 Sicut cera quæ fluit auferentur ; supercecidit ignis, et non viderunt solem.
9 Serão destruídos como a cêra que se derrete: Caiu fogo de cima, e não viram o sol.
10 Priusquam intelligerent spinæ vestræ rhamnum, sicut viventes sic in ira absorbet eos.
10 Antes que os vossos espinhos se vejam feitos arbustos: Assim êle na sua ira os devorará como ainda vivos.
11 Lætabitur justus cum viderit vindictam ; manus suas lavabit in sanguine peccatoris.
11 Alegrar-se-á o justo quando vir a vingança: As suas mãos lavará no sangue do pecador.
12 Et dicet homo : Si utique est fructus justo, utique est Deus judicans eos in terra.
12 E dirá o homem: Se de certo há fruto para o justo: De certo há Deus que os julga sôbre a terra.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 58 ou salmo 57?
As Bíblias modernas seguem o hebraico e contam este salmo como o 58; a Vulgata e os Setenta, seguidos pela liturgia latina e pela Bíblia Ave-Maria, o contam como o 57, porque unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, o Si vere utique.
Quem procura o «salmo 58» num livro que segue a Vulgata encontra outro texto, o Eripe me de inimicis meis, «Livra-me, meu Deus, de meus inimigos», que é o salmo 59 das Bíblias modernas (58 na Vulgata). O salmo que precede o nosso, o Miserere mei, Deus, miserere mei, «Tem piedade de mim, ó Deus, tem piedade de mim», é o salmo 57 das Bíblias modernas (56 na Vulgata). A tabela completa está na página dos Salmos.
Quanto aos versículos: Figueiredo conta o título como versículo 1. Nas Bíblias que não o contam, como muitas Bíblias evangélicas, cada número fica um atrás do nosso: o “salmo 58 1” é aqui o versículo 2, e o “salmo 58 11”, o último versículo, é o nosso versículo 12.
Salmo 58 explicação: o que significa?
O título (v. 1)
«Para o fim, não destruas, Davi pôs esta inscrição por título» (v. 1). As palavras «não destruas», em latim ne disperdas, são provavelmente a indicação de uma melodia, e voltam nos títulos dos salmos vizinhos; a «inscrição por título» traduz o latim in tituli inscriptionem, como para um texto a ser gravado para que permaneça. O sentido exato desses títulos antigos é incerto, e os comentadores o explicaram de vários modos.
A interpelação aos juízes (v. 2-3)
O salmo se dirige aos poderosos encarregados de fazer justiça: «Se verdadeiramente falais justiça: Julgai com retidão, ó filhos dos homens» (v. 2). A resposta já está na pergunta: «Porquanto obrais maldades no coração: As vossas mãos tramam injustiças na terra» (v. 3). Nosso Senhor retomará a mesma exigência: «Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça» (João 7,24).
O endurecimento (v. 4-6)
«Os pecadores desde a sua origem se alienaram, erraram desde que saíram do ventre de sua mãe: Falaram falsidades» (v. 4); o furor deles é semelhante ao da serpente, «Como o de áspide surdo, e que fecha os seus ouvidos» (v. 5), que «não ouvirá a voz dos encantadores» (v. 6). A imagem diz um mal querido: a áspide não é surda por natureza, tapa os ouvidos por si mesma.
As imagens do castigo (v. 7-10)
As imagens se sucedem: os dentes quebrados, os queixos dos leões partidos, a água que escorre, a cera que se derrete, os espinhos devorados antes de virarem arbusto. Elas não descrevem a vingança de um homem, mas a fragilidade do malvado diante de Deus: «Reduzir-se-ão ao nada como água que corre» (v. 8); «Serão destruídos como a cêra que se derrete» (v. 9).
A alegria do justo e o juízo de Deus (v. 11-12)
O versículo 11 choca o leitor moderno: «Alegrar-se-á o justo quando vir a vingança: As suas mãos lavará no sangue do pecador» (v. 11). O último versículo lhe dá o sentido: «E dirá o homem: Se de certo há fruto para o justo: De certo há Deus que os julga sôbre a terra» (v. 12). A alegria do justo não é crueldade: é a alegria de ver acabar a injustiça e Deus reconhecido como juiz.
Como ler um salmo imprecatório?
O salmo 58 é um salmo imprecatório: invoca sobre os maus o juízo de Deus. O Breviário Romano o conserva toda semana no Ofício, enquanto a Liturgia das Horas de 1971 o retirou do seu saltério. Os Padres dão a chave. Essas palavras não são um modelo de rancor: são uma profecia do juízo e uma entrega da vingança só a Deus. Quem reza assim renuncia a fazer justiça por conta própria, segundo a palavra do Apóstolo: «Não vos vingueis a vós mesmos, ó caríssimos, mas dai lugar à ira: Porque está escrito: A mim me pertence a vingança: Eu retribuirei, diz o Senhor» (Romanos 12,19).
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, relata a antiga crença segundo a qual a áspide, para não ouvir o encantador, aperta um ouvido contra a terra e tapa o outro com a cauda. Vê nela o pecador que se recusa a ouvir a palavra de Deus por medo de ter de mudar de vida. O justo, ao contrário, não odeia o pecador: odeia o pecado, e deseja que o pecador se converta antes do juízo. A certeza do juízo, que a Igreja ensina ao falar do que acontece após a morte, não exclui a misericórdia oferecida até o último instante.
O Juiz do último versículo
Lido à luz do Evangelho, o salmo fala também da Paixão. Entre os «filhos dos homens» chamados a julgar com retidão, o leitor cristão não pode deixar de ver os juízes do Senhor, que falaram de justiça e condenaram o Inocente. O Deus «que os julga sôbre a terra» tem um rosto, pois «o Pai a ninguém julga»: entregou todo o julgamento ao Filho (João 5,22). Aquele que foi julgado injustamente voltará para julgar o mundo.
O grito do salmo por justiça ressoa até o Apocalipse, nos lábios dos mártires sob o altar: «Até quando, Senhor, (Santo e verdadeiro) dilatas tu o fazer-nos justiça» (Apocalipse 6,10). O mesmo tema percorre o salmo 82 (81 na Vulgata), Deus stetit, e o salmo 94 (93 na Vulgata), Deus ultionum. E o salmo 140 (139 na Vulgata), Eripe me, Domine, retoma a imagem do veneno: «Veneno de áspides têm debaixo de seus lábios».
O salmo 57 na liturgia de 1962
No Breviário Romano de 1962, o salmo 57 da Vulgata é rezado na Sexta de quarta-feira, depois dos salmos 55 e 56 (56 e 57 do hebraico), sob a antífona In Deo speravi, non timebo quid faciat mihi homo, “em Deus esperei, não temerei o que me possa fazer o homem”. Ao meio-dia, no auge do dia de trabalho, a Igreja entrega a Deus as injustiças dos homens. Antes da reforma de São Pio X (1911), ele era cantado nas Matinas de quarta-feira, com a antífona Juste judicate, filii hominum. Você pode rezá-lo no seu lugar no breviário; sobre a estrutura das Horas, veja a Liturgia das Horas.
Como rezar o salmo 58
- Diante da injustiça. Quando o direito é pisado e os poderosos oprimem, o salmo ensina a entregar a própria causa ao Juiz que não se deixa corromper.
- Como exame de consciência. Vale para quem tem de julgar, na família, no trabalho, na vida pública: «Julgai com retidão».
- Pela conversão dos pecadores. Segundo a leitura de Agostinho, reza-se para que quem tapou os ouvidos volte a escutar antes que venha o juízo.
- Como ato de fé. O versículo 12 se repete para dizer que nenhuma injustiça ficará impune e nenhuma fidelidade sem fruto.
Conclua, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 58 também é chamado de salmo 57?
Porque a Vulgata e os Setenta, seguidos pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, ficam um número atrás das Bíblias modernas em quase todo o Saltério. O Si vere utique é o 57 da Vulgata e o 58 das Bíblias traduzidas do hebraico.
Qual é o significado do salmo 58?
É um apelo à justiça de Deus contra os juízes iníquos. Denuncia a corrupção de quem deveria julgar com retidão, anuncia a sua ruína e conclui que há um Deus que julga sobre a terra.
O que quer dizer a “áspide surda”?
É a imagem do pecador que não quer ouvir. Os antigos acreditavam que a áspide tapava os ouvidos para não ouvir o encantador; Santo Agostinho vê nela quem recusa a palavra de Deus para não ter de se converter.
Para que serve o salmo 58?
A Igreja o reza toda quarta-feira na Sexta, ao meio-dia, para entregar a Deus as injustiças do mundo. Um católico o reza diante da injustiça e como exame de consciência de quem julga. Não é uma oração para prejudicar inimigos nem uma fórmula de vingança: a Igreja chama de superstição atribuir poder às palavras por si mesmas (Catecismo, n. 2111), e a vingança pertence só a Deus.
O salmo 58 é um salmo de maldição?
É um salmo imprecatório. A tradição não o lê como ódio pessoal, mas como anúncio do juízo de Deus e como entrega de toda vingança nas suas mãos.
Quem escreveu o salmo 58?
O título o atribui a Davi, e a tradição acolhe essa atribuição; o autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo.
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Acesso antecipado