A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 103 (102 na Vulgata e na Ave-Maria): Benedic, anima mea, o cântico da misericórdia
Benedic, anima mea
O salmo 103 das Bíblias modernas é o salmo 102 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: «Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E não queiras esquecer-te de todos os seus benefícios». É o grande cântico da misericórdia de Deus, que perdoa, cura e renova a juventude como a da águia. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia traz a explicação versículo por versículo, a leitura dos Padres, o uso na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 102 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 101.
1 Ipsi David. Benedic, anima mea, Domino, et omnia quæ intra me sunt nomini sancto ejus.
1 Do mesmo Davi. Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E tôdas as coisas que há dentro de mim bendigam ao seu santo Nome.
2 Benedic, anima mea, Domino, et noli oblivisci omnes retributiones ejus.
2 Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E não queiras esquecer-te de todos os seus benefícios.
3 Qui propitiatur omnibus iniquitatibus tuis ; qui sanat omnes infirmitates tuas :
3 O que perdoa tôdas as tuas maldades: O que sara tôdas as tuas enfermidades.
4 qui redimit de interitu vitam tuam ; qui coronat te in misericordia et miserationibus :
4 O que redime da morte a tua vida: O que te coroa da sua misericórdia, e das suas graças.
5 qui replet in bonis desiderium tuum ; renovabitur ut aquilæ juventus tua :
5 O que enche de bens o teu desejo: Renovar-se-á como a da águia a tua mocidade.
6 faciens misericordias Dominus, et judicium omnibus injuriam patientibus.
6 O Senhor que faz misericórdias: E justiça a todos os que sofrem agravos.
7 Notas fecit vias suas Moysi ; filiis Israël voluntates suas.
7 Fêz conhecer a Moisés os seus caminhos, aos filhos de Israel as suas vontades.
8 Miserator et misericors Dominus : longanimis, et multum misericors.
8 É benigno, e misericordioso o Senhor: Magnânimo e de muita misericórdia.
9 Non in perpetuum irascetur, neque in æternum comminabitur.
9 Não estará irado para sempre: Nem ameaçará eternamente.
10 Non secundum peccata nostra fecit nobis, neque secundum iniquitates nostras retribuit nobis.
10 Não nos há tratado a nós segundo os nossos pecados: Nem nos tem pago segundo as nossas maldades.
11 Quoniam secundum altitudinem cæli a terra, corroboravit misericordiam suam super timentes se ;
11 Pois quanto a elevação do céu está remontada sôbre a terra: Tanto êle tem firmado a sua misericórdia sôbre os que o temem.
12 quantum distat ortus ab occidente, longe fecit a nobis iniquitates nostras.
12 Quanto dista o Oriente do Ocidente: Tanto êle tem apartado de nós as nossas maldades.
13 Quomodo miseretur pater filiorum, misertus est Dominus timentibus se.
13 Como o pai se compadece dos filhos, assim se tem compadecido o Senhor dos que o temem:
14 Quoniam ipse cognovit figmentum nostrum ; recordatus est quoniam pulvis sumus.
14 Porque êle já tem conhecido a fragilidade da nossa origem. Lembrou-se que somos pó:
15 Homo, sicut fœnum dies ejus ; tamquam flos agri, sic efflorebit :
15 O homem, cujos dias são como feno, assim se murchará como a flor do campo.
16 quoniam spiritus pertransibit in illo, et non subsistet, et non cognoscet amplius locum suum.
16 Porque o espírito estará nêle de passagem, e êle não subsistirá: E não conhecerá dali em diante o seu lugar.
17 Misericordia autem Domini ab æterno, et usque in æternum super timentes eum. Et justitia illius in filios filiorum,
17 Mas a misericórdia do Senhor está desde a eternidade e até à eternidade sôbre os que o temem. E a sua justiça sôbre os filhos dos filhos,
18 his qui servant testamentum ejus, et memores sunt mandatorum ipsius ad faciendum ea.
18 para com aquêles que guardam a sua aliança: E se lembram dos seus mandamentos, para observá-los.
19 Dominus in cælo paravit sedem suam, et regnum ipsius omnibus dominabitur.
19 O Senhor tem prevenido no céu o seu trono: E o seu reino dominará sôbre todos.
20 Benedicite Domino, omnes angeli ejus : potentes virtute, facientes verbum illius, ad audiendam vocem sermonum ejus.
20 Bendizei ao Senhor todos os anjos dêle: Poderosos em virtude, que sois executores da sua palavra, para obedecer à voz das suas ordens.
21 Benedicite Domino, omnes virtutes ejus ; ministri ejus, qui facitis voluntatem ejus.
21 Bendizei ao Senhor tôdas as virtudes dêle: Vós, ministros seus, que fazeis a sua vontade.
22 Benedicite Domino, omnia opera ejus : in omni loco dominationis ejus, benedic, anima mea, Domino.
22 Bendizei ao Senhor tôdas as suas obras: Em todo o lugar do seu senhorio, bendiz, ó alma minha, ao Senhor.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 103 ou salmo 102?
Há dois pontos a esclarecer antes de ler este salmo.
O primeiro é o número. O cântico da misericórdia que começa com «Bendiz, ó alma minha, ao Senhor» é o salmo 103 nas Bíblias traduzidas do hebraico; é o salmo 102 na Vulgata, em Figueiredo, na Bíblia Ave-Maria e em todos os livros litúrgicos, porque estes juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, e os versículos têm o mesmo número nas duas contagens.
O segundo são as palavras. Dois salmos vizinhos se abrem com o mesmo Benedic, anima mea, Domino. Este, o 102 da Vulgata, canta a misericórdia de Deus para com o pecador. O seguinte, o salmo 104 das Bíblias modernas, 103 na Vulgata, canta a sua grandeza na criação: «Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: Senhor Deus meu, tu te tens engrandecido poderosamente». Quem procura o “salmo 103” numa Bíblia Ave-Maria encontra, portanto, o cântico da criação, o do Espírito que renova a face da terra. Por fim, o salmo 102 de uma Bíblia moderna é um terceiro texto, o salmo penitencial Domine, exaudi orationem meam, que em Figueiredo é o salmo 101.
E uma última confusão: o “salmo 119, 103” que às vezes aparece nas buscas não é este salmo, mas um versículo do grande salmo da Lei, o salmo 118 da Vulgata: «Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais que o mel à minha bôca!». A tabela completa das numerações está na página dos Salmos.
O que significa o salmo 103? Explicação
É um hino de ação de graças que não pede nada. A alma faz nele o inventário do que recebeu, e esse inventário a leva da própria história até as dimensões do céu. O salmo se abre e se fecha com o mesmo refrão, «Bendiz, ó alma minha, ao Senhor», como uma moldura em volta de um quadro da misericórdia. O título, «Do mesmo Davi», o atribui ao rei.
A alma fala consigo mesma (v. 1-2)
«Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E tôdas as coisas que há dentro de mim bendigam ao seu santo Nome» (v. 1). O salmista não se dirige primeiro a Deus nem à assembleia: dirige-se à própria alma, como para acordá-la. O louvor não é espontâneo; é preciso querê-lo e empenhar nele «tôdas as coisas que há dentro de mim», a inteligência, a memória, o coração. O segundo versículo nomeia o perigo: «E não queiras esquecer-te de todos os seus benefícios» (v. 2). A ingratidão nasce do esquecimento. O louvor é um ato de memória.
Os benefícios (v. 3-5)
A memória se desdobra logo numa lista:
- «O que perdoa tôdas as tuas maldades: O que sara tôdas as tuas enfermidades» (v. 3);
- «O que redime da morte a tua vida: O que te coroa da sua misericórdia, e das suas graças» (v. 4);
- «O que enche de bens o teu desejo: Renovar-se-á como a da águia a tua mocidade» (v. 5).
A ordem é intencional: o perdão vem primeiro. Antes da saúde do corpo, Deus cura a alma do pecado, que é a verdadeira doença. O mesmo laço entre perdão e cura aparece no Evangelho, quando Jesus diz ao paralítico «Filho, perdoados te são os teus pecados» antes de mandá-lo levantar-se (Marcos 2, 5). Depois vêm o resgate da morte, a coroa de misericórdia e por fim a imagem da águia, símbolo de um vigor restituído.
O Deus de Moisés (v. 6-10)
O salmo passa da história de uma alma à de um povo. O Senhor «Fêz conhecer a Moisés os seus caminhos» (v. 7), e o versículo seguinte retoma a revelação do Sinai, quando Deus passou diante de Moisés: «É benigno, e misericordioso o Senhor: Magnânimo e de muita misericórdia» (v. 8). É a definição que Deus deu de si mesmo no Êxodo: «Dominador, e Senhor Deus, que és todo cheio de compaixão, e de clemência, paciente, rico de misericórdia, e de verdade» (Êxodo 34, 6).
As consequências vêm sem hesitação: «Não estará irado para sempre: Nem ameaçará eternamente» (v. 9), e sobretudo: «Não nos há tratado a nós segundo os nossos pecados: Nem nos tem pago segundo as nossas maldades» (v. 10). Todo pecador que se converte pode dizer esta frase com verdade.
Três medidas da misericórdia (v. 11-14)
Para dizer a imensidão do perdão, o salmista toma três imagens. A altura: «quanto a elevação do céu está remontada sôbre a terra: Tanto êle tem firmado a sua misericórdia sôbre os que o temem» (v. 11). A distância: «Quanto dista o Oriente do Ocidente: Tanto êle tem apartado de nós as nossas maldades» (v. 12); o pecado perdoado não é posto de lado, é mandado para onde não se pode mais alcançá-lo. A ternura, enfim: «Como o pai se compadece dos filhos, assim se tem compadecido o Senhor dos que o temem» (v. 13). É já o pai da parábola, que vê de longe o filho pródigo e «ficou movido de compaixão» (Lucas 15, 20).
A razão dessa paciência é a mais humilde que existe: «êle já tem conhecido a fragilidade da nossa origem. Lembrou-se que somos pó» (v. 14). Deus não perdoa apesar da nossa fraqueza, mas levando-a em conta.
A erva e a eternidade (v. 15-18)
«O homem, cujos dias são como feno, assim se murchará como a flor do campo» (v. 15). Basta um sopro, e ele «não conhecerá dali em diante o seu lugar» (v. 16). A essa brevidade se opõe um único versículo: «Mas a misericórdia do Senhor está desde a eternidade e até à eternidade sôbre os que o temem» (v. 17). O homem passa, a misericórdia fica, e a justiça de Deus se estende aos filhos dos filhos daqueles que guardam a sua aliança (v. 18).
Toda a criação bendiz (v. 19-22)
O salmo termina alargando o coro. O Senhor reina no céu, e a alma chama a bendizer com ela os Anjos, «Poderosos em virtude, que sois executores da sua palavra» (v. 20), as milícias celestes, depois todas as obras de Deus «Em todo o lugar do seu senhorio» (v. 22). A última palavra volta à primeira: «bendiz, ó alma minha, ao Senhor». O louvor, começado no segredo de um coração, se fecha nas dimensões do universo.
Os Padres e o Novo Testamento
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, se detém na águia do versículo 5. Conta a crença antiga segundo a qual a águia envelhecida, cujo bico curvo demais a impede de se alimentar, o quebra contra a pedra e assim recobra as forças. Vê nisso a imagem do cristão: a velhice do pecado o impede de se nutrir, e ele é renovado quebrando-se contra a pedra, que é Cristo. A juventude devolvida é a da graça e, no fim, a da ressurreição.
O Novo Testamento retoma mais de um versículo. A Virgem, no Magnificat, canta a misericórdia que «se estende de geração a geração sôbre os que o temem» (Lucas 1, 50), eco do versículo 17. São Tiago conclui o exemplo de Jó com a fórmula do versículo 8: «o Senhor é misericordioso e compassivo» (Tiago 5, 11). O Pai cuja compaixão o salmo descreve é Aquele que Jesus revelou.
O salmo completa assim os grandes salmos do perdão: o salmo 51, Miserere (50 na Vulgata), em que o pecador pede misericórdia, e o salmo 130, De profundis (129 na Vulgata), em que ele a espera. O salmo 103 é o da misericórdia recebida.
O salmo 103 na liturgia de 1962
Completas de sábado. No Breviário Romano de 1962, o salmo 102 se canta nas Completas de sábado, dividido em duas partes (v. 1-12 e v. 13-22), depois do salmo 88 do hebraico (87 na Vulgata), a oração noturna mais sombria do Saltério. No fim da semana, depois do lamento do homem à beira do túmulo, a Igreja faz subir a ação de graças por todos os benefícios recebidos e entra no domingo bendizendo o Senhor. Você o encontra no breviário do dia e no artigo sobre as Completas. Nas Matinas da Ascensão, o salmo fecha o terceiro noturno com a antífona Dominus in cælo, alleluja: paravit sedem suam (v. 19); nas de São Miguel e dos Anjos ele também tem o seu lugar.
No Missal. A Missa tradicional tira dele vários cantos:
- o Trato Domine, non secundum peccata nostra, quæ fecimus nos, que se abre com o versículo 10, se canta na Quarta-feira de Cinzas e depois nas Missas feriais de segunda, quarta e sexta-feira da Quaresma: o povo penitente faz da confiança do salmo uma súplica;
- o Ofertório Benedic, anima mea, Domino, et noli oblivisci omnes retributiones ejus (v. 2 e 5), que termina com renovabitur, sicut aquilæ, juventus tua, se canta na sexta-feira das Têmporas da Quaresma e na sexta-feira das Têmporas de setembro;
- o Intróito Benedicite Dominum, omnes Angeli ejus (v. 20), com o versículo 1 como verso, abre a festa de São Miguel Arcanjo, em 29 de setembro, a dos Anjos da Guarda, em 2 de outubro, e as de São Gabriel (24 de março) e São Rafael (24 de outubro); a Missa dos Anjos da Guarda canta ainda os versículos 20-21 no Ofertório;
- o versículo 1 é também o verso do Intróito de São Filipe Néri (26 de maio) e do sábado das Têmporas de Pentecostes.
Para que serve o salmo 103?
Para bendizer a Deus pelos seus benefícios, que é o que a Igreja faz com ele no fim de cada semana. É também uma das orações mais naturais depois da Comunhão e depois da confissão; esse uso é de piedade particular, não uma rubrica, mas corresponde exatamente ao que o salmo diz. Ele não é uma fórmula de cura que se repete para obter um resultado: pedir a Deus a saúde é bom, esperar que as palavras funcionem sozinhas seria superstição (Catecismo, n. 2111). O versículo 3 lembra a ordem verdadeira: primeiro o perdão, depois a cura.
Como rezar o salmo 103
- Depois da confissão. Diz exatamente o que o penitente acaba de receber: «O que perdoa tôdas as tuas maldades». É a mais bela ação de graças depois do sacramento; veja como se confessar.
- Depois da Comunhão, como ação de graças particular: «tôdas as coisas que há dentro de mim bendigam ao seu santo Nome».
- No sábado à noite, com a Igreja nas Completas, para fechar a semana contando os benefícios recebidos.
- Na doença e na convalescença, pelo versículo 3, pedindo a cura da alma antes da do corpo.
- No luto. Os versículos 15-17 opõem a brevidade da vida à eternidade da misericórdia; acompanham bem a oração pelos mortos.
- Toda manhã, ao menos o versículo 2. Basta uma frase para começar o dia sem ingratidão.
Reze-o devagar. A cada benefício dos versículos 3 a 5, nomeie em silêncio um dom concreto da sua vida. Termina-se com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
O salmo 103 e o salmo 102 são o mesmo salmo?
Sim, na maior parte dos casos: o salmo 103 das Bíblias modernas é o 102 da Vulgata, de Figueiredo e da Bíblia Ave-Maria, o Benedic, anima mea, Domino da misericórdia. Mas o salmo 103 da Ave-Maria é o cântico da criação, e o salmo 102 de uma Bíblia moderna é o penitencial Domine, exaudi.
Como começa o salmo 103?
Em Figueiredo: «Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E tôdas as coisas que há dentro de mim bendigam ao seu santo Nome». O versículo 2 repete o apelo e acrescenta: «E não queiras esquecer-te de todos os seus benefícios».
O que diz o salmo 103, 3?
«O que perdoa tôdas as tuas maldades: O que sara tôdas as tuas enfermidades». O perdão dos pecados vem antes da cura do corpo, porque o pecado é a doença mais grave.
O que diz o salmo 103, 8?
«É benigno, e misericordioso o Senhor: Magnânimo e de muita misericórdia». É a retomada da revelação do nome de Deus a Moisés no Sinai, em Êxodo 34, 6.
O que significa o salmo 103, 13?
Que a misericórdia de Deus tem a forma da ternura de um pai: «Como o pai se compadece dos filhos, assim se tem compadecido o Senhor dos que o temem». Jesus a mostrou na parábola do filho pródigo.
O que significa “renovar-se-á como a da águia a tua mocidade”?
É o versículo 5. A águia era para os antigos o símbolo de um vigor que se renova. Santo Agostinho lê aqui a renovação do cristão pela graça e, no fim, a juventude da ressurreição.
Quando se reza o salmo 103 na tradição?
No Breviário de 1962, todo sábado nas Completas. No Missal, o seu versículo 10 forma o Trato das férias da Quaresma, e o versículo 20 o Intróito das festas dos Anjos.
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